Home / Lobisomem / O Preço da Marca do Alfa / Capítulo 2 - O Despertar do Silêncio

Share

Capítulo 2 - O Despertar do Silêncio

last update publish date: 2026-04-14 04:43:29

(POV DE JÚLIA MONTSERRAT)

Um barulho incessante em minha mente me tira do sono. Aquele barulho não era normal. Não era meu celular despertando ou as crianças me gritando. Era um som ritmado e irritante, um bipe eletrônico que parecia martelar dentro do meu crânio.

"Mas que droga está acontecendo?", penso.

Abro os olhos com dificuldade. Minhas pálpebras pareciam mais pesadas do que geralmente são quando acordo, como se estivessem coladas com chumbo.

"Aonde estou?". Tento falar, mas minha garganta não obedece.

Sinto uma dor percorrer meu corpo. Não é uma dor comum; é uma queimação que começa na minha têmpora e se espalha como veneno pelas minhas veias. Tento buscar conforto no lugar onde todos os lobos buscam: o interior. Mas, como sempre, não encontro nada.

Dentro de mim há apenas o silêncio. Um vácuo gelado e mudo onde deveria estar o rosnado da minha loba. Para a alcateia, eu sou uma falha. Uma Ômega de loba tão fraca que mal consegue ser sentida. Eles acham que eu sou vazia. Mal sabem eles que esse silêncio é o que mais dói.

Tento mover o braço, mas o movimento é travado por um puxão. Vejo o tubo de plástico preso à minha pele, injetando um líquido frio. O cheiro de antisséptico hospitalar invade meu nariz, misturado ao cheiro metálico de sangue seco.

As imagens do restaurante brilham na minha mente. A fúria cega de Gabriel. O peso frio do metal contra a minha cabeça. Meu próprio grito silencioso por liberdade. Por que ainda estou sentindo o peso do meu corpo?

— Júlia.

A voz dele é um trovão baixo. Gabriel está ali, nas sombras, com os olhos fixos em mim. Ele parece um predador esperando que a presa dê o primeiro sinal de vida apenas para dar o bote novamente.

— Você acordou.

A voz dele corta o silêncio do quarto. Eu não preciso virar o rosto para saber que Gabriel está ali, sentado na poltrona ao lado, me vigiando como se eu ainda fosse sua prisioneira, mesmo em uma cama de hospital.

Gabriel se aproxima de mim com passos pesados. Estranho imediatamente: ele não está mais de uniforme policial. Veste roupas normais e está com a barba mal feita. Antes do tiro, antes de eu apagar, a barba dele estava perfeitamente aparada.

"Há quanto tempo eu estou desacordada?"

Ele percebe minha confusão. De braços cruzados, Gabriel parece exausto; as olheiras são fundas, marcando um rosto que parece ter sido mastigado pelo tempo. Como se lesse minha mente, ele responde com a voz grossa e pesada:

— Você está aqui há quatro semanas... Pensei que não acordaria.

Ele suspira profundamente. O silêncio da minha loba, que sempre foi minha maldição, agora parece um abismo. Quatro semanas de silêncio absoluto no mundo real, enquanto eu estava presa no vácuo da minha própria mente.

Gabriel se inclina sobre o leito, invadindo meu espaço pessoal com aquele cheiro de café forte e o rastro do perfume de madeira e sândalo que eu costumava amar, mas que agora só me lembrava da minha cela.

— Como você pôde fazer algo tão imprudente? — ele pergunta, a voz oscilando entre a incredulidade e a irritação pura.

Eu não respondo. Apenas o encaro, mas por dentro, o peso das palavras dele me esmaga.

"Como eu pude fazer isso?", penso, e uma onda de náusea me atinge.

"Eu nem pensei nos meus meninos... Cassian e Connor."

A culpa é um ácido que queima mais que o ferimento. Gabriel suspira fundo de novo, o azul elétrico dos olhos dele brilhando com uma mágoa sombria.

— Os médicos disseram que o tiro não deveria ter te deixado assim por tanto tempo. Mas você se recusava a voltar. Você realmente preferiu o inferno a mim, Júlia?

Eu continuo em silêncio. O que ele não entende é que o inferno sempre foi o brilho azul daqueles olhos me vigiando todos os dias.

A porta do quarto é aberta com um estrondo, interrompendo a fúria contida de Gabriel.

— Ela acordou! Por que não me chamou? — A voz era irritada, mas carregada de uma preocupação genuína.

Era Rafael Blackwolf. Irmão gêmeo de Gabriel, meu cunhado e amigo de infância. Enquanto Gabriel era moreno e sombrio, Rafael era loiro e trazia uma luz que tentava iluminar aquele quarto gelado.

