LOGINFernand
— O quê? — berro na minha sala — Eu não acredito, Artur.
Minha cabeça lateja e, por um momento, tenho vontade de rasgar em vários pedaços o contrato que Artur deixa na minha mesa de mogno.
Eu sabia que tinha que ter ido negociar a Fazenda Sabiá-Laranjeira junto com Artur. Não que ele seja incompetente. Bom, não totalmente. A realidade é que nossa amizade de infância pesou mais do que suas habilidades na hora de iniciarmos uma sociedade.
Caminho até a grande janela de vidro do meu escritório, encarando a vista movimentada da avenida. Respiro fundo, na esperança de dissipar a raiva que estou sentindo.
Desfaço o nó da gravata com um puxão brusco.
— Fernand, escuta — Artur diz, ajeitando o paletó de corte italiano e mantém a voz calma — Era pegar ou largar. O velho estava irredutível. Se eu não cedesse em alguns pontos, ele se levantava da mesa e preferia ir à falência a entregar a terra.
— E você deu o controle do nosso projeto para um produtor rural falido? — pergunto, virando para encará-lo. Peço uma explicação com o olhar, estapeando a folha de papel timbrado. — Você leu essa porcaria antes de assinar?
— Não dei o controle de nada! — ele rebate, erguendo as mãos. — É uma cláusula de transição temporária. Eles têm direito de opinar com ressalvas durante o levantamento do resort, nada mais.
— Opinar com ressalvas? Artur, eles têm direito a voto junto com os sócios investidores! — Passo a mão pelo rosto, sentindo o suor frio do estresse. — Como é que vou explicar para o conselho que um fazendeiro sem instrução corporativa vai sentar na mesma mesa que eles para opinar na arquitetura de um complexo hoteleiro de alto luxo?
— O voto deles é minoritário, Fernand. É simbólico! — Artur insiste, dando um passo à frente. — O homem perdeu a safra inteira no fogo, a filha estava no hospital respirando por aparelhos. Ele precisava sentir que não estava sendo atropelado pela capital.
Corro os olhos pelas linhas miúdas da terceira página, e a indignação só aumenta.
— E isso aqui? — Aponto para o parágrafo em destaque. — Até a inauguração oficial do resort, a família tem o direito de continuar morando na casa principal? Nós vamos começar as obras de infraestrutura com os antigos donos tomando café na varanda?
— A casa principal fica na divisa norte, longe do foco inicial da terraplenagem — Artur argumenta, cruzando os braços. — Não vai atrapalhar os tratores em nada.
— E o benefício vitalício? — Solto uma risada amarga, balançando a cabeça. — Uma semana por ano de hospedagem gratuita para família, desde que fora de alta temporada? O que é isso, Artur? Ação de caridade?
— É diplomacia! — ele eleva o tom de voz pela primeira vez. — O homem chorou na minha frente, Fernand! Falou da égua da estimação da filha que se perdeu na mata durante a queimada. Se a égua for encontrada nos arredores, o animal continua sendo deles e nós vamos ceder abrigo até a mudança. Você queria a terra ou não queria? Porque se eu não colocasse esses termos, a essa hora o imóvel estaria indo para leilão e o projeto do resort ficaria travado.
Fico em silêncio por longos segundos.
Artur suspira, ajeitando os punhos da camisa e recuperando a postura diplomática que costuma usar com os clientes.
— Fernand, olha a imagem geral. Nós quitamos as dívidas, pagamos a safra e os animais a preço de custo, e pegamos aquele terreno por uma fração do valor real de mercado. Essas concessões são perfumaria. Em dois anos o hotel está pronto, a transição acaba e eles vão embora com a vida resolvida.
Observo a assinatura rasurada do velho Oswaldo no rodapé da última folha. Uma caligrafia trêmula, de quem estava renunciando ao seu único patrimônio.
Suspiro.
— A transição acaba em dois anos... — murmuro, deslizando o polegar pelo papel. — Mas, até lá, a filha dele vai estar no meu pé e em cada reunião de canteiro de obras.
