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CAPÍTULO 3

Autor: K. F. Moura
last update Fecha de publicación: 2026-10-22 10:15:17

O despertador tocou às seis da manhã, interrompendo o pouco que restava do sono de Isabella Castillos.

Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel, olhando para o teto do pequeno apartamento. Então, a lembrança da entrevista fez seu coração acelerar.

Às oito da manhã, ela estaria na Dorman Media Group.

A simples ideia parecia absurda. Durante semanas, enviara currículos para diversas agências de publicidade, preenchera formulários intermináveis e escrevera cartas de apresentação que quase nunca recebiam resposta. Agora, pela primeira vez, alguém havia olhado para seu trabalho e enxergado potencial.

Isabella se levantou rapidamente.

Tomou um banho, preparou um café simples e conferiu pela terceira vez os documentos que levaria. Depois, ficou diante do espelho, tentando controlar o nervosismo.

Escolheu uma saia lápis azul, uma blusa de tecido acetinado branco e um blazer do mesmo tom da saia. Os sapatos pretos de salto médio completavam o visual. Seus longos cabelos castanhos estavam impecáveis, caindo em ondas suaves pelos ombros.. Ela colocou pequenos brincos dourados e passou uma última camada de batom rosado.

Seus olhos azuis a encararam pelo espelho.

— Você consegue, Isabella — sussurrou para si mesma. — Só precisa de uma oportunidade.

Pegou a bolsa, conferiu o celular e saiu.

Durante o trajeto, os minutos pareciam mais longos do que de costume. A cada minuto, ela verificava o horário, imaginando todas as perguntas que poderiam fazer durante a entrevista. Tentou repassar mentalmente os conceitos de publicidade, as estratégias de comunicação e os argumentos que utilizara na apresentação da universidade.

Quando finalmente desceu do transporte, ainda faltavam vinte minutos para as oito.

Foi então que viu o edifício.

Assim que pisou na calçada, Isabella ergueu os olhos e parou.

À sua frente, um imponente arranha-céu de vidro parecia rasgar o céu de Los Angeles. A fachada espelhada refletia a luz dourada da manhã, enquanto detalhes metálicos percorriam a estrutura com uma precisão elegante. Os andares se elevavam tanto que ela precisou inclinar a cabeça para enxergar o topo.

Na entrada, o nome DORMAN MEDIA GROUP aparecia em letras metálicas sobre uma parede de pedra escura.

Isabella sentiu a boca se entreabrir.

O prédio não era apenas grande. Era uma declaração de poder.

Carros luxuosos paravam diante da entrada, deixando executivos vestidos com ternos impecáveis. Funcionários atravessavam as portas de vidro com cafés nas mãos e celulares junto ao ouvido, enquanto seguranças discretos observavam cada movimento.

Tudo parecia funcionar com uma precisão impressionante.

Ela respirou fundo e caminhou até a entrada.

Ao atravessar as portas, sentiu como se tivesse deixado a própria realidade do lado de fora.

O saguão era enorme, com pisos de mármore claro, iluminação sofisticada e um pé-direito tão alto que sua voz provavelmente ecoaria se tentasse falar mais alto. Grandes painéis digitais exibiam campanhas publicitárias, lançamentos de marcas e produções audiovisuais realizadas pelo grupo. Um arranjo de flores brancas decorava o balcão da recepção, e o aroma suave do ambiente lembrava os hotéis de luxo que Isabella só conhecia por fotografias.

Ela apertou a alça da bolsa.

Aquele era o tipo de lugar onde pessoas construíam carreiras extraordinárias. Onde ideias se transformavam em campanhas milionárias. Onde decisões tomadas em uma sala de reunião poderiam influenciar milhares de pessoas.

E ela estava ali, tentando conseguir seu primeiro grande emprego.

— Bom dia. Posso ajudá-la? — perguntou a recepcionista.

Isabella endireitou a postura.

— Bom dia. Meu nome é Isabella Castillos. Tenho uma entrevista marcada para as oito com o senhor Ethan Walker.

A recepcionista consultou o sistema e sorriu.

— Sim, senhorita Castillos. O senhor Walker já está esperando. Pode se dirigir aos elevadores à direita. Décimo segundo andar.

— Muito obrigada.

Enquanto caminhava, Isabella sentia os nervos se misturarem à empolgação. As portas do elevador se fecharam diante dela, e os números começaram a subir.

Décimo segundo andar.

Quando saiu, encontrou um corredor elegante, com paredes de vidro e uma vista impressionante da cidade. Uma assistente a recebeu e a conduziu até uma sala de reuniões.

Ethan Walker estava perto da janela, examinando alguns documentos. Ao vê-la, abriu um sorriso cordial.

— Isabella! Fico feliz que tenha vindo. Pode se sentar.

