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03. O Desconhecido

Autor: Victor Nobre
last update Data de publicação: 2026-09-24 02:15:18

O som da porta blindada se fechando isolou completamente o barulho da rua. Dentro do sedã, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido quase imperceptível do ar-condicionado.

Andy escorregou pelo banco de couro escuro, mantendo a maior distância possível do homem que havia acabado de comprá-lo para a noite. Ele estava acostumado a entrar em carros de clientes. Fazia parte da rotina de Sun sorrir, cruzar as pernas, servir uma dose de uísque do frigobar e iniciar o jogo de sedução antes mesmo de chegarem ao hotel.

Mas aquele ambiente era diferente. O luxo ali não era espalhafatoso; era denso, silencioso e projetado para intimidar. Na frente, separados por uma divisória de vidro escuro, o motorista e o segurança permaneciam mudos, perfeitamente alinhados à hierarquia invisível daquele espaço.

Andy olhou para as próprias mãos descansando sobre os joelhos. Ele sabia interpretar papéis. Sabia exatamente o que homens ricos queriam ouvir. Mas, sentado ao lado daquele estranho de terno sob medida, ele não sabia qual roteiro seguir. Não sabia se estava lidando com um cliente excêntrico, um salvador momentâneo ou um problema muito maior do que Marcus.

— O que você quer comer?

A voz do homem cortou o silêncio, controlada e direta.

Andy piscou, tirando os olhos das próprias mãos.

— Qualquer coisa serve.

O homem virou o rosto na direção dele. A iluminação dos postes de Los Angeles passava rapidamente pelas janelas, desenhando sombras no perfil rígido dele.

— Não perguntei o que serve — o estranho respondeu, sem alterar o tom. — Perguntei o que você quer.

A correção não foi grosseira, mas carregava o peso de quem estava acostumado a obter respostas exatas. Andy engoliu a seco, desconcertado. Ninguém nunca se importou com o que Sun queria comer.

— Um hambúrguer — Andy disse, a defensiva clara na voz. — Ou massa. Tanto faz.

O homem apenas assentiu e tocou em um painel discreto na lateral da porta, dando instruções curtas ao motorista.

Enquanto o carro avançava pelas vias expressas da cidade, Andy aproveitou a penumbra para observar o comprador. O tecido do terno não apresentava um único vinco fora do lugar. O relógio de pulso brilhava discretamente a cada movimento. A postura era ereta, relaxada, mas em estado de alerta. A forma como os funcionários na frente do carro obedeciam instantaneamente a qualquer comando mínimo dizia muito sobre a autoridade natural que ele exercia.

Andy precisava montar aquele quebra-cabeça.

— Você trabalha com o quê? — Andy perguntou, encostando a cabeça no vidro frio da janela.

O homem não desviou os olhos do celular que havia acabado de tirar do bolso.

— Negócios.

Andy soltou um som baixo, pelo nariz, uma risada cínica e curta.

— Isso explica muito pouco.

O estranho travou a tela do aparelho e finalmente olhou para ele, os olhos escuros estudando a expressão desconfiada de Andy.

— Você sempre faz tantas perguntas?

— Só quando estou tentando descobrir onde estou me metendo — Andy rebateu, sustentando o olhar.

Foi um teste. Um cliente comum teria exigido respeito ou feito piada sobre estar pagando pelas respostas. O homem, no entanto, apenas sustentou o olhar, a expressão econômica e observadora.

— Não precisa fazer nada que não queira esta noite — ele disse, a voz nivelada, encerrando a questão da profissão.

Andy estreitou os olhos. Ele interpretou a frase inicialmente como uma tentativa barata de tranquilizá-lo, o tipo de mentira que homens diziam antes de exigir exatamente o oposto no quarto de hotel.

— Isso não costuma funcionar assim — Andy respondeu, a voz carregada de ceticismo.

— Como costuma funcionar?

A pergunta veio rápida, perspicaz. Andy percebeu que havia falado demais, expondo uma fratura na armadura de Sun. Ele desviou o olhar para o trânsito lá fora, fechando a expressão.

— Não importa.

O homem não insistiu. O silêncio retornou, mas, pela primeira vez, não pareceu tão sufocante. Era um primeiro sinal, por menor que fosse, de que o desconhecido respeitava limites. Ainda assim, Andy não confiava nele. Confiar custava caro, e ele estava falido.

Quinze minutos depois, o sedã parou suavemente na entrada de um restaurante sofisticado, escondido atrás de uma fachada brutalista de concreto e vidro. Não havia letreiros brilhantes, apenas um manobrista que se apressou em abrir a porta de trás antes mesmo que o segurança o fizesse.

