Accueil / Lobisomem / O Curandeiro Cicatrizado do Alfa / Capítulo 3: Dentro da Alcateia Inimiga

Partager

Capítulo 3: Dentro da Alcateia Inimiga

Auteur: Sada Vii
last update Date de publication: 2026-10-06 18:48:48

Meus dedos congelaram na ponta do lenço.

Uma batida do coração. Duas.

Ergui o olhar devagar até o dele, torcendo para que marcar minha pele permanentemente fosse o suficiente para não acabar na minha própria poça de sangue ao lado daquele último sujeito. O guarda sequer piscou.

Com as mãos surpreendentemente firmes, desenrolei o lenço.

O ar frio atingiu a pele destruída do meu pescoço. Os olhos do guarda desceram rápido para o local. Ele encarou a confusão de bolhas, a textura irregular e o vermelho vivo que ainda expelia secreção em alguns pontos. O maxilar dele se contraiu e as sobrancelhas se juntaram. Pude ler a piedade em seus olhos.

Ele não disse nada.

Xena deu um passo e parou ao meu lado, os ombros roçando os meus. Suas mãos tremeram uma vez junto ao corpo antes de ela fechar os punhos. Lágrimas inundaram seus olhos azuis, mas ela piscou com força, lutando para contê-las. Sua voz saiu rouca.

"Minha irmã… ela foi atacada na estrada vindo para cá. Mal conseguimos chegar. A viagem foi longa e cruel, mas escolhemos a Bloodfang porque ouvimos dizer que esta alcateia era forte, organizada e segura." Ela engoliu em seco. "Não temos mais para onde ir. Por favor."

A voz dela quebrou na última palavra. Parecia exausta da viagem e desesperada porque de fato estava. Nós duas estávamos.

O guarda olhou para o meu pescoço de novo, depois para Xena. Nós duas estávamos paradas ali, sem nada restante além uma da outra. Ele nos deu passagem com um aceno de mão. O homem nem sequer se deu ao trabalho de revistar Xena. Era quase inacreditável.

Avançamos com os olhos retos e passos regulares. O portão se fechou atrás de nós com um retinir pesado que reverberou nos meus ossos. Estávamos agora dentro do território da Bloodfang, e não havia como voltar atrás.

Apenas quando os guardas desapareceram de vista soltei o ar que estivera preso em meus pulmões. Ele escapou em um tremor.

Um jovem escolta nos conduziu por edifícios mais imponentes e pesados do que qualquer coisa na Ironclaw. Paredes de pedra fortificada erguiam-se à esquerda e à direita, com olhares vigilantes em cada canto.

Mantive a expressão vazia. Eu era Scarlett Bane. Uma mulher que havia perdido tudo e buscava um lugar para recomeçar. Repeti isso na mente a cada passo.

Nossa caminhada terminou em uma sala de avaliação fria. Três membros veteranos da alcateia sentavam-se atrás de uma mesa longa, com lábios cerrados em linhas finas e sem dar o menor sinal de boas-vindas.

Fizeram perguntas, observaram nossas respostas e, em seguida, pediram que demonstrássemos pequenas amostras de nossos dons. O meu surgiu com facilidade.

Eu não tinha uma loba. Nunca havia me transformado, nunca sentira a quebra e reconstrução dos ossos que qualquer outro lobo na Ironclaw considerava natural. Meus pais, na minha terra natal, chamavam aquilo de maldição. O dom que preenchia essa ausência era a cura, como se a deusa estivesse oferecendo um modesto pedido de desculpas por me criar sem loba.

O calor brotou de algum lugar sob o meu peito e espalhou-se lentamente para fora, até que o ar entre as minhas mãos e o braço do avaliador tremulou de leve com um calor que não continha fogo real. Um deles inclinou-se para a frente, de modo quase involuntário. O outro anotou algo sem desviar o olhar.

Apenas um deles respondeu: "Valorizada. Dê um passo ao lado."

Xena avançou e exibiu seu dom sem perder um segundo. O dela atingia com mais força. A Deusa da Lua a havia abençoado com sabedoria de guerra, força, precisão tática e uma loba à altura de tamanha ferocidade. Eles viram isso no modo como ela se movia, no modo como seus olhos mapeavam saídas mesmo parada.

O mesmo avaliador que deu o meu veredito deu o de Xena: "Valorizada. As duas, deem um passo à frente."

Ele se sentou enquanto outra veterana, uma mulher dessa vez, levantou-se e falou de modo seco: "Curandeiras ficam no castelo. Próximas ao Alfa. Guerreiros vão para os territórios externos. Nossos campos de treinamento."