— A garota? — Artur dá um sorriso de canto. — Ela ainda nem sabe do contrato. Mas duvido que vá causar problemas. É só uma garota da roça recuperando o fôlego num leito do hospital.
Dois toques firmes na porta interrompem a conversa. A porta se abre e Alessandra nem precisa anunciar quem vem atrás.
Minha mãe passa pela recepção sem pedir licença. Trajando um conjunto impecável de alfaiataria num tom creme, óculos escuros no topo do cabelo alinhado.
Artur se empertiga na hora.
— Dona Rosalva... boa tarde.
Ela mal agracia Artur com um aceno rápido de cabeça, mantendo os olhos azuis e afiados fixos em mim.
— Artur, com licença. Preciso do meu filho a sós — a voz dela é suave, mas carrega a autoridade que aprendi a respeitar e temer desde criança.
Artur troca um olhar rápido comigo, recolhe os papéis sob a mesa e se esquiva pela porta, fechando-a atrás de si com um clique silencioso.
Descruzo os braços, apoiando as mãos no encosto da minha cadeira de couro.
— Mãe... o que aconteceu? O dia no escritório está caótico.
Rosalva caminha devagar até o centro da sala, tira as luvas de pelica fina das mãos e me encara com uma expressão séria, desprovida de qualquer cortesia habitual.
— Nós precisamos conversar. Agora.
FernandA mesa de centro da sala de Bianca sumiu sob bandejas de prata e caixas de veludo.Sento-me na ponta do sofá, os nós dos dedos apoiados nos joelhos. Do outro lado do tampo de mármore, Bianca separa amostras de doces com uma pinça dourada, examinando cada acabamento sob a luz do lustre.— O pâtissier francês mandou essas três opções de macarons perolados — ela diz, sem erguer os olhos. — Acho que o recheio de champanhe com pétalas de rosa harmoniza com o tom dos arranjos da entrada. O que acha?—— A Alessandra é confeiteira independente. Provei na semana passada. Um copinho de chocolate com creme cítrico e amora fresca, e outro de avelã com praliné. A textura e o equilíbrio de açúcar superam qualquer doce de catálogo.Bianca ergue as sobrancelhas. Ela solta uma risada curta, estridente, balançando a cabeça em pura incredulidade.— Confeiteira independente? Fernand, por favor! É o casamento do ano. A imprensa inteira vai cobrir a mesa de doces. Você quer que eu sirva quitute cas
CátiaO caminho até a Sabiá-Laranjeira me dá borboletas no estômago. E acho que não é só pela terra. Minha cabeça não para de pensar em Fernand.Entro na sala de jantar da sede. Duas pranchetas e um rolo de papel vegetal cobrem a mesa de cavaletes. Fernand está curvado sobre a planta, os antebraços apoiados na madeira, a manga da camisa dobrada até os cotovelos.O meu coração dá um pulo.Ele ergue os olhos quando minhas botas estalam no assoalho. A postura dele enrijece.— Cátia — ele diz, a voz baixa.— Bom dia.Artur surge pela porta da varanda, a tela do tablet acesa sob os dedos. Ele para ao lado da mesa e joga uma caneta sobre o papel.— Nove e cinco. Vamos direto ao ponto — Artur desliza o indicador pela tela. — O alvará saiu. O plano é derrubar todas as paredes internas deste bloco para abrir o lobby principal do resort.Não me mexo. Olho para Fernand.— O contrato me dá direito a voto no levantamento do patrimônio histórico.Artur bufa, revirando os olhos para o teto.— Voto c
