INICIAR SESIÓNIsabella Castillos respirou fundo diante do auditório lotado.
Passou as mãos nervosamente pela saia lápis marsala, tentando disfarçar o frio na barriga. Seus longos cabelos castanhos estavam especialmente impecáveis naquela noite, caindo em ondas suaves pelas costas. Ela havia dedicado alguns minutos extras à aparência diante do espelho, prendendo apenas uma pequena mecha atrás da orelha. A blusa de tecido acetinado em tom creme e os sapatos pretos de salto médio completavam o visual elegante, sem exageros. Seus olhos azuis, grandes e expressivos, percorriam o auditório em busca de algum rosto conhecido, enquanto seus lábios rosados se comprimiam em um sorriso nervoso. Aos vinte e poucos anos, Isabella tinha uma beleza natural, curvas delicadas e uma presença que misturava feminilidade e espontaneidade. Naquele momento, porém, estava preocupada demais com a apresentação para perceber os olhares curiosos que recebia. Naquela noite, a universidade parecia menor do que de costume, embora o auditório estivesse cheio de estudantes, professores e convidados do mercado publicitário. O projeto que apresentaria havia consumido semanas de pesquisa, noites mal dormidas e incontáveis xícaras de café. Era a oportunidade de demonstrar que, apesar da falta de experiência profissional, ela tinha talento para transformar ideias em histórias. E precisava que aquilo desse certo. Nas últimas semanas, havia enviado currículos para praticamente todas as agências de publicidade de Los Angeles. Nenhuma entrevista. Nenhuma proposta. Nem sequer uma resposta que lhe permitisse alimentar alguma esperança. O aluguel atrasado e a geladeira quase vazia continuavam esperando por uma solução. — Você vai arrasar — sussurrou Valentina, sua melhor amiga, apertando-lhe a mão antes de se sentar na primeira fileira. Isabella sorriu nervosamente. — Se eu desmaiar, finja que faz parte da apresentação. — Claro. Vou dizer que é uma performance artística inovadora. As duas riram baixinho, e Isabella sentiu a tensão diminuir. Quando seu nome foi anunciado, ela caminhou até o palco com o notebook nas mãos. Por alguns segundos, observou a plateia. Depois, encontrou Valentina e recebeu dela um sinal de positivo. Era o suficiente. Começou explicando o conceito da campanha: uma estratégia de comunicação para uma marca fictícia que precisava reconquistar consumidores em um mercado saturado de anúncios. Em vez de apostar apenas em preços e promoções, Isabella propôs uma campanha centrada em histórias reais, mostrando como os produtos poderiam fazer parte de momentos importantes na vida das pessoas. Sua apresentação combinava pesquisa de público, identidade visual, planejamento digital e uma narrativa emocional que conectava cada peça publicitária à seguinte. Conforme avançava, o nervosismo desaparecia. Ela falava com paixão, gesticulava ao explicar suas ideias e demonstrava como cada detalhe contribuía para a estratégia. Não estava apenas apresentando um trabalho acadêmico. Estava mostrando a todos o tipo de profissional que desejava se tornar. Na última tela, apareceu a frase que escolhera para encerrar: " As pessoas podem esquecer um anúncio. Mas dificilmente esquecem o que sentiram ao vê-lo." O auditório ficou em silêncio por um instante. Então vieram os aplausos. Isabella arregalou os olhos, surpresa com a reação. Seu sorriso surgiu espontaneamente, iluminando o rosto. — Muito obrigada! — agradeceu, sentindo as bochechas esquentarem. Enquanto os professores faziam algumas observações, um homem sentado no fundo do auditório fechou o caderno onde havia anotado suas impressões. Ele não era professor nem pai de algum estudante. Era um olheiro contratado pela Dorman Media Group para acompanhar apresentações universitárias e identificar novos talentos. E acabara de encontrar alguém que merecia atenção. Ao final da apresentação, Isabella recolheu seus materiais e desceu do palco. Valentina praticamente correu até ela. — Você viu a reação das pessoas? Isabella, aquilo foi incrível! — Eu achei que fosse esquecer tudo na metade! — Mas não esqueceu! Você parecia uma profissional de verdade. Isabella abraçou a amiga, rindo