LOGINO vento frio atravessava as árvores enquanto a enorme sombra permanecia parada no alto da montanha.
Sakura apertou as mãos contra o próprio peito. Seu coração ainda batia acelerado por causa de tudo o que havia acontecido. Ela tinha viajado no tempo, conhecido um guerreiro estranho e agora existia um cristal mágico espalhado pelo país inteiro. Tudo em poucas horas. A sombra desapareceu entre as nuvens. Rintaro continuou observando o local por alguns segundos antes de guardar a espada. Sakura se aproximou. "Quem era ele?" "Não sei." Ela franziu a testa. "Mas você falou como se conhecesse." "Conheço o tipo." "Que tipo?" Rintaro começou a andar pela floresta. "O tipo de pessoa que quer poder acima de qualquer coisa." Sakura o acompanhou. "Então ele é perigoso?" "Muito." "Ótimo." Rintaro olhou para ela. "Por que está dizendo isso?" "Porque faz menos de um dia que eu cheguei aqui e já ganhei um inimigo." Ele soltou uma pequena risada. Sakura arregalou os olhos. "Você riu?" "Não." "Eu ouvi." "Está ouvindo coisas." Ela sorriu. "Sabia que você não era tão mal-humorado quanto parece." "Não tire conclusões rápidas." "Vou tirar mesmo assim." Os dois continuaram caminhando. A floresta parecia interminável. Folhas secas cobriam o chão e pássaros voavam entre os galhos. Depois de alguns minutos, Sakura percebeu algo. "Espera." Rintaro continuou andando. "Espera!" Ele finalmente parou. "O que foi?" "Para onde estamos indo?" "Para uma aldeia." "Existe uma aldeia perto daqui?" "Sim." Ela suspirou de alívio. "Graças a Deus." Então ficou pensativa. "Será que existe banheiro?" Rintaro piscou algumas vezes. "Banheiro?" "É." "Não." "Não existe?" "Existe floresta." Sakura parou de andar. "Vocês fazem tudo na floresta?!" "Como acha que as pessoas vivem?" Ela levou a mão à testa. "Vou demorar para me acostumar." Rintaro abriu um pequeno sorriso. "Percebi." Pouco tempo depois, ambos ouviram um som estranho. Um assobio. Depois outro. Então mais um. Rintaro imediatamente puxou Sakura para trás. Três flechas caíram na frente deles. Uma voz ecoou. "Não deem mais um passo." Sakura levantou a cabeça. Uma jovem vestida com roupas tradicionais surgiu sobre um galho. Ela carregava um arco enorme. Seus longos cabelos negros balançavam com o vento. "Rintaro." Ele suspirou. "Aoi." Ela desceu da árvore. "Há uma energia diferente ao seu redor." Então olhou para Sakura. "Ela é a responsável, não é?" Sakura apontou para si mesma. "Eu?" Aoi assentiu. "O Cristal das Quatro Almas despertou." Sakura ficou sem reação. "Como todo mundo sabe disso menos eu?" Aoi soltou um pequeno sorriso. "Porque a energia espiritual percorreu toda a região." Rintaro mostrou o primeiro fragmento. "Nós já recuperamos um." Aoi arregalou os olhos. "Então já começaram a aparecer criaturas corrompidas." "Sim." Ela ficou séria. "Isso é péssimo." Sakura olhou para os dois. "Alguém pode me explicar o que está acontecendo?" Aoi caminhou até ela. "O Cristal das Quatro Almas ficou adormecido durante séculos." "Até eu aparecer." "Exatamente." Sakura suspirou. "Parece que sou um ímã para problemas." Rintaro cruzou os braços. "É uma definição adequada." Ela lançou um olhar indignado. "Você gosta de me irritar." "Está ficando óbvio?" Antes que Sakura respondesse, um tremor sacudiu o solo. As árvores começaram a balançar. Pássaros voaram assustados. Aoi imediatamente ergueu o arco. "Tem alguma coisa vindo." Rintaro retirou a espada. Um rugido ecoou pela mata. Uma enorme serpente espiritual surgiu. Ela tinha quase quinze metros de comprimento. No pescoço brilhavam dois fragmentos do cristal. Sakura arregalou os olhos. "DOIS?!" Aoi assentiu. "Ela está absorvendo energia muito rápido." A serpente