Quando entraram, a diferença entre o mundo de onde Andy vinha e o mundo daquele homem ficou gritante. O ambiente não cheirava a fumaça barata ou perfume forte, mas a trufas e vinho envelhecido. Os funcionários não fizeram alarde, mas o maître reconheceu o estranho imediatamente, guiando-os com uma reverência muda para uma mesa isolada no fundo do salão.

Andy sentiu o desconforto pinicar na base do pescoço. Sua camisa de seda escura, desabotoada demais para um restaurante daquele nível, parecia barata sob a iluminação indireta. Pior do que isso, ele sentiu uma pontada no braço onde Marcus o havia agarrado com força. Discretamente, tentou puxar a manga para esconder o pulso, ajeitando a gola na tentativa de parecer menos deslocado.

O homem notou o movimento. Os olhos dele pararam no pulso de Andy por uma fração de segundo, mas ele não fez nenhum comentário.

Sentaram-se. O estranho pediu água com gás e uma entrada leve. Andy pediu massa.

Quando o prato chegou, Andy começou a comer devagar, forçando a educação e a compostura profissional. Mas a verdade era que seu estômago estava vazio há quase doze horas. Em poucos minutos, a fome venceu o orgulho. Ele esvaziou o prato em um ritmo muito mais rápido do que a etiqueta daquele lugar permitia.

Quando finalmente pousou o garfo, percebeu que o prato do homem do outro lado da mesa estava quase intocado. O estranho estava apenas observando-o, as mãos cruzadas sobre a mesa.

O rosto de Andy esquentou. O constrangimento o atingiu em cheio.

Antes que ele pudesse tentar se justificar ou pedir desculpas pela falta de classe, o homem levantou levemente a mão. O garçom materializou-se ao lado da mesa.

— Traga outra porção para ele — o estranho ordenou, o tom perfeitamente casual.

O garçom assentiu e desapareceu. Andy ficou encarando o homem, a defensiva subindo de novo.

— Você sempre faz isso? — Andy perguntou, a voz um pouco mais áspera do que pretendia.

— Isso o quê?

— Age como se nada fosse estranho. Um garoto do clube engolindo comida na sua frente como se não visse um prato quente há dias.

O homem não demonstrou surpresa com o tom agressivo. Ele apenas bebeu um gole de água, o rosto ilegível.

— Você estava com fome. Comer é a solução lógica. Não há nada de estranho nisso.

A resposta fria e coerente deixou Andy sem argumentos. O homem percebia as coisas, lia o ambiente, lia a fome de Andy, mas não o humilhava por isso.

O silêncio confortável entre os dois durou até o garçom trazer o segundo prato. Foi quando o estranho finalmente fez a pergunta que estava guardando.

— Sun é realmente o seu nome?

Andy paralisou com o garfo no ar. A persona de Sun era seu escudo, a muralha que ele erguia entre os homens que o compravam e a vida que levava fora do clube. Mas aquele homem já havia visto a muralha quebrar diante de Marcus. Negar agora seria ridículo.

— Não — Andy respondeu, baixando o talher. É a primeira admissão de que o produto que ele vendia era falso.

— Então qual é?

Andy hesitou. Seu nome verdadeiro era a última coisa que lhe pertencia de verdade. Ele olhou para o rosto calmo do estranho, para a ausência total de julgamento naqueles olhos escuros, e sentiu o peito ceder um milímetro.

— Andy.

A palavra saiu baixa, quase relutante.

O homem o encarou por um momento interminável.

— Andy — ele repetiu.

A forma como o nome soou naquela voz, sem o tom sedutor ou possessivo de um cliente, causou um solavanco estranho no estômago de Andy. Não foi uma atração instantânea, mas uma estranheza profunda. Era o som da realidade invadindo um ambiente onde tudo deveria ser fantasia.

— Você sempre usa Sun? — o homem perguntou.

Andy pegou o copo de água, ganhando tempo.

— Sun é o nome profissional. O que os clientes esperam. Andy é quem eu sou fora dali. Quando o turno acaba.

Ele se preparou para a próxima pergunta. Preparou-se para a curiosidade invasiva, para as perguntas sobre por que um garoto de vinte e três anos precisava separar sua identidade daquela forma. Mas o homem apenas assentiu, absorvendo a informação.

— Você não vai perguntar? — Andy disparou, incapaz de lidar com a falta de pressão.

— Se quiser me contar, você conta.

A frase pairou sobre a mesa, sólida e inesperada, marcando um abismo de diferença entre aquele homem e qualquer outro que Andy já havia encontrado na vida.

