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O CEO e a boiadeira
O CEO e a boiadeira
Autor: Vitória Valenza

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last update Data de publicação: 2026-07-25 09:46:17

 

Cátia

Da varanda, vejo labaredas consumirem a plantação no horizonte. O fogo alastra-se pelo parreiral, destruindo tudo pelo caminho. Prendo a respiração ao olhar para o estábulo, onde as vacas leiteiras e minha égua, Estela, estão presas.

Corro antes que a chama as alcancem.

A fumaça invade meus pulmões logo nos primeiros passos. Levo a manga da blusa à boca, e respiro com dificuldade. O vento lança cinzas no meu rosto e o cheiro de mato queimado me embrulha o estômago.

Minhas botas afundam na terra fofa. À esquerda, uma cerca em chama desaba, espalhando um rastro de fagulhas. Alcanço a entrada do estábulo, mas o ferrolho está quente demais para tocar.

— Aguenta, Estela.

O relincho desesperado me responde antes que eu consiga entrar.

Enrolo a barra da camisa na mão e puxo a trava com toda força. O metal queima mesmo através do tecido, mas resiste. Puxo novamente, quase caindo pela falta de ar.

O ferrolho finalmente cede.

As vacas irrompem pela abertura, quase me atropelando na fuga. Estela hesita um segundo, as orelhas girando em minha direção, os olhos arregalados de pavor.

— Vai! — Bato na anca dela.

A égua dispara, desparecendo em meio ao nevoeiro de fumaça.

Escuto um estalo alto e ergo a cabeça. O fogo alcançou as ripas do teto, e uma língua de fogo avança rápido demais.

Tento dar um passo para trás para fugir, bem no instante em que a primeira viga desaba.

                                                                                  

Fernand

Ando pelo mármore polido da recepção da diretoria. Ajusto o nó da gravata enquanto passo pelas portas de vidro temperado do último andar da incorporadora. Para mim, o mercado imobiliário é um jogo de xadrez em velocidade máxima, e eu odeio perder peças.

— Bom dia, Fernand — Alessandra, minha secretária, cumprimenta sem erguer os olhos do monitor, os dedos voando pelo teclado.

— Bom dia. Notícias? — pergunto, parando diante da bancada de granito antes mesmo de entrar na minha sala.

— A Bianca ligou umas três vezes desde que abrimos — ela responde, finalmente encarando-me com uma sobrancelha erguida. — Parecia bem impaciente.

Respiro fundo, checando as horas no relógio de pulso.

— Tenho assuntos mais importantes para tratar agora. Me passe os relatórios de prospecção do litoral e da serra.

Entro no escritório, deixando a porta entreaberta. Alguns segundos depois, meu sócio surge na linha de visão, segurando um tablet com uma visão compenetrada. Ele entra sem bater e arrasta o indicador pela tela antes mesmo de virá-la para mim.

— Esquece o litoral por um momento. Dá uma olhada nisso — Ele diz e entrega o tablet em minhas mãos.

Na tela, uma transmissão de notícias locais mostra uma coluna espessa de fumaça preta subindo contra o céu. Em letras garrafais na parte inferior da imagem lê-se: “incêndio de grandes proporções devasta propriedade rural e deixa rastro de destruição”.

— Uma fazenda no vale — murmuro, analisando as imagens aéreas do terreno. — Espera... essa área não é a daquela propriedade do parreiral?

— Exatamente — Artur confirma. — A localização perfeita. Um platô elevado, solo fértil, acesso fácil à rodovia e uma vista panorâmica incrível. É o local perfeito para o resort de luxo que estamos planejando.

— Mas nós já tentamos aquela área — lembro, cruzando os braços. — A proprietária é irredutível. Já mandamos propostas, fizemos ofertas acima do mercado, e ela nunca nem atendeu nossas chamadas.

— Bom, a situação mudou — meu sócio aponta para a tela. — O valor da terra vai despencar com esse estrago. E o repórter acabou de confirmar que os animais da fazenda estão dispersos pela região, enquanto a atual proprietária deu entrada no hospital em estado grave por inalação de fumaça. Está internada.

