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Capitulo 5

Penulis: Mary Bela
last update Tanggal publikasi: 2026-09-26 21:30:46

O médico fora categórico: nada de espartilhos, nenhum tipo de esforço e repouso absoluto.

Ainda assim, ela se colocou de pé.

As criadas recuaram, hesitantes.

— Senhora… talvez fosse melhor…

— Está tudo bem — murmurou Nora, sem forças para discutir, mas com uma firmeza silenciosa que não dava margem a contestações.

O vestir deu-se em etapas cautelosas. Camadas leves de linho primeiro. Depois, a estrutura rígida do espartilho.

A compressão veio gradativa. Familiar. Cruel.

Nora fechou os olhos enquanto as tiras de fita eram puxadas contra o abdômen. A respiração, já fragilizada pela tosse, encurtou-se de imediato. O peito sensível protestou ao mínimo movimento de expansão, mas ela não pediu para que afrouxassem. Nunca pedia.

Quando terminaram, sua palidez era absoluta. Os lábios quase desprovidos de sangue e o olhar entreaberto pareciam pertencer a um espectro, contudo a postura mantinha-se ereta. Impecável, como sempre fora treinada para ser.

— Vamos — disse, a voz baixa.

Ao atingir o topo da escadaria, a turbulência das conversas alcançou-a antes da imagem.

Já estavam acomodados à mesa de almoço. A condessa-mãe. Astrid. O menino. E Henrik... sentado entre eles. Perfeitamente integrado à cena, como se aquela fosse a disposição natural da casa. Como se aquela fosse a família legítima.

Nora hesitou por uma fração de segundo no último degrau, a mão apoiada com firmeza discreta no corrimão de madeira polida. Respirou fundo e completou a descida.

O farfalhar de suas saias fez com que Henrik voltasse o rosto.

Pela primeira vez em seis anos, a reação dele foi visível. Seus ombros contraíram-se em um sobressalto quase imperceptível. Não esperava vê-la fora da cama. Não esperava encontrar a esposa de pé, trajada para a recepção.

— Querida… — ele ensaiou, a palavra soando hesitante, desprovida da habitual frieza mecânica.

A matriarca, porém, cortou-o antes que prosseguisse.

— Pensei que estivesse em repouso — interveio a mãe, com uma leveza polida e estudada. — Afinal de contas… sua indisposição já atrapalhou o almoço nos jardins.

A provocação veio suave, mas cortou o ar com precisão.

Nora não respondeu de imediato. Apenas concluiu o percurso até a sala de jantar, passo a passo, sem alterar o ritmo.

— Manda o decoro que eu receba os convidados desta casa — declarou, mantendo o tom plano e distante, assumindo a postura de uma mera anfitriã. — Em breve me retirarei.

Henrik a observava, o olhar fixo e carregado de um incômodo crescente, mas permaneceu em silêncio.

Os criados deram início ao serviço. Pães frescos, assados ricos, compotas e frutas da estação se acumularam sobre a mesa pratos fartos e pesados que faziam o estômago de Nora revirar ao simples aroma. Mas estavam ali porque serviam ao gosto de Henrik. Porque era o padrão esperado.

Nora acomodou-se na cadeira principal. O espartilho exercia uma pressão dolorosa contra suas costelas a cada tentativa de puxar o ar. O corpo dava sinais claros de exaustão, vacilando no esforço de sustentar a espinha ereta. Ainda assim, permaneceu.

Segurou os talheres de prata. Manteve os gestos contidos.

O garoto falava com entusiasmo, Astrid sorria com moderação e a matriarca conduzia o fluxo das conversas com maestria. Henrik, no entanto, desviava os olhos para Nora com uma frequência incomum. Havia um desalinhamento naquela cena que começava a perturbá-lo: a imagem da esposa, pálida e sem vida, forçando-se a cumprir o protocolo no limite de suas forças.

Ninguém mencionou o estado dela. Tudo transcorria dentro da mais perfeita ordem.

E ali, em meio à porcelana fina, às vozes compostas e à fartura da mesa, ela permanecia imóvel. Sem conseguir engolir um único bocado, sem conseguir respirar por inteiro, sustentando-se unicamente pelo orgulho para não falhar diante daqueles que esperavam sua ruína.

