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Capítulo 4

Author: Fernanda Passos
Uma sensação sufocante apertou o peito de Elena. Respirando fundo, ela abriu as redes sociais de Caio.

Assim que a página carregou, surgiram, uma após outra, as anotações de sua agenda:

[Exame médico da Mirela]

[Reservar passagens e hotel para a Mirela]

[Aniversário da Mirela]

[Mirela...]

[Mirela...]

Tudo girava em torno de Mirela.

Quanto às anotações relacionadas a Elena, havia apenas uma. Ela precisou rolar a página até o fim para encontrá-la.

Datava de três anos atrás. O dia em que registraram o casamento.

Elena recostou-se na cadeira, sentindo as pontas dos dedos levemente geladas.

Contendo as emoções, ela abriu outra pasta e começou a examinar os registros recentes de compra de imóveis, investimentos e negociações de ações de Caio.

Ela não entendia muito daquele assunto, mas isso não importava. Ela fotografou tudo o que conseguiu encontrar, organizou os arquivos e enviou um e-mail para Vivian.

A resposta chegou rapidamente: [As informações são úteis. Obrigada pelo esforço. As coisas por aqui também estão avançando bem.]

Elena fechou o computador e se levantou.

A chuva que havia começado durante o dia continuava caindo sem parar.

Ela caminhou até a janela e abriu uma pequena fresta. O vento frio entrou, acompanhado por gotas de chuva que tocaram seu rosto. Estava gelado, mas ela gostava daquela sensação.

Antes mesmo do amanhecer do dia seguinte, Elena já havia chegado ao ateliê de seu mestre.

O estúdio ficava nos arredores da cidade, cercado por vegetação. O vento fazia as trepadeiras sobre os muros balançarem com um suave farfalhar.

Ela havia passado quase vinte anos naquele lugar. Agora, ao percorrer novamente aqueles caminhos, tudo lhe parecia pertencer a outra vida.

Augusto era uma figura extremamente respeitada no meio artístico. Sua habilidade na restauração de pinturas antigas era considerada insuperável.

Embora já estivesse aposentado e decidido a não aceitar mais discípulos, há vinte anos, ele havia aberto uma exceção e aceitado Elena como sua última aluna.

Parte da razão era o talento extraordinário que ela havia demonstrado ainda criança. A outra era a insistência de seus pais, que visitaram o mestre inúmeras vezes até convencê-lo.

Na lembrança de Elena, embora sua mãe passasse a maior parte do tempo em casa por motivos de saúde, sempre fazia observações certeiras enquanto a acompanhava durante os estudos de pintura.

Depois ela se casou. Naquela época, acreditava ingenuamente que a vida ainda seria longa. Que um casamento exigia dedicação constante. E que seus sonhos poderiam esperar um pouco.

Ela sempre pensava que ainda haveria tempo. Até que, um a um, aqueles que amava foram deixando sua vida.

Seus pais, seu irmão, Caio.

Só então ela percebeu que o futuro nunca era uma promessa.

Elena permaneceu imóvel e respirou profundamente.

Desta vez, ela queria seguir esse caminho até o fim.

Assim que empurrou a porta do ateliê, o aroma familiar de tinta e papel a envolveu.

Augusto, usando seus óculos de leitura, estava inclinado sobre uma pintura.

Ao ouvir a porta se abrir, levantou a cabeça e, no mesmo instante, a viu.

— Você chegou?

— Mestre. — Ao olhar para o mestre que não via há tanto tempo, Elena sentiu uma pontada de emoção nos olhos.

— Já que chegou, vamos trabalhar. — Como se não tivesse percebido sua emoção, o velho apenas acenou com a mão, apontando para uma pintura aberta sobre a mesa. — Venha dar uma olhada nesta primeiro.

Era uma antiga pintura de flores e pássaros.

O papel estava amarelado pelo tempo. As cores haviam desbotado. Diversos rasgos atravessavam a obra.

Quando se tratava de trabalho, Elena entrava imediatamente em um estado de total concentração. Vestiu um par de luvas descartáveis, ajustou o ângulo da luminária e inclinou levemente a cabeça para examinar a superfície do papel.

— A área danificada é grande. Já tentaram restaurá-la antes? — Perguntou.

— Ao que tudo indica, sim. — Augusto soltou um resmungo. — Mas fizeram um trabalho péssimo. A recomposição das cores ficou grosseira e ainda pressionaram demais o papel, causando novos danos.

Com uma pinça, Elena levantou delicadamente uma pequena parte do material utilizado na restauração anterior.

— Primeiro será preciso amolecer esse preenchimento e removê-lo. — Ela franziu levemente a testa. — Depois reconstruiremos seguindo a textura original do papel.

— Muito bem. — Augusto assentiu, satisfeito. — Você ainda não perdeu o jeito. Não me fez passar vergonha.

— Estou um pouco enferrujada. — Elena sorriu.

