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O Homem Que Não Se Curvou
O Homem Que Não Se Curvou
Author: Chama Lunar

Capítulo 1

Author: Chama Lunar
Daniel Batista encarava, sem conseguir reagir, os três laudos de DNA espalhados à sua frente.

As palavras impressas em vermelho pareciam ferir seus olhos.

"Vínculo biológico inexistente."

Três filhas.

Nenhuma delas tinha qualquer laço de sangue com ele.

A mais velha estava com quinze anos. A do meio, onze. A caçula, seis.

As meninas que ele criara por tantos anos, as filhas que carregara no colo, que vira crescer dentro de casa, simplesmente não eram suas filhas biológicas.

Aquilo era absurdo demais para caber na cabeça.

Um frio lhe atravessou o corpo inteiro. Suas mãos, fechadas em torno do volante, tremiam sem controle. Por dentro, a dor e o desespero se misturavam, esmagando-o de um jeito quase físico.

Ele e a esposa, Letícia Teixeira, tinham a mesma idade. Haviam se conhecido aos vinte e quatro anos, se apaixonado e se casado. Aos olhos de todos, aqueles dezesseis anos de casamento pareciam ter sido construídos sobre amor, cumplicidade e uma família perfeita.

Durante esse tempo, Letícia dera à luz três meninas. A maternidade tinha deixado marcas, como acontecia com tantas mulheres, mas nela o efeito parecia ter sido o contrário. Depois de três partos, seu corpo continuava ainda mais maduro, bonito e sedutor. As curvas eram marcantes, a pele clara e delicada não mostrava uma ruga sequer, e ela ainda aparentava ter, no máximo, vinte e oito anos.

Letícia vinha de uma família poderosa. Era filha única e, cinco anos antes, herdara os negócios da família. Ao assumir a presidência do Grupo Teixeira, tornou-se de uma hora para outra a mulher mais rica de Porto Dourado.

Linda, rica, influente. E, ao lado das três filhas que pareciam anjos, Daniel chegou a acreditar que era o homem mais feliz da cidade.

Mas quem poderia imaginar?

Daniel pensou em sua própria origem. Vinha de uma família simples de pescadores, comum a ponto de não chamar atenção por nada. Cinco anos antes, seus pais haviam morrido um depois do outro, deixando-o praticamente sem apoio algum.

Ele era apenas um médico comum do Hospital Universitário de Porto Dourado. Trabalhava havia dezoito anos e, no fim das contas, continuava sendo só um clínico sem grande prestígio.

Durante todos aqueles anos, talvez Letícia o tivesse tratado como um idiota. Um cão dócil, sempre pronto para obedecer, ser usado, traído e humilhado sem perceber.

Talvez toda a gentileza dela, toda a paciência que demonstrava, não passasse de uma esmola lançada de cima, com a superioridade silenciosa de quem se julgava intocável.

Daniel sabia que, mesmo se voltasse para casa e jogasse toda aquela sujeira na cara da esposa, Letícia, rica e poderosa como era, talvez apenas lhe oferecesse algum dinheiro para comprar o divórcio e o silêncio. Talvez ele sequer conseguisse descobrir quem era o amante.

E, no pior dos casos, ainda que ela revelasse o nome do homem, o que ele poderia fazer?

Nada.

Quanto mais pensava, mais o peito parecia se fechar.

Por isso, escolheu fugir. Não voltou para casa. Ao passar diante de um bar, entrou sem pensar duas vezes.

Desde que se sentara em uma mesa mais reservada, não parara de se servir.

Daniel era um homem bonito, de traços limpos. Usava camisa social e calça de alfaiataria, com uma elegância discreta, quase intelectual. Mas bebia como alguém que já não se importava com o que aconteceria depois. A tragédia parecia estampada em seu rosto, e não demorou para atrair os olhares de algumas mulheres no bar, daquelas que estavam à procura de diversão.

