Beranda / Lobisomem / O Preço da Marca do Alfa / Capítulo 3 - O Sangue das Sagradas

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Capítulo 3 - O Sangue das Sagradas

last update Tanggal publikasi: 2026-04-14 04:44:00

POV de Júlia

Gabriel saiu e o ar finalmente circulou. O vácuo agressivo deu lugar a um silêncio pesado, cortado apenas pelo bipe rítmico do monitor. Rafael me entregou um copo de água sem me olhar nos olhos. O líquido desceu como fogo, queimando minha garganta inflamada.

Ele se sentou na beirada da cama, o colchão afundando sob seu peso. Éramos íntimos, confidentes de infância, mas o modo como ele me encarava agora fazia meu estômago dar voltas. Havia uma solenidade em seu rosto que eu só via em sentenças de morte.

Algo definitivamente estava bem ruim.

— Júlia... vou perguntar novamente, o que você pode me falar da sua loba? — a pergunta dele foi um sussurro, quase um segredo proibido.

Eu franzi a testa, a confusão nublando minha mente. O que ele queria saber? Todos sabiam da minha vergonha.

— Como assim, Rafael? Você sabe. Eu não ganhei minha loba quando fiz dezoito anos. Eu sou praticamente humana, um erro na linhagem dos Montserrat.

Aquilo era mentira. Minha loba apareceu, sim.

Ela era majestosa, uma visão de pérola rosada com olhos de um rosa profundo e hipnotizante. Mas durou apenas um suspiro. No momento em que fui rejeitada pelo meu companheiro destinado, algo nela se estilhaçou.

Foram mil fragmentos de vidro se enterrando na minha carne, sumindo para nunca mais voltar. Para o mundo, sou uma Ômega falha. Para mim, sou apenas o túmulo de uma fera que não teve tempo de uivar.

Rafael me olhou com uma tristeza tão profunda que me fez querer desviar o rosto.

— Os exames dizem o contrário, Júlia. Eles dizem que ela está aí. E mais: dizem que ela está gritando, tentando desesperadamente rasgar o caminho para fora. Tem certeza de que não sente nada? Nem uma fagulha? Nem uma energia fraca?

Meus dedos se fecharam contra o lençol áspero do hospital, os nós dos dedos brancos de tensão. Eu me sentia nua, exposta, como se ele estivesse cutucando uma ferida aberta com um ferro em brasa.

— Olha... ela é bem fraca, Rafael. Eu não sei nem o nome dela... — confessei, a voz falhando.

— Júlia, eu acho que sua loba é mil vezes mais forte do que você pensa. Ela está tentando emergir, mas há algo bloqueando o caminho, e esse conflito está destruindo você. Seja sincera: o que você sentiu desde que tudo aconteceu?

Eu não me sentia segura para falar. Na nossa sociedade, lobos e lobas Ômegas são descartáveis. Eu não queria ser mais um problema pra minha família, mais uma vergonha das minhas fraquezas.

Rafael percebeu meu silêncio, minha hesitação; ele estendeu a mão e segurou a minha. O calor dele era real, reconfortante contra o frio glacial que parecia ter se instalado permanentemente nos meus ossos.

— Júlia, eu sou seu médico antes de ser um Blackwolf. Eu preciso da verdade para te salvar. Me fala... cada detalhe.

Mordi meu lábio inferior, o gosto de ferro do sangue despertando meus sentidos. Olhei para a porta fechada, temendo que o azul elétrico de Gabriel estivesse ouvindo atrás da madeira, e depois olhei para o meu único aliado.

— Tudo bem... eu sinto tonturas constantes. Às vezes o mundo gira tanto que eu preciso me segurar nas paredes. Sangramentos nasais que não param por nada e um cansaço... um cansaço que parece vir de dentro da medula. Eu já desmaiei várias vezes quando estava sozinha com os meninos. Pensei que era por conta da gravidez, sabe? Cassian e Connor me consumiram muito. Achei que eles tinham levado a pouca força que me restava.

Rafael me analisou em um silêncio sepulcral. Ele soltou minha mão para pegar os relatórios impressos, seus olhos varrendo as tabelas de enzimas e taxas hormonais que eu não entendia.

— Não acho que sejam resquícios da gravidez, Júlia. O que você está descrevendo é um quadro de incompatibilidade sistêmica. Sua loba quer emergir, mas ela é grande demais para o seu corpo humano suportar sem ajuda. Ela está tentando sair, e como não consegue, está consumindo seus órgãos internos para gerar energia. Ela está te devorando viva, de dentro para fora.