Meu estômago despencou tão rápido que senti o impacto nos joelhos.

A palavra castelo ecoou em meu crânio. Territórios externos ressoou logo em seguida. Apertei a alça da minha bolsa até o tecido afundar na palma da mão. Havíamos sobrevivido aos portões juntas. Tínhamos nos transformado em pessoas diferentes juntas. Nem por um segundo imaginei sobreviver a este lugar sem ela ao meu lado.

Eles nos separaram antes mesmo de surgir qualquer oportunidade de protestar.

Um guarda avançou primeiro em direção a Xena. Ela se virou para mim. Seus olhos azuis fixaram-se nos meus. Apertou minha mão uma vez, em um aperto breve, mas firme. "Fique viva, irmã", murmurou. As palavras soavam comuns para quem ouvisse de fora. Para mim, significavam tudo.

Então ela se foi, conduzida em uma direção enquanto eu era levada para a outra.

A ausência pesou mais do que qualquer som que já ouvi na vida.

Não havia Xena, nem qualquer resquício de familiaridade. Apenas eu, grávida, marcada e irrevogavelmente perdida, mentindo a cada respiração dentro das muralhas inimigas. Endireitei os ombros e segui o escolta.

Scarlett Bane não olhava para trás. Então eu também não olhei.

Os corredores do castelo eram longos e movimentados. Pessoas andavam com pressa e determinação, olhares deslizavam sobre mim, todos dizendo a mesma coisa: novata, viajante, forasteira.

Mantive o olhar baixo, mas gravando curvas, portas e rotas de fuga. Era um velho hábito da residência do Alfa que me impedia de me sentir completamente encurralada.

A ala dos curandeiros cheirava a ervas e remédios pungentes.

No instante em que entrei, os olhares se aguçaram.

Curandeiros notam tudo. Corpos. Respiração. A maneira como alguém carrega a dor. Provavelmente já sentiam que eu carregava mais dor do que demonstrava.

Fiquei imóvel, com a bolsa pesando no ombro e uma das mãos pousada de leve sobre o ventre, por baixo das roupas.

A curandeira-chefe aproximou-se antes que eu pudesse pousar a bagagem. Era uma mulher alta, de olhos penetrantes e marcas de cansaço ao redor da boca.

Ela não perdeu tempo.

"Regras", começou. "Fique de boca fechada. Não faça perguntas sobre assuntos fora da sua função. Não dê opiniões sobre como administramos esta ala. Não fale do seu passado a menos que perguntem e, mesmo assim, seja breve. Eu sou a Sra. Darkmoon, e você é..."

"Scarlett Ba—"

Ela ergueu um dedo diante de mim, interrompendo-me, e deu um passo de um lado para o outro à minha frente. "Você fala demais, garota. Siga ordens com exatidão. Hesitação e negociação serão tratadas como desobediência. Você é novata. Ser novata significa provar o próprio valor por meio da obediência."

O olhar dela me prendeu. "Não chame atenção. Viajantes vivem de confiança emprestada por aqui, especialmente no castelo. Quebre essa confiança e não haverá segunda chance."

Assenti, sentindo a garganta apertada. "Entendido."

Ela me analisou por mais um instante e assentiu com a cabeça. "Ótimo. Sua primeira tarefa será esta noite. O tônico noturno do Alfa Dimitri. Entregue nos aposentos dele. Bata e entre apenas quando receber autorização. Coloque na mesa e saia imediatamente. Simples assim."

A Sra. Darkmoon deu meia-volta, deixando-me acomodar-me por conta própria.

Duas curandeiras mais jovens me mostraram meu pequeno quarto, com uma cama, uma janela e uma prateleira estreita para a minha bolsa. Era menor e bem mais simples do que o meu antigo lar, mas eu já me sentia mais confortável naquele espaço. Pousei a bolsa e sentei-me na beirada do colchão.

Minha mão deslizou até o ventre sem que eu pensasse a respeito. Meu bebê resistia por mais um dia.

Soltei o ar, tombando a cabeça para trás.

Xena estava em algum lugar nos territórios externos, e eu estava aqui. Sozinha.

Agora era sobrevivência em estado puro.

A noite caiu rápido demais, e a curandeira-chefe, Sra. Darkmoon, entregou-me o tônico. Era uma taça pequena e morna com uma mistura específica que nem eu conseguia decifrar, por mais que fitasse o líquido. "Não derrame e não se demore."

Peguei a taça e segui pelos corredores em direção à ala do Alfa, exatamente como as curandeiras haviam indicado. De quando em quando, parava para confirmar direções com os guardas espalhados pelos caminhos.