de felicidade. — Eu queria tanto que alguém me desse uma chance... — E vai dar certo. Você vai ver. Antes que Isabella respondesse, um homem de terno cinza se aproximou das duas. — Senhorita Castillos? Ela se virou, ainda segurando o notebook contra o peito. — Sim? — Meu nome é Ethan Walker. Trabalho com identificação de talentos para a Dorman Media Group. Assisti à sua apresentação e gostaria de conversar com você sobre uma oportunidade. Isabella piscou, certa de que havia entendido errado. — A Dorman Media Group? — Exatamente. Seu projeto chamou bastante minha atenção, principalmente pela maneira como você conectou estratégia e narrativa. Não é algo que vemos com frequência em apresentações acadêmicas. Valentina apertou discretamente o braço da amiga. — Obrigada — Isabella respondeu, tentando controlar o sorriso. — Fico muito feliz que tenha gostado. Ethan retirou um cartão do bolso e o entregou a ela. — Gostaria de convidá-la para uma entrevista amanhã, às oito horas da manhã, em nossa sede. Vamos conversar sobre uma possível vaga na equipe criativa. Isabella olhou para o cartão como se ele pudesse desaparecer a qualquer momento. — Amanhã? Às oito? — Isso mesmo. Você consegue comparecer? — Consigo! Claro que consigo! A resposta saiu tão depressa que Ethan sorriu. — Ótimo. As informações estão no cartão. Pergunte por mim na recepção. Depois de se despedir, ele se afastou para conversar com outro professor. Isabella permaneceu imóvel por alguns segundos. Então virou-se para Valentina. — VALENTINA! — EU OUVI! As duas começaram a rir, e Valentina a abraçou com tanta força que quase derrubou o notebook. — Você conseguiu uma entrevista! Na Dorman Media Group! — Eu sei! Eu não acredito! — Meu Deus, você precisa de uma roupa! E precisa dormir! E precisa parar de tremer! — Eu não estou tremendo! Valentina segurou suas mãos. — Isabella, suas mãos estão parecendo duas folhas de papel. As duas caíram na gargalhada. Mais tarde, decidiram comemorar em uma cafeteria próxima à universidade. Não pediram nada extravagante: dividiram um pedaço de bolo e dois cafés, porque nenhuma das duas estava em condições financeiras de transformar aquela noite em uma grande festa. Mas, para Isabella, parecia a comemoração mais importante de sua vida. Pela primeira vez em semanas, ela não pensava no aviso de despejo, nas contas ou no medo de fracassar. Pensava no amanhã. Na possibilidade de conseguir um emprego. De pagar o aluguel. De continuar estudando sem precisar esconder dos pais que estava passando dificuldades. Quando chegou em casa, colocou o cartão de Ethan sobre a mesa e ficou olhando para ele. Dorman Media Group. Amanhã, às oito da manhã. Sorriu sozinha. Talvez a vida finalmente estivesse começando a lhe devolver um pouco de tudo aquilo pelo qual vinha lutando. ------------------- Justin Às cinco e meia da manhã, o despertador de Justin Dorman tocou. Ele abriu os olhos imediatamente, desligou o aparelho e se levantou. Sua rotina era tão precisa que quase não precisava pensar: banho, roupa social, café preparado por seu funcionário e leitura dos relatórios recebidos durante a madrugada. A cobertura onde morava ocupava os últimos andares de um edifício luxuoso, com janelas que ofereciam uma vista privilegiada de Los Angeles. Havia obras de arte nas paredes, móveis escolhidos por decoradores renomados e uma cozinha equipada com tudo o que o dinheiro podia comprar. Ainda assim, o lugar parecia vazio. Justin tomou o café diante das janelas, observando a cidade despertar. Seu celular já acumulava mensagens, solicitações e compromissos. Às sete, chegou à empresa. Às sete e quinze, estava em uma reunião com diretores que elogiavam cada decisão sua como se ele jamais pudesse cometer um erro. Sabia que era competente. Não precisava de uma sala cheia de pessoas repetindo isso. O que realmente o incomodava era perceber quantos daqueles elogios não tinham nada a ver com respeito. Muitos queriam agradá-lo porque ele controlava promoções, contratos e salários. Outros esperavam conseguir acesso aos seus contatos ou garantir a própria posição. Poucos se atreviam a discordar dele. E, às vezes, Justin sentia falta