— Internada? — Franzo o cenho, encostando-me na poltrona de couro.

— É, pode ser o momento certo de tentarmos falar com o outro responsável pela propriedade. Para assinar uma proposta imediata. 

Antes que eu possa responder, vozes alteradas vêm do corredor.

— Senhorita Bianca, por favor, o Fernand está em uma reunião importante de negócios agora! — a voz firme de Alessandra ecoa do lado de fora.

— Sai da minha frente, Alessandra! Eu não quero saber de negócios — A resposta vem em tom estridente, acompanhada pelo barulho dos saltos contra o piso.

A porta do meu escritório é empurrada com força. Alessandra ainda tenta segurar a maçaneta por um segundo, pedindo desculpa com o olhar antes que eu levante a mão, dispensando-a em silêncio.

Bianca surge no centro da sala. Perfeitamente alinhada em um conjunto de grife, ela sacode seus cabelos loiros e cruza os braços com os olhos faiscando. Ela ignora completamente a presença de Artur.

— Fernand — a voz dela é carregada de veneno. — Você tem exatamente três segundos para me explicar como conseguiu esquecer que hoje é o nosso primeiro aniversário de namoro.

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Último capítulo

  • O CEO e a boiadeira    36

    FernandA mesa de centro da sala de Bianca sumiu sob bandejas de prata e caixas de veludo.Sento-me na ponta do sofá, os nós dos dedos apoiados nos joelhos. Do outro lado do tampo de mármore, Bianca separa amostras de doces com uma pinça dourada, examinando cada acabamento sob a luz do lustre.— O pâtissier francês mandou essas três opções de macarons perolados — ela diz, sem erguer os olhos. — Acho que o recheio de champanhe com pétalas de rosa harmoniza com o tom dos arranjos da entrada. O que acha?—— A Alessandra é confeiteira independente. Provei na semana passada. Um copinho de chocolate com creme cítrico e amora fresca, e outro de avelã com praliné. A textura e o equilíbrio de açúcar superam qualquer doce de catálogo.Bianca ergue as sobrancelhas. Ela solta uma risada curta, estridente, balançando a cabeça em pura incredulidade.— Confeiteira independente? Fernand, por favor! É o casamento do ano. A imprensa inteira vai cobrir a mesa de doces. Você quer que eu sirva quitute cas

  • O CEO e a boiadeira    35

    CátiaO caminho até a Sabiá-Laranjeira me dá borboletas no estômago. E acho que não é só pela terra. Minha cabeça não para de pensar em Fernand.Entro na sala de jantar da sede. Duas pranchetas e um rolo de papel vegetal cobrem a mesa de cavaletes. Fernand está curvado sobre a planta, os antebraços apoiados na madeira, a manga da camisa dobrada até os cotovelos.O meu coração dá um pulo.Ele ergue os olhos quando minhas botas estalam no assoalho. A postura dele enrijece.— Cátia — ele diz, a voz baixa.— Bom dia.Artur surge pela porta da varanda, a tela do tablet acesa sob os dedos. Ele para ao lado da mesa e joga uma caneta sobre o papel.— Nove e cinco. Vamos direto ao ponto — Artur desliza o indicador pela tela. — O alvará saiu. O plano é derrubar todas as paredes internas deste bloco para abrir o lobby principal do resort.Não me mexo. Olho para Fernand.— O contrato me dá direito a voto no levantamento do patrimônio histórico.Artur bufa, revirando os olhos para o teto.— Voto c