Rafael marchou até a minha cama, ignorando a postura defensiva de Gabriel, e começou a checar meus sinais vitais. Ele se virou para mim, os olhos analisando cada detalhe do meu rosto empalidecido.

— Como está se sentindo? — ele perguntou, a voz baixando o tom.

— Sinto... sede — consegui dizer, a garganta queimando.

Rafael trocou um olhar rápido com Gabriel. Foi um relance fugaz, carregado de segredos que eu ainda não conseguia decifrar. Vi o rosto de Rafael ficar tenso, os músculos da mandíbula se retraindo à medida que ele lia o prontuário.

— Gabriel, cai fora — Rafael ordenou, sem desviar os olhos do papel. — Preciso examinar a Júlia e falar com ela sobre os exames. A sós.

— Eu não vou a lugar nenhum, Rafael. Ela é minha mulher — Gabriel bufou, dando um passo à frente.

— É mesmo? E você se lembrou que ela é sua mulher agora ou foi quando ela puxou o gatilho na sua frente?

— Rafael rebateu, a voz gélida. — Vai dar uma volta, Gabriel. Agora. Antes que eu chame a segurança do hospital e te tire daqui como um estranho.

O ar entre os dois irmãos gêmeos parecia prestes a entrar em combustão. Gabriel soltou um rosnado baixo, um som que fez o monitor cardíaco acelerar de medo. Ele me lançou um último olhar de posse, um aviso silencioso de que ele voltaria, e saiu, batendo a porta com uma força que fez os quadros na parede tremerem.

O silêncio que ficou era pior do que o bipe da máquina. Era um silêncio de morte. Rafael soltou o ar que parecia estar prendendo há horas e se aproximou da cama, sentando-se na beirada. Seu olhar estava suavizado, mas havia uma sombra de terror ali.

— Júlia... — ele começou, hesitando por um segundo antes de tocar minha mão. — O que você pode me falar da sua loba? Alguma coisa mudou nesses 7 anos?

O ar pareceu sumir do quarto. Eu senti um estalo de pânico no peito, um desconforto que me fez querer me fundir ao colchão e desaparecer.

Minhas mãos, ainda trêmulas e pálidas, agarraram o lençol com força, amassando o tecido áspero até que meus nós dos dedos ficassem brancos.

Eu não podia contar a ele. Eu não podia admitir que, no fundo do meu vácuo, algo estava começando a queimar. Algo que não era fraco. Algo que me apavorava mais do que o próprio Gabriel.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Preço da Marca do Alfa    Capítulo 81 - O Alvo nos Holofotes

    (POV DE GABRIEL BLACKWOLF)O espelho me devolvia um estranho.Meus cabelos ainda estavam úmidos, gotas frias escorrendo pela nuca e se perdendo no colarinho da camisa social branca. O cheiro de sabão neutro e o rastro metálico do ritual de limpeza ainda impregnavam meus poros.Meus dedos travaram no tecido da gravata de seda.Eu, o Comandante da Polícia Lupina, o homem que enfrentava assassinos sem piscar, não conseguia dar um simples nó. Minhas mãos tremiam. Um tremor sutil, rítmico, que nascia no fundo da minha alma aterrorizada.Encarei meu reflexo, buscando os restos do Alfa que eu costumava ser.Minha mente voltou para a penumbra do quarto, dias atrás. A luz vermelha piscando no armário... a porta do closet se abrindo devagar como a boca de um túmulo.Foi real?Fechei os olhos com força, sentindo uma pontada de dor na têmpora. O piche que tossi ainda deixava um gosto amargo, ferroso, na base da minha língua.— Delírio — sussurrei para o espelho, tentando convencer a mim mesmo. —

  • O Preço da Marca do Alfa    Capítulo 80 - O Contrato com o Demônio

    (POV GABRIEL BLACKWOLF) O peso do meu corpo contra o colchão parecia a gravidade de um planeta inteiro me esmagando.Rafael e meu pai me ajudaram a deitar. Eu era um Alfa, o Comandante, mas naquele momento, eu era apenas carne e osso quebrados, cheirando a sangue e piche.Eles me limparam, mas o frio da purificação ainda morava na minha medula.Júlia dormia ao meu lado. O som da respiração dela era a única coisa que mantinha o meu coração batendo no ritmo certo.Fechei os olhos. O silêncio da casa foi preenchido pelo som distante das ondas quebrando na orla de Costa da Lua.Aquele som... aquele maldito som de água e sal.Ele me arrastou para baixo. Para longe. Para um tempo onde a minha pele não tinha cicatrizes e a minha alma não conhecia o peso da farda.(FLASHBACK — MUITOS ANOS ATRÁS)O sol de meio-dia queimava meus ombros pequenos, mas eu não me importava.Eu tinha oito anos e a areia entre os meus dedos era o meu reino. Mas o meu tesouro era ela.Júlia tinha chegado a poucos mes

