Se connecterBIANCA CASTRO Naquela manhã, consegui terminar o café da manhã sem olhar para o prato a cada garfada. Estava na minha casa, sentada à mesa da cozinha, com comida que eu mesma havia preparado. Ninguém se aproximaria para cuspir nela ou derrubá-la no chão. Ainda assim, demorei a relaxar. Só quando terminei de comer percebi que tinha mantido a outra mão fechada sobre o colo. Levantei para levar o prato até a pia. A blusa que vestia estava larga nos ombros. Eu havia emagrecido tanto na prisão que quase nenhuma das minhas roupas servia direito. Precisava comprar algumas peças novas. Meu celular vibrou sobre a mesa. Era uma notificação de notícia sobre Lorena, ao ler a manchete acessei para saber se era verdade. Havia uma foto, seguida de um texto falando do casamento de Lorena e Adrian e da possibilidade de ela estar grávida. Sério que enquanto eu estava sofrendo na prisão, Lorena estava se casando feliz da vida? Passei o dedo pela tela para ampliar a imagem. Lorena parecia em paz e
RAFAEL DIMAS Acordei com uma mensagem de Márcio. A equipe da reforma já estava no prédio e ele queria que eu passasse lá antes de aprovarem a instalação dos novos cabos, respondi que chegaria em uma hora. Não havia mensagens de Lúcio sobre o terreno. Deixei o telefone de lado e fui me vestir. Quando desci para tomar café, encontrei Leo à mesa. Ele mexia no pão sem comer. Seus olhos estavam inchados, e havia sombras escuras sob eles. — Dormiu mal? — perguntei, puxando a cadeira ao seu lado. — Acordei de noite — respondeu, olhando para o prato. Toquei sua testa. Não parecia estar com febre, mas estava abatido desde a saída de Bianca no dia anterior. Talvez a visita tivesse sido cansativa para ele. — Vou falar com sua avó para você ficar em casa hoje — decidi. — Pode descansar. Leo assentiu, sem mostrar o entusiasmo que normalmente sentiria por faltar à escola. Olhei para o horário no celular. Márcio me esperava no prédio, e eu precisava aprovar o trabalho antes que a equip
LORENA MARTINS O nome de Rafael continuava na tela. Fiquei olhando até o celular quase parar de tocar. Durante vários dias, eu havia esperado que ele descobrisse a verdade sobre o terreno. Será que finalmente descobriu? Se não fosse isso, por que ligaria de madrugada? Atendi e me afastei de Adrian para não acordá-lo. — Rafael? — perguntei, levando o telefone ao ouvido. Do outro lado, ouvi uma respiração curta. Depois, uma voz baixa respondeu: — Não é o papai. Sou eu. Segurei o celular com mais força. — Leo? — Sou eu — confirmou ele, num sussurro. — Peguei o telefone do papai enquanto ele dormia. Olhei para Adrian. Ele continuava de olhos fechados. Saí da cama devagar e fui até a janela, onde poderia falar sem precisar sussurrar. — Aconteceu alguma coisa? — perguntei, afastando a cortina. Esperei a resposta, mas Leo ficou quieto por tanto tempo que conferi se a ligação ainda estava ativa. — Leo, por que me ligou? Ouvi um soluço abafado. Encostei a mão livre no vidro. — Desc
LORENA MARTINS Na manhã seguinte à consulta, eu organizava os desenhos que levaria à Martins Arquitetura quando Florência me enviou uma mensagem. “Publicaram uma notícia agora. Você já viu?” Abri o link. Adrian e eu aparecíamos diante da clínica, de mãos dadas. A manchete perguntava se eu estava grávida. O texto mencionava nosso casamento recente e dizia que até o momento nossas empresas não haviam confirmado a notícia. Adrian saiu do banheiro enquanto eu lia. — Como esperado, a foto de ontem foi publicada. Virei a tela para ele. Adrian examinou a imagem e passou a mão pelos cabelos. — Quer que o grupo Montenegro responda à notícia? Pensei nas pessoas que encontraria naquele dia. Eu havia imaginado contar a gravidez com calma, mas com essa foto circulando, a notícia chegaria antes de mim. — Não precisa — respondi, deixando o assunto de lado. — Se perguntarem, vou contar. Ele pegou minha bolsa enquanto eu conferia se tinha as chaves. — Então vou fazer o mesmo. — Concordou. E
RAFAEL DIMAS — Ok, talvez eu tenha exagerado no preço. Te vendo a guarda dele por duzentos mil dólares, o que acha? — Duzentos mil? — repeti, olhando para Bianca. — Há um minuto você queria um milhão. Ela manteve o queixo erguido, embora seus dedos estivessem apertando a manga da blusa. — Reduzi o valor. Você pode ficar com Leo morando aqui, e eu paro de discutir a guarda. Bianca recebeu uma casa e milhões no divórcio. Ela não precisava tanto de duzentos mil, a menos que tenha gastado mais do que eu imaginava, ou na realidade tinha outros planos e por isso não queria mais cuidar de Leo sob nenhuma hipótese. A multa da sentença era baixa. Ainda teria de lidar com as compensações devidas a Lorena e ao Grupo Montenegro, mas mesmo assim duvido que deixe de ser milionária. — Está com tanta pressa de receber esse dinheiro por quê? — perguntei, genuinamente curioso. — Acabei de sair da prisão — respondeu, abrindo os braços. — Preciso reorganizar minha vida. — Você já tem dinheiro para
LEONARDO DIMAS O jogo não estava no meu quarto. Lembrei que papai o havia deixado no escritório quando tiramos algumas coisas das caixas da mudança. Corri pelo corredor, com a vovó vindo atrás de mim. — Deve estar naquela estante — falei, abrindo a porta. Encontrei a caixa atrás de uma pilha de papéis. Mostrei a capa para a vovó, para ter certeza de que era o jogo certo. — É esse! — comemorei, segurando-o contra o peito. Ela olhou para o relógio e ajeitou meus cabelos. — Vá mostrar à sua mãe. Vou começar a preparar o almoço. A saiu, e eu segui pelo corredor. Queria contar à mamãe que já tinha aprendido a passar da primeira fase. Quando me aproximei do quarto, ouvi a voz do papai. A porta estava aberta, mas ele e mamãe não podiam me ver de onde estavam. — Quer um milhão para eu ficar com o moleque? — ele perguntou, rindo. — Você se livra dos gastos, e eu pago escola, plano de saúde e tudo o mais. Parei antes de entrar. O moleque? Apertei a caixa do jogo. Papai falava de m







