FAZER LOGINElena Hart
Cinco meses. Fazia cinco meses desde a noite em que eu havia corrido pelas ruas vestida de noiva, cinco meses desde que abandonei Dennis no altar e cinco meses desde que conheci um homem que eu acreditava que jamais voltaria a ver: Alexander Thorne. Por alguma razão, eu ainda me lembrava dele, talvez porque, naquela noite, quando todo o meu mundo estava desmoronando, ele tinha sido a única pessoa que não tentou me convencer a voltar. Ele simplesmente mandou que eu corresse. Depois disso, nunca mais ouvi falar dele até aquele dia. E durante esse tempo, eu precisei aprender a conviver com uma ausência muito maior: a do meu filho. David. Meu pequeno David. Eu havia descoberto que estava grávida de Dennis semanas antes do nosso casamento. Minha barriga nem mesmo estava aparente ainda. Na época, acho que ainda acreditava que conseguiríamos construir uma família juntos. A gravidez seria o começo de uma nova vida, a prova de que talvez ainda houvesse alguma coisa entre nós que valesse a pena salvar. Mas, enquanto a data do casamento se aproximava, tudo começou a desmoronar. Eu já não conseguia ignorar as humilhações veladas vindas do Dennis, como viver pedindo para eu me maquiar, me vestir melhor, fazer dietas mirabolantes ou me portar de forma diferente, nem fingir que aquele era o futuro que eu queria para mim e para o meu filho. Foi por isso que, cinco meses atrás, eu fugi. Ainda estava grávida quando corri para longe do Dennis. Só que, algum tempo depois, perdi David. Ainda era difícil pensar nele sem sentir o peito apertar dolorosamente. Às vezes, eu acordava no meio da noite com a sensação absurda de que havia esquecido alguma coisa e logo me lembrava de que não havia nada para esquecer. Não havia bebê para alimentar, não havia choro no quarto ao lado, não havia pequenas roupas espalhadas pela casa. Só silêncio, e aquele silêncio parecia me perseguir por todos os lugares. — Elena! — chamou Anita, surgindo no quarto. Puxei o cobertor sobre a cabeça, resmungando: — Não. — Sua entrevista é hoje — lembrou ela, aproximando-se da cama. — Cancelei mentalmente. Anita arrancou o cobertor de cima de mim sem nenhuma piedade. — Você não pode cancelar mentalmente uma entrevista. — Posso sim — me sentei devagar, encarando-a. — Acabei de fazer. — Levanta! — Não quero. Ela colocou as mãos na cintura, fitando-me com firmeza. — Você precisa desse emprego. Fechei os olhos por um segundo. Ela estava certa: eu precisava de dinheiro, precisava recomeçar e precisava parar de passar os dias deitada naquela cama, olhando para o teto e pensando no filho que não estava mais ali. — Está bem — murmurei, me levantando. — Mas, se eu morrer de nervoso, a culpa é sua. — Aceito a responsabilidade — sorriu ela, satisfeita. (...) Duas horas depois, eu estava diante do prédio da Thorne Enterprise. Era um edifício gigantesco de vidros, mármore e funcionários entrando e saindo com passos apressados. Segundo Anita, aquela estrutura valia mais de seis milhões de libras. Respirei fundo, ajeitando a saia lápis que Anita praticamente me obrigara a vestir, e entrei no local. O saguão estava lotado; pessoas caminhavam de um lado para o outro, telefones tocavam sem parar e funcionários carregavam pilhas de documentos. De repente, uma porta se abriu violentamente logo à frente. — Eu nunca mais trabalho para aquele homem! — gritou uma mulher baixinha, saindo furiosa. Um homem alto e musculoso veio atrás dela, tentando acalmá-la: — Verônica, espera! — Minha mãe morreu e aquele desgraçado começou a rir! — rebateu ela, apontando para trás. — Você acha que eu vou continuar alimentando a filha dele?! Parei por um instante ao ouvir aquilo. Filha? — A bebê precisa de você! — insistiu o homem. — Então procure outra ama de leite! — bateu ela a porta de vidro, desaparecendo na rua. O homem ficou parado no saguão, passando a mão pelo rosto com frustração. Fingi não ter ouvido nada, embora ficasse claro que havia alguma coisa muito errada naquele lugar. Caminhei até a recepção. — Olá. Sou Elena Hart — apresentei-me. — Tenho uma entrevista marcada para a vaga de estilista. A recepcionista