CátiaInácio me ofereceu a fuga. Ofereceu o mar, a prancha e a promessa de uma vida sem o peso do barro. Falou com a urgência de quem descobriu a própria vocação e acreditou que me resgatava de um naufrágio.Prender Inácio à minha indecisão é covardia. Ele tem pressa de água salgada e eu tenho raízes fincadas aqui. Sei o que preciso fazer. Depois de olhar Estela por alguns instantes, chego a conclusão que é injusto prendê-lo aqui sem ser sincera com o que sinto.Cruzo a porta da cozinha. A luz da bancada projeta uma faixa amarela no corredor. No último degrau da escada externa, Inácio está sentado.— Inácio.— Perdeu o sono? — Ele sorri para mim.Desço os degraus e sento-me a dois palmos dele.— Pensei no que você falou — digo, sem rodeios. — Sobre o litoral. A seletiva.— E aí? Você vem comigo?Os olhos dele brilham com uma animação infantil.— Não vou, Inácio.— Por causa do seu pai? A gente dá um jeito, Cátia.— Não é só pelo meu pai. — Olho firme para ele. — É por nós dois. A gent
CátiaEstou passando óleo na sela de Estela quando Inácio se aproxima com duas garrafas de cerveja gelada. Ele me entrega uma, senta-se ao meu lado no fardo de feno e estica as pernas.— A terra de vocês vai render, Cátia — ele diz, dando um gole demorado. — Seu pai já está com quase tudo certo para a mudança.— Graças a Deus — respondo, sentindo o alívio que essa nova chácara traz. — Vai dar trabalho no começo, mas pelo menos é um chão nosso de novo.Inácio fica em silêncio por alguns segundos. Ele apoia a garrafa entre os joelhos, vira o corpo para mim e coloca a mão na minha perna.— Cátia... eu preciso te falar uma coisa séria.Olho para ele, estranhando o tom repentino de gravidade.— Pode falar, Inácio.— Eu só voltei para cá por causa do incêndio e de você. Quando soube do galpão e do hospital, não pensei duas vezes. Mas... eu não pertenço mais a este lugar. Não pertenço mais à roça.Franzo a testa, surpresa.— Como assim não pertence? Você nasceu aqui.— Nasci, mas a minha cab
CátiaAs samambaias penduradas na varanda balançam de leve com o vento da manhã, enquanto dona Vera enxuga as mãos no avental florido, descendo os degraus de madeira para espiar a movimentação na sua propriedade.Ouvir o relincho estridente e familiar de Estela vindo do piquete dos fundos traz um alívio que quase me faz esquecer as últimas semanas de caos.A rampa do caminhão desce com um estalo metálico. Rodrigo salta da cabine vestindo jeans surrado e chapéu de palha, abrindo um sorriso largo ao me ver aproximar.— Bom dia, boiadeira! — Rodrigo acena com a mão espalmada. — Como prometido, os dois novos companheiros da fazenda chegaram em perfeito estado.— Bom dia, Rodrigo! — respondo, sentindo o peito leve pela primeira vez em muito tempo.Meu pai e Inácio saem da oficina de ferramentas ao ouvir o barulho do motor. Oswaldo ajeita o chapéu marrom na cabeça, os olhos miúdos brilhando em pura descrença ao ver o tratador descer primeiro o tordilho cicatrizado e, logo em seguida, o pot
CátiaAcordo antes mesmo do primeiro cantar do galo.Fico alguns minutos imóvel na cama, encarando o forro de madeira clara, sentindo o peito apertado. A lembrança do calor da boca de Fernand, do jeito que ele segurou meu rosto e do recuo assustado dele logo em seguida não saem da minha cabeça.Amigos.Foi o melhor a fazer. Fernand tem a vida desenhada na capital, uma noiva e um mundo ao qual eu nunca vou pertencer. Eu tenho o Inácio, meu pai e um recomeço do zero para construir. Colocar um freio ontem foi questão de respeito próprio.Levanto e lavo o rosto na água fria da pia do banheiro. Quando desço a escadaria de madeira, o aroma de café fresco e pão de queijo quentinho já toma conta da cozinha do casarão.— Bom dia, madrugadora! — Mariana me recebe com um sorriso caloroso, tirando uma assadeira fumegante do forno com um pano grosso. — Achei que a gente da capital é que acordava cedo por causa de trânsito, mas o pessoal da roça não dá trégua nem em dia de folga.— Bom dia, Mariana







