MasukCapĂtulo 4 â Entre Olhares e Alianças
O rio cortava a floresta como uma fita de prata, refletindo os Ășltimos raios de sol que atravessavam as copas das ĂĄrvores. Helena estava sentada sobre uma pedra prĂłxima Ă margem, com os pĂ©s mergulhados na ĂĄgua cristalina. Seus longos cabelos negros caĂam sobre os ombros, enquanto ela observava distraidamente o movimento da correnteza. Ao seu lado, Iago permanecia em silĂȘncio. Era estranho. Ele conhecia Helena desde que ambos eram crianças. Conhecia seus sorrisos, suas manias, suas irritaçÔes e atĂ© mesmo o jeito como ela franzia o nariz quando alguma coisa a incomodava. Mas, ultimamente, alguma coisa havia mudado. Nela. Ou talvez nele. Hiago desviou os olhos para o rio, tentando esconder o que estava pensando. Helena nĂŁo era mais a menina que corria pela floresta com ele. Ela era uma mulher. Uma mulher linda. E ele sĂł havia percebido isso recentemente. â VocĂȘ estĂĄ quieto demais â Helena comentou, olhando para ele. Iago sorriu de canto. â Estou pensando. â Isso Ă© perigoso. Ele soltou uma risada. â Continua engraçadinha. â E vocĂȘ continua chato. â NĂŁo sou mais criança, Helena. Ela virou o rosto para ele. â Eu sei. A resposta simples fez Iago ficar em silĂȘncio. Ela sabia? SerĂĄ que realmente sabia? Ele olhou para o prĂłprio corpo e depois para a ĂĄgua. Talvez precisasse mostrar a ela. Sem dizer uma palavra, Hiago se levantou e começou a tirar a camisa. Helena ergueu uma sobrancelha. â O que vocĂȘ estĂĄ fazendo? â EstĂĄ calor. â A ĂĄgua estĂĄ praticamente congelando. â Para mim estĂĄ agradĂĄvel. Iago jogou a camisa sobre uma pedra e entrou no rio. Helena tentou nĂŁo olhar. Tentou. Mas acabou olhando. Iago havia crescido. Muito. Os ombros largos, os braços musculosos e o abdĂŽmen definido deixavam claro que aquele menino magro que costumava acompanhĂĄ-la pela floresta havia ficado para trĂĄs hĂĄ muito tempo. Ela piscou algumas vezes. â Desde quando vocĂȘ ficou assim? Iago olhou para ela, divertido. â Assim como? â Forte. Ele abriu um sorriso satisfeito. â Faz bastante tempo. â E eu nunca percebi. â Esse Ă© exatamente o problema. Helena franziu a testa. â Que problema? Iago apenas mergulhou na ĂĄgua. Quando voltou Ă superfĂcie, passou a mĂŁo pelos cabelos molhados e olhou para ela. â Nada. Helena balançou a cabeça. â VocĂȘ estĂĄ estranho. â Talvez eu tenha mudado. Ela sorriu. â Para mim, vocĂȘ ainda Ă© o Hiago que roubava frutas da cozinha e colocava a culpa em mim. Ele riu. â E vocĂȘ ainda Ă© a garota que me entregava quando eu fazia isso. â Porque vocĂȘ merecia. Iago aproximou-se da margem. â EntĂŁo Ă© isso? â Isso o quĂȘ? â VocĂȘ realmente ainda me enxerga como aquele garoto? Helena sorriu sem perceber a profundidade daquela pergunta. â Claro. Iago respirou fundo. Ele teria que ter paciĂȘncia. Porque, aos olhos de Helena, ele ainda era apenas seu melhor amigo. Mas talvez isso pudesse mudar. Algum dia. --- Enquanto isso, dentro da alcateia, Celeste começava a perceber que precisava agir. Darley nĂŁo lhe dava atenção. NĂŁo demonstrava carinho. NĂŁo parecia interessado nela. E aquilo a incomodava profundamente. Se queria permanecer ao lado do Alfa, precisaria conquistar algo muito mais importante do que a atenção dele. Precisava conquistar pessoas. Aos poucos, Celeste começou a se aproximar de alguns membros da alcateia. Conversava. Escutava. Fazia elogios. Demonstrava interesse pelos problemas dos outros. E, principalmente, descobria quem estava insatisfeito com Darley. Ela nĂŁo queria apenas ser a mulher ligada ao Alfa. Queria ter influĂȘncia. Queria aliados. E estava conseguindo. Pouco a pouco. --- Darley observava tudo de longe. Sabia exatamente o que Celeste estava fazendo. E nĂŁo interferia. Para ele, aquilo nĂŁo importava. Celeste era uma peça. Nada mais. O acordo entre os dois tinha um Ășnico objetivo. O Reino das Fadas. Darley era poderoso. Sua alcateia era forte. Seus guerreiros eram capazes de enfrentar quase qualquer inimigo. Mas havia algo que ele nĂŁo possuĂa. Magia. As