FAZER LOGINMelissa acordou novamente, dessa vez, mais consciente, o corpo continuava pesado e a cabeça cheia.
Ela abriu os olhos devagar e percebeu que estava no mesmo quarto, na mesma cama, no mesmo lugar estranho que ainda não conseguia chamar de hospital sem sentir um aperto.
Ela respirou fundo.
Tudo doía.
Não era uma dor aguda o tempo todo, mas uma dor espalhada, como se cada parte do corpo reclamasse da própria existência. Ficou alguns segundos parada, tentando entender o que sentia antes de tentar qualquer movimento.
- Bom dia, disse uma voz próxima.
Melissa virou o rosto com dificuldade. A enfermeira estava ali, calma, observando cada reação.
- Você está acordada há alguns minutos, continuou ela. - Como está se sentindo?
Melissa demorou a responder. Precisava organizar as palavras.
- Confusa…, disse, por fim. - E com muita dor.
- Isso é esperado, respondeu a enfermeira. - Mas sua pressão está boa, e você está respirando sozinha. Isso é um ótimo sinal.
Melissa fechou os olhos por um instante.
- O que aconteceu comigo? - perguntou, abrindo-os novamente. - Eu… eu não lembro direito.
A enfermeira puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama.
- Você foi atropelada, disse com cuidado. - Chegou aqui machucada, perdeu bastante sangue, mas foi socorrida rapidamente.
Atropelada.
A palavra ecoou dentro dela.
Imagens começaram a surgir, quebradas. A chuva. O asfalto brilhando. Um passo apressado. A luz forte do farol lhe cegando e não lembrava de mais nada.
- O carro… — murmurou. — Eu vi os faróis.
A respiração ficou mais curta.
- Foi um acidente, reforçou a enfermeira. - Você atravessou a rua, e o motorista não conseguiu frear a tempo.
Melissa engoliu em seco.
- O motorista…, disse, sentindo algo estranho se formar no peito. - Ele parou?
A enfermeira assentiu.
- Parou. Chamou ajuda. Ficou aqui no hospital. Assumiu a responsabilidade desde o início.
Melissa ficou em silêncio.
Sentiu uma mistura difícil de explicar.
Gratidão, por estar viva.
Raiva, por ter sido atingida.
E uma sensação estranha e ambígua, onde não soube interpretar, se deveria agradecer por ter sido socorrida ou odiar a pessoa que a atropelou.
- Ele… ele me viu? - perguntou, num fio de voz.
- Viu, respondeu a enfermeira. - E fez tudo o que podia.
Melissa respirou fundo. Não sabia se queria agradecer ou gritar. Talvez as duas coisas.
O corpo doeu de novo.
Ela tentou mexer as pernas.
Um medo repentino tomou conta dela.
- Minhas pernas…, disse, a voz tremendo. - Eu consigo mexer?
A enfermeira se inclinou imediatamente.
- Calma. Consegue mexer os pés?
Melissa concentrou-se. Tentou. Um movimento pequeno aconteceu.
- Consegui…, disse, quase sem acreditar.
Os olhos se encheram de lágrimas.
- Você não está paralisada, disse a enfermeira com firmeza. - Mas sofreu um impacto forte. Vai precisar de repouso, exames e acompanhamento.
Melissa respirou fundo, mas o alívio durou pouco.
- Vou conseguir andar logo? -perguntou. - Trabalhar?
A pergunta saiu rápida demais, carregada de pressa.
- Ainda é cedo para dizer, respondeu a enfermeira com honestidade. - Mas tudo indica que sim, com o tempo.
Melissa virou o rosto para o outro lado.
Tempo.
Era algo que ela não tinha.
- Eu preciso trabalhar, disse, a voz falhando. - Meus pais dependem de mim.
A enfermeira permaneceu em silêncio, respeitando o desabafo.
- Meu pai está doente, continuou Melissa. - Minha mãe cuida dele. Eu sou filha única. Se eu não trabalhar…
A frase não terminou.
