Masuk"Falamos sobre o bebê mais tarde. Agora, nós nos mexemos", respondeu Xena, com a voz ríspida.
Assenti. Minha garganta doía demais para responder.
"Bloodfang", disse Xena no instante em que entramos. "Partimos esta noite. Lucan nos viu sair juntas. Os homens dele estarão aqui em menos de uma hora."
Minha boca se abriu. A alcateia rival. O único território que Lucan não podia invadir sem declarar uma guerra.
"Eles aceitam forasteiros que juram lealdade. Nós vamos, dizemos que nossa antiga alcateia ruiu, começamos de novo."
Os olhos dela desceram para o meu ventre. A mão dela fez um movimento involuntário na minha direção e parou.
"Então vamos começar", eu disse.
O banheiro dela parecia pequeno demais. Os azulejos, frios sob os meus pés. Xena pegou uma tesoura na gaveta enquanto eu me sentava na tampa fechada do vaso sanitário e encarava o chão.
Mechas grossas do meu cabelo preto como azeviche caíam sobre os azulejos à medida que Xena cortava—uma após a outra. Eu as observava cair. O cabelo que usei a vida inteira. O cabelo que Lucan costumava enrolar no punho quando queria me lembrar de quem era meu dono. Agora jazia ali, em montes inúteis.
As mãos de Xena trabalhavam rápido. Quando terminou, ela me entregou a tesoura e se sentou. Fiquei de pé. Minhas mãos tremeram só um pouco enquanto eu cortava o cabelo loiro e comprido dela, e ela não vacilou nem uma vez.
Depois, a tinta.
Ela misturou o ruivo acobreado para mim, e o cheiro ardeu em meu nariz sem hesitar. Ela espalhou a mistura pelo que restava do meu cabelo. Raven Moonshadow estava oficialmente morta.
Para a vez de Xena, optamos por uma tintura que transformou seu cabelo loiro em castanho. Era perfeito para nos misturarmos à multidão.
"Nomes novos", murmurou Xena. "Scarlett Bane", sugeriu ela. Quase detestei.
"E Fiona Lightweather para você", eu disse.
A mão dela encontrou a minha e apertou uma vez antes de soltar. Minha mão subiu ao meu pescoço sem pensar. A pequena marca da Ironclaw estava ali, como sempre estivera. Xena puxou o cós da calça para baixo apenas o suficiente para exibir o pequeno símbolo escuro na parte inferior do quadril. "Eu ia tirar isso de qualquer jeito", disse Xena baixinho. "Não vou passar o resto da vida a uma revista íntima de distância da morte."
Meus dedos subiram até o meu próprio pescoço. A marca ali queimava sob o meu toque. Nenhum lenço no mundo enganaria um guarda da Bloodfang treinado para farejar marcas da Ironclaw.
Caminhei até o armário sob a pia. Minhas mãos permaneceram firmes enquanto puxei a solução de limpeza. O fedor cáustico quase me fez recuar, e a garrafa parecia pesada, mas nada daquilo era suficiente para me deter.
Fiquei de pé diante da pia. Encarei a estranha de cabelos ruivos no espelho. Meus dedos desatarraxaram a tampa. O cheiro me atingiu primeiro. Era pungente, químico e errado. Derramei o líquido em um pano e, sem pensar, pressionei o pano contra a marca no meu pescoço.
Minhas pernas cederam. Segurei a borda da pia até meus nós dos dedos gritarem. Um som rasgou minha garganta—abafado, preso com força entre os dentes. Mordi o próprio punho para não berrar. Carne queimando, ácido e algo biológico e podre invadiram minhas narinas, e meu estômago embrulhou.
Minha visão escureceu nas bordas, e o chão tombou.
Apertei a pia com mais força e respirei. Puxa. Solta. Do mesmo jeito que respirei no chão do quarto depois que Lucan me bateu.
Apenas respire. Continue respirando.
A escuridão recuou. Devagar. Mantive-me de pé.
O espelho revelava uma pele úmida, descolorida e destruída. A marca da Ironclaw havia desaparecido para sempre. Xena encontrou um lenço e o amarrou alto ao redor do meu pescoço, sem dizer uma palavra. A queimadura gritava sob o tecido.