A primeira a se aproximar foi uma mulher madura, de vestido justo e maquiagem pesada nos olhos. Mas, antes que conseguisse qualquer coisa, Daniel a cortou com uma grosseria envenenada.

— Vadia. Sai daqui.

A tentativa de sedução morreu ali.

Depois disso, as mais ousadas preferiram esperar. Ninguém se mexeu por enquanto, mas todas pareciam prontas para se aproximar assim que ele estivesse bêbado o bastante.

Daniel não fazia ideia do que acontecia ao redor. Também não se importava.

Naquele momento, queria apenas beber até apagar. Queria esquecer o passado com Letícia, esquecer o presente e, se fosse possível, apagar também qualquer futuro que ainda pudesse existir entre os dois.

Entre um gole e outro, naquela fuga embriagada, parecia velar a própria juventude desperdiçada, o casamento ridículo em que apostara tudo e a vida absurda que agora era obrigado a encarar.

Em algum momento, o DJ do bar trocou a música e botou uma daquelas sofrências de cortar o peito.

Daniel passou a beber ainda mais depressa.

Por fim, depois de esvaziar o último copo, sua consciência começou a se desfazer. A visão escureceu, os sentidos se apagaram, e ele desabou bêbado sobre a mesa.

No meio daquela névoa confusa, sentiu alguém erguê-lo e levá-lo para fora.

O ombro em que se apoiava era macio. A força não era grande. A pessoa cambaleava um pouco, ora para um lado, ora para o outro. Pelo jeito, era uma mulher.

Mas Daniel não conseguia abrir os olhos. Não conseguia ver quem era.

Depois, foi colocado dentro de um carro.

Com o balanço suave do veículo, quase como um embalo, ele se sentiu um pouco mais confortável. Reuniu um resto de força e abriu os olhos por um instante. Viu as luzes da rua passando depressa pela janela.

Então olhou para quem estava dirigindo.

A pessoa tinha cabelos longos, caindo sobre os ombros como uma cascata escura.

Bêbado e confuso, Daniel achou que fosse Letícia. A pergunta escapou de sua boca carregada de dor e rancor.

— Letícia, por que você mentiu para mim? Por que me traiu? Quem é esse homem que você tem por fora?

A pessoa ao volante não respondeu.

Daniel continuou, a voz rouca, descontrolada.

— Não adianta negar. Eu tenho provas da sua traição. Quando eu mostrar tudo, sua reputação vai cair no chão.

A figura à frente permaneceu em silêncio.

Ele ergueu a voz.

— Fala alguma coisa! Eu te amei tanto. Amei com tudo o que eu tinha. Por que você mentiu para mim? Mentiras... Era tudo uma droga de mentira.

Aquelas palavras pareciam ter arrancado o pouco de força que ainda lhe restava.

Depois de despejar aquela dor sem rumo, Daniel apagou de novo.

Quando o carro parou, ele foi ajudado a sair. Só não caiu porque se apoiava naquela "esposa". Ainda assim, forçou os olhos a se abrir e, em meio à embriaguez, percebeu que estavam em uma garagem subterrânea.

Achando que era algum imóvel novo de Letícia, murmurou com desprezo.

— Letícia, agora você se entregou. Comprou tantos apartamentos para quê? Para facilitar seus encontros com esses homens por aí? É isso? Fala. Por que não responde? Teve coragem de fazer, mas não tem coragem de admitir?

A "esposa" continuou calada.

Apenas o sustentou com dificuldade e o levou para dentro.

Sem força suficiente para chegar até o quarto, os dois acabaram caindo juntos sobre o tapete da sala.

O álcool tomou Daniel por completo. Ele já não conseguia abrir os olhos, e sua consciência afundava cada vez mais fundo na confusão.

Deitado de qualquer jeito, com braços e pernas largados sobre o tapete, teve apenas uma última percepção antes de perder totalmente os sentidos.

Sua "esposa" estava tirando sua roupa.

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