FAZER LOGINElena Hart
Ficamos nos encarando em silêncio até ele olhar para o próprio terno manchado e depois voltar a me encarar. — Pelo visto, você continua causando problemas — comentou ele com tom seco. Meu rosto queimou de vergonha. — Eu não fiz de propósito! — É bom saber — ironizou. — Eu sinto muito — peguei alguns lenços da bolsa e tentei limpar a mancha na camisa dele. — Não toque — ordenou ele, afastando minha mão. Parei o gesto imediatamente. — Desculpa. Ele olhou para a roupa estragada e perguntou: — Você sabe quanto isso custa? — Não. — Vinte mil libras. Minha boca se abriu em choque. — Vinte mil?! — Algum problema com matemática? — ergueu ele a sobrancelha. — Não! Problema com o fato de alguém pagar vinte mil libras em um terno! Ele estreitou os olhos, encarando-me com severidade. — Você vai pagar. Soltei uma risada nervosa. — Eu não tenho nem perto disso! — Então arrume. — Você continua sendo muito simpático — provoquei, ajustando a bolsa no ombro. — E você continua correndo quando deveria olhar por onde anda. — Eu não estava correndo! Ele ergueu uma sobrancelha e pontuou: — Acabou de derrubar café em mim. — Isso foi diferente. — Claro — desdenhou ele. Antes que eu pudesse responder, um choro agudo e desesperado ecoou pelo corredor. Alexander fechou os olhos por um instante, parecendo exausto, e abriu a porta do escritório. — Entre — mandou ele. — Por quê? Ele entrou sem responder e eu fiquei parada por alguns segundos antes de segui-lo. No canto da sala havia um pequeno berço de viagem e, dentro dele, uma bebê minúscula chorava sem parar. Meu coração apertou ao ver a cena. — Meu Deus... — sussurrei. Alexander foi até o berço e tentou pegá-la no colo, mas o choro só aumentou. — Ela está assim há horas — explicou ele, frustrado. — Onde está a mãe? — perguntei. Ele ficou em silêncio por um momento antes de responder: — Morta. Meu peito apertou com a revelação. — Sinto muito. Ele não respondeu e a bebê continuou chorando forte. De repente, senti algo quente escorrer pelo meu peito e, ao baixar os olhos, vi minha blusa manchada de leite. Meu rosto ficou vermelho na hora e Alexander percebeu o que estava acontecendo. — Você está amamentando? — perguntou ele. Cruzei os braços para me cobrir. — Isso não é da sua conta. — Ela não aceita fórmula — explicou ele, encarando a filha. Olhei para a garotinha inconsolável. — E a ama de leite? — Pediu demissão. A discussão que eu ouvi no saguão voltou à minha cabeça imediatamente. — Então procure outra — aconselhei. — Estou tentando. A bebê soluçou e meu coração doeu; eu conhecia aquele tipo de desespero e a sensação de querer proteger uma criança com todas as forças. — Eu posso alimentar ela — ofereci baixinho. Alexander ficou imóvel, surpreso com a proposta. — Você faria isso? — Sim. Ele hesitou por um segundo antes de me entregar a bebê. Assim que a ajeitei nos meus braços, o choro diminuiu até parar por completo. Fiquei olhando para aquele rostinho de olhos azuis enormes e dedinhos minúsculos enquanto ela se aconchegava contra mim. — Oi, meu amor... — acariciei sua cabeça com carinho. Alexander não tirava os olhos de nós duas. — Ela nunca faz isso — murmurou ele. — Talvez só estivesse com fome — respondi, sem erguer a cabeça. Ele continuou me observando fixamente e perguntou: — Você perdeu um bebê? Meu corpo congelou. Levantei os olhos para encará-lo. — Como sabe? — Seu olhar — respondeu ele simplesmente. Engoli em seco e ele pareceu perceber que havia ultrapassado um limite pessoal. — Desculpe — disse ele, num tom inesperadamente suave. Foi tão inesperado que quase não acreditei que o homem rígido daquela noite sabia pedir desculpas. Poucos minutos depois, a bebê dormia tranquilamente no meu colo. Alexander se aproximou da bancada. — Você veio para uma entrevista — lembrou ele. Olhei para o relógio na parede. — Que eu provavelmente perdi. — Sim. — Então acho melhor eu ir. — Espere — pediu ele quando