MasukEle retornou tarde ao quarto.
A casa urbana já repousava sob a quietude da madrugada, os corredores com as luzes apagadas e os passos abafados pelo espesso dos tapetes.
Ao cruzar a porta dos aposentos, encontrou-a deitada. Encolhida na vastidão da cama de casal. Pálida. Absolutamente imóvel.
Por alguns instantes, Henrik limitou-se a observá-la na penumbra. Em seguida, deu início aos preparativos para se recolher, produzindo mais r
Ele retornou tarde ao quarto.A casa urbana já repousava sob a quietude da madrugada, os corredores com as luzes apagadas e os passos abafados pelo espesso dos tapetes.Ao cruzar a porta dos aposentos, encontrou-a deitada. Encolhida na vastidão da cama de casal. Pálida. Absolutamente imóvel.Por alguns instantes, Henrik limitou-se a observá-la na penumbra. Em seguida, deu início aos preparativos para se recolher, produzindo mais ruído do que o necessário o solavancar das gavetas do armário, o peso das botas caindo sobre o assoalho, o atrito do casaco despido com impaciência.Movimentos calculados para despertar-lhe a atenção.Nora moveu-se com lentidão. Os olhos abriram-se a custo.— Aquilo que você insinuou durante o almoço… — começou ele, ainda de pé, a voz revestida de uma austeridade controlada. —
O médico fora categórico: nada de espartilhos, nenhum tipo de esforço e repouso absoluto.Ainda assim, ela se colocou de pé.As criadas recuaram, hesitantes.— Senhora… talvez fosse melhor…— Está tudo bem — murmurou Nora, sem forças para discutir, mas com uma firmeza silenciosa que não dava margem a contestações.O vestir deu-se em etapas cautelosas. Camadas leves de linho primeiro. Depois, a estrutura rígida do espartilho.A compressão veio gradativa. Familiar. Cruel.Nora fechou os olhos enquanto as tiras de fita eram puxadas contra o abdômen. A respiração, já fragilizada pela tosse, encurtou-se de imediato. O peito sensível protestou ao mínimo movimento de expansão, mas ela não pediu para que afrouxassem. Nunca pedia.Quando terminaram, sua palidez era absoluta.
Nora não tinha melhorado ainda naquela manha, mesmo Henrik não querendo admitir algo parecia abranja aquela casa em que moravam.O quarto permanecia mergulhado em silêncio quando o médico voltou a examiná-la.Ela não deixara a cama durante todo o dia. Nem tentara. O corpo parecia pesado demais para qualquer movimento que exigisse mais do que o esforço básico de respirar. As mãos repousavam frias sobre o lençol e os olhos mantinham-se semicerrados, acompanhando a movimentação à distância como se ela estivesse ali apenas pela metade.Henrik permanecia ao lado da cama. De pé, com os braços cruzados, a postura rígida e o maxilar levemente tensionado. Havia ainda um traço de contrariedade nele, um incômodo contido e mal resolvido.— Aquele último aborto mexeu muito com o organismo dela… — comentou ele
O almoço foi servido no jardim.As toalhas de linho foram trocadas, a porcelana reorganizada e as vozes ganharam um dinamismo mais vivo sob o sol quente do meio-dia.Ela, contudo, não desceu.As tonturas haviam se intensificado desde as primeiras horas da manhã. O corpo já não respondia com a firmeza de antes se é que algum dia respondera após tantos meses de desgaste. Cada tentativa de se manter ereta trazia um escurecimento sutil da visão e um vazio gélido no peito que ia além de qualquer fraqueza física.A condessa-mãe subiu aos aposentos. Não demorou a ir direto ao ponto.— Talvez seja melhor você retornar à casa da cidade — disse a matriarca, com o tom medido e impecável que jamais soava acolhedor. — Precisa de repouso absoluto. Não faz sentido se forçar a permanecer aqui… e acabar atrapalhando a
O quarto estava imerso em penumbra quando ela cruzou a soleira.Fechou a porta com extrema cautela, um gesto automático de quem aprendeu que qualquer ruído em falso poderia ser interpretado como um drama desnecessário.Deu apenas dois passos antes de ser forçada a parar. A tontura veio como uma onda súbita, acompanhada por um enjoo violento ainda mais forte do que o anterior. Mal teve tempo de se apoiar no dossel da cama antes de o corpo se curvar em espasmos incontroláveis, expulsando até a última gota da bile amarga que lhe queimava a garganta. Os olhos lacrimejaram com o esforço, mas, mesmo na dor, nenhum gemido audível escapou de seus lábios.Quando os espasmos finalmente cessaram, permaneceu imóvel, o peito subindo e descendo com dificuldade, as mãos trêmulas segurando o tecido pesado das cortinas.Era sempre assim. Cada crise parecia pior e mais desgasta
Ela não conhecia seu próprio marido.A condessa-mãe deu duas batidinhas sutis com a colher de prata na taça de cristal, quebrando a ilusão de espontaneidade da mesa.— Henrik — disse a matriarca, com o olhar firme e sem qualquer desvio —, o pequeno Christian precisa descansar. A viagem da ilha foi longa e o ar da costa sul nesta época do ano é pesado para quem não está acostumado com a casa grande.— Claro — ele respondeu imediatamente. A prontidão na voz dele foi um golpe físico no peito de Nora. Ele nunca respondia à mãe com tanta presteza quando o assunto dizia respeito aos repousos forçados de Nora após suas perdas.Astrid se levantou com uma graça simples, sem o ruído excessivo de armações de seda ou anáguas engomadas. Ela tocou suavemente o ombro do menino, que se despediu do pai co