avançou. Rintaro correu primeiro. Sua espada atravessou o ar. A criatura desviou. A cauda atingiu uma árvore. CRASH. O tronco caiu. Sakura se abaixou rapidamente. "Ela é muito mais forte que o javali." "Porque possui mais fragmentos!", gritou Aoi. A serpente abriu a boca. Uma onda de energia foi disparada. Rintaro pulou para o lado. Aoi disparou duas flechas espirituais. Uma acertou o ombro da criatura. A outra explodiu no ar. Mas a serpente continuava avançando. Sakura observou tudo. Seu peito começou a brilhar novamente. Ela olhou para as próprias mãos. A energia estava voltando. Só que dessa vez parecia mais forte. Rintaro percebeu. "Sakura!" "Eu sei!" Ela fechou os olhos. Respirou fundo. Uma nova flecha surgiu. Diferente da anterior, essa possuía uma luz rosada. A serpente rugiu. Ela disparou. A flecha atravessou o ar. CRACK. Um fragmento saiu do pescoço da criatura. Mas ainda havia outro. A serpente ficou furiosa. Seu corpo inteiro começou a crescer. Sakura arregalou os olhos. "PIOROU!" "Porque ainda falta um!", respondeu Aoi. A criatura avançou novamente. Rintaro saltou. Correu pelo corpo da serpente. Subiu até sua cabeça. Então ergueu a espada. "Lua Partida!" Uma energia azul explodiu. BOOOOM. O segundo fragmento foi lançado para longe. Instantaneamente, a serpente diminuiu de tamanho. Ela caiu no chão e desapareceu entre as árvores. A floresta voltou a ficar silenciosa. Sakura caiu sentada. "Isso foi assustador." Aoi pegou um dos fragmentos. Rintaro pegou o outro. "Três no total", disse ele. Sakura respirou fundo. "Quantos existem?" Os dois ficaram em silêncio. Ela olhou para um e depois para o outro. "Quantos?" Aoi respondeu: "Ninguém sabe." Sakura arregalou os olhos. "Ninguém sabe?!" Rintaro guardou os fragmentos. "Pode haver dezenas." Aoi respirou fundo. "Ou centenas." Sakura ficou completamente imóvel. "Vocês estão me dizendo que vamos atravessar o Japão inteiro procurando pedaços de cristal?" Rintaro assentiu. "Basicamente." Ela soltou uma risada nervosa. "Que maravilha." De repente, um corvo negro pousou num galho próximo. Em sua pata havia um pequeno pergaminho. Aoi pegou o papel. Seu semblante mudou imediatamente. Rintaro percebeu. "O que aconteceu?" Ela levantou os olhos. "O sul foi atacado." "O quê?" "Uma aldeia inteira desapareceu." O silêncio tomou conta da floresta. Então Aoi continuou: "E testemunhas disseram que viram alguém usando uma máscara branca." Rintaro fechou a mão ao redor da espada. Seu olhar ficou sombrio. Sakura percebeu. "Você conhece essa pessoa." Ele demorou alguns segundos para responder. Então disse: "Espero estar errado." O vento soprou mais forte. Ao longe, uma risada sombria ecoou entre as montanhas. A jornada estava apenas começando.O tempo tinha uma maneira curiosa de passar. Quando Hina era pequena, eu tinha a impressão de que cada mudança acontecia diante dos meus olhos. Primeiro vieram os primeiros passos, depois as primeiras palavras, as corridas pelo quintal, as amizades, as discussões, os sonhos. Então ela cresceu. Casou-se. Construiu sua própria casa. E, quando percebi, aquela menina que um dia segurou minha mão para aprender a andar agora segurava a mão dos próprios filhos. Eu estava sentada na varanda de casa naquela manhã, observando o movimento do jardim, quando ouvi uma risada vindo da estrada. Sorri antes mesmo de olhar. Eu conhecia aquela voz. "Vovó!" Virei o rosto. Kanao corria em minha direção, com Amane logo atrás. "Kanao, não corre tanto!", Hina gritou de longe. Era tarde demais. Kanao subiu os degraus da varanda quase tropeçando e se jogou nos meus braços. "Vovó!" "Calma, menina." Ela riu. "Eu cheguei primeiro!" Amane apareceu logo depois, respirando fundo.