O desespero veio forte, apertando o peito mais do que qualquer dor física.
- Como eu vou pagar isso tudo? - perguntou, quase chorando. - Hospital, remédios… eu mal consigo pagar o básico.
A enfermeira pousou a mão com cuidado sobre a dela.
- Você não está sozinha agora, disse. - Existe alguém responsável pelo seu caso.
Melissa franziu a testa.
- Quem?
A enfermeira hesitou um segundo antes de responder.
- O homem que te atropelou.
Melissa ficou em silêncio.
Pensou nele. No vulto. No olhar confuso que surgira antes do escuro.
- Ele…, respirou fundo. - Ele ainda está aqui?
- Está acompanhando tudo, respondeu a enfermeira. — Mas só vai falar com você quando estiver pronta.
Melissa fechou os olhos.
Não sabia se estava pronta para ver quem mudara sua vida em segundos.
Mas sabia de uma coisa: precisava sobreviver. Precisava ficar de pé. Precisava voltar a ser forte.
A enfermeira se levantou com cuidado.
- Vou avisar os médicos que você acordou e que está consciente, disse, ajustando o soro. - Volto em alguns minutos, está bem?
Melissa concordou em silêncio.
Assim que a porta se fechou, o controle que ela vinha mantendo se rompeu.
O choro veio sem aviso.
Primeiro contido, como um soluço preso no peito. Depois, intenso. Profundo. Incontrolável. As lágrimas começaram a escorrer sem pausa, quentes, misturadas à respiração irregular.
Ela levou a mão ao rosto, tentando se conter, mas não adiantou.
Chorou.
Chorou pelo susto.
Ao chorar, sentiu uma dor aguda nas costelas. Um incômodo forte, que a fez gemer baixo. O corpo reclamava, mas o choro não cessava. Era como se algo que estivesse guardado há muito tempo finalmente tivesse encontrado uma saída.
As lágrimas caíam sem controle.
Ela respirava com dificuldade, o peito subia e descia rápido, e ainda assim não conseguia parar.
- Por quê…, murmurou, entre soluços. - Por quê, meu Deus?
- Por que comigo?
Ela encarou o teto embaçado pelas lágrimas.
- Sempre fiz tudo certo. Sempre lutei. Sempre segurei as pontas.
Agora estava ali, presa a uma cama, dependente de estranhos, incapaz de ajudar quem mais precisava dela.
- Eu não posso fazer nada assim…, disse, com a voz quebrada. - Nada.
O pensamento nos pais voltou com força.
O pai frágil, esperando um coração que talvez demorasse a chegar.
O choro aumentou.
As lágrimas não paravam.
Ela sentia o corpo doer, mas a dor maior vinha de dentro. Da sensação de impotência. Da injustiça silenciosa que parecia persegui-la.
Queria levantar. Queria ir embora. Queria resolver tudo sozinha, como sempre fizera.
Mas não podia.
Estava presa.
Respirou fundo, tentando se acalmar, mas o ar parecia não preencher os pulmões direito. A dor nas costelas pulsava a cada soluço, como um lembrete cruel do que tinha acontecido.
Ainda assim, chorou.
Chorou até o corpo cansar.
Quando o choro finalmente cedeu, Melissa ficou ali, exausta, o rosto molhado, os olhos ardendo.
Sentia-se pequena.
Frágil.
Mas viva. Uma viva morta.
E, mesmo sem saber como, precisava encontrar um jeito de seguir.
Alguns minutos depois, a porta se abriu novamente.
Melissa tentou esconder o rosto, mas os sinais estavam ali. Os olhos vermelhos. A respiração ainda irregular.
O médico entrou acompanhado de um residente. Aproximou-se da cama com calma, observando primeiro, antes de falar.
- Você acordou, disse ele, num tom firme, mas gentil. - Consegue me ouvir bem?
Melissa assentiu devagar.
- Consegue me dizer onde está? - continuou.
- No hospital, respondeu ela com a voz baixa. - Na UTI.
O médico fez um leve gesto de aprovação.