sorriu cordialmente. — Claro — ela apontou para uma pequena câmera. — Olhe para cá, por favor. Um flash disparou e, poucos segundos depois, a máquina imprimiu meu crachá com os dizeres: Srta. Elena Hart — Visitante. — Quarto andar — indicou a mulher. — Obrigada. Entrei no elevador e, quando as portas começaram a se fechar, uma funcionária apareceu correndo pelo corredor. — Espere! — pediu ela. Segurei a porta com a mão. Ela entrou ofegante, segurando com cuidado um copo de café quente. — Obrigada! — agradeceu ela, olhando para o copo e depois para mim. — Você está indo para o quinto andar? — Quarto — corrigi. Ela praticamente empurrou o café contra o meu peito. — Pode me fazer um favor enorme? — Claro... — segurei o copo, confusa. — Entregue isso ao senhor Thorne — solicitou ela, ajeitando o crachá. Meu coração deu uma pequena batida diferente ao ouvir aquele sobrenome tão familiar. — Alexander Thorne — ela completou. Meu corpo inteiro ficou imóvel no mesmo segundo. Alexander. Não, era impossível. Londres era enorme e eu tinha encontrado aquele homem apenas uma vez; não havia nenhuma chance de ele ser justamente o CEO da empresa onde eu estava prestes a fazer uma entrevista. — Quinto andar! Muito obrigada! — gritou a mulher, saindo correndo assim que as portas se abriram no andar indicado. Olhei para o copo de café nas minhas mãos e suspirei: — Por que eu sempre aceito ajudar estranhos? Como não sabia exatamente onde ficava o departamento de arte e não queria chegar atrasada, decidi subir pelas escadas. No quarto andar, encontrei uma placa indicando o setor, mas vi outra escadaria levando ao andar de cima. Olhei para o relógio e notei que ainda tinha alguns minutos. — Entrego isso e volto — murmurei para mim mesma. Subi os degraus e, assim que cheguei ao quinto andar, dobrei no corredor e esbarrei com força em alguém. O café voou da minha mão e o líquido quente caiu diretamente sobre um terno preto impecável. Meu coração quase saiu pela boca. Levantei os olhos e esqueci de respirar: os mesmos cabelos escuros, os mesmos traços marcantes e os mesmos olhos frios do homem do hotel. Alexander Thorne. Ele também me reconheceu no mesmo instante, e sua expressão mudou por uma fração de segundo. — Você — disse ele, encarando-me. — Você... — murmurei, pasma.Alexander Thorne Raiva. Era a única coisa pulsando em mim agora.Elena estava realmente cogitando a proposta daquele sujeito? Ele não a conhecia, ele não precisava dela do jeito que eu precisava.Ficamos em um silêncio sepulcral pelo resto do caminho no carro. Elena manteve o rosto virado para a janela o tempo todo. Ela não disse uma única palavra comigo desde que acertei aquele desgraçado.E eu não sentia nenhum remorso. Ele merecia aquilo e muito mais.Olhei de relance para ela. Estava de braços cruzados, encarando a paisagem do lado de fora. Observei a respiração funda fazer seu peito subir e descer.Talvez eu tivesse exagerado. Talvez estivesse sendo possessivo demais, mas não conseguia me controlar quando o assunto era ela. Ver outros homens tocando nela me irritava num nível indescritível.Eu só queria que as coisas voltassem para como eram antes, quando Audrianna não estava enfiada no meio da nossa rotina. Quando Elena era só minha, e eu era dela.Agora ela devia me odiar.Lem
Elena HartDesde que voltei para os Thorne, os dias que antecederam o Natal eram uma palavra: caos.Enquanto estávamos todos sentados perto do fogo na véspera de Natal, assistindo Como o Grinch Roubou o Natal, eu poderia dizer que amanhã seria ainda pior.Audri foi rápida em sentar ao lado de Alexander e colocou a cabeça em seu peito largo enquanto fechava os olhos e fingia dormir. Enquanto ela fingia dormir, eu tinha que fingir que não me importava.— Esta sala não tem metade do charme da sala de cinema do andar de cima — comentei baixinho, tentando me distrair enquanto ajeitava as pernas no estofado perto do sofá.Passei a mão pelo pelo macio e sedoso de Winston e o puxei para mais perto de mim. Abaixei-me e beijei sua orelha antes de fazer cócegas nela.No tapete de atividades ao lado, Oliver soltou um ganido manhoso e tentou rolar de bruços para que eu pudesse acariciá-lo também. Passei a mão pelas costas dele, tocando o macacão fofo de Natal que ele usava — o macacão igual ao de