— Amanhã haverá uma exposição no museu — comentou a condessa-mãe, desdobrando o guardanapo de linho com uma naturalidade calculada. — Uma exibição de pinturas trazidas da capital. Um programa agradável para a família.

A matriarca lançou um olhar significativo ao filho. Um convite implícito, indiscutível.

Henrik abriu a boca para assentir, mas hesitou. Seu olhar desviou-se, quase involuntariamente, para a ponta da mesa onde a esposa permanecia sentada. Pálida. Imóvel. Quieta demais.

— Não posso deixá-la nestas condições… — respondeu ele em tom baixo, antes que pudesse medir as palavras.

Astrid, então, inclinou-se levemente à mesa. A voz veio suave, revestida de uma gentileza polida:

— Tenho certeza de que a condessa não se importaria… importaria?

A pergunta flutuou no ar, colocando o peso da concessão inteiramente sobre os ombros de Nora. O pequeno Christian, alheio à tensão que paralisava os adultos, bateu as palmas sobre a mesa, entusiasmado:

— Eu quero ir! Papai, vamos, por favor!

A voz infantil e alta eliminou qualquer margem para recuo. Os olhares da mesa convergiram sobre Nora.

Sempre sobre ela.

Nora demorou uma fração de segundo. Sustentou o olhar de Henrik antes de responder.

— Claro que não me importo — murmurou, com a voz plana e sem alteração. — Seria de uma crueldade imperdoável de minha parte impedir que fossem.

Crueldade.

A palavra foi dita com leveza, mas repousou entre eles com a densidade de um golpe. Nora fez um gesto sutil para o chefe dos criados ao fundo do salão.

— Podem servir o almoço.

O banquete prosseguiu como se nada fora do comum tivesse sido dito. Henrik continuou a observá-la, visivelmente inquieto, farejando o vinagre por trás da polidez da resposta, mas não ousou questioná-la diante dos outros.

Os pratos foram servidos. Nora repetiu o teatro de sempre: tomou os talheres de prata, cortou uma porção diminuta e a arrastou pelo prato sem jamais levá-la à boca. Henrik, entretido pelos comentários do filho, não notou. Mas as criadas ao redor da mesa notaram. Os olhares discretos trocados entre a amamentadora e a dama de companhia carregavam uma compaixão silenciosa, a testemunhar o lento esgotamento da senhora da casa.

A noite caiu densa sobre a cidade. As lâmpadas de óleo foram acesas nos lustres de cristal, e a sala de estar preencheu-se com a voz de Henrik. Ele narrava uma história sobre as navegações nos fiordes, entretendo o menino antes de dormir. Havia risos soltos, exclamações e o calor de um lar funcional.

Nora permaneceu de pé junto à lareira durante quase toda a narrativa, distante, assistindo àquela felicidade da qual não fazia parte.

Em dado momento, moveu-se em direção à porta.

— Onde vai? — interrompeu Henrik, parando a narrativa no meio e buscando-a com o olhar.

Nora não hesitou.

— Ao toucador. Retorno em breve.

A mentira fluiu fácil, impecável. Ele assentiu sem suspeitar e retornou à história.

Ela não retornou.

Subiu a escadaria de madeira a passos lentos e calculados. Quando cruzou a porta de seus aposentos, a penumbra e o silêncio absoluto a acolheram como um refúgio.

— Senhora? — a voz da sua ama de companhia soou do canto do quarto. A mulher aproximou-se rápido, a preocupação estampada no rosto. — Precisa de algo?

Nora a encarou por um momento mais longo do que o habitual, o olhar detendo-se nas feições da única pessoa que verdadeiramente cuidara dela nos últimos anos.

— Minha boa amiga… — murmurou Nora, a voz um fio frágil, mas impecavelmente claro. — Cuide bem das criadas do meu quarto. Garanta que recebam seus pagamentos.

A serva franziu a testa, confusa com a solenidade da ordem.

— Senhora…?

Nora não explicou. Apenas virou o rosto lentamente em direção à bancada onde repousavam suas poucas pertences pessoais. Caminhou até o leito sem olhar para trás, sem buscar o conforto que o andar de baixo celebrava.

Naquela noite, pela primeira vez em seis anos, a Condessa de Larvik não estava apenas se recolhendo para descansar. Estava, em silêncio, deixando tudo para trás.

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