- Muito bem.
Ele se aproximou um pouco mais.
- Meu nome é Richard Garcia, disse, de forma simples. - Sou o médico que está acompanhando você desde que chegou aqui.
Melissa piscou algumas vezes, tentando assimilar a informação.
- Desde… desde o começo? - perguntou.
- Sim, respondeu ele.
Houve um pequeno silêncio.
- Você se lembra do que aconteceu? - perguntou em seguida.
Melissa fechou os olhos por um instante.
- Chuva…, disse. - A rua… eu estava com pressa.
O médico não a interrompeu.
- Lembro dos faróis, continuou ela. - Depois… nada.
Melissa respirou fundo.
- Eu vou ficar com sequelas? - perguntou de repente, com voz trêmula. - Vou conseguir andar normalmente?
A pergunta saiu carregada de medo.
O médico se aproximou um pouco mais da cama.
- Neste momento, não há sinais de lesão neurológica grave, disse com cuidado. - Seus movimentos estão preservados. Mas você sofreu fraturas e contusões. Vai precisar de tempo, repouso e acompanhamento.
Melissa virou o rosto para o lado.
- Eu não posso ficar muito tempo assim , se queixou.
O médico a observou por alguns segundos antes de responder.
- Eu entendo sua preocupação - Mas, neste momento, seu corpo precisa de cuidado. Forçar agora só pode atrasar sua recuperação.
Melissa respirou fundo, tentando conter outra onda de choro.
- Vamos manter você acordada por enquanto, explicou o Dr. Richard. - Se a dor aumentar, avise. Não precisa suportar sozinha.
Os sinos da igreja tocaram pela terceira vez quando o carro de Dante parou diante da escadaria. Ele desceu primeiro e, antes que Melissa abrisse a porta, estendeu a mão para ajudá-la. Melissa sorriu. O jardim da igreja estava tomado por flores claras e um perfume suave se espalhava pelo ar. Os convidados chegavam aos poucos, subindo as escadas em pequenos grupos e cumprimentando-se enquanto aguardavam o início da cerimônia. Assim que entraram, Melissa avistou Richard e Giovanna. Os dois estavam próximos ao altar, conversando com alguns convidados. Giovanna usava um vestido elegante e, ao estender a mão para cumprimentar Melissa, a aliança em seu dedo chamou sua atenção. Melissa sorriu. - O Richard quis garantir que todos percebam a aliança em seu dedo, não é? Giovanna riu e a abraçou. - Sim. Falei para ele que não precisava ser tão grossa, mas ele insistiu. Richard aproximou-se de Dante e os dois se cumprimentaram com um abraço. - Vocês sempre arrasam como padrinhos
Na semana seguinte, Leon chegou à empresa com um sorriso largo no rosto. Entrou na sala de reuniões, onde já estavam Dante, Paul e alguns outros membros da equipe. Rita também estava presente. Leon olhou para todos e, ainda sorrindo, disse: - Pessoal, eu sei que isso não tem nada a ver com a reunião de hoje, mas eu gostaria de dar uma notícia muito importante para vocês. Então, quero que todos prestem atenção. Imediatamente, todos ficaram sérios, imaginando que se tratasse de alguma novidade relacionada ao trabalho. Leon fez uma pequena pausa, só para aumentar a expectativa. Então, abriu ainda mais o sorriso e anunciou, com uma entonação claramente feliz: - Eu vou me casar. Dante apoiou a mão na mesa de forma espontânea e se levantou na mesma hora. - O quê? Paul franziu a testa. - Você está com febre, Leon? Aconteceu alguma coisa? - Não, eu vou lá verificar - disse Paul. Ele se aproximou de Leon, colocou a mão em sua testa e fingiu examiná-lo com toda a serieda
Os meses se passaram, e, quando Oscar e Otto completaram seis meses, chegou o dia do batizado. Os dois já eram bebês grandes, cheios de dobrinhas, bochechas redondas e sorrisos fáceis. Haviam se tornado duas pequenas alegrias dentro de casa, cada um com sua própria personalidade, mas igualmente encantadores. Naquela manhã, a igreja estava cheia de familiares e amigos. Melissa fazia questão de manter Olie sempre por perto. Enquanto os bebês eram preparados para a cerimônia, segurava a mão da menina e, vez ou outra, ajeitava seus cabelos ou lhe dava um beijo na testa. Olie não demonstrava qualquer ciúme dos irmãos. Pelo contrário. Parecia genuinamente feliz com a casa cheia, com a família reunida e, principalmente, orgulhosa de ser a irmã mais velha. A escolha dos padrinhos também havia sido motivo de muita alegria. Oscar tinha Leon e Eloá. Otto tinha Richard e Giovanna. Richard e Giovanna já estavam juntos havia seis meses e o relacionamento havia avançado rapidamente.
