LOGINA escuridão da galeria de águas pluviais era apenas interrompida pelo feixe trêmulo da lanterna tática que Dr. Marcos segurava com os dedos entorpecidos pelo frio. O ar subterrâneo castigava seus rostos com um odor intenso de concreto molhado. O som de água corrente sob a grelha metálica onde a maca de Léo deslizava ritmicamente servia como trilha sonora para uma fuga desesperada. Arthur empurrava a lateral esquerda da maca com os dentes cerrados, cada passo arrancando dele um suor frio que brotava de sua testa pálida. Mas, para Helena, o verdadeiro tormento não era a umidade congelante das colinas de Zurique ou a ameaça imediata dos homens de Thiago Valente. O tormento era o silêncio devastador que se instalou em sua própria mente.As palavras do relatório técnico de Klaus Von Clausewitz ecoavam em sua cabeça como marteladas constantes: PROJETO GÊNESIS-19 - FASE I – COORTES DE COMPATIBILIDADE GENÉTICA_VALENTE. Tudo o que ela acreditava ter sido um refúgio de amor e paixão legítima
A fúria que emanava de Arthur Valente era uma força quase palpável, capaz de preencher cada centímetro daquele bunker de concreto e aço. Seus passos, antes vacilantes e enfraquecidos pela exaustiva coleta celular, tornaram-se firmes, impulsionados por uma descarga brutal de adrenalina. Ele avançou contra Klaus Von Clausewitz, seus dedos fechando-se ao redor do colarinho impecável da camisa de linho do magnata alemão, empurrando-o contra a fria estrutura metálica do rack de servidores.— Seu monstro... seu desgraçado! — Arthur murmurou, com os dentes trincados, os nós dos dedos empalidecendo pela força do aperto. — Vocês planejaram o nascimento do meu filho? Vocês usaram a Helena, usaram o que nós sentíamos, como se fôssemos porcos em um matadouro genético?!Klaus não esboçou qualquer reação física de pânico. Embora o impacto contra o rack de servidores tenha desalinhado seu cabelo perfeitamente penteado, seus olhos azuis permaneceram gélidos e analíticos, encarando Arthur com a condes
O rangido metálico e pesado das portas de aço escovado do elevador de carga fechando-se parecia o bater de uma tampa de sarcófago. Um segundo depois que o trinco magnético travou com um estalo pneumático, o som de tiros e gritos abafados ecoou no corredor superior. As paredes da cabine de aço vibraram com o impacto de um corpo ou de um projétil contra a chapa externa.Arthur, Helena, Marcos, Becker e Klaus se espremiam em volta da maca de Léo. Dentro do espaço claustrofóbico, iluminado apenas pela faixa âmbar de baixa intensidade das luzes de emergência, o ar parecia escasso. Arthur encostou-se contra a parede de chapa canelada do elevador, a respiração curta e ruidosa. Suas mãos, ainda marcadas pelas ataduras que cobriam as punções da aférese, tremiam visivelmente. Gotas de suor frio escorriam por sua têmpora, mas seus olhos cinzentos não se desviavam do monitor portátil acoplado à maca de Léo.— Eles estão no poço do elevador... — Dr. Marcos sussurrou, a voz trêmula, enquanto olhava
A mensagem em vermelho na tela do notebook brilhava como uma labareda no meio da sombra gélida da sala de isolamento. Helena sentiu o coração despencar em um abismo de gelo. O aviso do Protocolo Aurora era inequívoco: Thiago Valente não estava apenas vindo; ele já estava em solo suíço, cruzando as rodovias desertas que ligavam o aeroporto de Zurique-Kloten às colinas de paralelepípedos e pinheiros onde a clínica da Vektor-Heidelberg erguia-se silenciosa.— Marcos... — a voz de Helena saiu em um sopro trêmulo, mas de uma rigidez quase cortante. — Ele está aqui. O Thiago pousou.Dr. Marcos, que ajustava a pressão do dreno de infusão no suporte de Léo, estacou imediatamente. A seringa de calibração quase escorregou de seus dedos trêmulos. Ele olhou para Helena, os olhos arregalados de horror sob as lentes dos óculos.— Como? Mas a segurança de Zurique... a custódia da PF brasileira... como ele conseguiu passar tão rápido? — Marcos gaguejou, o pânico tomando conta de sua voz.— Um habeas
A luz fluorescente e gélida do teto da sala de extração celular cortava a visão de Arthur como agulhas de vidro.Deitado na mesa cirúrgica de aço inoxidável, ele sentia o metal frio sob suas costas, contrastando com o calor febril que começava a se espalhar por suas veias. O Dr. Hans Becker, com seus óculos de armação fina e uma indiferença quase robótica, ajustava as bombas de infusão contínua conectadas aos acessos venosos profundos nos dois braços de Arthur.Para acelerar o processo de colheita de células-tronco periféricas, que normalmente levaria dias de preparação, Becker injetou uma dose maciça de Mozobil, potencializado por um composto experimental da Vektor-Heidelberg.O efeito era devastador. Arthur sentia os ossos do peito e da bacia latejarem como se estivessem sendo expandidos de dentro para fora, uma dor profunda e surda provocada pela liberação acelerada de células da medula para a corrente sanguínea. Seu coração martelava no peito, registrando cento e trinta batimentos
Os pneus de alta tração do Mercedes-Benz Classe G gritaram contra o asfalto encharcado das colinas que circundavam Zurique, cortando a cortina espessa de névoa como uma lâmina de ferro. Na cabine traseira, o cenário era de puro desespero médico. O som metálico e frenético do AMBU sendo pressionado pelo Dr. Marcos compassava o ritmo daquela corrida de vida ou morte. — Ele está dessaturando! Cinquenta e cinco por cento! — o grito de Helena rasgou o espaço confinado do jipe, sua voz misturando o rigor da cientista com o pânico dilacerante da mãe. — Marcos, mantenha a pressão positiva de fim de expiração estável! Se os alvéolos dele colapsarem agora, não teremos como reverter!Arthur cravou os dentes no lábio inferior até sentir o gosto ferroso do sangue. Ele girou o volante com força total, jogando o robusto jipe verde-oliva em uma curva fechada que dava acesso direto ao portal de segurança da clínica privada da Vektor-Heidelberg.O complexo médico erguia-se na escuridão alpina como uma







