LOGINPovo de Mayla
A reunião terminou às dezessete horas e quinze minutos. Eu fechei a pasta à minha frente enquanto os últimos acionistas deixavam a sala. Meu olhar foi automaticamente para a porta. Daniel deveria ter voltado. Olhei para o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Franzi a testa. Ele havia dito que voltaria logo. E Daniel sempre cumpria o que prometia. Peguei o telefone e liguei. Chamou. Uma vez. Duas. Três. Nada. Desliguei e tentei novamente. Dessa vez, caiu direto na caixa postal. Uma sensação estranha percorreu meu peito. Não era exatamente medo. Ainda não. Era irritação. Daniel provavelmente estava resolvendo alguma coisa e havia esquecido o celular no silencioso. Mandei uma mensagem. Onde você está? Esperei. Nada. — Senhora Layer? Levantei os olhos. Nancy estava parada na porta. — Ele ainda não voltou — falei. Ela olhou para o relógio. — Talvez tenha surgido algum problema. — Foi exatamente o que ele disse. Levantei-me. — Vou ligar novamente. Antes que eu pudesse tocar na tela, meu telefone começou a tocar. Número desconhecido. Atendi imediatamente. — Alô? — Senhora Mayla Layer? A voz masculina do outro lado era séria. Meu corpo ficou imóvel. — Sim. — Aqui é o detetive responsável por uma ocorrência na Rodovia Westchester. Estamos com um veículo registrado no nome de Daniel Layer. Meu coração deu uma batida forte. — O que aconteceu? Houve uma breve pausa. — O veículo sofreu um acidente. Minha mão apertou o telefone. — Daniel está bem? Silêncio. Um silêncio pequeno. Mas suficiente. — Ainda não conseguimos localizá-lo. Senti o chão desaparecer por um instante. — Como assim não conseguiram localizá-lo? — O veículo atravessou a proteção lateral de uma ponte e caiu no rio. As equipes de resgate estão trabalhando no local. Meu cérebro se recusava a processar as palavras. Rio. Ponte. Acidente. Daniel. — Ele sabe nadar — falei. A minha própria voz parecia distante. — Senhora... — Ele sabe nadar. — Estamos fazendo buscas. — Então encontrem meu marido. Nancy já estava ao meu lado. Ela devia ter percebido alguma coisa no meu rosto. — Mayla? Desliguei. Olhei para ela. — É o Daniel. Ela empalideceu. — O que aconteceu? — Acidente. A palavra saiu quase sem som. — Eles não encontraram ele. Nancy levou a mão à boca. Eu peguei minha bolsa. — Vamos. A chuva havia começado quando chegamos à rodovia. As luzes das viaturas iluminavam o asfalto molhado. Parei o carro e saí antes mesmo de Nancy conseguir abrir a porta. Um policial veio na nossa direção. — Senhora Layer? — Onde está o meu marido? Ele apontou para a margem da ponte. — A equipe está fazendo buscas no rio. Corri até a proteção. A visão do carro destruído, parcialmente visível entre as águas, fez meu estômago se contrair. — Não... Aquilo não podia ser real. Daniel tinha saído de uma reunião. Ele ia voltar. Era só isso. Uma reunião. Uma ligação. Uma viagem curta. Ele voltaria para casa. — Senhora, precisamos que se afaste. — Não. — É perigoso. — Meu marido está lá embaixo. O policial não respondeu. Apenas olhou para a água. Foi quando percebi Victor chegando. Ele saiu do carro, o rosto completamente diferente daquele homem arrogante que eu conhecia das reuniões. — Mayla... Não respondi. Um dos mergulhadores se aproximou da equipe. Conversaram por alguns segundos. Depois, um policial veio até nós carregando um pequeno saco plástico. — Encontramos alguns objetos dentro do veículo. Ele abriu. A carteira. O relógio. Alguns documentos. E então eu vi. A aliança. Meu coração simplesmente quebrou. Levei a mão à boca. — Não... Aquele anel estava no dedo dele quando Daniel saiu de casa naquela manhã. Eu havia tocado nele antes de sairmos. Lembrava perfeitamente. — Senhora Layer... Balancei a cabeça. — Não. A