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Capítulo 3

Author: Fernanda Passos
Às sete e meia da noite, a cozinha da mansão da família Albuquerque estava envolta pelo vapor quente da comida recém-preparada.

O peixe já estava sendo cozido no vapor. O ensopado de carne cozinhava lentamente até engrossar, os legumes haviam sido cortados em cubos perfeitos, e um caldo rico fervia suavemente no fogão.

Caio empurrou a porta e entrou. Ele vestia um sobretudo escuro sobre um terno de corte impecável. A gravata estava levemente afrouxada.

Ao ver Elena preparando o jantar para ele, a frieza em seus olhos suavizou um pouco.

Ela continuava ocupada na cozinha. Ao ouvir a porta se abrir, não se virou nem interrompeu o que estava fazendo.

Antigamente, ela sempre corria para recebê-lo, feliz por vê-lo chegar em casa a tempo de jantarem juntos. Agora, nem sequer lhe concedia um olhar.

— Você saiu hoje? — Os olhos de Caio passaram pela bolsa deixada perto da entrada.

— Saí. — Elena colocou a sopa sobre a mesa. — Fui encontrar uma amiga. Aproveitei também para entrar em contato com o meu mestre.

— Mestre? — Caio tirou o casaco e começou a desabotoar os punhos da camisa. — Aquele da pintura?

— Sim. — Ela assentiu. — Quero voltar para o ateliê.

Os movimentos dele pararam por um instante.

— Por que decidiu isso de repente? — Erguendo os olhos, perguntou.

— Ficar em casa o tempo todo é entediante. Não consigo mais ficar parada. — Elena sorriu de leve, com um tom indiferente.

Caio a observou, sentiu que havia algo diferente nela, mas não conseguia dizer exatamente o quê.

— Não é bom aproveitar a vida em casa? — Ele franziu a testa. — Eu fico preocupado de você voltar a trabalhar. E se alguém te maltratar?

Ele falou num tom gentil, como se realmente se importasse com o bem-estar dela.

Mas, para Elena, aquelas palavras eram nauseantes. Ela já tinha ouvido frases semelhantes inúmeras vezes.

Antes, ela sempre dava ouvidos ao que Caio dizia. E, no fim, quem sempre saía ganhando era ele.

Nunca foi por medo de que ela sofresse. O que realmente o preocupava era vê-la escapar do seu controle.

— Tudo bem. — Ela não o confrontou, apenas sorriu levemente. — A Mirela... é Mirela, não é? — Ela fingiu pensar por um instante antes de continuar. — Você passou a noite toda cuidando dela ontem? Ela já está melhor?

O ambiente à mesa mergulhou em um breve silêncio.

— Se está entediada, pode passar alguns dias no ateliê. — Depois de alguns segundos, Caio respondeu. — Só não exagere. Não quero que você fique cansada. — Ele pegou os talheres e acrescentou. — Vamos comer.

Elena deu um sorriso silencioso e cínico.

Ela havia mencionado Mirela de propósito. Ao lembrar do que havia acontecido no velório, Caio inevitavelmente sentiria um pouco de culpa. E bastava aquela pequena culpa para fazê-lo permitir que ela voltasse a trabalhar.

Ela baixou os olhos para a sopa, evitando olhar para ele.

Caio também tomou um gole e logo franziu a testa.

— O sabor está diferente.

— Mudei a receita. — Ela sorriu docemente.

— Não estou acostumado. — Ele deixou a tigela sobre a mesa. — Prefiro a antiga.

O sorriso de Elena permaneceu, mas ela não respondeu.

A sopa de antes era preparada por ela. Levava horas de cocção. Ela fervia ossos de galinha, porco e boi, retirava cuidadosamente as impurezas, acrescentava sua própria mistura de especiarias e deixava tudo cozinhar lentamente em fogo baixo.

A sopa daquela noite tinha sido feita pela Dona Maria, a governanta.

O caldo vinha de um tempero industrializado. É claro que o sabor seria diferente.

Ao vê-la tão dócil, Caio sentiu-se discretamente aliviado.

Sua mente voltou ao velório. No momento em que Elena o havia pressionado sobre a vaga para o tratamento do pai. Seus olhos estavam tão vermelhos que chegaram a assustá-lo.

Ele sempre tinha absoluta confiança nas próprias decisões e não acreditava ter cometido um erro ao entregar aquela vaga para outra pessoa. No entanto, naquele instante, ele sentiu um leve pânico.

Então era melhor assim, ele preferia muito mais a Elena silenciosa, gentil e obediente.

Caio franziu os lábios. Então tirou uma pequena caixa do bolso do casaco e a empurrou sobre a mesa.