— Obrigada pelo convite.

Ele indicou a cadeira à sua frente.

— Vou ser direto. Sua apresentação na universidade chamou bastante minha atenção. Não apenas pela criatividade, mas pela maneira como você justificou cada escolha. Você apresentou uma ideia, identificou um público e construiu uma estratégia coerente para alcançá-lo. Isso não é tão comum quanto deveria ser.

Isabella sentiu o rosto aquecer.

— Eu trabalhei bastante naquele projeto. Queria mostrar que uma boa campanha não depende apenas de uma ideia bonita, mas de entender o que as pessoas precisam e como uma marca pode se comunicar com elas.

Ethan assentiu, interessado.

— Foi exatamente isso que me chamou a atenção.

A conversa prosseguiu por quase quarenta minutos. Ele perguntou sobre sua formação, seus projetos acadêmicos, suas referências criativas e a maneira como ela lidava com prazos apertados. Isabella respondeu com sinceridade, reconhecendo que ainda tinha muito a aprender, mas deixando claro que estava disposta a trabalhar duro.

Quando a entrevista terminou, Ethan fechou a pasta.

— Gostei da nossa conversa. Seu perfil será encaminhado para a próxima etapa do processo seletivo. Ainda temos outros candidatos para avaliar, mas você começou muito bem.

Não era uma contratação.

Isabella sabia disso.

Ainda assim, saiu da sala com a sensação de que, pela primeira vez em muito tempo, uma porta estava realmente se abrindo.

No elevador, soltou o ar que nem percebera estar prendendo.

Ao chegar ao térreo, pegou o celular e enviou uma mensagem para Valentina.

“A entrevista terminou! Acho que fui bem. Não consegui a vaga ainda, mas ele gostou da minha apresentação!”

"Essa vaga já é sua!! Vamos comemorar!" A resposta veio instantaneamente como se ela já estivesse esperando notícias.

Isabella sorriu em gratidão.

---

A alguns andares acima, em uma das salas mais reservadas do edifício, Justin Dorman observava a cidade através de uma parede inteiramente revestida de vidro.

Acordara às cinco e meia, tomara café acompanhado de relatórios financeiros e chegara à empresa com uma lista de reuniões que se estendia até o fim da tarde. Para ele, aquela rotina não era uma exceção. Era a regra.

Aos olhos do mundo, Justin tinha tudo.

Era o presidente de um dos maiores conglomerados de comunicação do país, possuía imóveis em diferentes cidades, investimentos milionários e acesso a lugares que a maioria das pessoas jamais conheceria. Seu nome aparecia em revistas de negócios, e suas decisões eram acompanhadas por executivos e investidores.

Ainda assim, havia dias em que tudo aquilo parecia não significar absolutamente nada.

— A apresentação dos resultados superou as expectativas, senhor Dorman — comentou um dos diretores durante a reunião. — Sua visão estratégica foi determinante para esse crescimento.

Outro executivo concordou imediatamente.

— Sem dúvida. Poucas pessoas teriam a capacidade de conduzir uma expansão dessa magnitude.

Justin manteve a expressão impassível.

Estava acostumado aos elogios. Nessa altura do campeonato, tinha dúvidas quando era um elogio genuíno ou puro puxa-saquismo.

— Se os resultados são bons, é porque todos fizeram o trabalho pelo qual são pagos — respondeu, fechando a pasta diante de si. — Não precisamos transformar uma reunião de resultados em uma sessão de elogios.

O silêncio que se seguiu foi imediato.

Alguns executivos trocaram olhares discretos. Ninguém ousou contrariá-lo.

Justin se levantou, encerrando a reunião com um simples gesto. Sua assistente já o aguardava do lado de fora com a agenda atualizada e uma nova pilha de documentos.

— A reunião com os investidores foi antecipada para as onze e meia. Às duas, o senhor tem uma videoconferência com a equipe de Londres.

Justin limitou-se a assentir antes de entrar em seu escritório e fechar a porta atrás de si, deixando para trás os ruídos e a movimentação do lado de fora. Por alguns instantes, permaneceu imóvel, desfrutando do silêncio que tanto apreciava. Precisava de uma pausa antes de mergulhar nas exigências de mais um dia de trabalho.

Caminhou até o pequeno bar em um dos cantos da sala e pegou a garrafa de The Macallan 25 Years Old, um whisky escocês de luxo que recebera naquela manhã de um cliente importante: o presidente de um dos maiores grupos de investimentos com os quais a Dorman Media Group mantinha relações comerciais. O presente viera acompanhado de um cartão de agradecimento pela parceria, embora Justin soubesse que, no mundo dos negócios, gestos de cortesia raramente eram desprovidos de segundas intenções.