palavra saiu mais forte. — Isso não significa nada. Victor se aproximou. — Mayla... — Ele está vivo. Eu olhava para o rio. — Eles ainda não encontraram o corpo. Ninguém respondeu. E aquele silêncio me deu esperança. Uma esperança irracional. Desesperada. Mas esperança. — Então continuem procurando. O policial assentiu. — Vamos continuar durante toda a noite. Olhei novamente para a água. A chuva escorria pelo meu rosto, misturando-se às lágrimas que eu já não conseguia segurar. Daniel tinha saído algumas horas antes. Tinha segurado minha mão. Tinha beijado minha testa. Tinha dito que voltaria. E agora tudo o que eu tinha era uma aliança dentro de um saco plástico. Fechei os olhos. — Você prometeu que voltaria... Minha voz desapareceu no barulho da chuva. E, pela primeira vez desde que conheci Daniel, eu não fazia ideia de como seria o amanhã.POV — Nancy— Então deixe-me ver se entendi.O investigador fechou o pequeno caderno e olhou primeiro para mim, depois para Victor.Estávamos naquela sala havia quase uma hora.Uma hora.E eu começava a desenvolver sentimentos pouco amigáveis por cadeiras de delegacia.— Mayla saiu sozinha no domingo à noite, dirigiu até uma propriedade abandonada no meio do nada e não contou a ninguém para onde estava indo.— Nós já explicamos isso — Victor respondeu.A voz dele estava controlada.O maxilar, não.Eu o conhecia o suficiente para saber que faltava pouco para aquela conversa terminar mal.— Ela recebeu o endereço naquela noite — acrescentei.O investigador voltou os olhos para mim.— Do senhor Victor.— Sim.— E disse que não iria até lá.— Sim.— Mas foi.— Evidentemente.Ele me encarou.Talvez “evidentemente” não tivesse ajudado.Victor esfregou o rosto.Ele parecia não dormir desde que encontráramos os carros.Provavelmente não dormira.Eu também não estava muito melhor.— O endereço
Saímos da delegacia quase no fim da tarde. Victor caminhou até o carro sem dizer uma palavra. Entramos. Ele não ligou o motor. Ficou olhando para frente. — Você acha que foi ele? Eu sabia de quem estava falando. — Não sei. — O carro dele estava escondido. — Eu sei. — Ele apareceu na empresa. — Eu sei. — Depois na casa de campo. — Victor... — E depois seguiu Mayla até aquele casarão. — Nós não sabemos se ele a seguiu. Victor virou para mim. — Nancy. — Eu sei como parece. — Parece que ele estava se aproximando dela. Não respondi. Porque parecia. Muito. Peguei o celular. — O que está fazendo? — Uma coisa que a polícia provavelmente já fez. — Que coisa? Digitei. Kael Global. Resultados apareceram. Site institucional. Notícias empresariais. Registros. Abri o site. Erro. Atualizei. Nada. — O site caiu. Victor pegou o próprio celular. — Pode ser manutenção. — Pode. Mas não acreditava. Pesquisei novamente. Abner Kaelen. As primeiras referências eram
POV — Nancy — Então deixe-me ver se entendi. O investigador fechou o pequeno caderno e olhou primeiro para mim, depois para Victor. Estávamos naquela sala havia quase uma hora. Uma hora. E eu começava a desenvolver sentimentos pouco amigáveis por cadeiras de delegacia. — Mayla saiu sozinha no domingo à noite, dirigiu até uma propriedade abandonada no meio do nada e não contou a ninguém para onde estava indo. — Nós já explicamos isso — Victor respondeu. A voz dele estava controlada. O maxilar, não. Eu o conhecia o suficiente para saber que faltava pouco para aquela conversa terminar mal. — Ela recebeu o endereço naquela noite — acrescentei. O investigador voltou os olhos para mim. — Do senhor Victor. — Sim. — E disse que não iria até lá. — Sim. — Mas foi. — Evidentemente. Ele me encarou. Talvez “evidentemente” não tivesse ajudado. Victor esfregou o rosto. Ele parecia não dormir desde que encontráramos os carros. Provavelmente não dormira.
