INICIAR SESIÓNCátia
O meu pai só aparece no quarto em que estou internada na hora do almoço do dia seguinte. Ele entra de cabeça baixa. Reparo no cabelo ralo, despenteado pelo vento da estrada. Os fios brancos, antes quase inexistentes, agora multiplicam-se em sua cabeça.
Inclino o corpo devagar na cama, sentindo cada pontada de dor rasgar o meu tórax. Ajusto as costas nos travesseiros finos e espero a notícia.
Ele para a poucos passos do leito, sem coragem de sustentar o meu olhar. Os dedos grossos, marcados por décadas trabalhando na roça, torturam a aba do chapéu numa agitação nervosa.
— Pai... — minha voz sai rouca, e o choro começa a ficar a preso na garganta antes mesmo que ele diga uma palavra. — O senhor foi até o restaurante, não foi?
O velho Oswaldo solta um suspiro longo, daqueles que parecem sair do fundo da alma, antes de se puxar para a poltrona surrada ao lado da cama. Ele coloca o chapéu no joelho, junta as mãos e finalmente olha para mim. Os olhos dele estão fundos, cortados por cansaço e culpa.
— Eu assinei, Cátia.
A declaração esmaga o meu peito.
— O senhor vendeu o nosso lugar preferido no mundo... — digo, mais para mim do que para ele. Entendo os motivos de meu pai, mas machuca mesmo assim.
— Não tinha outro jeito, fia! — a voz dele falha, subindo em um tom desesperado. Ele se inclina para frente, cobrindo minhas mãos frias com as suas, quentes e ásperas. — Eles cobriram tudo, Cátia. Absolutamente tudo.
A porta do quarto se abre com um clique suave. Uma enfermeira de jaleco azul-claro entra trazendo uma bandeja de inox com meus medicamentos e o aparelho de pressão. Ela nos dá um sorriso acolhedor, mantendo a postura profissional enquanto se aproxima.
— Licença, pessoal. Só preciso checar a saturação e trocar o soro da Cátia antes do almoço — ela diz com voz branda, posicionando o oxímetro no meu indicador.
O meu pai não fala mais nada, desconfortável por expor nossa ruína diante de uma estranha. Olho para o visor do monitor, tentando desacelerar o coração que martela no peito.
— A respiração ainda está um pouco carregada, mas os pulmões estão limpando bem — a enfermeira comenta, ajustando o gotejamento do soro no suporte e anotando os dados na prancha. — Tente não se alterar muito, viu? O descanso agora é fundamental.
— Obrigado, moça — meu pai murmura, ajeitando a voz.
Ela nos oferece um aceno gentil e se retira, fechando a porta atrás de si e nos devolvendo ao abismo daquela conversa.
Aperto os lençóis de algodão cru do hospital até a junta dos meus dedos ficarem brancos.
— O que aquele homem prometeu para fazer o senhor entregar nosso patrimônio sem nem me esperar sair daqui?
— O homem de terno... o tal de Artur — ele fala o nome com um amargor estranho, quase cuspindo as sílabas. — Ele trouxe uma pasta cheia de papéis prontos. Eles vão quitar o valor integral da safra de uvas que o fogo queimou, o valor dos animais que a gente perdeu... e deram uma quantia pela terra. Uma quantia alta, fia. Mesmo com tudo queimado.
Fico em silêncio.
— É dinheiro suficiente para a gente comprar uma chácara boa perto da cidade e recomeçar — meu pai continua, com os olhos em uma mistura de alívio e dor. — Sem dever nada a ninguém. Sem o fantasma do leilão nas nossas costas.
Fecho os olhos, mas a única imagem que vem é a dos parreirais centenários virando cinza. O dinheiro realmente veio em boa hora, pode ser a aposentadoria do meu pai em um lugar tranquilo. Mas dói como se tivessem arrancado um pedaço do meu peito sem anestesia. Aquela fazenda... ver tudo virar moeda nas mãos de uma empresa de luxo da capital é uma tristeza.
Aquele lugar é para ser sentido. Você respira o ar puro, coloca os pés no riacho e toma o leite direto da ordenha. Não quero nem imaginar um hotel chique em que as pessoas admiram a vista atrás de uma parede de mármore e ar-condicionado.
