LOGINEmma Anderson
O cheiro de hospital sempre foi o gatilho para o meu pior pesadelo, mas hoje, ele tinha um rastro de esperança que eu não podia ignorar. Ver Ellie ser atendida em uma maca limpa, com lençóis que não cheiravam a mofo, era um alívio que quase me fazia esquecer o medo. Mas a cada bipe dos aparelhos, a conta na minha cabeça crescia. Como eu pagaria por isso? Como explicaria ao senhor Knight que o "resgate" dele tinha um preço que eu não podia cobrir nem em dez vidas?
A enfermeira colheu o sangue de Ellie com uma agilidade que só o dinheiro compra. Ela foi medicada, e o calor que emanava de sua pele pareceu baixar um tom.
— A doutora volta em breve com os resultados — a enfermeira disse, fechando a cortina.
Fiquei sozinha com o silêncio. E o silêncio sempre me levava de volta para o asfalto.
Eu me vi em uma maca, dois anos atrás. O teto do hospital girava. Eu gritava, mas nenhum som saía. Só pensava neles. Onde estava a minha irmã? Onde estava o menino? Lembro da enfermeira puxando uma cortina idêntica a esta. Ellie dormia ao lado, viva. "O menino já está com o pai", ela disse. "Ele está bem".
Eu quis levantar, mas a dor me derrubou. Meus pais não estavam na maca ao lado. Eles eram apenas fumaça e destroços. "Foi minha culpa", eu sussurrei para o teto. "Eu estava dirigindo".
Depois veio o efeito dominó. A documentação do óbito, as dívidas do hospital do meu pai que se arrastavam antes do acidente, a hipoteca atrasada da nossa casa pequena. Meu pai perdeu o emprego meses antes; eu larguei a faculdade para dobrar turnos e ajudá-lo. No fim, as chamas levaram os pilares e as dívidas levaram o teto. Sobramos apenas eu, Ellie e uma pilha de papéis de despejo.
Senti algo quente e pequeno me pressionando.
Fui arrancada das minhas lembranças pelos bracinhos de Luca. Ele estava ali, firme, como se estivesse me protegendo dos meus próprios fantasmas. Limpei o rosto rapidamente com as costas da mão, tentando esconder os rastros do passado.
Levantei o olhar e encontrei Damien Knight. Ele estava parado ao pé da cama, a postura impecável e os olhos azuis como uma tempestade pronta para desabar.
— Obrigada — minha voz saiu instável. — Eu vou pagar cada centavo, eu juro. Só preciso de um tempo para me organizar.
Ele se aproximou da cama. O simples movimento dele fazia o ar parecer escasso, denso. Ele me encarou com uma frieza que gelou minha espinha.
— Quantos anos você tem, senhorita Anderson? — A pergunta me pegou totalmente desprevenida. — E por que está cuidando de sua irmã sozinha dessa forma? Onde estão seus pais?
Parei de acariciar o cabelo de Luca. Meu coração batia contra as costelas. Ele não sabe... ele não tem ideia de que era eu naquele carro.
— Tenho vinte e dois — respondi, endireitando a coluna para manter o pouco de dignidade que me restava. — E Ellie tem seis. Meus pais morreram há dois anos.
Vi algo mudar nos olhos dele por um milésimo de segundo. Não consegui decifrar se era pena ou apenas a indiferença de quem observa uma estatística trágica.
— Marina disse que você precisava muito do emprego — ele comentou, quebrando o silêncio.
Suspirei, olhando para Ellie. O suor da febre começava a molhar seus fios castanhos claro, um sinal de que o remédio estava lutando.
— Meu pai ficou doente antes de morrer. Ele perdeu o emprego, a hipoteca atrasou... e quando ele e minha mãe se foram, eu perdi o que restava. Hoje sobrevivo de trabalhos temporários. Garçonete, entregadora... o que aparecer.
Levantei os olhos, sustentando o olhar dele.
— O emprego na sua empresa era o meu respiro. Eu não entrei lá para atingi-lo, eu nem mesmo sabia... — olhei para Luca, que se aninhava ao meu lado. — Que seu filho estava lá, e que ele se aproximaria de mim. Eu juro.
Damien estreitou os olhos, como se estivesse pesando cada palavra minha em uma balança invisível.
— Meu filho não fala, senhorita Anderson. Ele não se aproxima de estranhos e raramente se expressa como fez hoje. Por que com você?
— Talvez... — engoli em seco — Talvez ele tenha me visto com a minha irmã. Ele é pequeno, deve ter sentido o desespero dela e se identificado. Crianças têm um instinto para essas coisas.
Minha resposta pareceu convencê-lo. Por enquanto.
A médica retornou com uma pasta nas mãos. Damien se empertigou, anunciando que estava de saída, mas Luca se agarrou à minha mão com uma força absurda. Ele emitiu um som baixo, de protesto.