Ela pegou o ácido e o derramou na lateral do quadril, onde ficava sua marca. O som chiado ecoou pelo banheiro, e lágrimas encheram meus olhos ao ver minha melhor amiga sofrer por minha causa.
"Precisamos nos mover", ela me disse quando a marca dela sumiu.
Arrumar as coisas foi rápido. Levamos dinheiro, maços de notas que Xena mantinha escondidos. Ela vinha se preparando há mais tempo do que eu imaginava.
Nenhuma de nós dormiu. Meu pescoço ardia. Meu rosto doía. Minha mão nunca saía do meu ventre. Um luto pesado se instalou no meu peito pela mulher que eu estava matando esta noite. Raven Moonshadow. Luna. Esposa. Filha. Tudo se esvaindo em chamas junto com meu cabelo, minha marca e meu nome.
A alvorada tingiu o céu de cinza quando o ônibus desacelerou na fronteira da Bloodfang.
Entramos na fila enquanto guardas nas cores da Bloodfang vigiavam tudo. Como se tentassem enviar um aviso, um cadáver jazia diante do portão, com sangue derramado escorrendo ao seu redor. O que atraiu meus olhos para o homem, no entanto, foi a marca da Ironclaw em seu pulso.
Meu coração martelava contra as costelas. Não olhei para Xena, nem mesmo quando demos um passo à frente juntas.
O guarda nos avaliou, fez perguntas, e respondemos a cada uma da melhor maneira possível. Éramos irmãs. A alcateia do Sul havia se desfeito, e estávamos buscando um novo lar. Minha voz permaneceu firme. Xena acrescentava detalhes de tempos em tempos.
Os olhos do guarda me esquadrinharam e pararam no meu lenço.
"Tire isso."
Ele já estava dentro do quarto.O Alfa Dimitri deu um passo à frente saindo do vão da porta, diminuindo a distância entre nós com passos lentos e calculados. O ar no meu novo aposento parecia ficar mais rarefeito a cada centímetro que ele avançava. Minha cabeça baixou antes que eu pudesse impedir. Queixo colado ao peito, ombros curvando-se para dentro. A mesma postura que meu corpo vinha repetindo há anos perto de Lucan. Aquilo me tornava pequena, segura, invisível. E eu odiava isso. Odiava o fato de que, mesmo aqui, meus músculos ainda se lembravam com precisão de como encolher a minha própria presença.Continuei respirando, com o fôlego alternando depressa entre o curto e o acelerado. Cada inspiração travava alto na garganta.Ele parou bem na minha frente.Eu conseguia sentir o calor que emanava do seu corpo. O aroma limpo de sua pele misturava-se a resquícios sutis de ervas e a algo mais denso, mais masculino. Minhas mãos cerraram-se sobre os lençóis. Esperei pelo golpe. Pelas pala
A praça ainda parecia irreal.Em um segundo, eu estava na beira da morte, com a mão sobre o ventre, os olhos azuis de Xena cravados nos meus como se ela pudesse me arrancar da lâmina pela força de vontade. No instante seguinte, a voz do Alfa Dimitri cortou tudo.E agora os guardas tinham me soltado.Meus braços pareciam estranhamente leves sem o aperto deles. Meus joelhos quiseram ceder, mas eu os firmei. Eu continuava respirando e continuava de pé. A multidão murmurava ao meu redor, inquieta, sem saber o que fazer com a mulher que deveria ter morrido, mas não morreu.Então Xena começou a correr.Ela abriu passagem pelos guardas que a seguravam instantes atrás, empurrando corpos para fora do caminho sem pedir licença. Chegou até mim em segundos e colidiu comigo, os braços me envolvendo com tanta força que senti o ar deixar meus pulmões. O coração dela martelava contra o meu. Suas mãos se moviam freneticamente — pelos meus ombros, braços, rosto — verificando danos como um guerreiro ava
