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CAPÍTULO 2

Author: Peachy
Desliguei o telefone e o joguei entre as almofadas do sofá.

Entrei no banheiro e deixei a água quente correr. O vapor tomou conta do ambiente e embaçou o espelho.

Passei a mão sobre a superfície.

Meu reflexo apareceu distorcido.

Minha mente voltou para sete anos atrás.

Eu tinha vinte e um anos.

Meu pai devia dois milhões de dólares a um cassino clandestino no Brooklyn.

No dia em que os cobradores apareceram, ele caiu de joelhos, me empurrou para frente e disse:

— Ela vale o preço.

Eu usava um vestido vermelho barato quando fui arrastada para o porão do cassino.

— Caramba, olha só esse corpo.

O homem que rasgava meu vestido mantinha um cigarro preso entre os lábios. A cinza caiu sobre minha clavícula, deixando uma marca avermelhada na pele.

O tecido rasgou do decote até a cintura.

Eu me encolhi em um canto, mordendo o lábio inferior para não gritar.

Clique.

A porta do porão se abriu.

Um silêncio mortal tomou conta do lugar.

Sapatos italianos de couro atravessaram o concreto manchado de sangue e pararam diante de mim.

Ergui os olhos.

Foi a primeira vez que vi Vincenzo Marchetti.

Ele tinha trinta anos.

Cabelos negros penteados para trás.

Traços marcantes.

E aqueles olhos azuis.

Gelados.

Profundos.

Frios como o rio Hudson no inverno.

Ele sequer olhou diretamente para mim.

Apenas tirou o paletó, colocou-o sobre meus ombros e disse em voz baixa:

— Comprem um vestido para ela.

Os homens responderam imediatamente:

— Sim, Don.

Naquela época eu nem sabia o significado daquela palavra.

Tudo o que eu sabia era que meu coração estava disparado.

O provador ficava no segundo andar.

Vesti as roupas novas e me apoiei na pia enquanto tentava controlar a respiração.

Do lado de fora, os capangas continuavam ali.

— O Chefe está interessado nela.

— E daí? — zombou o homem que havia rasgado meu vestido. — Ele vai brincar com ela por uma noite e depois jogar fora. As mulheres que passaram pela cama do Don dariam para formar uma fila até Long Island.

— Amanhã ela volta implorando para a gente quitar a dívida dela.

— Com um corpo desses, eu faria ela se ajoelhar e...

Empurrei a porta.

Saí do banheiro.

Peguei uma garrafa de vinho que estava sobre a bancada.

No instante em que ele se virou, quebrei a garrafa na cabeça dele.

O vidro explodiu.

Sangue respingou no vestido novo.

No fim do corredor, Vincenzo estava encostado na parede, fumando.

Observando.

Foi a primeira vez que o vi sorrir.

Ele disse algo em italiano para os homens.

Só descobri o significado muito tempo depois.

— Vou ficar com a gatinha selvagem.

No segundo dia, ele pagou os dois milhões.

No terceiro, me levou para morar na cobertura em Manhattan.

No quarto dia, perguntou:

— O que você quer?

Eu respondi sem pensar:

— Quero ser a maior estrela de Hollywood.

Ele riu enquanto batia a cinza do cigarro.

— Considere feito.

Três meses depois, dinheiro lavado da família Marchetti foi investido em uma superprodução da Universal.

O papel principal feminino foi entregue a mim.

Cinco anos.

Cinco sucessos de bilheteria.

Nenhum produtor ousou tocar em um único fio de cabelo meu.

Porque todos sabiam.

Mexer comigo significava comprar uma guerra contra Don Vincenzo Marchetti.

Eu acreditava que era especial.

Acreditava que cada beijo.

Cada abraço.

Cada vez que ele me carregava até o banheiro para cuidar de mim.

Era real.

Acreditava que um dia seria sua Donna.

Até seis meses atrás.

Meu aniversário de vinte e oito anos.

A propriedade de Long Island.

O jantar de família.

Eu usava um vestido Valentino de alta-costura escolhido pelo próprio Vincenzo.

Voltei do terraço procurando por ele.

Passei pelo corredor do escritório.

A porta estava entreaberta.

O cheiro de charutos escapava pela abertura.

— Don — ouvi Lorenzo dizer, rindo. — A senhorita Bennett está deslumbrante hoje. Vai mesmo se casar com ela? Os rapazes estão esperando a notícia para comemorar.

Meu coração disparou.

Fiquei imóvel.

Parada diante da porta.

Então ouvi Vincenzo rir.

Uma risada baixa.

Despreocupada.

Cada palavra seguinte enterrou algo dentro de mim.

— Casar com ela?

Outra risada.

— É divertido brincar com Chloe. Mas para ser minha Donna, tenho opções muito melhores.

Silêncio.

Então a frase final.

A frase que destruiu sete anos da minha vida.

— Mulheres como ela pertencem à cama. Não a qualquer outro lugar.

Não me lembro de como consegui sair dali.

Só lembro de me esconder em um quarto de hóspedes vazio no segundo andar.

Fechar a porta.

Escorregar até o chão.

O vestido Valentino ficou amassado.

Tapei a boca com as mãos.

Chorei durante meia hora.

O rímel escorreu.

Eu parecia um fantasma.

Quando finalmente me levantei, caminhei até o espelho.

Peguei minha maquiagem.

E reconstruí meu rosto.

Pincelada por pincelada.

Até não restar sinal algum.

Quando voltei para a festa, Vincenzo estava esperando ao pé da escada com uma taça de champanhe na mão.

Ao me ver, seus olhos se suavizaram.

Ele me puxou para perto.

— Feliz aniversário, querida.

Então tirou uma pequena caixa de veludo do bolso.

Dentro estavam as safiras Cartier.

Olhei para ele.

Sorri.

Um sorriso perfeito.

— Você é tão bom comigo, chefe.

Fiquei na ponta dos pés e o beijei.

Não havia sentimento naquele beijo.

Nenhum.

Mas ele não percebeu.

...

A água quente continuava caindo.

Escondi o rosto entre as mãos.

Sete anos atrás, eu acreditava que jamais conseguiria deixá-lo partir.

Sete anos depois, descobri que a capacidade humana de sobreviver é infinita.

Consegui me libertar daquela obsessão.

Um corte limpo.

Sem amor.

Sem ilusões.

Sem expectativas.

Apenas negócios.

E eu sempre fui excelente nisso.

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