— Se realmente tivesse abandonado tudo, eu não deixaria você tocar nesta pintura. — Após uma breve pausa, perguntou de maneira um tanto rígida. — E então, como você tem passado nesses últimos anos?

Depois de terminar a inspeção, Elena retirou as luvas e as jogou no lixo.

— Tenho passado bem.

— Hum. — Augusto apenas assentiu brevemente. Em seguida, pegou outro pergaminho. — Comece praticando com este.

Era um trabalho simples aceito pelo ateliê. O papel apresentava pequenas manchas de mofo.

Elena abriu cuidadosamente a pintura e apoiou uma das mãos sobre a borda para estabilizá-la. Naquele instante, seu coração finalmente encontrou paz.

Durante todo o dia ela quase não falou. Limitou-se a organizar papéis, preparar a cola especial, testar pincéis e trabalhar em silêncio.

Lá fora, o céu permanecia carregado. As nuvens estavam ainda mais baixas do que pela manhã. Segundo a previsão do tempo, as próximas semanas seriam marcadas por chuvas constantes.

No meio da tarde, Elena olhou pela janela, pegou o celular e enviou uma mensagem para Caio:

[Estou ajudando meu mestre com um trabalho. Provavelmente chegarei tarde em casa.]

Uma hora depois veio a resposta:

[Mais ou menos que horas? Eu vou te buscar.]

Ela respondeu apenas: [Tudo bem, eu te aviso.]

Quando terminou de guardar suas ferramentas, já era noite. Elena olhou o relógio. Já eram 21h20.

Meia hora antes, ela já havia enviado outra mensagem:

[Estou quase terminando. Vou esperar por você.]

Calculando que Caio deveria estar chegando, desceu as escadas.

Do lado de fora, a chuva caía de maneira constante. Parada sob o beiral, ela observava as árvores balançando ao vento.

Às 21h40, o celular vibrou.

Caio: [Surgiu um imprevisto. Espere só mais um pouco.]

Elena respondeu: [Tudo bem.]

Ela puxou o capuz para proteger metade do rosto, o vento estava frio.

Às 21h50, a chuva aumentou de intensidade. As gotas caíam pesadas, enquanto a umidade gelada escorria por dentro de sua gola.

Ela olhou para a esquina, não havia nenhum carro. Guardou o celular na bolsa, abaixou um pouco mais o capuz e saiu correndo sob a chuva.

Como o ateliê ficava em um lugar afastado, era difícil conseguir um táxi.

Elena correu quase um quilômetro até finalmente encontrar um.

— Motorista, por favor. Para o Residencial Bela Vista.

Assim que entrou no carro, o barulho da chuva ficou do lado de fora.

Ela já estava completamente encharcada. Sentada no banco traseiro, tremia de frio.

Nesse momento, o celular voltou a vibrar.

— Alô. — Ela atendeu.

— Surgiu uma emergência. — A voz de Caio estava baixa. — Não precisa mais me esperar. Pegue um táxi e volte para casa.

— Uma emergência? — Elena fechou os olhos e um sorriso irônico surgiu em seus lábios.

— Sim. — Do outro lado da linha houve uma breve pausa. — A Mirela apresentou uma nova complicação. Estou no hospital.

Tal como ela imaginava.

— O que aconteceu com ela? — Elena fechou os olhos novamente.

— Ela sofreu um acidente de carro ontem. — Caio explicou. — Foram apenas alguns arranhões, mas o médico pediu que ela permanecesse em observação, por precaução. — Depois acrescentou. — Não fique imaginando coisas.

— Eu não estou imaginando nada. — Elena sorriu tranquilamente.

— Certo. Quando chegar em casa, me mande uma mensagem. — Ele fez uma pausa. — Da próxima vez, eu...

O restante da frase foi encoberto pelos avisos transmitidos pelos alto-falantes do hospital. Elena nem se deu ao trabalho de ouvir, desligou a ligação imediatamente.

Quando voltou para a mansão, Maria já havia ido dormir.

Ela tirou as roupas encharcadas, jogou-as no cesto de roupa suja e vestiu um pijama limpo.

Ao olhar para o espelho, percebeu que seu rosto estava pálido. Sua cabeça também parecia estranhamente pesada.

Ela pegou uma caixa de remédio para resfriado, engoliu um comprimido com um pouco de água, depois voltou para a cama.

No meio da madrugada, Elena acordou tomada por uma sensação de calor intenso. Seu corpo parecia estar ardendo em febre. A cabeça pesava como chumbo. Os braços e as pernas doíam tanto que até falar exigia esforço.

Ainda sonolenta, virou-se na cama e estendeu a mão em direção ao copo de água sobre a mesa de cabeceira. Mas seus dedos perderam a força e o copo caiu no chão.

O barulho seco e nítido ecoou pelo quarto.

Do lado de fora, alguém bateu duas vezes na porta. Logo em seguida, a porta foi aberta.

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