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Finalmente formada

last update Tanggal publikasi: 2026-08-25 22:58:21

No dia seguinte, mal entrei na cantina da Nexus para o lanche das 10h e já vi a confusão. A Rosa, a Suelen e a Cida estavam reunidas com mais umas quatro meninas da limpeza, todas inclinadas sobre o celular da Suelen.

— Olha ela aí! A documentarista da praça! — gritou a Suelen quando me viu.

O vídeo que eu tinha mandado já tinha mais de quarenta visualizações no grupo. Elas colocaram no volume máximo e todo mundo começou a rir de novo. Eu não consegui me segurar e ri junto.

— Meninas, pelo amor de Deus, para de passar isso! — falei, limpando as lágrimas dos olhos.

— Impossível! — disse a Rosa. — Olha o jeito que ele brande o cabo de vassoura! Parece o Obi-Wan Kenobi do asfalto.

A Cida bateu na mesa, rindo:

— Já temos o apelido dele: Sir Vassoura, o Cavaleiro da Praça Molhada.

— Perfeito! — completei, ainda rindo. — Sir Vassoura, Defensor dos Bancos de Concreto e Terror dos Mendigos Rivais.

A cantina inteira do turno da limpeza estava em polvorosa. Até a supervisora passou e perguntou o que era tanta graça. A Suelen mostrou o vídeo de novo. A mulher tentou ficar séria, mas acabou rindo junto.

O resto do dia passou entre piadas com “Sir Vassoura” e imitações dele lutando com o cabo de vassoura.

...

À noite, finalmente chegou o grande dia. Entrei no auditório da faculdade simples, de jeans e blusa básica. Não tinha família para aplaudir, nem amigos próximos. Só eu, meu nome sendo chamado e uma foto rápida com o diploma na mão.

Formada em Economia.

Não fiz festa. Não tinha com quem comemorar. Peguei o canudo, agradeci à coordenadora e voltei para casa.

Enquanto dirigia, fiquei olhando pela janela pensando na minha vida. Meus pais morreram num acidente de carro quando eu tinha sete anos. Depois disso, passei por quatro lares adotivos diferentes. No primeiro, a mãe adotiva me batia com o cinto quando eu chorava à noite. No segundo, o marido dela me olhava de um jeito que me dava medo, então fugi com doze anos. O terceiro lar era melhor, mas a mulher tinha depressão e mal conseguia cuidar de si mesma. O quarto foi o pior: prometeram que seria o definitivo, mas aos dezesseis me colocaram na rua quando completei a maioridade. Desde então, eu me viro sozinha. Trabalho, estudo, pago as contas. Sobrevivo.

Cheguei em casa, tomei um banho e estava quase deitando quando ouvi as batidas na porta.

Três toques. Já sabia quem era.

Abri uma fresta. Draven estava lá, com a mesma roupa suja, o cheiro forte o suficiente para eu quase dar um passo para trás.

— Lorena… desculpa incomodar de novo. Tá tendo alguma coisinha pra comer? — pediu, voz baixa.

— Espera aí na porta, por favor — respondi, sem disfarçar o incômodo.

Fechei a porta e fui rápido para a cozinha. O cheiro era intenso: uma mistura de suor velho, umidade e rua. Preparei uma marmita com arroz, feijão, ovo frito e um pedaço de linguiça que tinha. Quando voltei, ele ainda estava esperando.

Abri a porta um pouco mais e entreguei a marmita.

— Toma. E por favor, não fica batendo toda noite. Eu moro sozinha e fico assustada.

Ele pegou a marmita com as duas mãos, olhando para o chão.

— Desculpa, Lorena… eu não queria te assustar. É que você foi a única pessoa que me ajudou esses dias. Prometo que não vou vir sempre. Obrigado mesmo.

— Tá bom. Boa noite, Draven.

Ele assentiu, envergonhado, e saiu. Em vez de ir embora, sentou no degrau da minha porta e começou a comer ali mesmo. Fechei a porta, passei a tranca e fui dormir.

...

No dia seguinte, quando abri a porta para ir trabalhar, quase tropecei. Draven estava deitado atravessado bem na frente da minha porta, dormindo pesado, enrolado no cobertor sujo. Bloqueava completamente a passagem.

— Ei… acorda — chamei. Nada.

Cutuquei ele com o pé. Nada.

Perdi a paciência e dei um chute leve no ombro dele.

— Acorda, Sir Vassoura! Vai bloquear a porta dos outros!

