LOGINCapítulo 8 — O que estava dentro da caixa
Camila não se assustou quando viu Helena na porta. Estava sentada no chão frio da sala vazia, de calça jeans e camiseta branca simples, sem maquiagem, com uma caixa de papelão velha no colo. Os olhos estavam vermelhos, mas não de choro recente. De choro de horas. Helena não entrou. — Você tem a chave da minha casa? Camila passou a mão no rosto e riu sem humor nenhum. — Sua casa? — repetiu. — É assim que ele te contou? — A escritura está no meu nome. — E o nome na caixa de correio ainda é Duarte — respondeu Camila, batendo de leve na caixa. — Há quinze anos. Rafael chegou correndo atrás de Helena. Quando viu Camila no chão, parou. — O que você está fazendo aqui? — disse ele, e não era ciúme na voz dele. Era pânico. Camila levantou com dificuldade, segurando a caixa. — Você disse que ia me avisar quando vendessem — disse ela para Rafael. — Você prometeu que eu teria tempo de tirar as coisas da minha mãe. Helena olhou de um para o outro. — Mãe? Camila abriu a caixa. Lá dentro havia álbuns antigos, um porta-retrato quebrado, uma manta de bebê amarelada e um par de sapatinhos de criança. — Minha mãe morou aqui por vinte anos — disse Camila, com a voz finalmente quebrando de verdade. — Ela cuidou dessa casa a vida inteira. Foi aqui que ela morreu. Sozinha. Na noite em que você estava no hospital perdendo o seu bebê, Helena. O silêncio que caiu na sala vazia foi tão pesado que Helena sentiu o chão sumir. Rafael deu um passo para frente, como se quisesse impedir Camila de continuar, mas Helena levantou a mão. — Continua. Camila olhou para Rafael, depois para Helena. — Meu irmão também morava aqui. Ele tinha dezessete anos. Ele saiu daqui naquela noite para ir até o hospital te ver. Porque o Rafael pediu. Porque o Rafael disse que você estava sozinha e precisava de alguém da família por perto. Helena sentiu o sangue gelar. — Que família? Camila colocou a caixa no chão, bem na frente de Helena, e abriu o porta-retrato quebrado. Dentro havia uma foto antiga de duas mulheres sorrindo abraçadas na frente da mesma porta azul. Uma delas era muito mais jovem, mas inconfundível. Era a mãe de Helena. — Nossas mães eram irmãs, Helena — sussurrou Camila. — Você e eu somos primas. Rafael fechou os olhos. Helena não conseguia respirar. — Isso é mentira. — Pergunta para a sua mãe por que ela nunca te deixou vir nessa rua — disse Camila. — Pergunta para ela por que ela apagou o sobrenome Duarte da sua vida. Pergunta para ela quem ela deixou morrer aqui para sustentar a família Martins. Antes que Helena pudesse responder, o celular de Rafael tocou. Era o nome da mãe de Helena na tela. Ele atendeu no viva-voz sem querer. — Rafael, onde está a minha filha? — disse a voz da mãe de Helena, desesperada do outro lado. — Não deixa ela entrar naquela casa! Pelo amor de Deus, não deixa ela abrir a caixa da irmã dela!CAPÍTULO 22 | O HOMEM QUE MINHA MÃE PROTEGEU Helena “Foi alguém que você conhece.” As palavras da minha mãe ficaram suspensas na sala. Eu não conseguia respirar direito. Olhei para Rafael. Ele estava pálido. Não era surpresa. Era reconhecimento. Helena: “Você sabe quem é.” Rafael: “Não.” A resposta veio rápida demais. Helena: “Mentira.” Rafael: “Helena, eu não sei quem está por trás disso.” Helena: “Mas sabe quem pode ser.” Ele ficou em silêncio. Minha mãe começou a chorar. Helena: “Mãe, eu quero o nome.” Lúcia: “Eu não posso.” Helena: “Pode.” Lúcia: “Se eu falar, você corre perigo.” Helena: “Eu já estou em perigo.” Apontei para o celular. Helena: “Alguém sabe onde estou. Alguém sabe o que aconteceu naquela estrada. Alguém tem fotografias da nossa família. E você ainda acha que esconder o nome dessa pessoa vai me proteger?” Minha mãe apertou os olhos. Lúcia: “Eu prometi.” Helena: “Para quem?” Ela não respondeu. Rafael se aproximou. Rafael: “Lúcia, chega.”
