FAZER LOGINQuase quarenta quilômetros separavam a mansão do terror da estrada onde um veículo tinha parado de existir como carro.Sob a chuva, o sedã de luxo estava tombado na ribanceira, de rodas para o alto, com a lataria aberta em vincos violentos e o motor soltando fios finos de fumaça que a água não apagava de todo. O asfalto acima permanecia vazio. Sem poste aceso. Sem tráfego constante. Sem testemunha.Dentro da cabine destruída, Vanessa ainda respirava.Pouco. Com dificuldade. Cada entrada de ar parecia raspar por dentro antes de alcançar os pulmões.O sangue escorria da testa e desaparecia pela lateral do rosto. Uma das pernas seguia presa entre ferragens dobradas. O ombro estava numa posição errada. A consciência ia e voltava em golpes curtos, sem estabilidade suficiente para mantê-la desperta por muito tempo.Ninguém na festa sentira falta dela. Ninguém no conglomerado ainda percebera sua ausência.Vanessa se quer chegou a participar da cerimonia inicial. Saiu de casa. Às p
A porta blindada isolava tudo.Tiros. Gritos. Motores. Nada atravessava o aço.Dentro do bunker, o silêncio não trazia alívio. Só fazia o tempo pesar mais.Endrick permaneceu diante do painel, os olhos alternando entre os monitores e a estrutura técnica do sistema.— Se tentarem romper essa entrada com carga pesada, comprometem a estrutura acima. Quem planejou o ataque conhece a casa. Sabe que o bunker não foi feito para ser tomado por fora. Essa porta só abre se alguém daqui liberar.Orestes ouviu em silêncio.Ainda estava sentado, mas já não parecia um homem acostumado a ocupar a cabeceira de nada. As mãos continuavam manchadas com o sangue do irmão. Ele as olhava de vez em quando, como se não reconhecesse nem aquilo.Então ergueu o rosto para a tela morta do sistema de comunicação externa.— A transmissão caiu no momento certo.A voz ainda saía irregular, mas agora tentava recuperar encadeamento.— O apagão na área da mata interrompeu o sinal de fora. Os geradores da mansão su
A cozinha industrial da mansão já não parecia parte da festa.O inox refletia apenas luz de emergência. Panelas estavam no chão. Bandejas tombadas. Pratos quebrados. Cheiro de gordura, gás e comida esquecida no fogo.Garçons e cozinheiros se encolhiam atrás de bancadas e fogões industriais, sem saber se o pior vinha do salão ou dos jardins. Lá fora, as rajadas ainda cortavam a noite em intervalos irregulares. Cada sequência fazia a estrutura vibrar de leve.Yann entrou primeiro.Arma em punho. Passo baixo. Olhos correndo pela cozinha, pelas portas laterais, pelos acessos de serviço.Logo atrás vinha Endrick, quase arrastando Orestes. O pai já não mantinha a postura de minutos antes. O terno estava manchado. A respiração saía curta. Os pés falhavam nas mudanças de direção.Aurora fechava o grupo.A barra do vestido, pesada de sangue e sujeira, prendia seus movimentos. Ela segurou o tecido com uma mão, puxou para o lado e rasgou o que atrapalhava. Deixou a seda no chão e co
A mesa principal ocupava o centro do salão como um altar caro demais para admitir ruína.Mogno escuro. Prata polida. Cristal fino. Vinte e quatro lugares reservados para o núcleo do império Brahzão e para os nomes que orbitavam seu poder mais de perto.Ao redor, espalhadas pelo salão, as outras mesas acomodavam o restante dos convidados. Quinhentas pessoas. Risos contidos. Taças erguidas. Perfumes densos. Conversas feitas de favores, cálculo e aparência.Na cabeceira, Orestes.Postura intacta. Tom seguro. A presença de quem passara a vida inteira exigindo que o mundo se organizasse ao seu redor.À direita dele, Thenório já bebia como se a noite fosse dele. Cada dose parecia ampliar alguma coisa que nele nunca estivera realmente sob controle. A insolência. O prazer de ser temido. A convicção de que ninguém ali teria coragem de tocá-lo.Do outro lado da mesa, Endrick e Aurora mantinham a encenação.Os noivos. Os rostos da celebração. A imagem que a noite precisava.Mas, p
O salão principal da mansão Brahzão brilhava como se o excesso pudesse comprar inocência.Lustres de cristal desciam do teto em camadas de luz. O mármore claro refletia ouro, vidro e perfume caro. Garçons passavam em silêncio com bandejas de prata, taças altas e mãos treinadas para não tremer. Champanhe raro. Caviar. Carnes nobres. Louça importada. Uma fortuna servida em pequenas porções, como se luxo bastasse para disfarçar a podridão da mesa.Quinhentas pessoas ocupavam o salão.Juízes. Promotores. Delegados. Governadores. Prefeitos. Empresários. Mulheres cobertas de joias. Homens que sorriam enquanto negociavam proteção mútua com um toque no ombro e uma frase dita baixo demais para ser gravada.Naquela noite, o poder circulava de smoking.No centro de tudo, Orestes.Recebia cumprimentos com a segurança de quem construíra aquele império tijolo por tijolo e enterrara gente o bastante no caminho para não admitir fissuras diante de ninguém. Para as câmeras autorizadas, er
Os três dias seguintes passaram... Não por calma. Por pressão.A mansão virou vitrine. Costureiras. Maquiadores. Assessores. Cerimonialistas. Seguranças. Uma circulação incessante de gente treinada para construir beleza sobre o caos.Aurora e Endrick fizeram o que Orestes exigiu. Sorriram quando havia olhos sobre eles. Caminharam juntos pelos corredores da sede do conglomerado. Posaram para fotógrafos discretos. Assinaram papéis. Apareceram.O noivado repentino já corria nos bastidores do mercado. Havia analistas tentando vender aquilo como estabilidade. Colunistas chamando de romance improvável. Investidores fingindo acreditar.Na prática, o casamento servia para uma coisa só: abafar ruídos. Proteger o nome Brahzão. E impedir que qualquer escândalo ligado a Endrick ou Thenório atravessasse a superfície antes da hora.O prédio central do grupo ocupava os últimos andares de uma torre espelhada no centro financeiro. Se a mansão era o território de Orestes e a boate o







