LOGINHector
Eu não suporto covardes. Muito menos os que encostam a mão em uma mulher.O delegado estava me olhando como se quisesse entender por que eu, Hector Galdieri, tinha socado até quebrar a mandíbula de um homem em plena luz do dia, diante de um café lotado no centro da cidade. Eu respondi com a mesma calma com que puxo o gatilho.
— Ele bateu na mulher. Dei a ele o que merecia. Só isso.
Foi em frente a mim. Na minha frente. O cara a chamou de vadia, puxou o braço dela com força e depois deu um tapa que fez o som ecoar como um disparo. Eu nem pensei. Só fui.
Quando percebi, ele já estava no chão, cuspindo sangue e dentes. E eu, respirando como se acabasse de sair de uma arena.Assinei o depoimento e deixei o papel sujo com o sangue seco nos meus nós dos dedos.
Saí da sala com o peito ainda arfando, mas o que me destruiu foi o que veio depois.
Stella.
Ela entrou na delegacia e, por um instante, eu desejei não tê-la visto. Queria poder manter aquela imagem dela sorrindo, aquela última vez em que ela esteve a salvo… intacta.
Mas o destino me odeia, então ele me deu Stella ferida.A bochecha marcada. O corte no canto da testa. O olhar cansado, de quem já chorou tudo e agora só quer sobreviver.
Meu estômago virou. A raiva que eu senti do homem no café foi fogo. Mas o que senti ao ver Stella naquele estado… foi veneno.Fiquei imóvel por segundos, observando cada detalhe do estrago.
A mulher que eu protegi por tantos anos, mesmo à distância. A única pessoa nesse mundo que me faz respirar de verdade. E agora ela sangrava. Porque alguém ousou machucar o que era meu.Me afastei antes que fizesse uma loucura. Mas já era tarde demais para evitar o que viria.
No corredor lateral, saquei o celular e disquei o número de Mateo, um dos meus homens mais discretos.
— Descubra o que aconteceu com Stella — falei baixo, seco, como uma lâmina contra a garganta. — Quero nome, endereço e histórico. Dez minutos.
— Sim, senhor.
Voltei para o saguão, pedi que Igor entregasse a ela um remédio e água. Ela parecia tonta, abatida. E mesmo assim, teve forças para me olhar. Como se, apesar de tudo, ainda me reconhecesse como abrigo.
Eu desviei o olhar. Não mereço isso dela. Não mais. Mas isso não me impede de protegê-la.O celular vibrou exatamente nove minutos depois.
— O nome dele é Veyne — disse Mateo, mas disso eu já sabia. Algo dentro de mim gritava que era ele que havia feito isso. — Ex-marido. Empresário de fachada, movimenta dinheiro sujo em offshores. Vive dizendo que ela é propriedade dele. Hoje de manhã ele agrediu Stella dentro da empresa dela. Na frente de testemunhas.
Propriedade dele.
Essas palavras me incendiaram de dentro para fora. O tipo de raiva que não passa com soco. Não passa com grito. É o tipo que só se dissolve com fogo.
— Ele ainda está na mansão antiga? — perguntei, subindo no carro.
— Está. Carro novo estacionado na entrada. Um modelo importado, preto, todo exibido.
— Ótimo.
Não falei mais nada.
Dirigi até lá como quem segue um funeral. E, de certo modo, era mesmo. O dele.Quando parei diante da antiga mansão onde ela vivia, desci do carro com a respiração calma, passos calculados. O portão estava entreaberto, como se o próprio universo quisesse me dar passagem. E eu aceitei.
Vi o carro dele estacionado com orgulho no pátio — pintura reluzente, rodas cromadas. Um brinquedo caro para um homem pequeno. Abri o porta-malas do meu carro e peguei o galão de gasolina. Derramei o líquido por cima do capô, pelos vidros, pelas laterais, até a lataria brilhar molhada sob o sol poente.
Risquei o fósforo.
Joguei.
O som das chamas foi quase sensual. Crescendo, engolindo, devorando. O calor me atingiu, mas eu não me mexi. Só observei enquanto o fogo fazia o que eu não podia naquele momento — gritar a minha fúria.
Esse foi o aviso.
Da próxima vez, não será o carro.Como um idiota desesperado, Veyne correu em direção ao seu carro, com o semblante desesperado. Ri, ele merecia mais do que o carro queimado, e eu faria um inferno na vida dele para mostrá-lo isso. Pegando o celular e discando provavelmente para a polícia, não havia mais nada que eu pudesse fazer ali, aliás, eu tinha os meus próprios assuntos para resolver, mas esse meu ato, era somente um gosto do que eu poderia causar para proteger quem amo, especificamente, a minha mulher. Era somente um exemplo para demonstrar que Veyne nunca mais deveria encostar um dedo podre na minha mulher.
StellaNove meses depoisO céu ainda está escuro quando acordo com a dor. Um latejar fundo, que começa na base da coluna e se espalha pela barriga como uma onda quente, contínua, e eu sei. Não preciso que ninguém me diga. Hoje é o dia. Ela vem aí.Tento respirar fundo, mas o ar entra entrecortado, meus dedos apertam os lençóis e um gemido escapa involuntariamente. Me viro devagar, procurando por Hector ao meu lado, e encontro o espaço vazio da cama. Antes que o pânico me domine, escuto os passos correndo pelo corredor, e logo ele aparece na porta com Daniel nos braços, os dois em pijamas amassados e olhos arregalados.— Está na hora? — ele pergunta, ofegante.— Está — consigo dizer, com um meio sorriso, mesmo entre contrações.Hector entrega Daniel para minha mãe, que já se aproxima apressada, e em menos de quinze minutos estamos no carro. Ele dirige como se cada semáforo fosse questão de vida ou morte. As mãos dele tremem no volante, mas o olhar continua firme em mim pelo retrovisor.