A primeira coisa que descobri depois de me casar foi que uma aliança não mudava magicamente a rotina.Eu continuava acordando cedo.Continuava reclamando quando fazia frio.Continuava esquecendo onde tinha colocado algumas coisas.E Kazuki continuava deixando objetos em lugares que, na opinião dele, eram perfeitamente lógicos e, na minha opinião, não faziam sentido nenhum.A diferença era que agora acordávamos na mesma casa.Nossa casa.Ainda parecia estranho pensar nisso.Nossa.Depois do casamento, passamos alguns dias na casa dos meus pais, cercados pela família e por comemorações. Mas, pouco tempo depois, chegou o momento de começar nossa própria rotina.A casa ficava numa parte tranquila da vila, não muito distante das outras famílias. Era simples, construída de madeira, com um pequeno jardim na frente, uma cozinha, dois quartos e uma varanda que dava para algumas árvores.Não era grande.Não era luxuosa.Mas era nossa.Naquela manhã, acordei com o som de alguém mexendo em alguma
Dois anos.Às vezes, eu ainda achava estranho pensar em como o tempo tinha passado tão rápido.Parecia que tinha sido ontem que eu estava sentado perto do rio, tentando controlar o nervosismo enquanto segurava uma pequena caixa de madeira.Agora, eu estava diante de um espelho, ajeitando a roupa do casamento pela terceira vez.Eu tinha vinte e um anos.Hina também.E, naquele dia, nós finalmente nos casaríamos.Passei a mão pelo tecido da roupa e respirei fundo."Você vai furar o tecido se continuar fazendo isso."Virei o rosto.Kaien estava encostado na porta, me observando com um sorriso."Você está aqui há quanto tempo?""Tempo suficiente para perceber que está nervoso.""Não estou.""Está.""Não estou."Ele entrou no quarto."Você está ajeitando a mesma parte da roupa há uns cinco minutos."Olhei para baixo.Era verdade."Talvez eu esteja um pouco nervoso."Kaien riu."Um pouco?""Está bem. Muito."Ele se aproximou e colocou a mão no meu ombro."É normal.""Você ficou nervoso quan
Um ano.Foi estranho perceber o quanto podia mudar em apenas um ano.Quando completei dezoito anos, achei que as mudanças aconteceriam de maneira lenta, quase imperceptível. Imaginei que continuaria acordando todos os dias na mesma casa, vendo as mesmas pessoas e vivendo praticamente a mesma rotina.E, em parte, foi exatamente assim.Mas, ao mesmo tempo, tudo tinha mudado.Agora eu tinha dezenove anos.Kaori e Itsuki tinham vinte.Yuki e Akane tinham dezesseis.E algumas das pessoas que cresceram conosco já estavam começando suas próprias vidas.Inclusive Kaori e Itsuki.Os dois tinham se casado alguns meses antes e agora moravam em uma casa própria, construída um pouco mais afastada da nossa vila. Ainda apareciam praticamente todos os dias, mas havia algo diferente quando eu os visitava.Aquela casa era deles.As escolhas eram deles.A rotina era deles.Era estranho.Bonito.E, de certa maneira, assustador.Naquela manhã, eu estava sentada na varanda de casa, observando o movimento d
Naquela noite, depois que todos foram embora, a casa finalmente ficou silenciosa.Não completamente, porque ainda era possível ouvir algumas vozes do lado de fora e o som distante de passos pela vila. Mas, depois de uma tarde inteira cercada por pessoas, risadas e conversas, aquele silêncio parecia diferente.Mais profundo.Mais tranquilo.Fiquei alguns minutos na cozinha, terminando de guardar os últimos pratos enquanto Rintaro organizava a mesa. De vez em quando, nossos olhares se encontravam, e eu percebia que ele também estava pensando na mesma coisa.Hina tinha dezoito anos.Eu ainda estava tentando entender quando exatamente aquilo tinha acontecido.Parece que foi ontem que eu segurava sua pequena mão enquanto ela tentava andar pela primeira vez. Depois vieram os primeiros passos sozinha, as primeiras palavras, as corridas pelo quintal, as discussões por coisas pequenas e aquele jeito determinado que sempre fez parte dela.Agora ela estava crescida.E, pela primeira vez, eu come
Fazer dezoito anos parecia muito mais importante quando eu imaginava essa idade alguns anos atrás.Eu achava que, quando chegasse aos dezoito, alguma coisa dentro de mim simplesmente mudaria.Que eu acordaria diferente.Mais madura.Mais responsável.Talvez até com todas as respostas que eu ainda não tinha.Mas, naquela manhã, quando abri os olhos, a primeira coisa que pensei foi que eu continuava sendo eu.A mesma Hina.Talvez um pouco mais velha.Talvez um pouco mais consciente das minhas escolhas.Mas ainda eu.Olhei para o teto por alguns segundos antes de me sentar na cama.A luz da manhã entrava pela janela, iluminando o quarto.Dezoito anos.Eu tinha dezoito anos.Era estranho pensar nisso.Pela primeira vez, aquela palavra parecia representar alguma coisa diferente.Liberdade.Responsabilidade.Escolhas.Futuro.Tudo parecia estar começando a ganhar um peso novo.Levantei-me e comecei a me arrumar.Quando desci, encontrei minha mãe na cozinha."Bom dia."Ela olhou para mim e s