— Luca, pequeno — eu disse, agachando-me para ficar na altura dele. — Eu preciso ouvir o que a doutora tem a dizer sobre a Ellie. Mas eu prometo... nós vamos nos ver em breve.
Senti o olhar mortal de Damien queimar o topo da minha cabeça no momento em que fiz a promessa. Eu sabia que ele me odiava por dar esperanças ao filho, mas era a única forma de acalmá-lo. Funcionou. Eles saíram, deixando o quarto pesado com a ausência deles.
A médica suspirou, abrindo os exames. O que ela disse em seguida fez o mundo parar de girar. Não era apenas uma infecção comum. Era algo grave, algo que exigia tratamento imediato, repouso absoluto e uma alimentação que eu não podia comprar.
— Eu preciso que você assine aqui para iniciarmos o protocolo de medicação — ela disse, estendendo uma prancheta.
— O tratamento... é caro? — minha voz era um fio.
— Infelizmente, sim. As medicações de primeira linha são de alto custo, mas Ellie precisa começar urgentemente.
O chão cedeu sob meus pés.
— E se... se não fizermos o tratamento agora? Quais são as chances dela?
A médica foi sincera, e a verdade doeu mais que o impacto do metal no asfalto.
— As chances são baixas, Emma. O quadro pode evoluir rápido.
Desabei. Abracei Ellie, que dormia alheia à sentença de morte que o dinheiro estava assinando para ela. O choro veio sem controle, um soluço que sacudia meu corpo inteiro.
Até que ouvi passos. Passos pesados, autoritários.
A presença imponente de Damien Knight ocupou o espaço novamente. Ele nem olhou para mim; seus olhos estavam fixos na doutora.
— Onde eu assino?
— Senhor... — tentei falar, confusa.
— Eu serei o responsável financeiro pela menina — ele me ignorou completamente, mantendo o tom de comando. — Só me diga onde assino para que comecem logo o que for necessário.
A médica o orientou, e eu assisti, em choque, enquanto ele assinava o que parecia ser a vida da minha irmã. Luca correu até mim novamente. Eu o peguei no colo, escondendo o rosto em seu pescoço enquanto chorava de puro alívio e terror.
Quando a médica saiu, ficamos nós três. Levantei o olhar para o homem que acabara de me salvar da forma mais humilhante e generosa possível.
— Senhor Knight... eu vou dar um jeito. Eu juro. Eu vou pagá-lo por cada centavo disso.
Ele me encarou, os olhos azuis sem rastro de hesitação.
— Eu sei que vai. Porque você irá trabalhar para mim.
O alívio me inundou. Eu teria meu emprego de volta. O turno da noite. A limpeza.
— O senhor vai me permitir trabalhar na sua empresa? — dei um passo em sua direção, estendendo a mão em gratidão. — Muito obrigada, senhor. Eu serei a melhor funcionária que...
Ele nem sequer olhou para a minha mão estendida. Recuei o braço rapidamente, o rosto queimando.
— Não — ele disse, a voz grave ecoando no quarto pequeno. — A vaga não é na empresa.
Franzi a testa, confusa.
— É na minha casa — ele concluiu, e o peso daquelas palavras mudou tudo. — A partir de hoje, você será a babá do Luca.
Capítulo 244 — Resgate de Alto RiscoBruno ColettiEm toda a minha vida profissional e pessoal, nenhuma mulher jamais desarmou as minhas defesas ou virou a minha cabeça do avesso pelo simples fato de existir como a Katlyn Pratt fez. Desde o primeiro segundo em que bati os olhos nela, o meu instinto protetor foi ativado de um jeito que nunca experimentei antes.Eu não concordava com esse plano de merda. Repugnava a ideia de usar uma mulher vulnerável como isca para atrair rato. Mas já que ela escolheu dar esse passo, eu jurei para mim mesmo que moveria o céu e a terra para garantir que ela saísse inteira dessa loucura.Por um breve minuto no subsolo, veio a ilusão do alívio. Ela estava nos meus braços, protegida contra o meu peito, e a vitória parecia nossa.Mas a ilusão virou cinzas em questão de segundos.O sangue quente que escorria pelo meu pescoço que vinha a partir do corte na cabeça ardia, mas não chegava nem perto da dor dilacerante que rasgava o meu peito. A imagem do carro a
Capítulo 243 — O Preço da LiberdadeKatlyn PrattO ar no subsolo parecia congelado.As portas metálicas do elevador ainda vibravam atrás de nós, mas Estevan havia estancado no meio do primeiro passo. Os seis seguranças que o escoltavam congelaram no lugar, as mãos travando sobre as armas ao darem de cara com a muralha à nossa frente.Juan Rivera mantinha sua postura, tragando o charuto com a calma de quem apenas assiste ao cair da tarde. Ao lado dele, Christopher Lawson cruzava os braços com um sorriso de escárnio estampado no rosto, enquanto três homens de preto mantinham fuzis apontados em ângulos para as cabeças dos seguranças do Estevan.— Vai a algum lugar, senhor Vance? — Juan repetiu a pergunta, a voz mansa, rouca e gélida.Estevan engoliu em seco. A arrogância que estampava o rosto dele no andar de cima se esfarelou em uma fração de segundo, dando lugar a uma palidez.— Snake… Juan Rivera.— Vejo que o seu pai teve a decência de te ensinar alguns nomes importantes antes de te