fadas possuĂam algo que os lobos jamais conseguiriam conquistar pela força. E, se Darley queria alcançar aquele poder, precisava entrar naquele reino. Celeste seria a porta. Por isso, ele permitiria que ela criasse seus prĂłprios aliados. Desde que ela nĂŁo esquecesse quem realmente estava no comando. --- No Reino das Fadas, porĂ©m, os preparativos para um grande acontecimento jĂĄ começavam. O palĂĄcio estava sendo decorado. Tochas mĂĄgicas iluminavam os corredores. Flores encantadas desabrochavam durante a noite. Mensageiros percorriam os reinos vizinhos. Um baile seria realizado. E nĂŁo seria um baile comum. Seria a apresentação oficial da princesa Helena aos povos mĂĄgicos que cercavam o Reino das Fadas. Fadas. Elfos. Lobos. Criaturas mĂĄgicas de diferentes territĂłrios. Todos seriam convidados. Todos conheceriam a princesa. E, pela primeira vez, Helena seria apresentada nĂŁo apenas como a jovem que crescera protegida entre as ĂĄrvores e os encantamentos. Mas como princesa. Como herdeira. Como uma das figuras mais importantes daquele mundo. E entre os convidados estaria alguĂ©m que Helena jamais imaginaria encontrar naquela noite. Darley. O Alfa. O homem que carregava seus prĂłprios interesses. O homem que precisava da magia das fadas. E que estava disposto a fazer qualquer acordo necessĂĄrio para conseguir aquilo que desejava. Naquela noite, muitos olhares se encontrariam. Alguns por curiosidade. Outros por interesse. Alguns por desejo. E outros por pura ambição. Mas ninguĂ©m imaginava que aquele baile seria o começo de acontecimentos capazes de mudar o destino de vĂĄrios reinos. E, enquanto Helena se preparava para ser apresentada ao mundo, Iago fazia uma promessa silenciosa a si mesmo. Ele nĂŁo seria mais apenas o menino que caminhava ao lado dela. Ele faria Helena enxergĂĄ-lo. Mesmo que demorasse. Mesmo que precisasse conquistar, pouco a pouco, um espaço que atĂ© entĂŁo pertencia somente Ă amizade. Porque, pela primeira vez, Hiago nĂŁo queria ser apenas o melhor amigo da princesa. Ele queria descobrir se poderia ser algo muito mais.O puxĂŁo que Helena havia sentido nĂŁo era apenas uma sensação.Em algum lugar muito distante dali, uma porta antiga acabava de se abrir.Por sĂ©culos, ninguĂ©m havia tocado naquela porta.Por sĂ©culos, ninguĂ©m havia sequer lembrado que ela existia.O calabouço permanecera escondido sob a terra, protegido por pedras antigas e por uma magia que havia resistido ao tempo. Mas o mundo acima dele havia mudado completamente.O reino que um dia existira naquele lugar havia desaparecido.As construçÔes tinham ruĂdo.As muralhas haviam sido engolidas pela floresta.As estradas deixaram de existir.E, sobre o antigo calabouço, agora havia apenas ĂĄrvores.Natureza.SilĂȘncio.E raĂzes crescendo sobre aquilo que um dia fora um dos reinos mais poderosos daquele mundo.EntĂŁo, naquela noite, a porta se abriu.Devagar.Um rangido profundo atravessou as pedras.Do outro lado, uma figura permaneceu imĂłvel por alguns segundos.LĂșcio abriu os olhos.Seu corpo ainda carregava a força de sĂ©culos adormecido, mas
A decisĂŁo havia sido tomada.Darian seria chamado para a alcateia.Mas, depois que Helena deixou a sala, ninguĂ©m parecia completamente confortĂĄvel com aquilo.Kael permaneceu junto Ă mesa, pensativo.Iago e Laura trocaram alguns olhares.Aren continuava de braços cruzados, olhando para o lugar onde Helena havia desaparecido.E Darley permanecia imĂłvel.AtĂ© que Aren falou:â VocĂȘ realmente vai permitir isso?Darley levantou os olhos.â Permitir?â Darian aqui.â Helena tomou a decisĂŁo.Aren soltou uma risada curta.â E vocĂȘ simplesmente vai aceitar?O olhar de Darley endureceu.â Eu confio nela.â NĂŁo estou falando apenas dela.Aren deu um passo Ă frente.â Estou falando dele.O silĂȘncio ficou pesado.Darley nĂŁo respondeu imediatamente.Aren continuou:â VocĂȘ sabe o que estĂĄ acontecendo. Sabe que existe alguma coisa entre eles.Darley cerrou o maxilar.â Eu sei.â EntĂŁo por que estĂĄ fingindo que nĂŁo importa?Darley se aproximou.â Porque nĂŁo vou transformar Helena em uma disputa.Aren