Um gosto amargo, como bile, subiu pela minha garganta.

— Você já viu casos assim antes? — perguntei, o pavor começando a gelar meu sangue.

— Não aqui, em Costa da Lua. Lobas comuns não passam por isso. Mas eu passei as últimas quatro semanas estudando seus tecidos, Júlia. Eu fiz pesquisas em arquivos antigos e comparei com os dados das linhagens mais puras da história. Tenho certeza absoluta do que você é: você é uma Luna Nascida.

Meu coração errou uma batida e o monitor emite um som agudo de alerta. Aquilo não podia ser verdade.

As Lunas Nascidas eram lendas, raras como diamantes de sangue. A cada cem mil lobas, apenas uma nascia com essa genética sagrada. Eram poderosas, destinadas a liderar alcateias inteiras, o oposto absoluto da Ômega desprezada que eu me tornei.

— Isso não pode ser... — sussurrei, as lágrimas embaçando minha visão. — Eu sou nada, Rafael.

— Júlia, seus testes sanguíneos confirmaram. O nível de radiação espiritual e a composição do seu plasma são idênticos aos das Lunas Nascidas dos registros históricos. Tudo bateu. Mas aqui está o perigo, e você precisa me ouvir com atenção — ele se inclinou, sua voz ficando urgente, quase desesperada. — Você está em um estado bem ruim. Seus exames mostraram que seus rins e seu fígado estão começando a falhar sob a pressão da energia da sua loba.

Ele apertou os meus ombros, me forçando a focar nele.

— Júlia, você precisa ser marcada com urgência. Entende isso? Você precisa de uma marca de Alfa para estabilizar esse poder, para criar uma âncora que permita que sua loba emerja sem te destruir. Se você não for marcada nos próximos dias, seu corpo não vai aguentar. Você vai morrer, Júlia. Não é uma possibilidade, é uma certeza científica.

As palavras dele me atingiram como o impacto de um trem. Ele disse que eu precisava de um Alfa. Como fui rejeitada na Pedra Sagrada, diante da Deusa da Lua, eu não tinha ninguém aos olhos da sociedade. Agora, para sobreviver, eu teria que me entregar a um estranho. Alguém que me marcasse apenas para me manter viva.

Eu estava morrendo. Mesmo tendo apertado o gatilho para acabar com tudo, agora que a morte batia à porta de forma real, o instinto de sobrevivência gritava.

— Pela Deusa... — minha voz saiu embargada, um soluço escapando pelos meus lábios. — O que será dos meus filhos? Cassian e Connor não podem ficar sozinhos com ele. Eles não podem crescer sem mim!

Rafael apertou minha mão com força, os olhos brilhando com uma impotência que me apavorou.

— Júlia, eu não sou um Alfa, senão eu mesmo te marcaria para salvar sua vida. E Gabriel... bom, você sabe. Ele perdeu o poder dele, ele não é mais um Alfa dominante, então o sangue dele não teria a força necessária para estabilizar uma Luna Nascida. Além disso, ele não poderia ser ele de qualquer forma.

"Bom, nem se ele ainda fosse um Alfa ele me marcaria", pensei com uma ironia ácida que queimava mais que o soro na minha veia. Ele preferiria me ver em cinzas do que me dar o título de sua Luna.

— Mas o que mais temos são Alfas de linhagens menores nessa cidade e na região — Rafael tentou injetar um otimismo forçado, mas sua voz tremeu. — Você vai ficar bem. Só precisamos encontrar um Alfa compatível que aceite te marcar. Não será difícil, Júlia. Sua beleza e seu sangue são valiosos.

Eu assenti mecanicamente, mas meu peito doía como se estivesse sendo esmagado por prensas hidráulicas. Para Rafael, era uma troca biológica. Para mim, era a maior humilhação possível: ter que vender o que restava da minha alma a um desconhecido para sobreviver à negligência do homem que jurou me proteger.

O silêncio da minha loba dentro de mim pareceu vibrar pela primeira vez em anos. Não era um rosnado, era um lamento sombrio de concordância. O tempo estava acabando.

Eu estava morrendo no meio de uma cidade cheia de reis, sem nenhum trono para me apoiar, sendo consumida por um poder que deveria ser minha maior bênção, mas que se tornou minha sentença final.

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