Serviu uma dose em um copo de cristal e levou-o aos lábios, apreciando o sabor antes de pousar o copo sobre o balcão. Em seguida, afrouxou discretamente o nó da gravata e soltou o ar que nem percebera estar prendendo. Era um pequeno ritual, quase automático, uma maneira de se preparar para enfrentar as horas seguintes sem permitir que nada transparecesse além do controle absoluto que todos esperavam dele.

Justin afrouxou a gravata e se sentou. Por alguns instantes, permitiu-se ficar em silêncio, observando o movimento dos carros muito abaixo e por um segundo fechou os olhos desejando simplesmente bloquear tudo ao redor, se dar o luxo de não pensar, não ouvir ninguém, não existir.

O celular vibrou, interrompendo seus pensamentos.

Helena.

Justin lançou um olhar breve para a tela. Não precisava atender para saber o motivo da ligação. Nos últimos tempos, as chamadas da esposa quase sempre seguiam o mesmo roteiro: pedidos de dinheiro, cobranças e exigências que pareciam nunca ter fim.

Com uma expressão impassível, recusou a chamada e deixou o aparelho sobre a mesa, como se aquele simples gesto fosse suficiente para afastar mais um problema.

Não era.

Alguns segundos depois, a tela se iluminou novamente com uma notificação. Justin sequer se deu ao trabalho de conferir. Levou o copo aos lábios e tomou mais um gole de whisky, tentando recuperar a tranquilidade que a ligação havia interrompido.

O celular voltou a vibrar, e Justin soltou um suspiro impaciente ao ver o nome de Helena na tela. Dessa vez, decidiu atender. Levou o aparelho ao ouvido, sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar a irritação.

— O que foi, Helena? — perguntou, em um tom frio e direto. - Já disse para você enviar os valores que você precisa direto para o financeiro.

— Eu não quero falar com o financeiro. Quero falar com o meu marido. Quero que você me acompanhe no aniversário da minha amiga no domingo.

Houve uma breve pausa. Justin apenas suspirou pensando em como dizer não, mas Helena prosseguiu:

— Você poderia, pelo menos, demonstrar algum interesse pelas coisas que faço. Parece que somos dois estranhos vivendo vidas separadas.

Justin soltou uma risada sem humor.

— Nós vivemos vidas separadas, Helena.

— Somos casados!

— No papel.

O silêncio do outro lado da linha foi pesado.

— Você sempre passa isso na minha cara!

Justin fechou os olhos por um instante, tentando ter uma paciência que ultimamente ele não estava conseguindo.

— O que você quer de mim, exatamente? - Disse entre dentes.

— Quero que você aja como meu marido. Que não me acompanhe só nos seus eventos corporativos, quero demonstre carinho e que pare de me tratar como se eu fosse uma obrigação desagradável.

Ele permaneceu calado por alguns segundos.

— Helena, eu tenho compromisso no domingo. E espero que você se conforme em porque eu estou casado com você. Faz 4 anos que estamos cumprindo esse acordo e eu não estou mais suportando suas reclamações.

— Talvez pudesse ser diferente se você tentasse.

Justin olhou para a aliança em sua mão. Era uma peça discreta, elegante e cara. Assim como quase tudo em sua vida, havia sido escolhida para cumprir uma função.

— Não vou discutir isso agora. - Justin colocou a mão no rosto em exaustão.

— Você sempre diz isso.

— E você sempre espera que eu diga o que quer ouvir.

Antes que ela respondesse, Justin encerrou a ligação.

Permaneceu olhando para a tela apagada do celular. Não sentiu alívio, apenas um cansaço profundo, como se cada conversa com Helena acrescentasse mais alguns quilos a um peso que já carregava havia anos.

Levantou-se e caminhou até a janela.

Lá embaixo, Los Angeles fervilhava. Pessoas atravessavam as ruas apressadas, carros disputavam espaço e a cidade seguia seu ritmo indiferente. Cada pessoa parecia estar correndo em direção a alguma coisa.

Justin se perguntou quando havia deixado de fazer o mesmo.

Tinha dinheiro suficiente para comprar praticamente qualquer coisa que desejasse. Podia viajar para qualquer lugar, adquirir propriedades em diferentes países ou passar semanas em hotéis luxuosos sem precisar olhar o preço de uma diária.

Mas não podia comprar sinceridade.

Não podia obrigar alguém a amá-lo de verdade.

E, apesar de estar cercado de pessoas todos os dias, raramente encontrava alguém que se aproximasse sem esperar alguma coisa em troca.

O interfone tocou, interrompendo seus pensamentos.

— Senhor Dorman, sua próxima reunião começará em dez minutos — avisou a assistente.

— Estarei lá.

Justin deu o último gole de seu Whisky, ajeitou a gravata e vestiu novamente a expressão séria que todos conheciam e se encaminhou para a sala de reuniões.

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