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Capítulo 6: Sombras no Corredor

last update publish date: 2026-01-26 21:08:19

O relógio de pêndulo no andar de baixo badalou duas vezes, o som ecoando pela mansão silenciosa como um aviso fúnebre. Eu estava deitada na cama gigantesca da Suíte Azul há horas, encarando o teto, mas o sono se recusava a vir.

Minha mente estava um caos, reprisando cada segundo do jantar. O cheiro do perfume de Gabriel, o calor da mão dele segurando a minha, a firmeza com que ele enfrentou o avô. "Ela é a mulher que eu escolhi". Eu sabia que era mentira. Sabia que estava no roteiro. Mas por que meu coração insistia em bater descompassado toda vez que eu lembrava da voz dele?

Com a garganta seca, decidi descer até a cozinha para buscar um copo d'água. Vesti o robe de seda que a Sra. Odete havia deixado no closet — uma peça fina demais para o meu gosto, mas era a única coisa disponível — e abri a porta do quarto com cuidado.

O corredor do segundo andar estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz prateada da lua que entrava pelas janelas altas. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som dos meus pés descalços no tapete persa.

Eu estava na metade do caminho para a escada quando uma sombra se moveu perto da porta da biblioteca.

Sufoquei um grito, levando a mão ao peito. — Quem está aí?

A sombra se adiantou, revelando o rosto angular de Gabriel. Ele ainda estava com a calça do smoking, mas o paletó havia desaparecido. A camisa branca estava desabotoada no colarinho, as mangas dobradas até os cotovelos, e ele segurava um copo de cristal com um líquido âmbar.

Ele parecia cansado. E perigoso.

— Você tem o hábito de andar pela casa como um fantasma no meio da noite? — ele perguntou, a voz rouca, arrastada pelo álcool ou pelo cansaço.

— Eu… eu só ia buscar água — gaguejei, puxando o robe para fechar mais o decote. — Não conseguia dormir.

Gabriel deu um passo em minha direção. O cheiro de uísque e tabaco chegou até mim, misturado com aquele perfume amadeirado que parecia impregnar o ar ao redor dele.

— A adrenalina da performance — ele zombou, tomando um gole da bebida. — Você foi bem hoje, Elisa. Quase me convenceu.

Senti uma pontada de irritação. — Eu não estava atuando quando o seu avô me insultou. Aquilo foi real. A humilhação foi real.

— E o meu avô é um velho amargo — Gabriel retrucou, dando mais um passo. Agora ele estava perto demais. Perto o suficiente para eu ver os cílios escuros dele e a tensão em sua mandíbula. — Mas você aguentou. A maioria teria saído correndo chorando.

— Obrigada — sussurrei, sem conseguir desviar o olhar da boca dele. — Por me defender. Você não precisava ter feito aquilo. Podia ter deixado ele falar.

Gabriel soltou uma risada baixa, sem humor. Ele estendeu a mão livre e, num gesto que fez meu fôlego parar, tocou uma mecha solta do meu cabelo.

— Você não leu as letras miúdas, Elisa? — ele murmurou, enrolando o cacho no dedo. — Ninguém insulta o que é meu. Nem mesmo o meu avô. Enquanto você usar o meu sobrenome, você está sob a minha proteção. É uma questão de propriedade, não de afeto.

A palavra "propriedade" foi como um balde de água fria, mas o toque dele na minha pele era fogo puro. Ele estava perto demais. O calor do corpo dele irradiava para o meu, e eu me vi inclinando levemente em direção a ele, atraída como uma mariposa para a chama.

Os olhos de Gabriel desceram para os meus lábios, escurecendo. O polegar dele roçou minha bochecha, um toque áspero e possessivo. Por um segundo alucinante, achei que ele fosse me beijar. O ar entre nós ficou espesso, carregado de uma eletricidade que fazia meus joelhos tremerem.

— Gabriel… — o nome dele saiu num suspiro.

O som da minha voz pareceu quebrá-lo. Ele recuou bruscamente, como se tivesse se queimado. A máscara fria voltou ao lugar instantaneamente, endurecendo seus traços.

— Volte para o seu quarto — ele ordenou, a voz dura como pedra. — Agora.

— Mas…

— Eu disse agora! — ele rosnou, virando as costas para mim e caminhando em direção à biblioteca. — E tranque a porta, Elisa. Porque se eu te encontrar nesse corredor de novo vestida assim, eu posso esquecer a maldita Cláusula 5. E nós dois vamos nos arrepender disso pela manhã.

Fiquei paralisada por um segundo, o coração batendo tão forte que doía. A ameaça — e a promessa implícita nela — pairava no ar.

Sem olhar para trás, corri para o meu quarto. Bati a porta e girei a chave na fechadura, encostando a testa na madeira fria. Minha respiração estava irregular, meu corpo inteiro formigava.

Eu estava segura dentro do meu quarto. Mas o perigo real não estava no corredor. O perigo estava no fato de que, por um breve momento, eu quis que ele esquecesse a cláusula.

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