StellaAs luzes se acendem devagar no salão, filtrando-se pelas enormes janelas de vidro como raios dourados, enquanto eu tento controlar a respiração. O som da orquestra começa suave, violinos deslizando por notas conhecidas. Estou parada atrás das portas de madeira esculpida, segurando o buquê com tanta força que meus dedos doem, mas não solto. Não agora. Agora é o momento.Minha mãe me lança um olhar emocionado, enxugando uma lágrima que escapa pelo canto dos olhos. Ao lado dela, Cibelle me ajeita o véu com mãos firmes e olhos brilhando. Daniel, com seu terno minúsculo e gravata torta, me dá um sorriso largo e me diz:— Você tá linda, mamãe. Igual princesa de filme.Meu coração quase para. Ajoelho-me na altura dele, arrumo sua gravatinha e beijo sua bochecha.— E você é meu príncipe favorito. Preparado para entrar comigo?Ele acena com força. Dou a mão a ele, e, assim que as portas se abrem, o som cresce, os convidados se viram, e o mundo inteiro parece parar.Lá está Hector.No al
StellaUm mês se passou desde que Hector me contou toda a verdade. Desde que ele largou tudo, olhou nos meus olhos e disse que queria recomeçar. Por nós. Por Daniel. E agora, aqui estou eu, com os pés descalços sobre a grama do jardim da nossa nova casa — a mansão que um dia foi um símbolo de tudo que me tiraram e que agora, pelas mãos de Hector, virou um presente. Um recomeço literal.O sol brilha forte, o céu está limpo, e o quintal inteiro parece ter saído de um daqueles filmes infantis: balões vermelhos e azuis flutuam por todos os cantos, há bandeirinhas com teias de aranha, mesas com cupcakes decorados com a máscara do Homem-Aranha, um painel gigante com o rosto do herói favorito do meu filho... e, no centro de tudo isso, está ele: Daniel.Vestido com uma fantasia completa do Spider-Man, ele corre de um lado para o outro, com a máscara no topo da cabeça e o rosto coberto de suor e chocolate. Grita como se estivesse em uma missão, pulando nas camas elásticas, se pendurando nos br
HectorLevo Daniel de volta para casa com o coração em pedaços. O carro desliza pelas ruas escuras, e tudo o que consigo ouvir é o som do motor e a respiração leve do menino no banco de trás. Ele tá quieto, esgotado, com o rosto marcado pelo medo que viveu. Queria poder apagar tudo isso dele, mas sei que não posso. Só posso tentar compensar. Fazer o certo daqui para frente.Quando chego, vejo a luz acesa na sala. Stella está à porta antes mesmo de eu desligar o carro. O rosto dela está molhado de lágrimas, mas os olhos queimam com raiva e desespero. Ela corre até nós.— Daniel! — grita, puxando ele para perto, agarrando o filho como se tivesse medo de que ele desaparecesse de novo.Ele se agarra nela, tremendo. Fico ali parado por um momento, vendo aquela cena, e sinto a culpa me esmagar por dentro. Eu devia ter evitado isso. Devia ter contado antes. Mas não contei. E agora chegou a hora.— Ele tá bem — digo, minha voz rouca. — Eu consegui chegar a tempo.Ela se vira para mim com os o
HectorO motor do carro ruge sob meus pés enquanto atravessamos as ruas escuras da cidade. Hector dirige com firmeza, o maxilar travado, os olhos focados no GPS do celular que ele equilibra no painel. Veyne está ao meu lado, calado, tenso, as mãos espremendo os joelhos com tanta força que os nós dos dedos estão brancos. O silêncio entre nós é denso, cortado apenas pelo som do vento contra os vidros.O endereço que recebi pela mensagem criptografada me queima a mente. Um galpão nos arredores do cais. Um lugar velho, esquecido pelo tempo — perfeito para um sequestro. Meus punhos fecham sozinhos. A raiva e o medo formam um nó na minha garganta. Daniel está lá. Meu sobrinho. O menino que cresceu me chamando de tio com um sorriso banguela. E agora está nas mãos de criminosos.— Vamos entrar pelos fundos. — murmuro, sem tirar os olhos da rua. — Hector, dá a volta. Não podemos correr o risco de uma emboscada.Hector obedece, desviando para uma viela escura e estreita. Paramos o carro em silê
HectorA noite se arrasta pesada quando decido ir até a empresa de Veyne. O céu escuro parece refletir o turbilhão dentro de mim. Stella está em casa, ainda se recuperando, frágil, emocionalmente devastada, e o que Rosalyn fez com ela não me sai da cabeça. É por ela que estou aqui. Por ela... e por Daniel.Estaciono o carro em frente ao prédio envidraçado e silencioso, com suas luzes artificiais brilhando como um palco falso para negócios que já não têm a mesma força. O nome de Veyne ainda está na fachada, mas a verdade é que o império está desmoronando. Entro sem avisar, minhas passadas ecoando no mármore lustroso da recepção vazia. A secretária já foi embora, e a empresa está operando em modo de sobrevivência.Subo direto para o escritório dele. Veyne está lá, afundado em uma cadeira de couro preto, perdido em uma pilha de papéis e planilhas. Ele levanta os olhos quando me vê e arregala as sobrancelhas, visivelmente surpreso.— Hector! Que surpresa vê-lo aqui.Fecho a porta atrás de







