LOGINcAPÍTULO 26 — A MÁSCARA QUE CAIUHelenaA poeira assentou na adega do velho galpão como uma fumaça de incêndio apagado.O silêncio que se seguiu ao disparo do lado de fora não era pacífico; era denso e sufocante. Minhas mãos, prensadas contra a borda da mesa de madeira, tremiam. Não pelo tiro, mas porque a pasta amarelada sobre a mesa acabara de rasgar a última venda que cobria meus olhos.A porta de ferro rangia. Passos apressados vieram do corredor de pedra e a figura de Rafael emergiu da escuridão, com a camisa rasgada no ombro e o rosto sujo de fuligem.— O portão aguentou — disse ele, com a voz rouca e sem fôlego. — Era só um olheiro. Disparou contra a tranca para tentar abrir, mas o motorista acelerou assim que a tranca de segurança desceu. Temos alguns minutos antes que eles voltem.Ele deu dois passos na minha direção, os olhos azuis varrendo o local até encontrarem as folhas espalhadas na minha frente.— Helena... você achou o contrato?Eu não respondi de imediato. Olhei para
CAPÍTULO 25 — A ESTRADA PARA O PASSADO Helena O motor do SUV urrava na pista escura, engolindo os quilômetros de asfalto esburacado que nos levavam para longe da casa da minha mãe. A luz dos faróis cortava a neblina densa da madrugada rural. No banco de trás, o silêncio era interrompido apenas pelo soluçar baixo e compassado da minha mãe, Lúcia. Eu olhava pela janela, vendo a sombra das árvores passarem como fantasmas. Em minhas mãos, a pasta preta e a chave pesada com a gravação MARTINS pareciam queimar a minha pele. Dona de tudo. As palavras do meu pai ainda ecoavam na minha mente, pesadas demais para absorver de uma vez. Seis anos vivendo sob o teto dos Almeida, sentindo que devia gratidão por ter sido acolhida após a morte do meu avô, para descobrir que eu era a peça principal de um jogo bilionário. Pelo retrovisor interno, cruzei o olhar com Rafael. Ele estava no banco do carona, com o perfil rígido e a mandíbula travada. A mão dele repousava sobre o painel, pronta para reag
CAPÍTULO 24 — A FUGA PELA PORTA DOS FUNDOS Helena A madeira da porta da frente estalou. Não foi um barulho qualquer. Foi o som de algo cedendo sob uma força brutal. Um peso de metal ou o impacto direto de um corpo disposto a derrubar a casa inteira. — A porta não vai aguentar mais dois impactos — disse Rafael, a voz baixa, rasgada pela adrenalina. Ele não olhava para mim. Os olhos dele estavam fixos na fechadura que começava a entortar. — Augusto, para onde? Meu pai não hesitou. O homem que passei seis anos julgando morto agiu com a frieza de quem já tinha treinado aquele momento centenas de vezes na cabeça. — Pela cozinha. Para o porão do lenheiro — Augusto ordenou, puxando minha mãe pelo pulso. Lúcia nem protestou. Estava em estado de choque, os olhos regalados e o choro preso na garganta. — O acesso sai direto no matagal atrás da garagem. — Espera! — gritei, segurando a pasta preta que Camila tinha deixado sobre a mesa, junta com a chave de metal que tinha a palavra MARTINS
CAPÍTULO 23 | MEU PAI NÃO ESTAVA MORTO Helena “Porque durante seis anos eu acreditei que ficar longe de você era a única maneira de mantê-la viva.” Eu não conseguia me mexer. Meu pai estava do outro lado da porta. Meu pai. O homem que eu tinha enterrado dentro de mim seis anos atrás. O homem cuja ausência tinha sido explicada com poucas palavras e muitas lágrimas. Morto. Era isso que eu acreditava. Minha mãe sabia que ele estava vivo. E, durante todos aqueles anos, deixou que eu chorasse por alguém que estava respirando em algum lugar. Helena: “Você.” A palavra saiu quase sem voz. Augusto me encarou. Ele estava mais velho. Muito mais velho. O rosto magro, os cabelos quase todos grisalhos, uma cicatriz pequena atravessando a lateral do queixo. Mas os olhos eram os mesmos. Eu reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. Augusto: “Helena.” Dei um passo para trás. Helena: “Não fala meu nome.” Minha mãe começou a chorar. Lúcia: “Filha…” Helena: “Você sabia.” Ela
CAPÍTULO 22 | O HOMEM QUE MINHA MÃE PROTEGEU Helena “Foi alguém que você conhece.” As palavras da minha mãe ficaram suspensas na sala. Eu não conseguia respirar direito. Olhei para Rafael. Ele estava pálido. Não era surpresa. Era reconhecimento. Helena: “Você sabe quem é.” Rafael: “Não.” A resposta veio rápida demais. Helena: “Mentira.” Rafael: “Helena, eu não sei quem está por trás disso.” Helena: “Mas sabe quem pode ser.” Ele ficou em silêncio. Minha mãe começou a chorar. Helena: “Mãe, eu quero o nome.” Lúcia: “Eu não posso.” Helena: “Pode.” Lúcia: “Se eu falar, você corre perigo.” Helena: “Eu já estou em perigo.” Apontei para o celular. Helena: “Alguém sabe onde estou. Alguém sabe o que aconteceu naquela estrada. Alguém tem fotografias da nossa família. E você ainda acha que esconder o nome dessa pessoa vai me proteger?” Minha mãe apertou os olhos. Lúcia: “Eu prometi.” Helena: “Para quem?” Ela não respondeu. Rafael se aproximou. Rafael: “Lúcia, chega.”
CAPÍTULO 21 | A ASSINATURA DE LÚCIA Helena A frase continuava presa na minha cabeça. “Não confie no Rafael.” Olhei para ele. Rafael estava parado diante de mim, imóvel demais. Meu coração batia rápido. Não era apenas medo. Era aquela sensação horrível de estar diante de alguém que sabia exatamente o que estava acontecendo, enquanto eu continuava recebendo as verdades aos pedaços. Rafael: “Helena, não atende mais esse número.” Helena: “Por quê?” Ele hesitou. Helena: “Você conhece essa pessoa?” Rafael desviou os olhos por um segundo. Foi o suficiente. Helena: “Conhece.” Rafael: “Não é tão simples.” Helena: “Nunca é simples quando você está envolvido.” Ele se aproximou. Rafael: “Eu estou tentando manter você viva.” Helena: “E eu estou tentando descobrir por que preciso ser mantida viva.” Ele parou. Dessa vez, não respondeu. Aquilo me irritou mais do que qualquer mentira. Peguei minha bolsa sobre a mesa. Rafael: “Onde você vai?” Helena: “Descobrir a verdade.” Ra