Meu coração acelerava a cada passo. A guarda ficava mais atenta quanto mais eu me aproximava dos aposentos do Alfa. O tempo todo mantive a cabeça baixa, o lenço erguido e firme cobrindo meu pescoço arruinado, e a mão estável sobre a taça.

Alcancei a porta e bati uma vez.

Apenas o silêncio me respondeu.

Bati de novo, e mais uma vez ninguém atendeu.

Nós se formaram em meu estômago. Eu não podia voltar para a Sra. Darkmoon sem cumprir minha primeira tarefa, e não podia pisar no quarto do Alfa sem permissão.

Puxei o ar bem fundo e bati mais uma vez. O mesmo silêncio frio respondeu.

Um suor fino brotou na raiz do meu cabelo. O guarda do outro lado do corredor já começava a me encarar com olhos cerrados. Eu tinha uma tarefa. Uma. E ficar congelada diante de uma porta não era cumpri-la.

Pressione a palma da mão espalmada contra a madeira, fechei os olhos e sussurrei uma única palavra à deusa.

Entrei e fechei a porta atrás de mim.

O Alfa estava caído no chão.

O rosto desfalecido com o corpo completamente imóvel, e espuma se acumulava no canto da boca. Seu peito subia e descia em puxões rasos e descompassados, revelando que ele tinha minutos, não horas.

Minha mente de curandeira registrou tudo de uma vez só: a taça tombada de lado ali perto, o tom desbotado de seus lábios e o modo como os dedos dele haviam se contraído para dentro.

Ele havia sido envenenado.

Meu estômago virou gelo.

Todos me conheceriam como a forasteira que matou o Alfa deles.

Continuez à lire ce livre gratuitement
Scanner le code pour télécharger l'application

Dernier chapitre

  • O Curandeiro Cicatrizado do Alfa   Capítulo 6: A Porta de Ligação

    Ele já estava dentro do quarto.O Alfa Dimitri deu um passo à frente saindo do vão da porta, diminuindo a distância entre nós com passos lentos e calculados. O ar no meu novo aposento parecia ficar mais rarefeito a cada centímetro que ele avançava. Minha cabeça baixou antes que eu pudesse impedir. Queixo colado ao peito, ombros curvando-se para dentro. A mesma postura que meu corpo vinha repetindo há anos perto de Lucan. Aquilo me tornava pequena, segura, invisível. E eu odiava isso. Odiava o fato de que, mesmo aqui, meus músculos ainda se lembravam com precisão de como encolher a minha própria presença.Continuei respirando, com o fôlego alternando depressa entre o curto e o acelerado. Cada inspiração travava alto na garganta.Ele parou bem na minha frente.Eu conseguia sentir o calor que emanava do seu corpo. O aroma limpo de sua pele misturava-se a resquícios sutis de ervas e a algo mais denso, mais masculino. Minhas mãos cerraram-se sobre os lençóis. Esperei pelo golpe. Pelas pala

  • O Curandeiro Cicatrizado do Alfa   Capítulo 5: Sua Curandeira Pessoal

    A praça ainda parecia irreal.Em um segundo, eu estava na beira da morte, com a mão sobre o ventre, os olhos azuis de Xena cravados nos meus como se ela pudesse me arrancar da lâmina pela força de vontade. No instante seguinte, a voz do Alfa Dimitri cortou tudo.E agora os guardas tinham me soltado.Meus braços pareciam estranhamente leves sem o aperto deles. Meus joelhos quiseram ceder, mas eu os firmei. Eu continuava respirando e continuava de pé. A multidão murmurava ao meu redor, inquieta, sem saber o que fazer com a mulher que deveria ter morrido, mas não morreu.Então Xena começou a correr.Ela abriu passagem pelos guardas que a seguravam instantes atrás, empurrando corpos para fora do caminho sem pedir licença. Chegou até mim em segundos e colidiu comigo, os braços me envolvendo com tanta força que senti o ar deixar meus pulmões. O coração dela martelava contra o meu. Suas mãos se moviam freneticamente — pelos meus ombros, braços, rosto — verificando danos como um guerreiro ava