Capítulo 242 — A Sombra do CarrascoKatlyn PrattA última semana foi um borrão de ansiedade pura. A cada nascer do sol, um nó apertava a boca do meu estômago com a certeza de que a calmaria na mansão tinha prazo de validade.E, no meio de todo esse turbilhão, Bruno Coletti não saía da minha cabeça nem por um segundo.Enquanto praticamente todas as mulheres da casa pareciam nos empurrar um para o outro, rindo da atração óbvia que faiscava no ar toda vez que nossos olhares se cruzavam, o Ambrose mantinha aquela postura mais séria, quase desconfiada. Eu entendia perfeitamente o lado dele. Não existia mais nenhum sentimento romântico entre nós, mas o Ozzie é protetor por natureza. Ele achava que, depois de todo o inferno que vivi nos últimos meses, eu precisava primeiro colocar a minha cabeça no lugar, lamber as minhas feridas e reconstruir a minha vida antes de cogitar me envolver com alguém.No fundo, eu sabia que a lógica dele fazia sentido. O Estevan me quebrou por dentro, me encheu
Capítulo 241 — O Quinteto FantásticoTaylor CostelloEu tinha tudo para odiar a loira do banheiro. Absolutamente tudo! Mas a cada dia que passava, ela deixava de ser aquela assombração do passado que precisava de um exorcismo urgente para se transformar no meu próprio Gasparzinho na versão feminina. Sim, "Gasparzinho, o Fantasminha Camarada". Pegou a referência? Meu Deus, tem horas que nem eu mesma me aguento de tanta criatividade!A verdade nua e crua é que eu já não sentia apenas empatia pela Katy; eu sentia um carinho genuíno. Eu nunca na vida vou entender ou engolir o que ela aprontou com o Ozzie lá atrás, mas consigo lidar perfeitamente com o fato de que ela se arrependeu de verdade e quer virar essa página nojenta.Por isso, quando o Juan deu a opção de chamar a tal amiga advogada dela que, por sinal, já foi submissa do meu grandão, e eu nem vou comentar sobre esse detalhe para não desenterrar defuntos, ou colocar uma de nós na linha de frente, a escolha foi óbvia: nós iríamos.
Capítulo 240 — Uma de NósEmma AndersonDias se passaram desde o final de semana que virou as nossas vidas de cabeça para baixo. Dez dias desde o assassinato brutal da Izabel, da fuga da Verônica, e exatos oito dias do basta definitivo que Fernanda deu em sua mãe e no covarde do Mike. E, acima de tudo, uma semana desde que o escritório do Damien quase se tornou um ringue enquanto eles decidiam usar a Katlyn como isca para neutralizar o herdeiro dos Vance.A manhã de terça-feira começou em uma calmaria que parecia até ensaiada. Damien já tinha saído cedo para a empresa, as crianças completaram suas sessões de terapia com serenidade, e Dona Marina já se movimentava pela casa como se sempre tivesse pertencido a ela. Diva e Savannah pareciam velhas companheiras de infância.Tudo parecia perfeito.Exceto pelo detalhe que pesava como uma bigorna no meu peito: amanhã seria o dia de colocar o plano de Juan em prática.Depois do almoço, nos reunimos todas sob a pérgula florida do jardim. Est
Capítulo 239 — A Decisão da PresaKatlyn PrattA marca do tapa no meu rosto ainda ardia de leve, mas a sensação que predominava no meu peito não era dor. Era assombro. Eu, que passei meses me encolhendo pelos cantos e aceitando cada humilhação calada de cabeça baixa, tive a coragem de me jogar na frente daquela mulher para proteger a Fernanda. Pela primeira vez em anos, eu não agi como uma vítima paralisada. Eu defendi alguém que foi generosa comigo.Depois, veio o jantar.Quando Bruno cruzou a porta da sala ao lado do Dominic, vestindo aquele terno impecável com uma presença austera que preenchia o ambiente, o ar pareceu rarefeito ao meu redor.Ele se sentou exatamente ao meu lado à mesa. Cada vez que os ombros dele roçavam de leve no meu braço, ou quando ele me servia a água sem dizer uma única palavra, mas fixando aqueles olhos escuros e intensos nos meus, meu coração dava solavancos descompassados. O tom grave e calmo da voz dele ainda ressoava na minha cabeça como um abrigo se