Os lábios dele tocaram os meus.Suavemente.Por um instante, foi apenas isso.Um contato cuidadoso, quase hesitante, como se Abner ainda me oferecesse uma última oportunidade de mudar de ideia.Eu não queria.A primeira coisa que percebi foi o calor.A boca dele estava quente, contrastando com o ar fresco dos túneis. Depois veio o cheiro — aquele aroma que eu já associava a ele sem sequer perceber. Madeira, ervas e alguma coisa limpa e terrosa que permanecera em sua pele mesmo depois das águas termais.Fechei os olhos.Meu corpo inteiro pareceu prestar atenção.Os dedos dele continuavam em meu rosto, o polegar imóvel junto à minha bochecha, e senti um arrepio começar exatamente onde me tocava e descer lentamente pelo pescoço.Abner começou a se afastar.Não.Minha mão agarrou a frente de sua túnica antes que eu pensasse melhor e o puxei de volta.A surpresa dele durou menos de um segundo.Sua boca encontrou a minha novamente.Dessa vez, não havia pergunta.A mão que tocava meu rosto d
CAPÍTULO 61 — A LINHA ENTRE NÓSPOV — MaylaAquela tinha sido, surpreendentemente, uma boa refeição.Não boa no sentido de desejar repeti-la quando voltasse para casa — se algum dia voltasse para casa —, mas boa considerando que consistira em pão, queijo, frutas e sementes divididos sobre uma mesa de pedra no interior de uma montanha.Abner também havia preparado uma infusão com as ervas que trouxera do santuário.Eu ainda segurava a pequena caneca entre as mãos.O líquido estava quente.Levemente adocicado.— Você sabe cozinhar? — perguntei.Abner, sentado do outro lado da antiga mesa, levantou os olhos.— Sei.— Cozinhar de verdade?— Existe outra forma?— Você acabou de jogar folhas em água quente.— E está bebendo.Olhei para a caneca.— Isso não prova nada.O canto da boca dele se ergueu.A luz dos cristais era mais fraca naquela parte das ruínas. Algumas pequenas formações azuladas atravessavam o teto e iluminavam o ambiente o suficiente para dispensarmos outra fonte de luz.Do
O caminho alternava entre galerias estreitas e câmaras tão grandes que eu não conseguia enxergar o teto.Em alguns pontos, raízes atravessavam as pedras acima de nós.Não eram pequenas.Eram enormes.Desciam pelas paredes e desapareciam novamente no chão, como se árvores inteiras estivessem tentando alcançar aquele mundo subterrâneo.Paramos duas vezes para beber água.Na segunda, aproveitei para prender parcialmente os cabelos ainda úmidos.Ou tentei.— Droga.O pedaço de tecido escapou dos meus dedos pela terceira vez.— Quer ajuda?Olhei para Abner.— Você sabe prender cabelo?— Sei fazer um nó.— Isso não me tranquiliza.Ele estendeu a mão.— Dê.Entreguei o tecido.Abner ficou atrás de mim.Imediatamente me arrependi.Senti seus dedos reunirem meus cabelos.Meu corpo ficou rígido.— Está puxando?— Não.As pontas dos dedos roçaram minha nuca.Um arrepio percorreu minhas costas.Abner parou.— Está com frio?— Não.— Você arrepiou.Fechei os olhos.Claro que ele perceberia.— Meu







