LOGINHenrik precisou retornar aos negócios da família.
Navios ancorados, balanços financeiros, reuniões de diretoria e compromissos comerciais no porto exigiam sua presença. O título e as obrigações da Casa de Larvik não permitiam que permanecesse velando o leito da esposa indefinidamente e Nora sabia disso.
Foi durante a ausência dele que ela tomou uma decisão.
Não convocou reuniões, n&a
A casa de campo guardava uma atmosfera distinta da residência urbana. Exalava o aroma acre de terra molhada pela brisa da tarde, o cheiro característico de madeira antiga envernizada e o perfume suave de ramos de lavanda secando junto aos peitoris das janelas.Ao chegar, Henrik não a encontrou nos aposentos principal, mas nos fundos da propriedade.Nora estava acomodada sob a copa de uma macieira. Um volume encadernado repousava aberto em seu colo e uma manta leve cobria-lhe os joelhos. Ao escutar o som de passos pesados quebrando os gravetos sobre a relva, ela ergueu o rosto devagar.Não esboçou um sorriso. Contudo, não transpareceu o pavor que costumava paralisá-la.Henrik estancou a poucos passos de distância, tomado por um silêncio repentino.Havia cor em suas bochechas. Nora permanecia magra e seus movimentos ainda conservavam a delicadeza de quem se recuperava de uma se
Henrik precisou retornar aos negócios da família.Navios ancorados, balanços financeiros, reuniões de diretoria e compromissos comerciais no porto exigiam sua presença. O título e as obrigações da Casa de Larvik não permitiam que permanecesse velando o leito da esposa indefinidamente e Nora sabia disso.Foi durante a ausência dele que ela tomou uma decisão.Não convocou reuniões, não fez exigências e não solicitou permissão. Apenas partiu.A propriedade de campo ficava a uma distância considerável, isolada o bastante para evitar visitas inoportunas. Nora levou consigo apenas o estritamente necessário: roupas sóbrias, livros antigos que pertenceram à sua avó, correspondências pessoais e a pequena caixa de carvalho onde guardava as poucas lembranças do filho que perdera.Deixou para
A conversa continuou no dia seguinte.A sala permanecia imersa em uma quietude densa. A matriarca continuava de pé a poucos passos, aguardando qualquer vestígio de desmoronamento ou lágrima.Nora desviou o olhar para o garoto no tapete. Ele ajustava um dos cavalinhos de madeira, alheio à peçonha lançada pelos adultos. Era uma criança vigorosa, de traços marcados e olhar desperto.Nora contemplou-o por longos segundos. Então, para espanto de todos no recinto, seus lábios desenharam um sorriso sutil um gesto brando, límpido, impregnado de uma exaustão quase majestosa.— Já que a condessa-mãe possui razão quanto à urgência da criança…Henrik voltou-se para ela no mesmo instante, o semblante anuviado:— Nora, não se submeta a...Ela ergueu a mão gélida, cortando-lhe a pa
A casa mal recuperara uma frágil quietude quando a carruagem familiar reapareceu diante da entrada.O mordomo reconheceu o brasão na portinhola antes mesmo de o cocheiro refrear os cavalos. Pressionou os lábios em uma linha tensa. A condessa-mãe jamais fazia uma aparição desavisada sem um propósito muito claro.A matriarca desembarcou primeiro, impecável em seus trajes negros de seda rígida. Empunhava a bengala de castão de prata mais como um cetro de autoridade do que como apoio para os passos. Logo atrás, surgiu a jovem da ilha, visivelmente hesitante, e, segurado firmemente por sua mão, o menino.O filho ilegítimo do conde.Um bastardo perante os tribunais e a Igreja, contudo, aos olhos da avó, o único sangue capaz de perpetuar a linhagem dos Larvik. A meta da condessa-mãe era inequívoca: a anulação definitiva daquele mat
Nora investigou.Não por orgulho, tampouco por vingança. Precisava entender. As insinuações daquelas damas no sarau continuavam ecoando em sua mente, repetindo-se em um ciclo contínuo que a impedia de dormir.Passou a solicitar papéis à governanta e ao bibliotecário: livros de contas antigas, registros contábeis das companhias marítimas dos Larvik, correspondências de negócios e a cópia do pacto nupcial. Tudo o que pudesse lançar luz sobre as verdadeiras razões daquele matrimônio.E encontrou.O conde realmente necessitava de capital. As grandes navegações e os investimentos comerciais da família exigiam fortunas em ouro navios, tripulações, seguros e mercadorias custavam muito além do que as rendas dos imóveis rurais podiam sustentar.Foi então que o nome dela surgiu nos documentos. O
O sarau transcorria como se estivesse a léguas de distância.Luzes suaves de candelabros, uma melodia leve de violinos e vozes polidas preenchiam o salão, tecendo a ilusão de que nada fora daquele ecossistema de aparências importava.Nora permanecia em um canto discreto, um copo de água preso entre as mãos frias. Imóvel. Seu olhar navegava perdido entre os convidados que circulavam com uma leveza natural risos ensaiados, saias rodopiando, cumprimentos trocados com facilidade.E Henrik estava no centro de tudo. Integrado. Pleno. Em determinado momento, conduziu Astrid pela pista de dança, rindo de algo que ela dissera, perfeitamente alheio ao peso dos olhos que o observavam do fundo da sala.Nora não se moveu. Limitou-se a assistir.Até que as vozes a pouca distância desviaram sua atenção. Duas damas de meia-idade acomodadas no sofá ao lado conversa







