Share

2

last update publish date: 2026-07-25 09:50:57

Cátia

Acordo sem saber onde estou.

O teto branco e o bip compassado de um monitor ao meu lado demoram alguns segundos para fazer sentido. A garganta queima como se eu ainda estivesse engolindo cinzas, e um cheiro forte de antisséptico tenta encobrir a memória da fumaça.

— Ei, fia... Calma, respira fundo — uma voz conhecida e calma corta o silêncio.

Viro o rosto devagar na almofada e vejo meu pai sentado na poltrona ao lado do leito. Baixinho, vestindo sua camisa xadrez puída e sem largar o inseparável chapéu de cowboy no colo, Oswaldo tenta me dar um sorriso. Ele sempre faz piada com tudo, mas os olhos pequenos e cansados entregam a gravidade da situação.

— Pai... — tento falar, mas minha voz sai um fiapo indistinto.

— Não força a garganta, fia. O médico disse que seus pulmões viraram uma chaminé de fogão a lenha, mas você tá viva. É o que importa — ele ajusta o chapéu sobre as coxas, tentando manter o tom leve. — Se bem que, pelo estrago lá fora, acho que até os mosquitos da fazenda pediram aposentadoria adiantada.

Tento me sentar, a memória da noite anterior voltando em pancadas: o parreiral em chamas, o ferrolho quente, o estalo do teto caindo.

— A fazenda... — o pânico voltando a apertar o peito. — Pai, o que sobrou?

O sorriso dele desmonta por um segundo. Ele suspira, e passa o dedo indicador pelo chapéu marrom antes de me olhar de volta.

— As ovelhas se espalharam e fugiram pro mato, as vacas leiteiras também. E a Estela... — Ele engole em seco, a voz fraquejando de leve. — Até agora ninguém conseguiu localizar a égua, fia.

Fecho os olhos, sentindo as lágrimas quentes em minhas bochechas.

Estela foi um presente que ganhei de minha mãe. Escolhemos o nome juntas, e passei a amá-la como um membro da família, e não só como um animal no curral. Todos os dias, escovava sua crina e levava cenouras frescas. 

O meu peito aperta.

— E as uvas? — pergunto, já sabendo a resposta.

— Virou cinza. Não sobrou um pé para contar história. A gente vai ter que devolver o dinheiro daquele comprador que já tinha adiantado o sinal pra safra deste ano. Não tem o que entregar — ele solta uma risada desgostosa. — A verdade, Cátia, é que a gente tá quebrado. Nossa reserva de emergência não cobre nem o prejuízo da cerca, quanto mais o resto.

Uma vida de trabalho, todas as minhas memórias mais felizes... tudo destruído em poucas horas.

— Mas ó... nem tudo é tragédia — meu pai tenta consolar, batendo levemente no meu pé por cima do cobertor. — Pelo menos a casa sede ficou de pé. O fogo não chegou lá. A gente ainda tem um teto pra resolver a vida.

— A gente vai dar um jeito, pai... — choro, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu dou um jeito. A gente constrói tudo de novo, eu juro.

— Eu sei que dá, fia. Você é mais dura que mourão de aroeira. — ele diz, ajeitando o chapéu na cabeça.

Antes que possamos continuar, a vibração forte um telefone quebra o clima pesado do quarto. Meu pai tira o aparelho velhinho do bolso da fivela, olha o visor com a testa franzida e atende.

— Alô? — ele responde, desconfiado. Dá uma pausa escutando a pessoa do outro lado, e suas sobrancelhas se erguem. — Quem? Artur?

— Ele olha para mim com uma expressão confusa enquanto continua ouvindo.

— Um jantar de negócios? Hoje à noite? — Meu pai troca o peso do corpo de pé, ajustando a aba do chapéu. — Olha, meu senhor, a minha fazenda acabou de pegar fogo e minha filha tá no hospital, não acho que... Como? Uma proposta sobre a propriedade?

Ele cala-se por um instante, escutando atentamente o homem do outro lado da linha.

Só de imaginar o teor da conversa, o meu coração se quebra em vários pedaços.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O CEO e a boiadeira    36

    FernandA mesa de centro da sala de Bianca sumiu sob bandejas de prata e caixas de veludo.Sento-me na ponta do sofá, os nós dos dedos apoiados nos joelhos. Do outro lado do tampo de mármore, Bianca separa amostras de doces com uma pinça dourada, examinando cada acabamento sob a luz do lustre.— O pâtissier francês mandou essas três opções de macarons perolados — ela diz, sem erguer os olhos. — Acho que o recheio de champanhe com pétalas de rosa harmoniza com o tom dos arranjos da entrada. O que acha?—— A Alessandra é confeiteira independente. Provei na semana passada. Um copinho de chocolate com creme cítrico e amora fresca, e outro de avelã com praliné. A textura e o equilíbrio de açúcar superam qualquer doce de catálogo.Bianca ergue as sobrancelhas. Ela solta uma risada curta, estridente, balançando a cabeça em pura incredulidade.— Confeiteira independente? Fernand, por favor! É o casamento do ano. A imprensa inteira vai cobrir a mesa de doces. Você quer que eu sirva quitute cas

