LOGIN-Para de se mexer. -Ele guardou o celular no bolso interno do paletó.
-Eu não estou me mexendo. -Ela mentiu, cruzando os braços.
Arthur suspirou. Um som curto e cansado. Ele deu um passo para a esquerda e passou o braço pela cintura dela. A mão grande e quente dele apertou a pele nua das costas de Elena pelo recorte do vestido. O choque térmico a fez prender a respiração.
-Respire. -A voz dele saiu baixa, bem perto do ouvido dela. - E sorria. O show começou.
As portas de metal se abriram.
O barulho atingiu Elena como um soco no peito. Era uma mistura caótica de conversas altas, música de jazz tocada ao vivo por uma banda no canto, o som constante de taças de cristal batendo umas nas outras e o clique rápido de dezenas de câmeras. O salão principal do edifício tinha sido transformado. Lustres imensos de cristal refletiam a luz quente em arranjos enormes de orquídeas brancas espalhados pelas mesas. O cheiro de perfumes caros, rosas, âmbar, tabaco doce, enchia cada espaço no ar, tornando a respiração difícil.
Os fotógrafos se aglomeravam detrás de uma corda grossa de veludo vermelho logo na entrada. Quando viram Arthur, os flashes dispararam ao mesmo tempo, eram muitos e cegavam.
Elena piscou várias vezes, os olhos ardendo pela luz forte. Ela recuou meio passo por puro instinto de fuga.
Arthur não deixou. Os dedos dele apertaram a cintura dela com mais força, afundando na pele, e ele a puxou em direção ao próprio corpo. O quadril dela bateu contra a coxa dele.
-Queixo para cima. Não olhe para o chão. - Ele murmurou, o sorriso perfeito e ensaiado nos lábios não mudando nada na expressão fria dos olhos dele.
Eles caminharam pelo longo tapete vermelho de entrada. Jornalistas se empurravam e gritavam perguntas uma em cima da outra, tentando chamar a atenção do bilionário.
-Sr. Sterling, quando exatamente foi o pedido de casamento?
-Elena, vocês planejam se casar em Nova York ou na Europa?
Arthur parou de andar por dois segundos. Ele olhou para Elena, tocou o rosto dela com a mão livre, fingindo afastar uma mecha de cabelo que nem estava fora do lugar, e virou o rosto para as câmeras com um sorriso.
-O pedido foi particular e apenas entre nós. Assim como a nossa vida será daqui para a frente. Com licença.
Ele levou ela para longe dos repórteres, entrando no meio dos convidados. Pessoas de terno sobre medida e vestidos longos bordados abriram espaço no salão. Alguns sorriam e acenavam com a cabeça, outros sussurravam cobrindo a boca com as mãos e olhando diretamente para o colar no pescoço de Elena.
Ela sentia as pernas doloridas. O salto agulha fino demais começava a machucar o calcanhar a cada passo que dava.
-Você foi bem. - Arthur murmurou. Ele pegou duas taças finas de champanhe da bandeja de prata de um garçom que passava apressado. Ele entregou uma taça a ela. - Beba. Vai ajudar a relaxar os seus ombros. Você está dura como uma estátua.
Ela deu um gole rápido. O líquido dourado e gelado desceu rasgando pela garganta seca.
-Arthur! - Um homem bem mais velho, com o rosto vermelho, cabelos brancos e um charuto apagado entre os dedos grossos, acenou do outro lado do salão, perto das janelas.
Arthur travou o maxilar. O músculo no rosto dele saltou.
-É o Richard Hayes. Principal acionista do conglomerado europeu. Eu preciso falar com ele agora. É urgente.
-E eu? - Elena segurou a taça de cristal com força, o pânico subindo pelo estômago.
-Fique aqui. Perto do bar de gelo. Não fale com os jornalistas em hipótese nenhuma. Não beba mais do que essa taça. Eu volto em dois minutos, no máximo.
Arthur soltou a cintura dela. O frio do ar-condicionado do salão bateu direto na pele molhada de suor das costas de Elena onde a mão dele estava antes. Ele se afastou com passos largos, sumindo rápido no meio dos ternos escuros e conversas animadas.
