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Capítulo 7

Autor: Camila Torres
Felipe chutou a porta com violência e correu até Karine, envolvendo-a nos braços, as mãos trêmulas.

— Kari, não tenha medo. Eu vou te levar pro hospital agora.

Priscila abriu a boca, querendo explicar.

Mas Felipe já avançava a passos largos em direção à saída, a mulher firmemente protegida em seus braços. Ao passar por ela, bateu o ombro com força, sem sequer desacelerar.

Priscila perdeu o equilíbrio e cambaleou alguns passos para trás.

Felipe não percebeu, ou não quis perceber. Toda a sua atenção estava voltada apenas para a mulher que carregava, murmurando palavras de consolo.

Ele não disse uma única palavra para Priscila.

Ainda assim, ela sentiu um frio cortante atravessar-lhe os ossos.

Priscila não sabia como havia chegado ao hospital.

Quando finalmente encontrou a sala de cirurgia para onde Karine fora levada, Felipe já estava do lado de fora, esperando. A tensão estampada em seu rosto dispensava qualquer explicação.

Era evidente. Felipe estava, de fato, emocionalmente envolvido com Karine.

Priscila não disse nada. Apenas se sentou do outro lado do corredor, em silêncio, aguardando o resultado da cirurgia.

O corredor permanecia mergulhado num silêncio opressor.

Pessoas que um dia haviam sido íntimas, inseparáveis, agora pareciam separadas por uma galáxia inteira.

Entre eles, restava apenas o vazio.

Não se sabia quanto tempo havia passado quando Felipe ergueu os olhos avermelhados e falou com a voz rouca.

— Priscila, eu já te garanti que o lugar de esposa sempre seria seu. Que a única pessoa que eu amava era você. Então por que você fez isso com a Kari?

Sete anos juntos.

Priscila conhecia Felipe bem demais.

Ele estava à beira de perder o controle.

A última vez que ficara assim fora quando ela se machucara durante uma gravação, e ele descarregara a raiva em todo o elenco.

Agora, porém, era por causa da amante.

E o alvo da fúria tinha se tornado ela.

Que ironia cruel.

Priscila baixou os olhos, engolindo a dor densa que se acumulava no peito.

— Eu não empurrei ela. — Disse, com a voz baixa, porém firme. — Foi ela quem armou tudo pra me incriminar.

Felipe soltou uma risada curta, carregada de desdém. A descrença transparecia em cada palavra.

— Pri, desde quando você aprendeu esses joguinhos de mulher disputando atenção? — Disse, impaciente. — Será que tudo o que eu te dei ainda não é suficiente. O lugar de esposa é seu, o meu amor é seu. Com a Kari eu só estava me divertindo. Você realmente não consegue tolerar nem isso?

"Só estava me divertindo."

"O meu amor é seu."

Ao ouvir essas duas frases, Priscila riu.

Riu baixo. Aos poucos, o vermelho tomou o canto de seus olhos.

— Felipe… — Ela disse, ainda sorrindo, mas com a voz quebrada. — Quando uma mentira é repetida vezes demais, até quem conta acaba acreditando nela. Coloca a mão no peito e me diz. Você ainda me ama de verdade?

"Se ele me amasse, estaria pulando de uma amante para outra?

Se ele me amasse, permitiria que outra mulher engravidasse?

Se ele me amasse, confiaria em mim nem que fosse um pouco?"

Ao encarar o vazio morto que habitava os olhos de Priscila, Felipe hesitou. A fúria em seu peito se dissipou um pouco.

No fundo, pensou ele, tudo não passava de ciúme.

"Priscila sempre me amara demais."

Nesse último mês, ele realmente passara tempo demais com Karine. Talvez tivesse negligenciado os sentimentos dela.

Felipe se levantou e a puxou para um abraço.

— Pri, espera mais um pouco. Quando eu me cansar das mulheres lá fora, eu volto. Aí, tudo o que você quiser fazer, eu faço com você.

Mais uma vez, a mesma promessa vazia. Uma frase que nunca se cumpriria.

Priscila o empurrou para longe. O tom, absolutamente calmo.