Alexander Thorne — Por que você está acordada uma hora dessas?A bebê de sete meses apenas soltou um ganido baixinho e começou a chacoalhar o chocalho de plástico contra as grades.— É, você tem razão... eu sou um covarde — gemi, afundando ainda mais na poltrona e cobrindo o rosto com as mãos. — Eu me acovardei, comecei a divagar e ugh... você nem imagina o tamanho do estrago.Olivia apenas deu uma risadinha banguela e jogou a chupeta para fora do berço.Levantei da poltrona, peguei a chupeta do chão e devolvi para ela. Olivia agarrou meu dedo com a mãozinha gordinha e babou um pouco na minha manchete.— Fui colocado na zona de amizade, Olivia. Ela me chamou de amigo e fugiu logo depois que eu basicamente disse que a amava.A bebê soltou a chupeta, deu um espirro alto que espalhou saliva para todos os lados e começou a gargalhar do meu desespero.— Isso foi realmente necessário? — perguntei, revirando os olhos para a tempestade de saliva. — Você está rindo da desgraça do seu pai.Inc
Alexander Thorne — Eu não tenho que prestar absolutamente nenhuma explicação a você, Audrianna. Para onde eu vou ou deixo de ir não é da sua conta — suspirei profundamente, ajeitando com uma irritação crescente o nó da minha gravata de seda, um gesto que Elena costumava fazer com tanta delicadeza e perfeição todas as manhãs. — É da minha conta sim, Alexander! Eu sou a sua noiva oficial e daqui a poucos meses serei a sua esposa perante toda a sociedade! — ela argumentou aos gritos, parada no meio do closet e me encarando com os olhos faiscando de raiva. — Desde que aquela babá insignificante foi embora desta casa, você ficou mil vezes mais distante, frio e inacessível do que já era. Fale comigo! Eu sou a sua mulher, eu me importo com você! — Pare com isso agora mesmo, Audrianna — pedi em tom severo, mas ela ignorou meu aviso completamente. — Você está me negligenciando terrivelmente! A mim, o grande amor da sua vida! — ela disse, franzindo a testa com uma expressão mimada. — E eu n
Elena Hart— Então, basicamente, você é a amante — minha mãe deixou escapar sem o menor pudor ou tato, mudando os canais da televisão com o controle remoto sem nem sequer se dar ao trabalho de olhar para mim.Senti um arrepio incômodo percorrer minha espinha ao ouvir aquela palavra dita de forma tão vulgar e natural dentro da sala da casa do meu pai.— Eu odeio essa palavra, mãe. Não me chame assim — murmurei em tom baixo, pegando o celular sobre a mesa de centro para disfarçar o desconforto evidente no meu rosto.Ao destravar a tela do aparelho, meus olhos bateram na notificação que indicava uma chamada perdida de Alexander há exatamente dez minutos. Meu coração deu um salto no peito. Digitei rapidamente uma mensagem perguntando se estava tudo bem e se havia acontecido algo grave com as crianças ou na empresa. Mas, conhecendo a rotina sufocante de reuniões e compromissos do grupo Thorne, eu sabia perfeitamente que ele provavelmente estaria ocupado e demoraria horas para visualizar ou
— Eu sou sua... — sussurrei, encostando a cabeça no peito dele. Fiquei chocada comigo mesma por dizer aquilo em vez de dar um sermão sobre a possessividade dele, mas a verdade é que eu não conseguia reagir de outra forma.— Sim — ele concordou. — Toda minha. — Ele começou a desenhar círculos na minha barriga com os polegares, subindo as mãos devagar. — Perfeita.Abaixei os olhos, tímida. Não era sempre que eu recebia elogios sobre o meu corpo.— Se ao menos a Olive pudesse aceitar as coisas como elas são... — ele suspirou, afrouxando o abraço.Virei-me para encará-lo:— O que você quer dizer com isso?— Não sei o que a Audrianna andou fazendo perto dela, mas a bebê recusa a mamadeira de um jeito teimoso quando vê a Audrianna e entra numa agitação horrível, como se estivesse rejeitando tudo ao redor — Alexander desabafou, apoiando as mãos no balcão da pia. — Ela simplesmente chora até perder o fôlego e empurra o biberão de leite.— Isso é terrível! — exclamei. — Um bebê de sete meses n