Elena ficou sozinha. Ela encostou o quadril na borda fria do balcão iluminado, observando o salão em movimento. As mulheres usavam joias pesadas que brilhavam sobre os lustres. Os homens discutiam números, ações e política aos sussurros com os copos de uísque nas mãos.
Ela não pertencia àquilo. E, a julgar pelos olhares disfarçados que recebia, todo mundo ali sabia disso.
-Eu apostei trezentos dólares com o meu pai que você usaria vermelho. Mas verde também é uma boa cor para o desespero. Combina com você.
A voz fina, suave e um pouco anasalada veio da direita.
Elena virou a cabeça. Uma mulher alta parou ao lado dela. Ela era loira, usava um vestido prateado colado ao corpo que parecia feito de metal líquido e segurava uma taça de martini. O sorriso dela era afiado, falso, mostrando dentes brancos e perfeitamente alinhados.
-Desculpe, eu conheço você? - Elena perguntou. Ela manteve a voz neutra e reta.
A mulher soltou uma risada curta pelo nariz.
-Chloe Vance. Meu pai faz parte do conselho da Sterling Enterprises. E eu conheço o Arthur desde que tínhamos quinze anos de idade. Nós frequentamos os mesmos clubes no verão.
Chloe deu um gole no martini, olhando Elena de cima a baixo sem disfarçar o desgosto. O olhar dela parou e demorou no colar de esmeraldas.
-É uma joia muito bonita. A coleção de inverno do ano passado da Cartier, se não me engano. Ele comprou isso para a última namorada usar em um evento em Paris, mas acho que ela reclamou do peso no pescoço. O Arthur sempre reaproveita presentes quando não tem tempo para comprar um novo.
Thomas deu mais dois choros curtos, soluçou uma vez, encostou a bochecha gordinha e quente no pescoço de Maya... e parou. O silêncio que se instalou na sala foi tanto que o barulho do motor da geladeira lá na cozinha pareceu um trovão. Leo ficou paralisado. Ele olhou para a esposa. Olhou para o filho. Olhou para o tablet. - O que você fez? - Ele sussurrou, horrorizado. - O que você acabou de fazer? Qual foi a variável que você alterou? - Eu não alterei nada, Leo - Maya riu baixo, fazendo um balanço suave com o quadril. - Ele só estava com calor e queria um abraço de verdade, sem você segurar ele como se ele fosse um vaso de cristal caro que vai quebrar se você apertar. - Eu não estava segurando ele como um vaso! Eu estava mantendo a postura ergonômica recomendada no capítulo quatro do guia de pediatria! - Você parecia um robô de fábrica tentando segurar um passarinho, Leo. Você estava tão tenso que o coitado do menino estava absorvendo o seu pânico. Leo piscou. Ele olhou
- Thomas, escuta o meu raciocínio. Por favor. Só escuta por um minuto. Leo estava em pé no meio da sala de estar, descalço. Nos braços, ele segurava um bebê de três meses que parecia ter a capacidade pulmonar de um tenor profissional. O pequeno Thomas Sterling estava vermelho como um pimentão, com os dois punhos fechados perto do rosto, berrando em um tom contínuo. - A mamadeira foi servida em exatamente trinta e seis vírgula cinco graus Celsius - Leo dizia, mantendo um balanço ritmado. - A fralda foi trocada há dezoito minutos. Não há assaduras. A temperatura do ambiente está fixada em vinte e três graus pelo ar-condicionado. A umidade relativa do ar é de cinquenta e cinco por cento. Thomas, estatisticamente falando, você não tem nenhum motivo para estar chorando. O bebê deu uma pausa de meio segundo para puxar o ar e soltou um grito ainda mais agudo. - Tudo bem. Tudo bem. Vamos revisar as variáveis - Leo murmurou para si mesmo, os olhos esbugalhados focados no tablet pos