  • O Curandeiro Cicatrizado do Alfa   Capítulo 4: Olhos Verdes

    Minhas mãos encontraram o peito dele antes mesmo de eu cruzar totalmente o quarto.O calor brotou de algum lugar sob o meu peito, mais ardente e mais intenso do que havia sido na sala de avaliação. Despejei nele tudo o que eu tinha. Meu dom respondeu sem hesitação, caçando o dano através do sangue dele, dos seus órgãos, de cada ponto onde algo estava prestes a parar de funcionar.Não havia tempo para pensar—apenas tempo para agir.O suor cobriu minha testa em questão de minutos.Minhas costas doíam de ficar ajoelhada sobre a pedra fria. Minhas mãos queimavam no fundo das articulações, mas continuei forçando."Fique. Fique comigo. Respire. Apenas respire… por favor", murmurei por entre dentes.O corpo dele lutava contra o meu toque, mas lutei com mais força, recorrendo a reservas de energia que eu nem sabia que possuía.O quarto escureceu, as velas queimaram até o fim, e minha visão borrou nas bordas.Foi então que percebi.Não era veneno.O dano não parecia um ataque externo. Parecia

  • O Curandeiro Cicatrizado do Alfa   Capítulo 3: Dentro da Alcateia Inimiga

    Meus dedos congelaram na ponta do lenço.Uma batida do coração. Duas.Ergui o olhar devagar até o dele, torcendo para que marcar minha pele permanentemente fosse o suficiente para não acabar na minha própria poça de sangue ao lado daquele último sujeito. O guarda sequer piscou.Com as mãos surpreendentemente firmes, desenrolei o lenço.O ar frio atingiu a pele destruída do meu pescoço. Os olhos do guarda desceram rápido para o local. Ele encarou a confusão de bolhas, a textura irregular e o vermelho vivo que ainda expelia secreção em alguns pontos. O maxilar dele se contraiu e as sobrancelhas se juntaram. Pude ler a piedade em seus olhos.Ele não disse nada.Xena deu um passo e parou ao meu lado, os ombros roçando os meus. Suas mãos tremeram uma vez junto ao corpo antes de ela fechar os punhos. Lágrimas inundaram seus olhos azuis, mas ela piscou com força, lutando para contê-las. Sua voz saiu rouca."Minha irmã… ela foi atacada na estrada vindo para cá. Mal conseguimos chegar. A viage

  • O Curandeiro Cicatrizado do Alfa   Capítulo 2: Queimar e Fugir

    "Falamos sobre o bebê mais tarde. Agora, nós nos mexemos", respondeu Xena, com a voz ríspida.Assenti. Minha garganta doía demais para responder."Bloodfang", disse Xena no instante em que entramos. "Partimos esta noite. Lucan nos viu sair juntas. Os homens dele estarão aqui em menos de uma hora."Minha boca se abriu. A alcateia rival. O único território que Lucan não podia invadir sem declarar uma guerra."Eles aceitam forasteiros que juram lealdade. Nós vamos, dizemos que nossa antiga alcateia ruiu, começamos de novo."Os olhos dela desceram para o meu ventre. A mão dela fez um movimento involuntário na minha direção e parou."Então vamos começar", eu disse.O banheiro dela parecia pequeno demais. Os azulejos, frios sob os meus pés. Xena pegou uma tesoura na gaveta enquanto eu me sentava na tampa fechada do vaso sanitário e encarava o chão.Mechas grossas do meu cabelo preto como azeviche caíam sobre os azulejos à medida que Xena cortava—uma após a outra. Eu as observava cair. O cab

  • O Curandeiro Cicatrizado do Alfa   Capítulo 1: Gaiolas Caras

    O golpe atingiu minha bochecha com um estalo que pareceu rachar meu crânio ao meio.Caí com força no chão, e meu corpo se dobrou sobre si mesmo. Minha boca não dava espaço para gritos. Minhas mãos não se erguiam para lutar. Eu havia aprendido a ser seu saco de pancadas silencioso há muito tempo.Minha bochecha latejava contra a madeira de lei. O gosto de cobre inundou minha boca e, ainda assim, não me mexi. Só conseguia focar na minha respiração.Enquanto continuasse respirando, eu ficaria bem.Lucan ficou de pé sobre mim por um segundo. Talvez dois, eu já não conseguia discernir mais nada.Ele não me dirigiu nenhuma palavra; havia deixado de fazer isso há muito tempo. Ajustou o punho da camisa, soltou o ar pelo nariz como se eu fosse um estorvo finalmente resolvido e virou as costas.A porta se fechou com um clique silencioso atrás dele.Meu corpo ainda se recusava a mover.A dor começou devagar no início e foi se espalhando até que eu pudesse senti-la por toda parte. Levei um dedo a

Plus de chapitres
Découvrez et lisez de bons romans gratuitement
Accédez gratuitement à un grand nombre de bons romans sur GoodNovel. Téléchargez les livres que vous aimez et lisez où et quand vous voulez.
Lisez des livres gratuitement sur l'APP
Scanner le code pour lire sur l'application
DMCA.com Protection Status