Uma lágrima quente e silenciosa escapa pelo rosto. Passo a mão discretamente, sentindo a pele ainda marcada pelo estresse do acidente.
— Acabou, então... — murmuro, encarando o teto. — A nossa história lá acabou. Eles venceram.
A porta do quarto abre novamente, mas desta vez não é nenhum funcionário do hospital. É dona Vera.
Ela entra carregando uma bolsa grande de crochê e uma marmita enrolada em um pano de prato florido. A vizinha da propriedade ao lado, com seu avental de florezinhas por baixo do casaco de tricot e os cabelos tingidos de loiro claro num coque firme. O cheiro familiar de broa de milho e alecrim abrem o meu apetite, será bom comer alguma coisa diferente de sopa de abobora e gelatina verde.
— Com licença, meus amores — dona Vera diz. Ela caminha direto até meu pai, colocando uma mão carinhosa sobre o ombro curvado dele antes de se virar para mim. — Ah, minha menina... como você está? O vilarejo inteiro só rezou por você desde ontem.
— Dona Vera... tento sorrir, limpando o rosto com o dorso da mão. — A senhora não devia ter se incomodado de vir até aqui.
— Deixar vocês sozinhos num momento desse? Nunca — ela responde, assentando a bolsa sobre a mesa de apoio e olhando para o meu pai com afeto. Ele abaixa a cabeça, constrangido, mas visivelmente confortado pela presença dela. Vera dá três batidinhas nas costas dele. — Também trouxe um café para você, Oswaldo.
Meu pai pigarreia, ajeitando a postura na cadeira enquanto olha para dona Vera. O rosto dele parece corar um pouco.
Ele volta a olhar para mim, apertando a minha mão com mais firmeza, enquanto dona Vera se acomoda ao lado da cama para nos servir.
— Fia... a gente perdeu a fazenda, é verdade. Mas tem um detalhe bom nessa história toda que ainda não te contei.
CátiaEstou passando óleo na sela de Estela quando Inácio se aproxima com duas garrafas de cerveja gelada. Ele me entrega uma, senta-se ao meu lado no fardo de feno e estica as pernas.— A terra de vocês vai render, Cátia — ele diz, dando um gole demorado. — Seu pai já está com quase tudo certo para a mudança.— Graças a Deus — respondo, sentindo o alívio que essa nova chácara traz. — Vai dar trabalho no começo, mas pelo menos é um chão nosso de novo.Inácio fica em silêncio por alguns segundos. Ele apoia a garrafa entre os joelhos, vira o corpo para mim e coloca a mão na minha perna.— Cátia... eu preciso te falar uma coisa séria.Olho para ele, estranhando o tom repentino de gravidade.— Pode falar, Inácio.— Eu só voltei para cá por causa do incêndio e de você. Quando soube do galpão e do hospital, não pensei duas vezes. Mas... eu não pertenço mais a este lugar. Não pertenço mais à roça.Franzo a testa, surpresa.— Como assim não pertence? Você nasceu aqui.— Nasci, mas a minha cab
CátiaAs samambaias penduradas na varanda balançam de leve com o vento da manhã, enquanto dona Vera enxuga as mãos no avental florido, descendo os degraus de madeira para espiar a movimentação na sua propriedade.Ouvir o relincho estridente e familiar de Estela vindo do piquete dos fundos traz um alívio que quase me faz esquecer as últimas semanas de caos.A rampa do caminhão desce com um estalo metálico. Rodrigo salta da cabine vestindo jeans surrado e chapéu de palha, abrindo um sorriso largo ao me ver aproximar.— Bom dia, boiadeira! — Rodrigo acena com a mão espalmada. — Como prometido, os dois novos companheiros da fazenda chegaram em perfeito estado.— Bom dia, Rodrigo! — respondo, sentindo o peito leve pela primeira vez em muito tempo.Meu pai e Inácio saem da oficina de ferramentas ao ouvir o barulho do motor. Oswaldo ajeita o chapéu marrom na cabeça, os olhos miúdos brilhando em pura descrença ao ver o tratador descer primeiro o tordilho cicatrizado e, logo em seguida, o pot
