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capítulo 7

Autor: Loba azul
last update Fecha de publicación: 2026-09-11 00:04:54

Capítulo 7 — A casa da porta azul

— Pergunta para o seu marido quem realmente morava naquela casa antes de você se casar com ele.

A voz de Camila ainda ecoava dentro do carro mesmo depois que o áudio terminou.

Helena ficou olhando para o celular na palma da mão como se ele fosse queimar. Rafael não tirou os olhos da estrada. As duas mãos apertaram o volante.

— Apaga — disse ele.

— O quê?

— Apaga esse áudio. Agora.

Helena não apagou. Travou a tela e guardou o celular na bolsa.

— Por que eu apagaria?

— Porque ela está brincando com você — respondeu ele, e pela primeira vez desde que se conheciam a voz dele saiu dura de verdade. Não fria. Dura. — E porque essa casa não é lugar para você ir.

— Então me diz de quem é.

— Não é minha.

— Eu não perguntei se é sua. Eu perguntei quem morava lá.

O semáforo ficou vermelho. Rafael finalmente olhou para ela.

— Helena, eu te pedi uma coisa ontem. Uma única coisa. Que se você fosse até lá, não fosse sozinha.

— E você acha que eu vou te obedecer sem uma explicação?

— Eu acho que você deveria me escutar.

Ela desceu do carro antes que ele abrisse a porta para ela. Não por orgulho. Porque precisava respirar.

Passou o resto do dia tentando trabalhar e não conseguindo. Às três da tarde, Júlia entrou na sala dela sem bater, com o celular na mão.

— Você viu isso?

Era uma foto da casa da porta azul no I*******m de uma imobiliária. Na legenda: "Oportunidade única, bairro nobre, escritura impecável. Proprietários: família Martins Almeida."

Helena leu duas vezes.

— Martins Almeida? — repetiu.

Júlia sentou.

— Seu sobrenome de casada.

— Eu nunca comprei essa casa.

— Alguém comprou no seu nome.

Helena sentiu o estômago afundar. Abriu o aplicativo do banco de novo, procurou qualquer transferência grande, qualquer coisa que não reconhecia. Nada. Mas havia uma pasta no e-mail que Rafael havia criado anos atrás para organizar documentos da empresa dela. Ela nunca abria.

Digitou a senha que ele sempre usava, a data do casamento deles.

A pasta abriu.

Dentro havia um único arquivo em P*F, enviado há dois anos, com o nome dela como compradora e a assinatura dele como testemunha. Uma escritura.

Ela não leu até o final. Não precisou. Na segunda página, em letras pequenas, o histórico do imóvel.

Último morador antes da venda: Duarte.

— Camila — sussurrou Helena.

Quando Rafael chegou em casa à noite, Helena estava na sala com o computador aberto e a escritura impressa sobre a mesa.

Ele parou na porta ao ver as folhas.

— Você foi atrás — disse ele.

— Não precisei ir. A casa veio até mim — respondeu ela, empurrando o papel na direção dele. — Desde quando eu sou dona de uma casa que eu nunca vi?

Rafael pegou o papel. Leu em silêncio. Quando terminou, não negou.

— Desde o ano em que você perdeu o bebê.

O ar sumiu da sala.

Helena levantou devagar.

— O quê?

— Você estava no hospital. Estava... — ele respirou fundo. — Estava destruída. Eu não sabia o que fazer para você ficar. Pensei que se eu comprasse um lugar para a gente recomeçar...

— Você comprou a casa da Camila no meu nome sem me dizer, no ano em que eu perdi meu filho, e ainda colocou o sobrenome dela como último morador no documento?

— Não é da Camila — disse ele rápido demais. — Nunca foi dela.

— Então de quem era? Quem morava lá, Rafael? Quem morreu na noite do acidente?

Ele ficou em silêncio. E aquele silêncio foi a confirmação de que Camila não estava mentindo sobre tudo.

— Se você não me conta — disse Helena, pegando a bolsa e as chaves da casa da porta azul que estavam grampeadas na última página da escritura — eu vou descobrir sozinha. Amanhã. Oito horas da manhã. E você não vai me impedir.

Rafael não tentou tomar a chave.

— Então eu vou com você — disse ele.

— Você acabou de dizer que essa casa não é lugar para mim.

— E não é — respondeu ele, com a voz baixa. — Por isso eu não vou deixar você entrar lá sozinha.

Naquela noite Helena não conseguiu dormir. Às sete e cinquenta e nove da manhã seguinte, já estava na frente da casa de tijolos com a porta azul. Rafael ainda não havia chegado.

A porta estava entreaberta.

E lá dentro, sentada no chão da sala vazia, com uma caixa de papelão no colo, estava Camila Duarte chorando.

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