  • O CEO e a boiadeira    35

    CátiaO caminho até a Sabiá-Laranjeira me dá borboletas no estômago. E acho que não é só pela terra. Minha cabeça não para de pensar em Fernand.Entro na sala de jantar da sede. Duas pranchetas e um rolo de papel vegetal cobrem a mesa de cavaletes. Fernand está curvado sobre a planta, os antebraços apoiados na madeira, a manga da camisa dobrada até os cotovelos.O meu coração dá um pulo.Ele ergue os olhos quando minhas botas estalam no assoalho. A postura dele enrijece.— Cátia — ele diz, a voz baixa.— Bom dia.Artur surge pela porta da varanda, a tela do tablet acesa sob os dedos. Ele para ao lado da mesa e joga uma caneta sobre o papel.— Nove e cinco. Vamos direto ao ponto — Artur desliza o indicador pela tela. — O alvará saiu. O plano é derrubar todas as paredes internas deste bloco para abrir o lobby principal do resort.Não me mexo. Olho para Fernand.— O contrato me dá direito a voto no levantamento do patrimônio histórico.Artur bufa, revirando os olhos para o teto.— Voto c

  • O CEO e a boiadeira    34

    CátiaInácio me ofereceu a fuga. Ofereceu o mar, a prancha e a promessa de uma vida sem o peso do barro. Falou com a urgência de quem descobriu a própria vocação e acreditou que me resgatava de um naufrágio.Prender Inácio à minha indecisão é covardia. Ele tem pressa de água salgada e eu tenho raízes fincadas aqui. Sei o que preciso fazer. Depois de olhar Estela por alguns instantes, chego a conclusão que é injusto prendê-lo aqui sem ser sincera com o que sinto.Cruzo a porta da cozinha. A luz da bancada projeta uma faixa amarela no corredor. No último degrau da escada externa, Inácio está sentado.— Inácio.— Perdeu o sono? — Ele sorri para mim.Desço os degraus e sento-me a dois palmos dele.— Pensei no que você falou — digo, sem rodeios. — Sobre o litoral. A seletiva.— E aí? Você vem comigo?Os olhos dele brilham com uma animação infantil.— Não vou, Inácio.— Por causa do seu pai? A gente dá um jeito, Cátia.— Não é só pelo meu pai. — Olho firme para ele. — É por nós dois. A gent

  • O CEO e a boiadeira    33

    CátiaEstou passando óleo na sela de Estela quando Inácio se aproxima com duas garrafas de cerveja gelada. Ele me entrega uma, senta-se ao meu lado no fardo de feno e estica as pernas.— A terra de vocês vai render, Cátia — ele diz, dando um gole demorado. — Seu pai já está com quase tudo certo para a mudança.— Graças a Deus — respondo, sentindo o alívio que essa nova chácara traz. — Vai dar trabalho no começo, mas pelo menos é um chão nosso de novo.Inácio fica em silêncio por alguns segundos. Ele apoia a garrafa entre os joelhos, vira o corpo para mim e coloca a mão na minha perna.— Cátia... eu preciso te falar uma coisa séria.Olho para ele, estranhando o tom repentino de gravidade.— Pode falar, Inácio.— Eu só voltei para cá por causa do incêndio e de você. Quando soube do galpão e do hospital, não pensei duas vezes. Mas... eu não pertenço mais a este lugar. Não pertenço mais à roça.Franzo a testa, surpresa.— Como assim não pertence? Você nasceu aqui.— Nasci, mas a minha cab

  • O CEO e a boiadeira    32

    CátiaAs samambaias penduradas na varanda balançam de leve com o vento da manhã, enquanto dona Vera enxuga as mãos no avental florido, descendo os degraus de madeira para espiar a movimentação na sua propriedade.Ouvir o relincho estridente e familiar de Estela vindo do piquete dos fundos traz um alívio que quase me faz esquecer as últimas semanas de caos.A rampa do caminhão desce com um estalo metálico. Rodrigo salta da cabine vestindo jeans surrado e chapéu de palha, abrindo um sorriso largo ao me ver aproximar.— Bom dia, boiadeira! — Rodrigo acena com a mão espalmada. — Como prometido, os dois novos companheiros da fazenda chegaram em perfeito estado.— Bom dia, Rodrigo! — respondo, sentindo o peito leve pela primeira vez em muito tempo.Meu pai e Inácio saem da oficina de ferramentas ao ouvir o barulho do motor. Oswaldo ajeita o chapéu marrom na cabeça, os olhos miúdos brilhando em pura descrença ao ver o tratador descer primeiro o tordilho cicatrizado e, logo em seguida, o pot

  • O CEO e a boiadeira    31

    CátiaAcordo antes mesmo do primeiro cantar do galo.Fico alguns minutos imóvel na cama, encarando o forro de madeira clara, sentindo o peito apertado. A lembrança do calor da boca de Fernand, do jeito que ele segurou meu rosto e do recuo assustado dele logo em seguida não saem da minha cabeça.Amigos.Foi o melhor a fazer. Fernand tem a vida desenhada na capital, uma noiva e um mundo ao qual eu nunca vou pertencer. Eu tenho o Inácio, meu pai e um recomeço do zero para construir. Colocar um freio ontem foi questão de respeito próprio.Levanto e lavo o rosto na água fria da pia do banheiro. Quando desço a escadaria de madeira, o aroma de café fresco e pão de queijo quentinho já toma conta da cozinha do casarão.— Bom dia, madrugadora! — Mariana me recebe com um sorriso caloroso, tirando uma assadeira fumegante do forno com um pano grosso. — Achei que a gente da capital é que acordava cedo por causa de trânsito, mas o pessoal da roça não dá trégua nem em dia de folga.— Bom dia, Mariana

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status