me virei para a porta. — Você ainda pode trabalhar aqui. — Como estilista? — Não — ele olhou para a filha adormecida. — Como babá. Soltei uma risada incrédula. — Você está falando sério? — Muito. — Eu vim procurar emprego como estilista — reiterei. — E eu preciso de uma babá. — Eu não tenho experiência. — Ela gostou de você. — Isso não é currículo — argumentei. — Para mim, é suficiente — declarou ele. Cruzei os braços, encarando-o. — E o seu terno? Ele olhou para a mancha escura na roupa. — Continua sendo sua dívida. — Claro que continua — ironizei. — Seu salário pode descontar parte dela. Arregalei os olhos, indignada. — Você está me oferecendo um emprego para eu pagar uma dívida que surgiu porque eu derramei café em você? — Exatamente. — Isso parece exploração! — Parece uma oportunidade — rebateu ele com calma. Olhei para a bebê no meu colo e depois para ele. Eu precisava desesperadamente daquele emprego e talvez aquela pequena criatura também precisasse de mim. — Quanto? — perguntei. Alexander citou o valor e eu quase engasguei; era muito mais do que eu esperava ganhar como estilista. — Quando começo? — Amanhã. — Amanhã? — reagi. — Sim — ele se virou para a bebê e completou: — E você vai morar comigo. Pisquei várias vezes, sem acreditar no que ouvia. — O quê? — Minha filha precisa de alguém disponível 24 horas. — Eu não vou morar com um homem que conheci há poucos meses! — Você já me viu duas vezes — pontuou ele. — Isso não melhora a situação! Um meio sorriso quase surgiu nos lábios dele. — Pense até amanhã. Olhei para a garotinha dormindo tão serena. — Eu vou pensar. — Ótimo. Ajeitei a bebê de volta no berço e peguei minha bolsa. Quando saí daquela sala, eu ainda não sabia que tinha acabado de aceitar a proposta que mudaria minha vida, e muito menos que o homem que me ajudou a fugir do meu casamento seria justamente o homem com quem eu estava prestes a morar.ScarlettFechei a porta lentamente enquanto Jasper saía, me sentindo um pouco culpada. Porém, eu sabia no fundo que não poderíamos continuar com o que quer que estivesse acontecendo entre nós se eu quisesse manter meu emprego e minha sanidade.Caminhei a passos lentos até a poltrona reclinável do canto da sala, onde a distinta caixa azul-turquesa e branca da Tiffany estava apoiada sobre o braço de veludo.Quando me aproximei e estava prestes a puxar a fita de cetim branco para trás, ouvi uma batida súbita e firme na porta.Será que o Jasper voltou?, pensei, sentindo um solavanco involuntário no peito.Abri a porta, quase um pouco animada e rápida demais, antes de congelar ao ver que não era o Jasper parado no corredor, era o Vincent.— Olá, Scarlett — ele cumprimentou com uma voz suave e ensaiada, apresentando um grande buquê de flores com um sorriso no rosto.— O que você quer, Vincent? — perguntei entre os dentes, sem esconder o desprezo.— Você tem ignorado todas as minhas mensage
Jasper— Eu ganhei — ela disse com uma falsa modéstia deliciosa, antes de se virar para a minha sobrinha estraga-prazeres. — E quem é essa mocinha fofa?— Keira! — a menina respondeu com orgulho, enquanto Scarlett se abaixava para pegá-la no colo.— Você não é uma coisinha adorável? — Scarlett derreteu-se, acariciando a bochecha dela.Estreitei os olhos, sentindo uma ponta absurda de ciúmes de Keira, antes de me dar um tapa mental. Keira tinha apenas quatro anos e eu, um homem feito de vinte e seis, estava com ciúmes da minha própria sobrinha.É, acho que a Scarlett venceu mesmo aquela rodada.— Você tem cheiro de baunilha — Keira sorriu, e Scarlett deu uma risada gostosa.Droga, Keira!— Tio Jay, por que você está com essa cara brava? — ela perguntou com pureza, fazendo-me sentir culpado por ter me irritado com a atenção que ela tomou da minha secretária.— O seu tio Jay é um bebê rabugento, Keira — Scarlett provocou, fazendo a garotinha franzir a testa em confusão.— O tio Jay usa f