justamente disso. Passou a manhã entre reuniões financeiras, negociações e decisões sobre investimentos. Almoçou rapidamente enquanto analisava documentos e, em seguida, recebeu uma ligação de sua esposa. Helena. — Justin, precisamos conversar — ela disse, sem sequer cumprimentá-lo. — Estou trabalhando. — Você está sempre trabalhando. Preciso que transfira dinheiro para mim. Quero comprar algumas coisas para o evento beneficente de sexta-feira. Ele fechou os olhos por um instante. — Você tem um cartão vinculado à nossa conta. — Quero um valor separado. E não seja tão frio comigo. Justin permaneceu em silêncio. Helena continuou: — Você poderia pelo menos fingir que se importa. Somos casados. — Você sabe muito bem como funciona nosso casamento. — Sei. Mas isso não significa que precise me tratar como uma desconhecida. Antes que ele respondesse, ela mudou o tom. — Venha jantar comigo hoje. Estou com saudade. Justin conhecia aquela voz. Helena não sentia saudade dele. Queria alguma coisa, e o carinho era apenas uma maneira de conseguir. — Não posso. Tenho compromissos. — Você nunca tem tempo para mim. — Helena, preciso desligar. — Espere. Você nem sequer vai me dar um beijo quando chegar em casa? — Não estarei em casa esta noite. Ela soltou um suspiro irritado. — Às vezes, acho que você não me ama nem um pouco. Justin olhou para os prédios do outro lado da janela. — Você não está enganada. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Você é um homem impossível — ela disparou antes de encerrar a ligação. Ele colocou o celular sobre a mesa. Não sentiu culpa. O casamento havia sido construído por conveniência, influência e interesses familiares. Não existia paixão, intimidade verdadeira ou sequer a vontade de dividir uma vida. Helena tinha sua própria residência, seu círculo social e liberdade para fazer o que quisesse. Justin tinha a empresa, os compromissos e uma solidão que nenhum patrimônio conseguia preencher. À tarde, vieram outras reuniões. Contratos milionários, disputas entre executivos, relatórios e decisões que afetariam centenas de funcionários. Quando finalmente deixou o escritório, já era noite. No carro, retirou o relógio e afrouxou a gravata. Estava cansado, embora soubesse que no dia seguinte tudo recomeçaria. Tinha dinheiro suficiente para comprar quase qualquer coisa. Menos uma razão para desejar voltar para casa.A sexta-feira amanheceu com uma sensação diferente para Isabella.Talvez fosse porque havia dormido com um sorriso discreto nos lábios. Ou porque, antes mesmo de abrir os olhos completamente, sua memória já havia recuperado os acontecimentos da noite anterior.O jantar com Lucas tinha sido agradável. Mais do que isso, havia sido especial.Ela ainda conseguia se lembrar da maneira como ele a olhara antes de beijá-la, como se estivesse esperando uma resposta que não precisava ser dita em voz alta. O beijo tinha sido delicado, acompanhado de uma ternura que a fizera sorrir mesmo depois de se despedirem.O celular vibrou sobre a mesa de cabeceira.Lucas."Bom dia, garota dos olhos bonitos. Espero que tenha dormido bem."Isabella sorriu e se acomodou melhor no travesseiro."Bom dia! Dormi sim. E você?"A resposta chegou quase imediatamente."Melhor do que de costume. Acho que tenho um bom motivo para isso."Ela mordeu o lábio, tentando conter o sorriso."Tenha um bom dia, Lucas.""Você tam
O relógio no computador marcava quase sete da noite quando Justin finalmente encerrou a última tarefa do dia.Levantou os olhos e percebeu que o andar executivo estava praticamente vazio. A maioria dos funcionários já havia ido embora, e o silêncio dos corredores indicava que o expediente terminara havia algum tempo.Ele fechou a pasta que estava analisando, pegou o celular e se levantou.Não tinha motivo para continuar ali.Pelo menos, não um motivo profissional.Ao sair do escritório, caminhou em direção aos elevadores. Apertou o botão para descer, mas, quando as portas se abriram, hesitou por um instante antes de entrar.O setor de criação ficava alguns andares abaixo.Justin sabia exatamente onde ficava a mesa de Isabella. Sabia também que ela já deveria ter saído para a universidade. Ainda assim, uma vontade quase impulsiva o fez mudar de direção.Quando chegou ao andar, encontrou as luzes parcialmente apagadas e as estações de trabalho vazias. Caminhou pelo corredor entre as mes