Minhas mãos encontraram o peito dele antes mesmo de eu cruzar totalmente o quarto.O calor brotou de algum lugar sob o meu peito, mais ardente e mais intenso do que havia sido na sala de avaliação. Despejei nele tudo o que eu tinha. Meu dom respondeu sem hesitação, caçando o dano através do sangue dele, dos seus órgãos, de cada ponto onde algo estava prestes a parar de funcionar.Não havia tempo para pensar—apenas tempo para agir.O suor cobriu minha testa em questão de minutos.Minhas costas doíam de ficar ajoelhada sobre a pedra fria. Minhas mãos queimavam no fundo das articulações, mas continuei forçando."Fique. Fique comigo. Respire. Apenas respire… por favor", murmurei por entre dentes.O corpo dele lutava contra o meu toque, mas lutei com mais força, recorrendo a reservas de energia que eu nem sabia que possuía.O quarto escureceu, as velas queimaram até o fim, e minha visão borrou nas bordas.Foi então que percebi.Não era veneno.O dano não parecia um ataque externo. Parecia
Meus dedos congelaram na ponta do lenço.Uma batida do coração. Duas.Ergui o olhar devagar até o dele, torcendo para que marcar minha pele permanentemente fosse o suficiente para não acabar na minha própria poça de sangue ao lado daquele último sujeito. O guarda sequer piscou.Com as mãos surpreendentemente firmes, desenrolei o lenço.O ar frio atingiu a pele destruída do meu pescoço. Os olhos do guarda desceram rápido para o local. Ele encarou a confusão de bolhas, a textura irregular e o vermelho vivo que ainda expelia secreção em alguns pontos. O maxilar dele se contraiu e as sobrancelhas se juntaram. Pude ler a piedade em seus olhos.Ele não disse nada.Xena deu um passo e parou ao meu lado, os ombros roçando os meus. Suas mãos tremeram uma vez junto ao corpo antes de ela fechar os punhos. Lágrimas inundaram seus olhos azuis, mas ela piscou com força, lutando para contê-las. Sua voz saiu rouca."Minha irmã… ela foi atacada na estrada vindo para cá. Mal conseguimos chegar. A viage
"Falamos sobre o bebê mais tarde. Agora, nós nos mexemos", respondeu Xena, com a voz ríspida.Assenti. Minha garganta doía demais para responder."Bloodfang", disse Xena no instante em que entramos. "Partimos esta noite. Lucan nos viu sair juntas. Os homens dele estarão aqui em menos de uma hora."Minha boca se abriu. A alcateia rival. O único território que Lucan não podia invadir sem declarar uma guerra."Eles aceitam forasteiros que juram lealdade. Nós vamos, dizemos que nossa antiga alcateia ruiu, começamos de novo."Os olhos dela desceram para o meu ventre. A mão dela fez um movimento involuntário na minha direção e parou."Então vamos começar", eu disse.O banheiro dela parecia pequeno demais. Os azulejos, frios sob os meus pés. Xena pegou uma tesoura na gaveta enquanto eu me sentava na tampa fechada do vaso sanitário e encarava o chão.Mechas grossas do meu cabelo preto como azeviche caíam sobre os azulejos à medida que Xena cortava—uma após a outra. Eu as observava cair. O cab
O golpe atingiu minha bochecha com um estalo que pareceu rachar meu crânio ao meio.Caí com força no chão, e meu corpo se dobrou sobre si mesmo. Minha boca não dava espaço para gritos. Minhas mãos não se erguiam para lutar. Eu havia aprendido a ser seu saco de pancadas silencioso há muito tempo.Minha bochecha latejava contra a madeira de lei. O gosto de cobre inundou minha boca e, ainda assim, não me mexi. Só conseguia focar na minha respiração.Enquanto continuasse respirando, eu ficaria bem.Lucan ficou de pé sobre mim por um segundo. Talvez dois, eu já não conseguia discernir mais nada.Ele não me dirigiu nenhuma palavra; havia deixado de fazer isso há muito tempo. Ajustou o punho da camisa, soltou o ar pelo nariz como se eu fosse um estorvo finalmente resolvido e virou as costas.A porta se fechou com um clique silencioso atrás dele.Meu corpo ainda se recusava a mover.A dor começou devagar no início e foi se espalhando até que eu pudesse senti-la por toda parte. Levei um dedo a