— Isto é para você. Meu assistente recomendou. Disse que está na moda.

Elena abriu a caixa e dentro havia um delicado par de brincos cor-de-rosa.

O problema era que ela nunca teve as orelhas furadas.

— Você... — Caio pareceu lembrar disso naquele instante. — Você não tem furos na orelha, tem?

— Não tem problema. — Ela fechou a caixa com delicadeza. — Posso mandar adaptá-los para pressão.

Seu sorriso continuava perfeito, mas não chegava aos olhos. Se ele realmente prestasse atenção nela, jamais compraria algo que ela sequer pudesse usar.

— Você não gostou? — Caio franziu a testa.

— São bonitos. — Elena sorriu. — Só fiquei surpresa por você ter lembrado de trazer um presente para mim.

A frase soou quase como um leve mimo de esposa. E o coração de Caio amoleceu.

— Da próxima vez... — Ele fez uma pausa. — Da próxima vez comprarei algo melhor.

Depois do jantar, pela primeira vez em muito tempo, Caio não subiu imediatamente para o escritório.

— Tem algum filme novo interessante? — Ele perguntou a ela. — Quer assistir comigo?

Ela ergueu os olhos e seus movimentos pararam por um instante.

Caio sempre administrava seu tempo com extrema precisão. Passar o tempo com ela nunca fazia parte de sua programação.

Então, aquilo era culpa?

"Obrigada, mas não." Era o que ela pensava, mas, externamente, manteve o sorriso e concordou de forma obediente.

As luzes da sala foram suavizadas.

Quando Elena voltou trazendo um bule de chá, Caio já estava sentado em uma das extremidades do sofá.

— Senta aqui. — Ele bateu levemente no lugar ao lado. — Muito longe da televisão não dá para enxergar direito.

Ela se acomodou ao seu lado, com uma pequena almofada os separando.

A televisão se iluminou.

Quem olhasse de fora provavelmente acreditaria estar diante de um casal apaixonado. No entanto, a maneira como o homem olhava constantemente para o celular denunciava sua falta de atenção.

As notificações vibravam sem parar. O brilho da tela iluminava repetidamente seu rosto. Seu pensamento claramente estava em outro lugar.

Elena também mantinha os olhos na televisão, mas não absorvia uma única fala do filme. Ela observava cada movimento dele, com as pontas dos dedos tamborilando sobre o braço do sofá.

Nesse momento, o celular de Caio vibrou duas vezes. Ele baixou os olhos e na tela apareceu um nome: Mirela.

O toque soou por apenas dois segundos antes que ele atendesse.

— Alô?

O que quer que tenha sido dito do outro lado da linha fez suas sobrancelhas se contraírem.

— Agora? — Sua voz tornou-se ainda mais baixa.

Na televisão, o protagonista gritava apaixonadamente durante uma declaração de amor. Mas Elena não ouviu uma única palavra.

— Estou indo agora mesmo.

Caio desligou e virou-se para ela.

— Pode continuar assistindo. Talvez eu volte um pouco mais tarde.

— Tudo bem, dirija com cuidado. — Elena abriu um sorriso e agiu com naturalidade. Levantou-se, pegou o casaco dele, depois as chaves do carro e as entregou em suas mãos.

Caio ficou visivelmente surpreso.

— O que foi? — Ela inclinou a cabeça, como se não entendesse sua reação.

Ao ver aquele sorriso um tanto forçado, Caio imaginou que ela estivesse relutante em vê-lo sair. Por isso resolveu explicar.

— A Mirela sofreu um acidente de carro. Ainda não sei como está a situação. Preciso ir vê-la. Não se preocupe. Assim que resolver tudo, eu volto.

— Então vá logo. O que está esperando?

Quando a porta se fechou, a televisão exibia uma cena de declaração de amor, com o som no volume alto.

Ela pegou o controle remoto e desligou a televisão. Num instante, a sala mergulhou na escuridão.

No escritório, apenas a luminária de chão permanecia acesa, iluminando um canto do ambiente.

Elena sentou-se diante da mesa, ligou o computador de Caio sem qualquer dificuldade.

Desde que se casaram, ela quase nunca entrava naquele escritório. Por isso, Caio jamais tomou qualquer precaução contra ela. Até a senha continuava sendo a mesma de sempre.

O cursor do mouse percorreu rapidamente uma pasta após a outra.

Ela abriu uma pasta de fotografias que estava repleta de imagens de Mirela. Em todas, Mirela aparecia ainda jovem, sorrindo de forma radiante. Ao seu lado estava um Caio igualmente jovem, cheio de energia e sonhos. E, em cada fotografia, seu olhar permanecia fixo nela.

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