Scarlett Dei um suspiro de alívio quando a sentença final foi proclamada. Aos poucos, recuperei a compostura e minhas mãos pararam de tremer.Culpado.Culpado até o último fio de cabelo.Olhei para o meu pai, que me encarava fixamente enquanto era escoltado pelos oficiais para fora da sala de audiências. Mantive o olhar firme para frente até ouvir o baque abafado das portas duplas se fechando atrás de mim.— Estou tão orgulhosa de você, Scarlett — Melissa sorriu, puxando-me para um abraço apertado.— Não acredito que finalmente acabou — suspirei, balançando a cabeça. Percebi a expressão fechada dela e o franzir de testa. — O que houve?— O Assper está vindo para cá — ela murmurou, fazendo-me conter uma risada.— Assper? — sussurrei, enquanto ela ria baixinho.— Ele é um babaca. Olhe para ele! Um babaca arrogante.— Ele prometeu que viria, e veio — pensei comigo mesma, enquanto ela concordava com certa relutância.— E o que você vai fazer sobre o beijo? — ela perguntou, fazendo-me sol
Jasper— Você está me dizendo que conseguiu beijar aquela sua secretária sexy, mas nem transou? — Lucas perguntou com os olhos arregalados, ajeitando-se no banco do passageiro enquanto eu dirigia para o trabalho na manhã seguinte.— Luke! — rosnei, irritado. — Pela última vez: não tenho a intenção de apenas levá-la para a cama!Pelo menos, não desse jeito.— O que você disser, Jay! Você está totalmente dominado, meu caro — ele me provocou ainda mais.— Achei que beijá-la seria suficiente para tirar isso da cabeça, mas agora eu quero mais — suspirei.— Bem, vá lá e consiga mais, então!— Mais fácil falar do que fazer — murmurei, lembrando da sensação de seus dedos finos deslizando pelo meu cabelo, e de seus lábios macios colidindo com os meus com tanta paixão.Estava claro como o dia que eu tinha sentimentos por ela. Mas ela tinha sentimentos por mim?Sim, ela me beijou. Mas pareceu absolutamente perturbada consigo mesma logo em seguida, a ponto de me mandar embora da casa dela.— Como
Scarlett — Você está muito bonita, Scarlett — elogiou Jasper, enquanto eu corava intensamente sob seu olhar penetrante. Era o dia seguinte.— Obrigada — sorri para ele.— Sobre o Vincent...— Não se preocupe com isso, está tudo bem — disse num tom tranquilizador, tentando calar as vozes na minha cabeça que diziam exatamente o contrário. Eu realmente não precisava despejar mais do meu passado sobre ele, nem lembrá-lo de um trauma que ele obviamente tentava esquecer.Um silêncio tenso se instalou entre nós enquanto eu tentava evitar que qualquer pensamento sobre o Vincent arruinasse meu dia dia. Mas parecia que a sorte não estava do meu lado: meu celular começou a tocar e tremer sem parar, com o nome de Vincent piscando na tela.— Alô? — atendi, tentando soar natural.— Onde diabos você está, Scarlett? — ele rosnou ao telefone, em tom ameaçador.— Vincent, você precisa parar com isso! O que deu em você? — retruquei, incapaz de conter a raiva na voz.— Onde você está? Precisamos convers
Scarlett Gostaria de não ter feito aquilo.Gostaria de não ter perguntado.Porque, agora, eu tinha acabado de descobrir que meu namorado era um psicopata que provavelmente teria matado a irmã de Jasper.Dados os meus problemas com o meu pai, não era tão surpreendente assim que eu atraísse o pior tipo de homem. Afinal de contas, era tudo o que eu conhecia.Meu Deus, eu me sentia tão estúpida... Eu sabia que aquilo tudo era bom demais para ser verdade.Soltando um suspiro pesado, levantei-me mais uma vez e peguei minha bolsa.— Sr...— Scarlett — Jasper interrompeu, erguendo uma sobrancelha.— Jasper. Eu preciso ir — tentei dar um sorriso fraco.— Está tarde. Fique aqui esta noite — ele disse, tirando o paletó do terno e jogando-o na cadeira ao lado.— Você pode me levar para casa, por favor, Jasper? — pedi, começando a perder a paciência.— Não — ele respondeu de forma simples e direta.— Olha, eu realmente não estou com cabeça para isso — retruquei, irritada, caminhando em direção à