- O gato tentou me roubar dois parafusos mais cedo. - Ele comentou, a voz mais calma. - Tive que perseguir o Bug até a cozinha. - O Bug está só tentando garantir que o berço não seja montado, porque ele sabe que vai perder o posto de único ser desta casa que recebe atenção sem fazer nada. - Ela riu, tomando um gole de água. Leo terminou de comer, limpou as mãos na calça de moletom e olhou para Maya. A luz do final da tarde entrava pela janela do quarto, iluminando os fios soltos do cabelo dela e a curva suave da barriga. Ele engoliu em seco, arrastando-se pelo chão até ficar sentado ao lado do banco onde ela estava, apoiando as costas contra a parede. - O médico disse que o desenvolvimento está dentro da curva percentual normal. - Ele começou, a voz baixando de tom. - Vinte e quatro semanas. O peso estimado é de seiscentos gramas. É o tamanho de uma berinjela grande, Maya. Como é que uma coisa do tamanho de uma berinjela vai sobreviver aqui fora? Maya sorriu, esticando a m
O café na caneca de Leo já estava frio há pelo menos quarenta minutos. Na tela do notebook, uma planilha de monitoramento de riscos exibia colunas infinitas de prazos, custos e projeções de rendimento. Ele digitava com a rapidez habitual, o cenho franzido. O som da porta do quarto se abrindo não o fez tirar os olhos do monitor, mas o barulho de algo sendo jogado sobre o teclado do laptop fez seus dedos pararem. Era uma caixa pequena, acompanhada por um bastão fino e um bloco de notas colado em cima. No papel, com a caligrafia rápida e ligeiramente inclinada de Maya, estava escrito em caneta azul: `[LOTAÇÃO DE INFRAESTRUTURA] Erro crítico identificado no sistema. Expansão involuntária do banco de dados em andamento. Prazo estimado de entrega: 36 semanas. Verifique os logs.` Leo piscou. Ele tirou os óculos com a mão esquerda, limpou a lente na barra da camisa e os colocou de volta. Depois, pegou o bastão. Duas linhas vermelhas. - Maya? - Ele chamou. A voz dele saiu num tom
- Está perfeito. - Leo sussurrou. A garganta dele fechou de repente. O ar na sala pareceu ficar rarefeito. Ele apertou a camisa contra o próprio corpo, como se alguém fosse tentar roubá-la. - Muito obrigado, dona Helena. É o melhor material que eu já vi. A mulher bufou, revirando os olhos. Ela deu um passo à frente, quebrando a distância, e jogou os dois braços ao redor do tronco rígido de Leo. O abraço foi esmagador. Não foi um tapinha polido nas costas. Foi um abraço de urso, apertado. Ela encostou o rosto no ombro dele e apertou as mãos nas costas. - Obrigada por cuidar da minha menina, Leo. - Ela murmurou contra o peito dele. - Feliz Natal, meu filho. Meu filho. Aquelas duas palavras o abalaram. Ele não soube como reagir. Os braços dele ficaram paralisados nas laterais do corpo, antes de finalmente subirem de forma desajeitada, as mãos pousando nas costas da mulher mais velha, devolvendo o abraço de forma rígida, mas desesperada. Ele sentiu os próprios pulmões falharem. Um
O ventilador de teto da sala de estar girava na velocidade máxima, balançando perigosamente enquanto tentava, sem muito sucesso, espantar o calor de trinta graus na noite de vinte e quatro de dezembro. As janelas da frente estavam escancaradas para a rua, deixando entrar o cheiro de asfalto quente, o som de fogos de artifício estourando ao longe e a música alta que vinha do rádio do vizinho. Dentro da casa, o som era quase ensurdecedor. Havia pelo menos quinze pessoas espremidas entre o sofá, as cadeiras de plástico trazidas do quintal e o tapete da sala. Duas crianças pequenas, sobrinhos de segundo grau de Maya, corriam em círculos ao redor da mesa de centro, gritando e segurando pedaços de panetone esfarelado. Um tio de voz grave discutia apaixonadamente sobre futebol com um primo encostado no batente da porta, enquanto o som de panelas batendo vinha da cozinha. No centro daquele caos, espremido no canto do sofá de dois lugares, estava Leo. Ele segurava um copo de vidro america