Quando saíram do restaurante e a brisa fria de Los Angeles os atingiu na calçada, Andy sabia que precisava enfrentar o que estava evitando desde que o cheque foi mencionado.

— Então... — Andy começou, colocando as mãos nos bolsos da calça apertada. — O que você espera de mim esta noite?

O homem parou ao lado da porta do carro e olhou para ele.

— Ainda não decidi.

Andy franziu a testa, a desconfiança disparando.

— Você me contratou sem saber o que quer?

— Contratei você para sair daquele lugar.

A resposta causou uma irritação imediata em Andy. Ele não queria acreditar em altruísmo. Altruísmo não existia. Ninguém comprava a dívida de alguém sem querer cobrar a conta depois.

— Por quê? — Andy exigiu, a voz dura.

O homem o observou com a mesma tranquilidade cortante.

— Porque você queria sair.

A simplicidade daquela lógica encurralou Andy. Para recuperar o controle, ele recuou para o único terreno onde sabia lutar. Ele inclinou o corpo ligeiramente para frente, diminuindo o espaço entre eles, e deixou a voz cair para o registro aveludado e provocador de Sun.

— E se eu quiser fazer o trabalho para o qual você me contratou?

O estranho não recuou. Não piscou. Não foi afetado pela mudança de postura.

— Então você me diz — ele respondeu.

— E se eu disser que quero? — Andy insistiu, o queixo erguido.

O homem manteve o olhar preso ao dele, e a resposta veio grave, desarmando cada defesa que Andy possuía:

— Eu pergunto se é porque você quer ou porque acha que precisa.

O ar sumiu dos pulmões de Andy. A provocação morreu em sua garganta. Ele recuou um passo, instintivamente, como se tivesse levado um soco limpo no centro do peito. O estranho estava enxergando através de Sun. Ele estava olhando diretamente para Andy, para o desespero e para a dívida, e recusando-se a usar aquilo contra ele.

Antes que Andy pudesse reagir, o celular do homem tocou.

Ele atendeu sem afastar os olhos de Andy por um segundo, antes de virar o rosto em direção à rua. Andy não conseguiu ouvir o outro lado da linha, mas captou as palavras que o estranho soltou no ar noturno:

— Não me importa o que a reunião do conselho definiu... Diga ao meu pai que a decisão final é minha... Amanhã de manhã.

Ele encerrou a chamada em menos de dez segundos e guardou o aparelho.

— Problemas? — Andy perguntou, a voz ainda um pouco instável.

— Trabalho — foi a única resposta.

O motorista abriu a porta traseira. O estranho não parecia um homem comum de negócios. Executivos não falavam sobre conselhos e pais com aquele nível de desprezo e domínio absoluto. O mistério ao redor dele apenas aumentava.

Já dentro do carro, com as portas trancadas e o veículo em movimento, o homem finalmente estabeleceu os termos do restante da madrugada.

— Você pode dormir no hotel comigo, ou simplesmente descansar. O quarto tem espaço.

Andy continuou encostado na porta oposta.

— Você pagou por uma noite.

— Sim.

— E não vai exigir nada?

O homem virou o rosto para ele.

— Eu não disse isso.

Uma pequena tensão elétrica, carregada de possibilidade, estalou no ar entre os dois. Andy prendeu a respiração.

O homem então completou, a voz baixa:

— Só disse que você não precisa fazer nada agora.

Andy olhou pela janela. O neon de Downtown refletia no vidro temperado, misturando-se com seu próprio reflexo. Ele não tinha para onde ir. Voltar para casa significava encarar os avisos de cobrança debaixo da porta e o silêncio vazio de um apartamento caindo aos pedaços.

O silêncio estendeu-se até o homem fazer uma última pergunta, quebrando o ritmo da respiração de Andy.

— Onde você mora?

Andy apertou os dedos contra o estofado de couro. Ele não queria revelar seu endereço. Não queria que aquele homem com relógios caros e ternos italianos soubesse de que parte podre da cidade ele vinha.

— Não importa — Andy respondeu, curto e seco.

O estranho observou o perfil tenso do garoto.

— Importa para mim.

A frase foi dita com uma naturalidade que fez o coração de Andy errar uma batida. O carro continuou deslizando pelas ruas de Los Angeles, levando-o em direção a um hotel luxuoso, e Andy percebeu a quarta e mais perigosa peça daquele quebra-cabeça.

Aquele desconhecido tinha dinheiro e poder. Havia decidido tirá-lo de Marcus por um motivo que Andy ainda não compreendia. Mas o que realmente o assustava era que, desde o primeiro segundo no beco do clube, o homem não estava interessado em Sun.

Ele estava interessado em Andy. E Andy não tinha a menor ideia de como lidar com isso.

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