CátiaAcordo antes mesmo do primeiro cantar do galo.Fico alguns minutos imóvel na cama, encarando o forro de madeira clara, sentindo o peito apertado. A lembrança do calor da boca de Fernand, do jeito que ele segurou meu rosto e do recuo assustado dele logo em seguida não saem da minha cabeça.Amigos.Foi o melhor a fazer. Fernand tem a vida desenhada na capital, uma noiva e um mundo ao qual eu nunca vou pertencer. Eu tenho o Inácio, meu pai e um recomeço do zero para construir. Colocar um freio ontem foi questão de respeito próprio.Levanto e lavo o rosto na água fria da pia do banheiro. Quando desço a escadaria de madeira, o aroma de café fresco e pão de queijo quentinho já toma conta da cozinha do casarão.— Bom dia, madrugadora! — Mariana me recebe com um sorriso caloroso, tirando uma assadeira fumegante do forno com um pano grosso. — Achei que a gente da capital é que acordava cedo por causa de trânsito, mas o pessoal da roça não dá trégua nem em dia de folga.— Bom dia, Mariana
FernandCátia está sentada a menos de um palmo de mim. O calor que vem do corpo dela compete com as brasas da lareira, e cada respiração que ela puxa parece roubar o pouco oxigênio que me resta. Olho para a boca dela. Os lábios estão entreabertos, avermelhados pelo vinho, e a forma como ela me encara acaba com qualquer tentativa de autocontrole.Eu passei a vida calculando riscos, prevendo cenários, assinando papéis que decidem milhões. Mas aqui, agora, não existe cálculo. Só existe ela.Deslizo a mão pelo encosto do sofá até tocar a lateral do seu pescoço. A pele de Cátia arrepia sob os meus dedos. Ela solta um suspiro baixo, e o som atinge o centro do meu peito com a força de um soco.— Fernand... — ela sussurra, mas não se afasta.Não há recuo. Não há medo. Cátia apenas sustenta o meu olhar com uma intensidade desarmante, o peito subindo e descendo rápido, acompanhando o ritmo descompassado do meu.Inclino o corpo para a frente, sentindo o ardor da respiração dela contra a minha pe
CátiaMariana encosta a cabeça de leve no ombro de Rodrigo, soltando um bocejo que tenta disfarçar com a mão. Rodrigo sorri, passando o braço ao redor dela antes de olhar para nós dois.— Pessoal, o dia foi puxado e a Mari precisa descansar da viagem — Rodrigo avisa, já apontando na direção do anexo externo. — Nós vamos subir. Tem uma lareira acesa na edícula no fim da varanda caso vocês queiram esticar a conversa mais um pouco. Tem mais vinho na adega e vocês podem ficar completamente à vontade. Já deixei os quartos de hóspedes organizados lá em cima.— Muito obrigada por tudo, Rodrigo, Mariana — agradeço, com um aceno sincero.Rodrigo e Mariana sobem as escadas de madeira, e o silêncio do casarão logo se mistura ao som da chuva que, lá fora, enfraquece até virar uma garoa mansa e contínua contra a vidraça.Fernand olha para a taça pela metade sobre o balcão e depois para mim.— Eu estou sem sono — ele diz, passando os dedos pelo nó solto da camisa. — Vou continuar tomando vinho ali
FernandRodrigo puxa a rolha da garrafa com um estalo seco e inclina o gargalo na direção da minha taça sobre a bancada de peroba-rosa.Ergo a mão espalmada, bloqueando o movimento.— Não, cara. Eu tô dirigindo. Preciso pegar a rodovia de volta para a capital ainda hoje.Rodrigo para com a garrafa suspensa no ar. Ele solta um riso curto pelo nariz e aponta o queixo para a grande janela de vidro da sala. Lá fora, o céu escureceu de vez, tingido por um cinza chumbo pesado, e os primeiros pingos grossos começam a estalar com força contra a vidraça. Um trovão surdo faz o chão vibrar sob nossos pés.— Olha lá para fora, Fernand — Rodrigo insiste, sem recolher a garrafa. — A serra tá fechando em questão de minutos. Você conhece essa estrada: meia hora dessa água e a descida vira um sabão. Descer serra no escuro com pista enlameada é loucura. Bebe, cara. Relaxa. A gente tem quarto de sobra aqui no casarão para abrigar vocês dois com todo o conforto.Cátia está encostada na bancada ao meu lad