  • O Preço da Marca do Alfa    Capítulo 79 - Até meu coração parar de bater

    (POV GABRIEL BLACKWOLF) A escuridão foi rasgada por um trovão que nasceu dentro das minhas costelas.Meu corpo arqueou violentamente sobre o mármore frio, os calcanhares batendo contra o chão.O ar entrou nos meus pulmões como se eu estivesse engolindo cacos de vidro em brasa.Abri os olhos. A visão estava turva, manchada por um vermelho pulsante.Rafael estava sobre mim. O rosto dele era uma máscara de horror; o suor escorria pelo seu nariz, e suas mãos agarravam as pás do desfibrilador como se fossem a única coisa impedindo o mundo de desabar.Ele me envolveu em um abraço bruto, a respiração dele vindo em soluços curtos contra o meu pescoço.— Porra, seu filho da puta! — ele rugiu, o tremor nos braços dele me sacudindo. — Você vive me matando do coração! Que susto, porra!Tentei falar, mas só consegui expelir mais um jorro de sangue negro.O gosto era de piche e morte. A purificação ainda não tinha acabado.Eu sentia o bloqueio se retorcendo dentro de mim, uma criatura de sombras q

  • O Preço da Marca do Alfa    Capítulo 78 - O Ritual de Purificação do Alfa

    (POV DE GABRIEL BLACKWOLF)O silêncio da garagem era mais ensurdecedor do que as sirenes no beco.Desliguei o motor, mas minhas mãos continuaram presas ao volante. O vídeo no meu celular queimava no meu bolso como brasa.Ele estava lá dentro. O monstro viu o momento em que eu a possuía com os lábios. Ele assistiu à nossa fraqueza.Júlia abriu os olhos devagar. O brilho castanho caramelado estava opaco, perdido em uma névoa de exaustão e dor.— Gabriel... você não me levou para a escola — ela murmurou, a voz saindo como um sopro.— Não. Você não está nada bem, trouxe você para casa. Virei-me para ela. A palidez do seu rosto me atingiu como um soco no estômago. Ela parecia de porcelana, prestes a estilhaçar ao menor toque.— Acho que vou chamar o Rafael — continuei, já pegando o celular. — O estresse ainda te causando dor? A marca não está estabilizando direito...Ela apenas concordou com um movimento mínimo de cabeça, fechando os olhos novamente como se a luz do dia doesse.— E os men

  • O Preço da Marca do Alfa    Capítulo 77 - Olhos em todo lugar

    (POV DE GABRIEL BLACKWOLF)O papel estava úmido, impregnado com o cheiro ferroso de sangue fresco.A caligrafia era um escárnio. Cada letra desenhada com uma precisão doentia que fazia meu lobo rosnar no fundo da minha alma."A pele dela é tão macia quanto eu imagino, Comandante? Estou ficando insatisfeito com a distância. Não se engane, Júlia será minha. E você... você será o primeiro a apodrecer debaixo de sete palmos."Amassei o bilhete com tanta força que o papel se tornou uma massa disforme na palma da minha mão.O desgraçado estava brincando de deus. Primeiro a minha casa, agora um corpo desovado na porta do meu almoço. Ele não estava apenas matando; ele estava marcando território.— Jhonny! — chamei, a voz saindo como um trovão, autoritária e letal.Meu braço direito apareceu em segundos, já isolando o perímetro com a equipe de perícia.— Comandante, a área está cercada. Ninguém passa — Jhonny informou, mas seus olhos desviaram para Júlia.O Bilhete parecia queimar como um avis

  • O Preço da Marca do Alfa    Capítulo 76 - Campo Minado

    (POV DE JÚLIA MONTSERRAT)Eu encarava aqueles olhos azuis elétricos tentando esconder meu desespero da pior forma possível, mas não durou muito.— Júlia, qual o problema? Você não quer ir? — ele perguntou calmamente.Meu coração batia tão forte que era difícil respirar.Eu com certeza viraria um meme se alguém me filmasse. Tentei forçar um sorriso e manter a boca ocupada, mas eu sei que uma hora teria que responder e Gabriel ia explodir.Eu tava segurando uma bomba.Fiquei com dó dos garçons. Ele ia quebrar aquela mesa com certeza.— Júlia, fala... o que tá rolando? — ele questiona, a testa franzida."Ah, Gabriel... por que agora? Por que voltar a ser o homem por quem eu morreria, logo quando eu mais preciso te odiar?" Não adiantava mais esconder.— Tudo bem, tenta ficar calmo, por favor... — eu começo e tomo um gole da minha bebida gelada. — É que o Dante me convidou pra ir já tem uns dias.Gabriel parou de respirar.— Ele falou que vocês estavam cogitando se faria ou não o baile dia

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status