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capítulo 6

ผู้เขียน: Loba azul
last update วันที่เผยแพร่: 2026-09-10 23:55:24

Capítulo 6 — O lado que você não vê

— Essa casa não deveria estar à venda. Não agora.

A voz de Rafael saiu baixa, quase um sussurro, mas Helena sentiu cada palavra como se ele tivesse gritado.

Ela nem tinha ouvido ele entrar na cozinha. Estava parada desde as seis da manhã com o celular na mão, com a foto que recebera na noite anterior acesa na tela: a mesma casa de tijolos da fotografia antiga, só que agora com uma placa de VENDE-SE e o carro de Camila estacionado na frente.

Rafael não pegou o telefone. Ele olhou de longe, como se a imagem queimasse, e a mão dele apertou a bancada até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Onde você conseguiu isso? — perguntou ele.

— Alguém me mandou ontem à noite. É a mesma casa da sua foto com a Camila, não é?

Ele não respondeu. Pegou duas xícaras do armário e começou a fazer café. O gesto era tão doméstico, tão fora do roteiro de um homem que nunca tomava café da manhã em casa, que desarmou Helena mais do que qualquer explicação.

Sobre a bancada havia pão, frutas cortadas e a geleia que ela gostava e que quase nunca tinha em casa porque ele não comia.

— Você acordou cedo — disse ela, sem entender.

— Não consegui dormir — respondeu ele, colocando a xícara na frente dela do jeito exato que ela tomava, com quase nada de açúcar. — Depois da foto que você encontrou... eu achei que você fosse querer tomar com calma hoje.

Helena sentou. Era um detalhe pequeno. E era exatamente o tipo de detalhe que ela achava que ele nunca tinha notado nos últimos seis anos.

— Você tem visita técnica hoje? — perguntou ele.

— Tenho. No ateliê da Vila, às dez.

Rafael olhou para o relógio.

— Eu te levo. Seu carro ainda está com aquele barulho no freio. Júlio me avisou ontem.

Júlio. O segurança do prédio comercial dela. O homem a quem ela nunca tinha dado o número de Rafael.

— Como o Júlio tem o seu número?

— Ele me ligou. Disse que achou melhor me avisar porque você saiu tarde ontem.

Não havia controle na voz dele. Havia outra coisa. Preocupação crua, mal disfarçada.

— Eu posso resolver isso à tarde — disse ela.

— Eu sei que pode — respondeu ele. — Só não quero que você dirija assim até lá.

Não era uma ordem. Era um pedido que deixava espaço para ela dizer não, e foi por isso que ela assentiu.

No caminho, Rafael dirigia em silêncio. Quando pararam no semáforo, ele pegou uma sacola pequena de papel no banco de trás e entregou a ela.

— Deixaram na portaria do seu escritório hoje cedo. O corretivo de amostras que você estava procurando.

Helena abriu a sacola. Era exatamente o produto em falta há uma semana, aquele que ela só tinha comentado com Júlia.

— Como você...

— Júlio me disse que você estava procurando em todos os fornecedores. Eu liguei.

Helena segurou a sacola com força. Nos últimos anos ela teria dado tudo para que Rafael prestasse atenção nesse tipo de coisa. Agora, com a foto da casa ainda acesa no celular, a gentileza vinha com um peso estranho.

Quando chegaram ao prédio, ele estacionou e não destravou as portas imediatamente.

— Helena.

— O quê?

— Se a Camila te procurar de novo... você me conta?

Ela virou o rosto para ele. O medo que tinha visto na cozinha estava de volta.

— Por que você tem tanto medo do que ela pode me dizer?

— Porque ela tem uma versão da história — disse ele, escolhendo cada palavra. — E nem toda versão é a verdade.

Ele finalmente destravou o carro. Helena desceu, mas antes de fechar a porta se inclinou de volta.

— E qual é a sua versão, Rafael?

Ele sustentou o olhar dela.

— Ainda não é a hora de você ouvir a minha.

A visita técnica durou quase três horas. Quando Helena saiu, já passava do meio-dia e Rafael ainda estava lá. Encostado no carro, de paletó no braço, gravata afrouxada, com duas ligações perdidas da própria empresa piscando na tela do celular dele. Ele tinha dito que tinha reunião às nove e meia. Já eram quase uma da tarde.

— Você ficou aqui esse tempo todo? — perguntou ela.

— Remarquei — disse ele, como se não fosse nada. — Você demorou. Não queria que ficasse sem carona.

No carro, Helena não conseguiu mais segurar a pergunta que martelava desde a noite anterior.

— Por que você está fazendo isso agora? Fazendo café, trazendo o que eu preciso, esperando na rua por três horas... Se você realmente não se importa comigo, por que está agindo como se se importasse?

Rafael deu a partida. Ficou alguns segundos em silêncio, olhando para o trânsito à frente.

— Porque ontem, quando você voltou da reunião, você entrou em casa sorrindo — disse ele, baixo. — E eu percebi que fazia muito tempo que eu não via você chegar assim. E eu não quero que isso pare.

Helena desviou o olhar para a janela. A cidade passava, mas a imagem que ficava era a da casa com a porta azul.

— E essa casa? — insistiu ela. — O que tem lá dentro?

— Se você for até lá, não vá sozinha — disse ele imediatamente. — Me promete. Não por controle. Só... me promete.

— Você está me pedindo para confiar em você sem me contar nada?

— Estou te pedindo para não se colocar em risco por uma coisa que eu deveria ter resolvido há seis anos.

O celular de Helena vibrou na bolsa. Número desconhecido de novo. Ela abriu, achando que era outra foto.

Não era.

Era um áudio de oito segundos. Ela deu play no viva-voz sem pensar.

A voz de Camila Duarte, nítida, rindo baixo, preencheu o carro.

"Pergunta para o seu marido quem realmente morava naquela casa antes de você se casar com ele, Helena. Pergunta se ele te contou quem morreu na noite do acidente."

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