Ele resmungou qualquer coisa, mas não acordou. Continuei:

— Meu Deus, o cavaleiro da praça agora virou o tapete da entrada. Levanta, homem!

Ele nem se mexeu. Balancei a cabeça, rindo sozinha da situação absurda, pisei por cima dele com cuidado e fui para o meu carro velho. Liguei o motor e segui para mais um dia de trabalho na Nexus.

...

No dia seguinte, decidi arriscar. Imprimi meu currículo novo, bem caprichado, com o diploma fresquinho de Economia e entreguei na recepção do RH da Nexus Tech, pedindo para concorrer a alguma vaga júnior na área financeira ou de análise de dados.

A moça do RH, uma mulher bem arrumada de uns trinta e cinco anos, olhou para o meu uniforme de faxineira, depois para o currículo e soltou uma risadinha baixa.

— Ah, querida… você é da limpeza, né? — perguntou, sem nem tentar disfarçar o tom.

— Sou, mas acabei de me formar em Economia — respondi calmamente.

Ela trocou olhares com a colega ao lado e as duas deram um sorrisinho.

— Olha, vamos deixar aqui… mas sinceramente, não sei se vão considerar. O perfil que procuramos é um pouco diferente. Você entende, né?

A humilhação foi clara. Senti o rosto esquentar, mas respirei fundo. Já fui humilhada tantas vezes na vida — lares adotivos, ruas, chefes abusivos — que isso nem doía mais. Só dei de ombros.

— Tudo bem. Obrigada mesmo assim — respondi, virando as costas e voltando para o carrinho de limpeza.

As meninas até tentaram me consolar na hora do lanche, mas eu disse que estava tudo bem. E estava mesmo. Eu já esperava.

...

Cheguei em casa mais cedo que o normal, por volta das 17h, porque não tinha mais aula. Quando parei na porta, lá estava ele de novo: Draven, Sir Vassoura, dormindo atravessado bem na frente da minha entrada, roncando baixinho.

A irritação subiu rápido.

— Ei! Acorda! — chamei alto, cutucando ele com o pé.

Nada.

Bati palma duas vezes. Ele só resmungou e virou pro outro lado.

— Tá de brincadeira… — resmunguei.

Entrei em casa bufando, peguei um copo grande de água da geladeira e voltei para fora. Sem dó, joguei a água fria direto na cara dele.

Draven acordou assustado, cuspindo e piscando rápido.

— Que que foi?! — perguntou, confuso, passando a mão no rosto molhado.

— Sai da minha porta, Draven! Todo dia a mesma coisa? Eu já te ajudei, mas você não pode ficar aqui atrapalhando a passagem da minha casa!

Ele se sentou rápido, envergonhado, olhando para o chão.

— Desculpa… eu não percebi que dormi aqui. Tava muito cansado ontem. Não vai acontecer de novo, prometo.

— Tá bom. Agora vai, por favor.

Ele se levantou devagar, pegou o cobertor molhado e saiu arrastando os pés. Entrei, bati a porta e tranquei.

...

À noite, finalmente relaxei. Fiz brigadeiro na panela, coloquei bastante chocolate, e me joguei no sofá com o notebook. Abri minha série favorita: The Office.

Ri sozinha o tempo inteiro. Michael Scott fazendo alguma palhaçada, Dwight sendo Dwight, Jim olhando pra câmera… cada cena absurda me fazia dar gargalhada alta, principalmente enquanto enfiava colheradas generosas de brigadeiro na boca direto da panela. Por alguns minutos, esqueci o cansaço, o RH, a humilhação do dia e o mendigo na porta.

Quando terminei de assistir dois episódios, a curiosidade bateu. Abri o I*******m e comecei a pesquisar sobre o dono da Nexus Tech. Nada. Nenhum perfil, nenhuma foto, nenhum nome completo. Só aparecia “Fundador e CEO” em matérias antigas, sempre com imagens desfocadas ou silhuetas. A irmã dele, Beatriz, era quem dava entrevistas e aparecia em eventos.

Fiquei rolando os comentários de uma matéria recente. As pessoas especulavam de tudo: que ele era recluso, que morava fora do país, que tinha fobia social… Ninguém sabia quem era de verdade.

Deixei o celular cair no peito e murmurei:

— Deve ser um abestado… rico, preguiçoso e se achando misterioso. Enquanto isso a gente aqui se fudendo pra pagar conta.

Apaguei a luz, ainda com gosto de brigadeiro na boca, e adormeci pensando que, pelo menos, amanhã seria outro dia.

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