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Capítulo 8

Author: Shirley
A chuva gelada escorria do meu cabelo até a gola como mil pequenas cobras frias.

Olhei para minhas mãos cobertas de lama e me lembrei da primeira vez que voltei à casa da família de Aiden com ele, anos atrás.

A mãe de Aiden segurou minha mão, colocou a herança da família em meu pulso e jurou:

— Elara, a Lua Negra só reconhecerá você como sua Luna.

Seus parentes e amigos juraram por suas vidas, prometendo:

— Não se preocupe, Elara. Se o Alfa algum dia ousar maltratá-la, seremos os primeiros a nos voltar contra ele.

Tudo não passou de uma mentira.

Momentos atrás, a mesma mulher que me chamava de filha, que jurou me reconhecer como Luna, entregou pessoalmente um fragmento do poder da família — a pedra lunar — para aquela vadia.

Os mesmos "irmãos" que haviam jurado me proteger agora bajulavam a amante grávida de um filho ilegítimo.

Descobri que nesse drama chamado "amor verdadeiro", a única idiota era eu.

Eles todos sabiam sobre Cassia muito antes de mim.

A dor me atingiu como um tsunami, despedaçando-me por completo. A agonia do espírito da minha loba em colapso tornou-se insuportável.

Minha visão escureceu, e eu perdi a consciência.

Quando acordei, estava na grande cama do quarto principal.

Aiden rugia para os curandeiros da alcateia em voz baixa:

— Ela está inconsciente há três dias! Qual utilidade vocês têm?

— Alfa, a condição da senhorita Elara se deve a danos no espírito do lobo causados por um coração partido. Remédios não vão funcionar...

— Saiam! Todos vocês, saiam!

Com o som de vidro estilhaçando, o quarto mergulhou no silêncio.

A respiração pesada de Aiden se aproximou.

Um par de mãos ardentes segurou as minhas frias, e um fluxo contínuo de energia Alfa tentou forçar entrada em meu corpo.

— Elara, por favor... não me assuste.

Sua voz tremia com um pânico quase patológico.

— Melhore logo. Se você melhorar, eu te dou qualquer coisa que quiser.

Você quer me salvar, mas você é o veneno.

Sua energia está impregnada com o cheiro dela. Forçá-la para dentro de mim só vai me deixar mais doente.

Eu não queria abrir os olhos. Não queria ver seu rosto hipócrita e devoto.

Tarde da noite, finalmente recuperei um pouco de força, mas meu corpo parecia desmontado, e eu ainda não conseguia me mover.

De repente, uma comoção estourou do lado de fora da porta.

— Sai da minha frente! Não bloqueie o caminho.

Era a voz de Cassia.

O rosnado contido de Aiden veio em seguida:

— Eu não disse para você ficar longe do quarto principal enquanto eu cuido de Elara?

— Mas, Aiden...

A voz de Cassia suavizou instantaneamente, carregada de uma sedução insinuante:

— O bebê sente falta do papai. E... eu trouxe um "lanchinho da meia-noite". Você não quer provar?

Depois disso, tudo o que ouvi foram o farfalhar de roupas e respirações pesadas.

— Por que você está vestida assim?

Cassia soltou uma risada baixa e ofegante, capaz de fazer as pernas de alguém fraquejarem.

— Você não gosta?

— Está tão frio lá fora, a chuva está tão forte... Aiden, me deixa entrar para me aquecer, por favor?

Apertei os lençóis sob mim.

Não entre.

Aiden, esta é a nossa cama de casal. Por favor, se você ainda tiver um resquício de humanidade...

Creeeak.

Mas a porta foi empurrada mesmo assim.

Mesmo de olhos fechados, eu podia sentir aquela presença enjoativa e úmida invadir o quarto.

Não ousei me mover, apenas espiei por uma fresta estreita entre as pálpebras, na direção da janela de vidro do chão ao teto.

Um relâmpago rasgou o céu noturno, iluminando o reflexo no vidro.

Duas figuras entrelaçadas, bem no sofá de encosto longo ao pé da minha cama, rolavam juntas com impaciência.

— Com cuidado... não acorde sua Luna... — Cassia abaixou a voz de propósito, mas isso só a tornou mais clara enquanto perfurava meus ouvidos.

— Cala a boca... sua sereia...

Aiden havia perdido completamente o controle.

A chuva ficou mais pesada, tamborilando no vidro. Uma corrente de ar gelado infiltrou-se pela vedação defeituosa da janela, atravessando meus ossos e deixando meu coração ainda mais frio.

Na manhã seguinte.

Eu estava acordada. Viva, mas minha alma estava morta.

Envolta num cobertor grosso de cashmere, eu estava encolhida na espreguiçadeira do balcão, olhando para o jardim recém-lavado pela chuva, com um olhar totalmente vazio.

Em forte contraste com a minha calma, os olhos de Aiden estavam cheios de preocupação e pânico.

Desde que eu acordara, quase não havia comido nada. Não importava o quanto ele insistisse, eu permanecia indiferente.

Tigelas de caldo nutritivo eram trocadas uma após a outra, mas eu permanecia na mesma posição, sem sequer olhar para ele.

Aiden estava em pânico. A cerimônia da Luna seria amanhã, e eu ainda estava tão apática.

O desespero apertou seu coração. Ele lutou para conter a inquietação, ajoelhou-se diante de mim e implorou:

— Elara, por favor, coma alguma coisa. Eu sei que você não tem apetite porque está doente, mas sua saúde é importante.

— A coroação é amanhã. Todos os líderes das alcateias já chegaram. Como você vai comparecer assim?

— Se algo der errado, se esse último passo for arruinado... a minha alma como Alfa vai se despedaçar!

Eu virei a cabeça lentamente para olhá-lo.

Olhar para ele.

Este era o Alfa que eu havia amado por dez anos.

Eu estava prestes a morrer, e tudo com que ele se preocupava era com seu orgulho e sua alma de Alfa.

— Aiden.

Finalmente falei, minha voz saiu num sussurro áspero:

— Eu quero ir às cachoeiras da Deusa da Lua.

Era o lugar onde confessamos nosso amor.

E o lugar mais apropriado para enterrá-lo por completo.
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