Camila estava demorando.Já fazia quase uma hora desde que ela havia sido chamada à sala do CEO, e, embora ninguém tivesse comentado abertamente, a ausência não passara despercebida.Isabella organizava alguns arquivos na tela do computador quando Daniel se aproximou da mesa dela, apoiando uma das mãos na divisória.— Você percebeu que a Camila ainda não voltou?Isabella ergueu os olhos.— Percebi. Por quê?— Porque já faz um bom tempo que ela está lá em cima. — Ele inclinou a cabeça na direção do elevador. — E, considerando que foi o próprio Senhor Dorman que a chamou, acho que não era uma conversa sobre o clima.Sophie, que acabara de chegar com uma caneca de café, ouviu o comentário e puxou a cadeira ao lado de Isabella.— Talvez ela tenha sido promovida — brincou, embora sua expressão demonstrasse pouca convicção.Daniel soltou uma risada curta.— Claro. Promovida a quê? Diretora de problemas?— Daniel! — Sophie repreendeu, segurando o riso.Isabella tentou acompanhar a brincadeir
Camila percebeu que havia algo errado assim que recebeu a mensagem da secretária de Justin Dorman.O CEO queria vê-la em sua sala.Imediatamente.Releu o aviso na tela do computador, tentando encontrar alguma indicação do motivo, mas não havia nenhuma. Apenas uma solicitação objetiva para que comparecesse ao andar executivo.Durante alguns segundos, permaneceu imóvel diante do monitor.Nas últimas semanas, fizera o possível para manter uma postura impecável. Trabalhava normalmente com Isabella, participava das reuniões e evitava qualquer comportamento que pudesse levantar suspeitas. Desde que a segurança dos dados da empresa havia sido reforçada, decidira que o melhor seria ficar quieta e observar.Talvez a investigação tivesse terminado.Talvez tivesse sido chamada por algum assunto relacionado ao novo projeto.Tentou se convencer disso enquanto se levantava.— Está tudo bem? — Daniel perguntou, percebendo sua movimentação.— O senhor Dorman quer falar comigo.— O CEO?— Sim.Daniel
No início da tarde, Justin finalmente conseguiu retornar ao escritório. A conversa com Helena ainda o incomodava. Não pelos documentos encontrados, mas pela maneira como ela parecia disposta a transformar o divórcio em uma disputa. Seu telefone vibrou. Era uma mensagem de Ethan. "Recebi sua orientação. Isabella está sendo considerada para participar de um projeto maior no próximo mês. A equipe avaliará o desempenho dela normalmente." Justin leu e respondeu apenas: "Ótimo. É assim que deve ser." Deixou o aparelho sobre a mesa. Por alguns segundos, pensou na apresentação daquela manhã. Isabella havia respondido às perguntas com segurança, sem tentar impressionar ninguém. Havia algo admirável na maneira como ela defendia as próprias ideias. Ele sorriu discretamente. Então abriu a conversa no número que havia utilizado na noite anterior. A resposta dela ainda estava lá. "Desculpe, quem está falando?" Justin passou o polegar pela tela. Poderia enviar outra mensagem. Talvez um
O celular de Justin permaneceu sobre a mesa durante alguns minutos depois que a mensagem de Helena chegou. Ele poderia ignorá-la até o fim do dia. Poderia pedir que os advogados resolvessem qualquer questão pendente. Mas conhecia a esposa o suficiente para saber que, quando Helena dizia precisar conversar, dificilmente aceitava uma resposta diferente daquela que desejava ouvir. Pegou o aparelho e digitou: — Onde? A resposta chegou quase imediatamente. — No meu apartamento. Às dez. Justin bloqueou a tela. Não gostava da ideia de começar o dia com mais uma discussão, mas precisava resolver aquela situação. Quanto mais o divórcio se prolongasse, mais difícil seria organizar a própria vida. --- Às dez em ponto, Justin chegou ao apartamento de Helena. Ela abriu a porta usando um conjunto elegante de seda clara, os cabelos loiros cuidadosamente penteados e uma expressão que misturava impaciência e satisfação por finalmente tê-lo diante de si. — Pensei que fosse mandar seu advogad







