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Capítulo 6

Author: Camila Torres
"Crack."

Priscila ouviu com nitidez o som de algo se partindo bem no lugar onde ficava o coração.

Era o que restava, já frágil, à beira do colapso, dos sete anos que vivera ao lado de Felipe.

Agora, tudo virava pó.

Ela cravou as unhas na palma da mão. Só assim conseguiu conter o turbilhão dentro do peito e falar com uma calma forçada.

— Então o Sr. Felipe realmente é muito cuidadoso com a Srta. Karine.

O rosto de Felipe se fechou. A sobrancelha franziu-se levemente, quase imperceptível.

Priscila não se importou. Continuou.

— Sendo assim, transfira setenta mil de despesas médicas. Eu não vou mais responsabilizar nenhuma delas.

Karine franziu o cenho, desconfiada.

— Só setenta mil?

— Sim. Apenas setenta mil. — Priscila assentiu com firmeza.

Setenta mil para encerrar, de uma vez por todas, os sete anos que vivera com Felipe, do namoro ao casamento, e agora ao divórcio.

Para colocar um ponto final naquela relação, naquele amor, naquela vida a dois.

Felipe não fez mais perguntas. Transferiu o dinheiro e saiu do quarto segurando a mão de Karine.

O silêncio voltou a dominar o quarto do hospital.

Priscila virou-se de lado e puxou o cobertor até cobrir a cabeça.

Talvez tivesse mexido no ferimento. A fronha foi, aos poucos, ficando úmida.

Ela permaneceu internada por quase dez dias.

Nesse período, Felipe apareceu algumas vezes.

Ela não queria vê-lo. Sempre fingia estar dormindo, evitando qualquer encontro.

Depois da alta, Priscila saiu para jantar com os poucos amigos próximos que ainda mantinha e contou, um por um, que estava prestes a deixar o país.

Quando souberam que ela pretendia voltar para o mundo artístico, todos ficaram genuinamente felizes por ela.

Nos últimos dias antes da partida, Priscila praticamente contava o tempo passar, dia após dia, como quem espera o fim de uma longa travessia.

No último dia, assim que o cartório abriu as portas, Priscila já estava parada diante da entrada.

O período oficial de um mês de reflexão para o divórcio havia terminado. Ela recebeu sem dificuldades aquele documento que oficializava o fim do casamento.

Não demorou muito depois de sair do cartório para o celular tocar.

Ela baixou o olhar. Era uma mensagem de Karine, convidando-a para encontrá-la em um clube privado.

[Vamos nos encontrar. Quero conversar com você.]

O olhar de Priscila voltou para a certidão de divórcio em sua mão. Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos e, no fim, decidiu aceitar o convite.

Quando Priscila chegou ao reservado, Karine já a aguardava.

Ela pegou o copo de leite à sua frente, deu um pequeno gole e então sorriu, lançando um olhar sereno para Priscila.

— Pri… — Começou, num tom doce demais para ser inocente. — Não te chamei por nenhum motivo especial. Só queria agradecer por ter aberto caminho pra mim e pro Fê. Na verdade, eu já queria te agradecer logo depois do divórcio de vocês, mas esse último mês foi complicado.

Karine inclinou levemente a cabeça, como se estivesse compartilhando algo íntimo.

— O Fê anda grudado em mim de um jeito absurdo. Não aceita ficar separado nem três horas. Quer estar comigo o tempo todo. Mesmo quando estou gravando, ele faz questão de ficar no set me encarando. Chega a se rebaixar e virar meu assistente pessoal. Hoje foi um milagre eu conseguir sair sozinha pra te encontrar.

Os dedos de Priscila se fecharam ao redor do copo d’água sem que ela percebesse.

Felipe também fora assim quando estava apaixonado por ela.

A diferença é que agora ele já não se importava mais.

Karine percebeu o gesto imediatamente. O sorriso em seus olhos se aprofundou, satisfeito.

— Pelo jeito, você ainda não esqueceu o Fê, né? — Disse, fingindo delicadeza. — Que pena. Mas vocês já estão divorciados. Quando ele começou a me cortejar, eu deixei bem claro. Eu nunca seria amante de ninguém. Por minha causa, ele pediu o divórcio sem hesitar. Parece que, no coração dele, eu sou a mais importante agora. Você virou passado.

Priscila enxergava com clareza. Karine era inteligente e ambiciosa.

Caso contrário, não teria prendido Felipe por três meses, muito menos o feito pedir o divórcio.

Ela falou com calma:

— Você não me chamou até aqui só pra se exibir na minha frente, chamou?

Karine soltou uma risada baixa.

— Você é mesmo esperta.

Ela abriu a bolsa, tirou uma folha dobrada e a estendeu na direção de Priscila.

Priscila franziu levemente a testa, sem entender que jogo Karine estava armando.

Ao pegar o papel, quatro palavras saltaram diante de seus olhos como um golpe direto.

"Relatório de exame pré-natal."

A mente de Priscila ficou em branco.

É como se uma corrente de ar gelado envolvesse seu coração, congelando-o centímetro por centímetro.

"Karine… Está grávida?"

Karine parecia plenamente satisfeita com aquela reação. Ergueu o queixo com arrogância, pousou uma mão sobre o próprio ventre e falou com um orgulho que nem tentou esconder.

— Pri, em apenas um mês com o Fê, eu já engravidei dele. E você. Três anos de casamento e nem um filho sequer. Que fracasso, não acha?

O papel do exame se amassou sob os dedos de Priscila.

Ela e Felipe já haviam tido um filho.

No segundo ano de casamento, ela descobrira que estava grávida de um mês.

Estava prestes a compartilhar a notícia com Felipe quando notou a marca de batom em sua gola. A primeira traição.

Naquela noite, Priscila chorou até o amanhecer.

No dia seguinte, o corpo não aguentou a dor. Ela perdeu o bebê.

Felipe se ajoelhou ao lado de sua cama no hospital, jurando que nunca mais a trairia.

Mas, depois disso, vieram uma amante após a outra.

A única coisa que ele sempre fizera questão de evitar era que qualquer uma delas engravidasse.

Aquela criança perdida se tornara um tabu silencioso entre eles.

E agora, claramente, Felipe havia esquecido.

Ainda bem que já estavam divorciados.

Com quem ele quisesse ficar, quem quisesse engravidar, nada disso dizia mais respeito a ela.

Priscila conteve a tempestade dentro do peito e devolveu o exame a Karine.

— Parabéns. Parece que o casamento de vocês está próximo.

O sorriso vitorioso de Karine vacilou por um instante. Ela não esperava que Priscila aceitasse a notícia com tanta frieza.

Levantou-se de repente e agarrou o pulso de Priscila. O canto dos lábios curvou-se num sorriso venenoso.

— Diz parabéns da boca pra fora, mas por dentro deve me odiar até a morte, né? — Sussurrou. — Que pena. Eu também não gosto de saber que o Fê ainda tem uma ex-esposa como você por perto. Vou fazer você desaparecer completamente da vida dele.

Priscila ainda tentava entender o significado daquelas palavras quando sentiu Karine soltar seu pulso e cair pesadamente no chão.

Sangue escorreu por suas pernas.

O rosto de Karine ficou pálido enquanto ela apertava o próprio ventre, em pânico.

O coração de Priscila disparou.

Instintivamente, ela puxou o celular e discou 192.

— Kari.
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