— Não precisa.

Porque eles já estavam oficialmente divorciados.

Ela não precisava mais esperar. Tudo o que quisesse fazer dali em diante, faria sozinha.

Felipe interpretou aquilo apenas como birra.

— Quanto ao que aconteceu com a Kari, eu vou pedir pra ela não levar isso adiante. — Continuou ele. — Mas quando ela acordar, você vai ter que pedir desculpas pra ela.

Priscila quase duvidou do que ouvira.

Felipe estava exigindo que ela pedisse desculpas.

Por quê? Ela não tinha feito absolutamente nada de errado.

Priscila estava prestes a rebater quando a porta da sala de cirurgia se abriu de repente.

Uma enfermeira saiu às pressas.

— Sr. Felipe, a paciente está com uma hemorragia grave. Precisamos urgentemente de sangue tipo A.

Felipe pegou o celular no mesmo instante e ligou para o secretário, dando ordens sem hesitar, mobilizando todo o estoque de sangue tipo A da cidade para enviá-lo ao hospital.

Ao vê-lo tão desesperado, a mente de Priscila se perdeu no tempo.

Ela voltou, sem querer, àquele ano em que sofrera o acidente com os cabos de segurança durante uma gravação.

Naquela ocasião, Felipe se jogara sobre ela, usando o próprio corpo como proteção.

Também estava assim. Tenso. Fora de si.

Só desmaiara depois de ter certeza de que ela estava bem.

Priscila voltou à realidade, ergueu a manga da blusa e estendeu o braço para a enfermeira.

— Meu sangue é tipo A. Pode usar o meu primeiro.

Assim que terminou de falar, o olhar de Felipe tornou-se incrivelmente complexo.

Os lábios dele se moveram, como se quisesse dizer algo. Mas, no fim, nenhuma palavra saiu.

Priscila não deu importância à reação dele. Apenas seguiu a enfermeira até a sala de coleta.

O procedimento só foi interrompido depois que oitocentos mililitros haviam sido retirados.

O rosto de Priscila estava pálido como papel. Os lábios, sem qualquer vestígio de cor.

Pressionando o local da agulha, ela caminhou lentamente até Felipe, passo por passo. Um sorriso sereno, quase aliviado, surgiu em seus lábios.

— Agora… Eu não te devo mais nada.

A dívida de sete anos atrás, aquela vida que ele salvara com o próprio corpo, finalmente estava quitada.

Mas Felipe entendeu tudo errado.

Ele acreditou que Priscila estava se sacrificando por culpa, tentando expiar o "crime" de ter empurrado Karine.

Ao pousar o olhar no rosto pálido de Priscila, um aperto de compaixão surgiu em seu peito.

— Pri, volta pra casa e descansa. Quando a Kari estiver fora de perigo, eu volto pra te ver.

Priscila não respondeu.

Com o corpo fraco, apenas se virou e foi embora, passo após passo.

Felipe não soube dizer por quê, mas ao ver aquela silhueta se afastando, sentiu um incômodo estranho no coração, uma inquietação sem nome. Abriu a boca, querendo chamá-la de volta.

Nesse instante, a luz da sala de cirurgia se apagou.

Ele só pôde se virar para o médico e perguntar, ansioso, sobre o estado de Karine.

Quando ergueu a cabeça novamente, Priscila já havia desaparecido.

Ao chegar em casa, Priscila puxou até a porta o carrinho com a mala que já estava pronta havia muito tempo.

Do bolso da bolsa, tirou a certidão de divórcio e a colocou sobre o sapateiro. Em seguida, arrancou uma folha de papel, pegou uma caneta e escreveu a última frase que deixaria para Felipe.

[Felipe, o roteiro da nossa história se encerra hoje. As filmagens acabaram.

Daqui pra frente, nunca mais nos veremos.]

Ela colocou o bilhete sob a certidão de divórcio e lançou um último olhar para aquela casa onde vivera por sete anos.

Em sete anos, todo o amor e todo o ódio chegavam ali ao fim.

Priscila estava pronta para partir.

Era hora de correr atrás do novo roteiro da própria vida.
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Último capítulo

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