تسجيل الدخولHelenaSeis meses se passaram da pior e mais arrastada maneira que Salim poderia imaginar. O tempo parecia ter se transformado em uma tortura lenta, em que cada hora no palacete pesava como um dia inteiro. Se no início do nosso casamento meu marido já se incomodava em dividir meu tempo e minha atenção com a nossa própria família, a presença de Beatrice e do pequeno Khalil sob o nosso teto testou todos os seus limites.Sem que eu planejasse, me vi assumindo o papel de cuidadora principal de Beatrice. Acomodei seus remédios, preparei suas sopas nos dias em que a dor a impedia de engolir alimentos sólidos e amparei suas dores. Não fiz isso por submissão ou para agradar à cultura local, e tampouco por ingenuidade em relação a uma mulher que um dia tentou retomar a posição de primeira esposa; fiz por humanidade. Na minha criação, a dor de uma mãe moribunda não se ignora.Ao final daquele dia exaustivo, Salim entrou em nosso quarto visivelmente tenso, o peso dos negócios e daquela convivênci
HelenaDeixei meu sogro e Latifa acomodados na sala de estar, imersos em suas conversas e chás gelados, e me dirigi à cozinha principal do palacete. Aquele espaço, amplo e perfurado pelos aromas de especiarias do Oriente, tornou-se o meu refúgio pessoal naquele início de tarde. Apoiei sobre a bancada de mármore o pequeno caderno de páginas amareladas que eu guardava como um tesouro sagrado: o livro de receitas da minha avó Conça. Folhear aquelas anotações feitas à mão, com a caligrafia desenhada de quem atravessara décadas servindo amor em forma de alimento, trazia um conforto imediato ao meu peito.Passei boa parte da tarde ali, imersa no ritual de preparar a massa do jantar. Sovar a farinha, sentir a textura sob os meus dedos, ajustar os temperos e o ponto exato do forno era um exercício que me reconectava com o meu passado e acalmava a tempestade de pensamentos que a chegada de Beatrice havia provocado.Quando finalmente concluí o preparo e deixei a massa descansando sob o pano lim
SalimAcomodamo-nos todos ao redor do grande tapete central da sala de jantar para a refeição. Para minha absoluta perplexidade, observei a mudança repentina e radical no comportamento de Sarin em relação a Khalil. A minha filha, antes uma fortaleza de orgulho e rejeição, agora se inclinava com cuidado para servir o garoto. Que diabos acontecera com aquela menina durante o tempo em que estivera nos aposentos superiores? Seria apenas a comoção de saber que a mãe do menino enfrentava uma doença fatal? Admito com transparência: preferia minha filha exibindo sua habitual carranca desconfiada a vê-la cedendo tão facilmente. Se o garoto pisasse em seu calo no futuro, queria ver até onde iria aquela trégua.Almoçamos sob um silêncio denso, pontuado apenas pelo ruído brando dos talheres e das louças. Minha vontade íntima era que meu pai, o Sheik Hassam, concluísse logo sua visita para que eu e Helena pudéssemos retornar ao nosso quarto e terminar a conversa e as carícias, que havíamos interro
— Não, depende exclusivamente de você, Helena! — rebateu ele, mantendo o movimento envolvente. — Você é a senhora desta casa, a minha única e verdadeira esposa. Prometo a você, por tudo o que é mais sagrado, que jamais a procurarei como mulher. Mas também não posso simplesmente jogá-la na rua para morrer como um cão. Contudo, se você não a quiser sob este teto, eu acatarei a sua vontade sem questionar.Olhei para ele, sentindo o peso esmagador daquela responsabilidade. Ele estava colocando todo o fardo daquela escolha moral sobre os meus ombros no meio de um ato de pura paixão.— Eu não posso tomar essa decisão sozinha por você, meu amor... Ah, Salim... — respondi, soltando um suspiro involuntário quando ele aumentou a intensidade.— Não posso decidir isso sem você, habib... Se eu permitir que ela fique aqui para cumprir seus últimos dias, você vai se sentir desconfortável? Vai conseguir conviver com isso?É claro que eu não ficaria à vontade! A presença da primeira esposa dentro do m
Helena— Sarin, pare! Se ele for seu irmão, qual é o problema? O Miguel por acaso não é seu irmão? — perguntei, tentando segurar minha filha mais velha, que oferecia uma resistência feroz em vestir o roupão de banho. Ela ainda estava ensopada, com a água pingando dos cachos escuros após o banho, a fúria faiscando em seus olhos infantis.Miguel, mantendo seu temperamento calmo habitual, já estava banhado, vestido e acomodado no quarto dele, conversando pelo tablet com a minha mãe no Brasil.— Ele não é meu irmão, mamãe! Ele é um... um... Vou ligar agora mesmo para a titia para saber o que ele é! — esbravejou ela, bufando.Interrompi a pequena imediatamente. A última coisa de que eu precisava era que a chegada de Beatriz se espalhasse entre a minha família no Brasil. O que para a cultura de Salim e do Oriente Médio podia ter contornos previstos pelas tradições antigas, para a minha mãe e meus irmãos seria visto como algo absolutamente inaceitável — pior do que uma traição: uma humilhaçã
Ao cruzar os portões da residência, deparei-me com uma cena incomum: as criadas aglomeravam-se no jardim, visivelmente agoniadas e trocando sussurros aflitos sobre o retorno repentino da minha primeira esposa. Sempre soube que Beatrice não era uma santa, mas tampouco a considerava uma encarnação do mal. Passei por elas ignorando seus apelos desesperados, pois sabia bem do afeto quase devoto que todas nutriam por Helena, tratando-a como uma deusa, um título que eu não ousaria contestar. O clamor geral era um só: que eu não aceitasse Beatrice de volta sob hipótese alguma.Adentrei a sala principal com o coração pulando na boca, perturbado pela notícia de que ela retornara acompanhada por uma criança. Por que eu nunca me dera ao trabalho de procurar Beatrice quando ela simplesmente desapareceu no mundo? Por que negligenciei esse paradeiro? Os pensamentos martelavam em minha cabeça com violência, questionando minha omissão passada. Contudo, ao chegar ao recinto, fui surpreendido por uma c