  • O CEO e a boiadeira    34

    CátiaInácio me ofereceu a fuga. Ofereceu o mar, a prancha e a promessa de uma vida sem o peso do barro. Falou com a urgência de quem descobriu a própria vocação e acreditou que me resgatava de um naufrágio.Prender Inácio à minha indecisão é covardia. Ele tem pressa de água salgada e eu tenho raízes fincadas aqui. Sei o que preciso fazer. Depois de olhar Estela por alguns instantes, chego a conclusão que é injusto prendê-lo aqui sem ser sincera com o que sinto.Cruzo a porta da cozinha. A luz da bancada projeta uma faixa amarela no corredor. No último degrau da escada externa, Inácio está sentado.— Inácio.— Perdeu o sono? — Ele sorri para mim.Desço os degraus e sento-me a dois palmos dele.— Pensei no que você falou — digo, sem rodeios. — Sobre o litoral. A seletiva.— E aí? Você vem comigo?Os olhos dele brilham com uma animação infantil.— Não vou, Inácio.— Por causa do seu pai? A gente dá um jeito, Cátia.— Não é só pelo meu pai. — Olho firme para ele. — É por nós dois. A gent

  • O CEO e a boiadeira    33

    CátiaEstou passando óleo na sela de Estela quando Inácio se aproxima com duas garrafas de cerveja gelada. Ele me entrega uma, senta-se ao meu lado no fardo de feno e estica as pernas.— A terra de vocês vai render, Cátia — ele diz, dando um gole demorado. — Seu pai já está com quase tudo certo para a mudança.— Graças a Deus — respondo, sentindo o alívio que essa nova chácara traz. — Vai dar trabalho no começo, mas pelo menos é um chão nosso de novo.Inácio fica em silêncio por alguns segundos. Ele apoia a garrafa entre os joelhos, vira o corpo para mim e coloca a mão na minha perna.— Cátia... eu preciso te falar uma coisa séria.Olho para ele, estranhando o tom repentino de gravidade.— Pode falar, Inácio.— Eu só voltei para cá por causa do incêndio e de você. Quando soube do galpão e do hospital, não pensei duas vezes. Mas... eu não pertenço mais a este lugar. Não pertenço mais à roça.Franzo a testa, surpresa.— Como assim não pertence? Você nasceu aqui.— Nasci, mas a minha cab

  • O CEO e a boiadeira    32

    CátiaAs samambaias penduradas na varanda balançam de leve com o vento da manhã, enquanto dona Vera enxuga as mãos no avental florido, descendo os degraus de madeira para espiar a movimentação na sua propriedade.Ouvir o relincho estridente e familiar de Estela vindo do piquete dos fundos traz um alívio que quase me faz esquecer as últimas semanas de caos.A rampa do caminhão desce com um estalo metálico. Rodrigo salta da cabine vestindo jeans surrado e chapéu de palha, abrindo um sorriso largo ao me ver aproximar.— Bom dia, boiadeira! — Rodrigo acena com a mão espalmada. — Como prometido, os dois novos companheiros da fazenda chegaram em perfeito estado.— Bom dia, Rodrigo! — respondo, sentindo o peito leve pela primeira vez em muito tempo.Meu pai e Inácio saem da oficina de ferramentas ao ouvir o barulho do motor. Oswaldo ajeita o chapéu marrom na cabeça, os olhos miúdos brilhando em pura descrença ao ver o tratador descer primeiro o tordilho cicatrizado e, logo em seguida, o pot

  • O CEO e a boiadeira    31

    CátiaAcordo antes mesmo do primeiro cantar do galo.Fico alguns minutos imóvel na cama, encarando o forro de madeira clara, sentindo o peito apertado. A lembrança do calor da boca de Fernand, do jeito que ele segurou meu rosto e do recuo assustado dele logo em seguida não saem da minha cabeça.Amigos.Foi o melhor a fazer. Fernand tem a vida desenhada na capital, uma noiva e um mundo ao qual eu nunca vou pertencer. Eu tenho o Inácio, meu pai e um recomeço do zero para construir. Colocar um freio ontem foi questão de respeito próprio.Levanto e lavo o rosto na água fria da pia do banheiro. Quando desço a escadaria de madeira, o aroma de café fresco e pão de queijo quentinho já toma conta da cozinha do casarão.— Bom dia, madrugadora! — Mariana me recebe com um sorriso caloroso, tirando uma assadeira fumegante do forno com um pano grosso. — Achei que a gente da capital é que acordava cedo por causa de trânsito, mas o pessoal da roça não dá trégua nem em dia de folga.— Bom dia, Mariana

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