Helena permaneceu diante da janela por alguns minutos depois que a sensação desapareceu. A presença ainda estava distante. Ela conseguia sentir isso. Era como uma sombra no limite de sua percepção, algo que avançava lentamente pela floresta, sem pressa, mas tambĂ©m sem intenção de parar. Helena respirou fundo. Dessa vez, porĂ©m, nĂŁo sentiu apenas medo. Sentiu compreensĂŁo. Talvez estivesse procurando a resposta no lugar errado. Desde o primeiro despertar, todos haviam considerado que aqueles estranhos puxĂ”es estavam relacionados Ă s ligaçÔes de alma, aos poderes antigos ou Ă quilo que existia dentro de seu sangue. Mas e se fosse tudo isso ao mesmo tempo? Ela pensou em Aren. Depois em Darian. Pensou no que havia sentido quando os dois despertaram. NĂŁo era apenas uma atração. Era como se seu prĂłprio poder reconhecesse a energia deles. E entĂŁo compreendeu. â Ă por isso... Helena fechou os olhos. â Meu poder estĂĄ sentindo o poder deles. A ideia ainda era ap
Helena nĂŁo conseguiu dormir naquela noite.Depois do que havia acontecido com Darley, ela permaneceu durante muito tempo sentada na cama, olhando para a janela.O beijo ainda estava vivo em sua memĂłria.A sensação dos braços dele ao redor de seu corpo.A intensidade daquele momento.Mas, junto daquela lembrança, existiam outras duas.Aren.Darian.Os dois puxĂ”es que haviam atravessado seu corpo depois do beijo.Helena levou a mĂŁo ao peito.â Por quĂȘ?Ela nĂŁo entendia.NĂŁo entendia por que seu coração parecia responder a trĂȘs presenças diferentes.Darley era diferente de todos.Com ele havia algo que jĂĄ existia antes mesmo de Helena compreender o que estava acontecendo. Uma ligação construĂda aos poucos, atravĂ©s de convivĂȘncia, proteção, confiança e sentimentos que haviam crescido entre os dois.Mas Aren...E Darian...Aquilo era diferente.Era como se algo dentro dela reconhecesse os dois.E quanto mais tentava afastar aquela sensação, mais forte ela ficava.Helena fechou os olhos.Na
A noite havia caĂdo sobre a alcateia.Pouco a pouco, as vozes foram diminuindo, as portas se fecharam e o movimento pelos corredores deu lugar ao silĂȘncio. Apenas algumas tochas permaneciam acesas do lado de fora, espalhando uma luz fraca pelo caminho.Helena estava sozinha.Ou pelo menos acreditava estar.Ela havia passado o dia tentando ignorar a sensação estranha que permanecia em seu peito desde o Ășltimo sonho. As ruĂnas. A presença. Darian.Tudo parecia estar conectado de alguma maneira, mas quanto mais tentava compreender, mais perguntas surgiam.Foi entĂŁo que ouviu passos.Helena se virou.Darley estava parado alguns metros atrĂĄs dela.â Ainda acordada?Ela sorriu discretamente.â NĂŁo consegui dormir.Ele se aproximou.â Por causa dos sonhos?Helena hesitou.Darley percebeu.â VocĂȘ nĂŁo precisa me contar se nĂŁo quiser.â NĂŁo Ă© sĂł isso.Ele ficou diante dela.Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.Havia algo diferente naquele silĂȘncio.NĂŁo era desconfortĂĄvel.Era intenso.Da
As ruĂnas permaneciam silenciosas.Durante sĂ©culos, ninguĂ©m havia ousado atravessar aquele lugar.As pedras antigas estavam cobertas por musgo, raĂzes haviam tomado conta das paredes quebradas e ĂĄrvores cresciam entre os restos do que um dia fora uma construção grandiosa. O tempo havia apagado quase todas as marcas daquele lugar.Quase.Porque, naquela manhĂŁ, algo mudou.No interior das ruĂnas, onde a luz do sol nĂŁo conseguia alcançar completamente, uma pequena quantidade de poeira caiu do teto.Depois outra.E outra.As pedras estremeceram.Foi um movimento tĂŁo pequeno que qualquer criatura que passasse pela floresta provavelmente nĂŁo perceberia.Mas nĂŁo era um tremor natural.Era como se alguma coisa tivesse respirado depois de permanecer adormecida por tempo demais.No centro das ruĂnas havia uma sala parcialmente enterrada.No chĂŁo, desenhos antigos formavam cĂrculos que jĂĄ quase nĂŁo podiam ser vistos.E, bem no centro deles, uma marca começou a emitir uma luz muito fraca.Uma vez