Depois que Richard se despediu, Dante e Melissa finalmente tiveram alguns minutos a sós. Dante permaneceu ao lado da cama, olhando primeiro para Melissa e depois para os dois filhos. Estava encantado com aquela cena. De vez em quando, sorria sozinho, como se ainda estivesse tentando acreditar que tudo aquilo era real. Ele voltou os olhos para a esposa. - Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar uma sensação dessas. Melissa sorriu. Dante respirou fundo. - Eu posso te dizer uma coisa? - Sim. - Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Ele riu baixinho e balançou a cabeça. - Talvez também tenha sido o segundo mais desesperador... mas, pelo menos, terminou com um final feliz. Melissa segurou sua mão. Dante se inclinou e beijou seus lábios. - Muito obrigado, Melissa. Muito obrigado por ter me feito enfrentar esse medo. Depois beijou delicadamente a cabecinha de Oscar e, em seguida, a de Otto. - Eu vou permanecer aqui com você durante todo o tempo da sua
Dante saiu da capela ainda emocionado. Assim que atravessou a porta, apressou o passo pelo corredor. Queria comparrilhar a notícia com a Eloá e Leon. Precisava dividir com eles a notícia que acabara de receber. Quando chegou à entrada do hospital, encontrou os dois lado a lado, ainda com aquele olhar apreensivo de quem esperava por alguma notícia. Dante parou diante deles e sorriu. Leon foi o primeiro a perceber. Ao ver aquele sorriso, não conseguiu conter as lágrimas. Eloá também levou a mão ao rosto, emocionada. Dante correu na direção dos dois e os abraçou.. - Meus filhos estão bem! A Melissa também está bem! - disse entre lágrimas. Leon e Eloá o apertaram num abraço. - Dante... parabéns! - disse Leon, emocionado. Depois de alguns segundos, Dante se afastou um pouco. Ainda segurava os dois e, com carinho, colocou uma mão no rosto de Leon e depois no de Eloá. Olhou primeiro para um, depois para o outro. - Vocês aceitam ser padrinhos do Oscar? Eloá abaixou a c
Dante encostou-se à parede próxima à porta do centro cirúrgico e foi deslizando lentamente até ficar de cócoras. Quando finalmente chegou ao chão, desabou. Estava completamente sem forças. As mãos cobriram o rosto enquanto chorava. Todo o controle que havia tentado manter desde que chegara ao hospital simplesmente desapareceu. Eloá se aproximou em silêncio e se abaixou perto dele. Dante demorou alguns segundos para conseguir falar. - Eloá... por favor. Me deixa um pouco sozinho. Ela permaneceu ali por um instante, olhando para ele. - Claro. Se precisar de mim, estarei na entrada do hospital, junto com Leon. Dante apenas assentiu. Eloá se levantou e se afastou, deixando-o sozinho no corredor. Quando percebeu que ela havia ido embora, Dante ergueu os olhos para o teto. As lágrimas continuavam escorrendo. - Você gosta de me ver sofrer, não é? Sua voz estava quebrada. - Você gosta de me torturar. É isso? Quer que eu me renda? Quer que eu implore? Ele respirou f







