LOGIN“Algumas mudanças começam discretamente, antes que saibamos o lugar que terão em nossa vida.”
Irina Petrova
Naquela manhã de quinta-feira, o café tinha esfriado ao lado do computador quando terminei de conferir a última página do relatório.
Salvei o
“O que adiamos dizer também pode chegar ao outro pela voz de quem deseja ferir.”Nikolai RomanovO telefone tocou quando fechei o último documento.Era Dmitri, atendi antes do segundo toque.— Falou com ela?— Falei.Endireitei-me na poltrona.O ruído do jato continuava ao redor, constante desde a decolagem. Eu tinha passado os primeiros minutos do voo olhando para a conversa com Irina, esperando uma resposta à mensagem em que avisava que estava voltando.— O que aconteceu?Dmitri demorou um instante.— Irina sabe sobre Francesca.Minha mão parou sobre o braço da poltrona.— Como?— Romena foi ao apartamento dela.Afastei o documento do colo.— Repita.— Ela procurou informações sobre a internação. Encontrou uma antiga funcionária administrativa do hospital e conseguiu que a mulher confirmasse a identidade da doadora por mensagem.Fiquei olhando para a mesa à minha frente. Eu ainda tentava compreender como o nome de Romena tinha entrado naquela história.— Ekaterina viu essas mensagen
“A dúvida sobre um silêncio não apaga, por si só, tudo o que veio antes dele.”Ekaterina Rostova— Irina saiu de Moscou, Dmitri. Eu a levei. Ela ainda não está preparada para encontrá-lo.Do outro lado da linha, ele permaneceu quieto.Olhei para o banco do passageiro. A sacola que eu trouxe da loja já não estava ali. Irina tinha levado os sapatinhos, guardados junto das roupas e do resultado que ainda desejava mostrar a Nikolai.— Ela está segura? — Dmitri perguntou.— Está no nosso apartamento no interior.— Sozinha?— Pediu para ficar. Eu ajudei a organizar as coisas antes de sair.— E o acompanhamento?— Levou os medicamentos e os documentos. Já conferimos os próximos compromissos, e vou ajudá-la com o que ainda precisa ser marcado.A preocupação dele era compreensível. Também tinha me custado fechar aquela porta e deixar minha amiga do outro lado.— Combinamos de conversar todos os dias — acrescentei. — Se precisar de mim, volto.Dmitri soltou o ar.— Nikolai vai querer ir até ela
“Para compreender uma dor, é preciso ouvir antes de tentar explicar.”Dmitri MorozovLiguei para Ekaterina assim que encerrei a conversa com Nikolai.Ela demorou a atender.Enquanto esperava, fechei o documento que estava revisando. A negociação na Itália tinha avançado, mas Nikolai mal havia mencionado o contrato. Queria saber o que aconteceu com Irina.— Dmitri.A voz de Ekaterina saiu cansada.— Onde você está?— Voltando.— Irina está com você?Houve uma pausa.— Por que está perguntando?Afastei-me da mesa.— Nikolai me ligou. Ela não atendeu e pediu um tempo antes de conversar. Ele está preocupado.Ouvi Ekaterina respirar do outro lado.— Você sabia?Fiquei imóvel.— Sobre o quê?— Que Irina recebeu o coração de Francesca.Apertei o telefone.Por alguns segundos, não consegui responder.— Dmitri?— Sabia.O silêncio que veio depois me fez fechar os olhos.— Há quanto tempo?— Nikolai me contou depois de confirmar a informação. Ele descobriu recentemente.— E Irina não sabia?Não
“Eu sabia que ela estava segura. O que não sabia era por que já não conseguia chegar até ela.”Nikolai RomanovA chamada terminou sem que Irina atendesse.Continuei com o telefone junto ao ouvido por um instante, depois baixei a mão e voltei à mensagem enviada horas antes.“Nikolai, é a Ekaterina. Irina está bem e estou com ela. Ela pediu que avisasse que precisa de um pouco de tempo. Vai procurar você quando conseguir conversar.”Eu tinha lido aquelas palavras durante uma pausa da negociação.Na primeira vez, procurei alguma indicação de que a consulta não havia terminado como esperávamos. Depois perguntei a Ekaterina o que aconteceu, mas ela apenas confirmou que Irina estava sendo acompanhada e precisava descansar.Tempo para quê?A pergunta continuava sem resposta.Caminhei até a janela do quarto do hotel. Lá embaixo, os carros atravessavam a rua, e algumas pessoas saíam de um restaurante.Olhei para o telefone quando a tela acendeu.“Ainda não consigo conversar. Por favor, me dê u
“Partir também pode ser uma maneira de ganhar tempo antes de dizer o que ainda dói demais.”Irina PetrovaA bolsa continuava aberta sobre a cama.Aproximei-me e fiquei olhando para as roupas que tinha separado para levar à cobertura. Havia uma blusa que Nikolai ainda não tinha me visto usar e o livro que pretendia terminar enquanto esperava sua volta. Puxei a gaveta e acrescentei outras peças.Ekaterina apareceu na porta.— Essa bolsa vai ser suficiente?— Para alguns dias, sim.Ela assentiu e se aproximou.Não voltou a perguntar se eu tinha certeza. Agradeci por isso, embora a decisão ainda doesse cada vez que pensava no que estava fazendo.Separei meus medicamentos e conferi as embalagens. Ekaterina me ajudou a organizar os horários e colocou os documentos da consulta em uma pasta.Quando chegou ao resultado, parou por um instante.— Quer deixar comigo?Estendi a mão.— Quero levar.Ela me entregou a folha, e a guardei entre os pedidos, tomando cuidado para não dobrá-la.Era estran
“Eu precisava de tempo para distinguir o que me disseram daquilo que tinha vivido.”Irina Petrova— Foi Francesca, Katy. Eu recebi o coração da esposa dele.Ekaterina não respondeu.Seus dedos continuaram envolvendo os meus, mas vi a surpresa em seu rosto. Ela olhou por um instante para minha mão sobre o peito, depois voltou aos meus olhos.— Foi isso que a mulher escreveu?Assenti.— Disse que soube durante os procedimentos da internação. Romena mostrou as mensagens. Depois ela pediu que não compartilhasse, porque não tinha autorização para contar.Minha amiga soltou o ar devagar.— Precisamos confirmar essa informação com Katya.— As datas coincidem.— Eu ouvi, Irina. Não estou dizendo que você entendeu errado. Só quero que receba essa resposta de alguém que possa explicar o que aconteceu.Baixei os olhos.Eu queria que houvesse um engano. Uma mensagem interpretada de forma errada, um nome confundido.Mas já conseguia imaginar a fotografia de Francesca na casa de Olga.— Romena diss







