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Capítulo 4

Author: Michelle
Todos me consideravam sensata.

Todos acreditavam que eu jamais seria capaz de deixar Adrian.

Por isso, podiam entregar meu casamento a outra pessoa. Podiam entregar meu vestido, e até o refúgio que deveria se tornar meu lar podia ser cedido.

Na manhã seguinte, Adrian me enviou uma mensagem:

[Nico disse que você foi à Casa Southbank ontem à noite.

Livia só vai ficar lá por algum tempo. Você não precisa se irritar por causa disso.]

Alguns minutos depois, outra mensagem chegou:

[Estou livre esta manhã.

Não combinamos de visitar a Sra. Bellamy depois do casamento?]

A Sra. Bellamy foi minha primeira professora no Ateliê Vale.

Sete anos atrás, foi a primeira pessoa a me dizer que eu deveria parar de consertar os vestidos de outras mulheres e começar a assinar minhas próprias criações.

Ela gostava de Adrian.

Costumava dizer que um homem disposto a esperar do lado de fora do meu ateliê até a meia-noite não podia ser completamente insensível.

Olhei para a tela, mas não respondi. Mesmo assim, troquei de roupa e fui até a oficina dela.

Não para dar outra chance a Adrian, mas para dar aos nossos sete anos um encerramento digno.

Às nove horas, sentei-me diante da Sra. Bellamy.

Ela preparou chá e scones. Ao lado da bandeja, havia uma caixa de presente estreita.

— Onde está Adrian?

— Provavelmente preso no trânsito.

A Sra. Bellamy sorriu.

— Na primeira vez que ele veio aqui com você, parecia uma arma carregada prestes a disparar. Pensei que você tivesse perdido o juízo ao se apaixonar por um homem daqueles.

Ela ajustou os óculos.

— Então eu o vi esperar do lado de fora por quatro horas. Quando você desceu, ele colocou o próprio casaco sobre seus ombros e a acompanhou até o carro debaixo da chuva.

— Foi nesse momento que pensei que talvez esse Don tivesse coração.

Baixei os olhos.

Às nove e meia, Adrian continuava ausente.

Às dez, ele finalmente ligou.

Ouvi trovões ao fundo, além do choro de Livia.

— Elena, você está aí?

— Estou.

— Desculpe. Livia tem pavor de tempestades. Começou a trovejar há alguns minutos, e ela se trancou no banheiro.

Sua voz estava tensa.

— Não posso sair agora. Peça desculpas à Sra. Bellamy por mim. Vamos visitá-la juntos da próxima vez.

Não respondi.

Do outro lado da linha, Livia soluçou o nome dele.

— Adrian, estou com medo...

— Estou aqui.

A voz dele se suavizou imediatamente, então, voltou a falar comigo:

— Elena, não complique as coisas agora. Livia está instável. Não consigo pensar em mais nada neste momento.

A ligação terminou.

A Sra. Bellamy olhou para mim.

— O que aconteceu, querida?

Segurei a xícara de chá, mas as lágrimas não paravam de cair.

— Sra. Bellamy, eu não quero mais Adrian.

Ela não perguntou o motivo, apenas empurrou a caixa de presente em minha direção.

Dentro, havia uma velha tesoura de costura. O cabo estava gasto e liso pelo uso, mas as lâminas permaneciam afiadas.

— Eu usava esta tesoura quando era jovem. Pretendia entregá-la a você depois do casamento. — Contou ela.

Fechei a caixa.

— A senhora ainda pode.

Depois de sair da oficina da Sra. Bellamy, não voltei ao Ateliê Vale.

Fui para a estação.

Três dias antes, recebi um e-mail de uma oficina de tingimento natural em Santa Fé. A mensagem confirmava minha aceitação em um programa de residência e informava que um quarto e uma mesa de trabalho temporária já me esperavam.

Quando recebi o e-mail, ainda estava indecisa se deveria ir.

Agora, não restava mais nada a decidir.

Enquanto esperava o trem, abri o grupo da família.

Adrian publicou um vídeo.

Livia estava sentada no sofá da Casa Southbank, enrolada em um cobertor de lã e segurando uma xícara de leite quente.

Adrian estava sentado atrás dela, secando seus cabelos.

Na legenda, ele escreveu:

[Cuidando de uma paciente. Espero que a tempestade passe logo.]

Vários parentes curtiram a publicação.

Minha mãe comentou:

[Adrian é um bom homem. Podemos confiar Livia aos cuidados dele.]

Minha tia acrescentou:

[É isso que significa ser uma família.]

Li aquelas palavras e saí do grupo. Depois, apaguei Adrian dos meus contatos e bloqueei todos os meus parentes.

Por fim, tirei o chip do celular e o joguei no lixo.

O embarque foi anunciado. Carregando uma única mala, segui para a plataforma.

Às oito horas daquela noite, Adrian finalmente deixou Livia e foi ao Ateliê Vale. Ele carregava uma caixa com um bolo de avelã.

Antes, aquela era minha sobremesa favorita.

Adrian abriu a porta.

— Elena, vim pedir desculpas.

O ateliê estava vazio.

Os croquis do casamento não estavam mais nas paredes. Metade dos armários permanecia aberta. Sobre a mesa, restava apenas um rascunho rasgado do brasão da águia negra.

Adrian parou na entrada.

A caixa de bolo desceu lentamente em sua mão.
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