CAPÍTULO 21 | A ASSINATURA DE LÚCIA Helena A frase continuava presa na minha cabeça. “Não confie no Rafael.” Olhei para ele. Rafael estava parado diante de mim, imóvel demais. Meu coração batia rápido. Não era apenas medo. Era aquela sensação horrível de estar diante de alguém que sabia exatamente o que estava acontecendo, enquanto eu continuava recebendo as verdades aos pedaços. Rafael: “Helena, não atende mais esse número.” Helena: “Por quê?” Ele hesitou. Helena: “Você conhece essa pessoa?” Rafael desviou os olhos por um segundo. Foi o suficiente. Helena: “Conhece.” Rafael: “Não é tão simples.” Helena: “Nunca é simples quando você está envolvido.” Ele se aproximou. Rafael: “Eu estou tentando manter você viva.” Helena: “E eu estou tentando descobrir por que preciso ser mantida viva.” Ele parou. Dessa vez, não respondeu. Aquilo me irritou mais do que qualquer mentira. Peguei minha bolsa sobre a mesa. Rafael: “Onde você vai?” Helena: “Descobrir a verdade.” Ra
CAPÍTULO 20 - A PROVA QUE RAFAEL ESCONDEU Helena O silêncio de Rafael respondeu antes dele. Ele estava com meu pai. Uma hora antes do acidente. Meu coração parecia bater contra as costelas. — Você estava com ele. Rafael respirou fundo. — Sim. — Por quê? — Porque ele me chamou. — Para quê? Ele olhou para minha mãe. — Nós precisamos conversar em outro lugar. Soltei uma risada amarga. — Não. Apontei para o celular. — Eu cansei de descobrir pedaços da minha vida por mensagens de desconhecidos. Rafael se aproximou. — Eu ia contar. — Quando? — Hoje. — Depois que eu descobrisse sozinha? Ele ficou em silêncio. — O que meu pai entregou a você naquela noite? Rafael passou a mão pelo rosto. — Um envelope. — O mesmo envelope que você mencionou antes? — Sim. — E onde está? Ele hesitou. Meu coração afundou. — Rafael. — Eu ainda tenho. — Onde? — Em um lugar seguro. — Quero ver. — Helena... — Agora. Ele me encarou por alguns segundos. Então tirou a carteira do
CAPÍTULO 19 - A FILHA QUE DEVERIA ASSUMIR MEU LUGAR Helena Meu corpo inteiro ficou gelado. Continuei olhando para a fotografia. Minha mãe estava ao lado da minha cama. E, atrás dela, estava Heloísa. Minha irmã. Mais jovem. Assustada. Viva. Naquela noite. No mesmo hospital onde eu quase morri. Rafael tirou o celular da minha mão. — Helena... — Não. Puxei o aparelho de volta. — Não fala nada. Ele parou. Ampliei a fotografia novamente. Heloísa estava parcialmente escondida atrás da porta. Mas era impossível confundir. Aquele era o meu rosto. O meu cabelo. Os meus olhos. A diferença era que ela parecia apavorada. — Por que ela estava aqui? Rafael respirou fundo. — Eu não sei. Olhei para ele. — Você sabe. — Eu descobri essa fotografia muito depois. — E guardou para você. — Eu não sabia o que significava. — Mas sabia que ela estava naquele hospital. — Sim. Minha garganta apertou. — Quantas coisas você ainda sabe? Rafael não respondeu. Virei para Camila.
CAPÍTULO 18 - O SEGUNDO RELATÓRIO Helena Aquela frase não saía da minha cabeça. A filha certa precisa sobreviver. Fiquei olhando para o papel enquanto sentia meu coração bater cada vez mais rápido. Rafael continuava diante de mim. — Você precisa me contar tudo. Ele respirou fundo. — Eu vou. — Não. Você vai contar agora. — Helena, você acabou de recuperar uma lembrança. Não sabemos se ela está completa. — Então me ajude a lembrar. Ele ficou em silêncio. — O que aconteceu naquela noite? Rafael passou a mão pelos cabelos. — Você estava no carro com seu pai. Meu corpo ficou tenso. — Eu estava com ele? — Sim. — E quem estava dirigindo? Rafael hesitou. — Seu pai. Fechei os olhos. Por alguns segundos, tentei lembrar. Uma luz. Uma estrada. Um barulho forte. Depois, escuridão. Levei a mão à cabeça. — Eu lembro de uma voz. Rafael se aproximou. — De quem? — Não sei. — Homem ou mulher? — Mulher. Camila ficou imóvel. — O que ela dizia? Respirei fundo. A lembra
CAPÍTULO 17 - O QUE ACONTECEU AOS QUINZE ANOS Helena Rafael sabia. Aquela certeza foi pior do que a mensagem. Pior do que o documento. Pior até do que descobrir que alguém havia usado meu nome quando eu ainda era uma adolescente. Ele sabia. Fiquei olhando para ele, esperando uma explicação. Uma palavra. Qualquer coisa. Mas Rafael permaneceu em silêncio. — O que aconteceu comigo aos quinze anos? Ele desviou o olhar. Meu coração apertou. — Rafael, eu fiz uma pergunta. — Eu não posso responder isso agora. Senti uma raiva subir pelo meu peito. — Não pode? Aproximei-me dele. — Ou não quer? — Helena... — Se você disser que está tentando me proteger, eu juro que vou embora agora. Ele ficou imóvel. Camila observava os dois. — Rafael, ela precisa saber. Ele passou a mão pelo rosto. — Eu sei. — Então fala. Ele olhou para mim. — Aos quinze anos, você sofreu um acidente. O mundo pareceu parar. — O quê? — Um acidente de carro. Balancei a cabeça. — Eu nunca sofri u







