LOGINPonto de vista de VincenzoAinda consigo vê-la.De joelhos naquele porão do Brooklyn.Vinte e um anos.O vestido rasgado.Os olhos...Aqueles malditos olhos cheios de puro terror.Ela era minha desde aquele momento.Controle.Era disso que eu vivia.Era o que eu respirava.Eu podia criar reis ou destruí-los com uma única palavra.E ela...Ela precisava de mim para respirar.Eu gostava disso.Porra, eu adorava isso.Uma troca justa.Nos primeiros anos, ela fazia de tudo para equilibrar as coisas.Usava seu modesto salário de atriz para me comprar abotoaduras baratas em troca dos colares de diamantes que eu lhe dava.Eu adorava observá-la tentando me agradar.Aqueles olhos sedutores sempre carregavam a adoração e a dependência que eu desejava.Mas então...Tudo mudou.O brilho em seus olhos quando olhava para mim desapareceu.Seu toque se transformou em obrigação, não em desejo.Ela estava se afastando.E eu não podia aceitar isso.Não aceitaria isso.Naquele
— Saia daqui.A voz de Vincenzo estava assustadoramente calma.Antoine segurou o nariz. O sangue escorria entre seus dedos.Peguei um maço de dinheiro da bolsa e coloquei em sua mão.— Antoine, sinto muito. Use isso para as despesas médicas.— Tem certeza de que não precisa que eu fique? — Antoine perguntou, preocupado.— Não. Vá.Antoine assentiu e saiu rapidamente.Restamos apenas eu e Vincenzo no apartamento.Ele permaneceu parado perto da porta e tirou lentamente o sobretudo.As mangas da camisa branca estavam dobradas até os cotovelos.Havia sangue nas costas de sua mão.— Você machucou um homem inocente — eu disse.— Ele não é inocente.Vincenzo limpou o sangue das mãos.— Eu simplesmente não gostei da cara dele.— Porque ele é homem?— Porque aqueles olhos nojentos estavam olhando para algo que não deveriam olhar!Ele caminhou até o centro da sala e observou o apartamento.Pequeno.Móveis gastos.Meus esboços presos às paredes.— Foi essa a vida que você es
— Espere...No instante em que desliguei, um estrondo ecoou do iate ao longe.Bam!Harper e eu nos assustamos. Viramos para o rio.No convés do iate, alguém derrubou a torre de taças de champanhe com um chute. A bebida se espalhou por toda parte.Então vi Vincenzo sair para a varanda a passos largos.Ele vestia um smoking preto, mas seu rosto estava sombrio como um céu de tempestade.Genevieve estava no centro do convés, usando um vestido branco e segurando um buquê.Ela parecia apavorada. O medo estava estampado em seus olhos.Mesmo do outro lado da água, eu conseguia sentir a fúria gelada irradiando dele.Parecia que ele estava tentando confirmar alguma coisa.Seu olhar se voltou para o meu restaurante.Então ele segurou a mão esquerda de Genevieve. Não colocou o anel com delicadeza.Ele o enfiou em seu dedo.Fogos de artifício explodiram sobre o rio.Luzes douradas iluminaram o céu noturno.Os convidados no convés explodiram em aplausos e comemorações.Só eu sabia o
Na manhã seguinte, eu estava arrumando minhas malas quando Sarah ligou.— Chloe! Meu Deus, você não vai acreditar no que aconteceu! — A voz dela tremia de emoção. — Não só me chamaram de volta, como me promoveram a gerente da loja! Gerente!Parei de arrumar as malas.— Parabéns, Sarah.— Isso tudo é graças a você! — Sua voz ficou embargada. — O gerente me ligou pessoalmente ontem à noite para pedir desculpas. Ele disse que foi um mal-entendido e me deu um aumento. Chloe, a mensalidade da minha filha está paga!Segurei o telefone. Uma onda de calor se espalhou pelo meu peito.Pelo menos Vincenzo cumpriu sua promessa.— Você merece — eu disse. — Continue assim.— A propósito... — Sarah baixou a voz de repente. — Lembro que, no colégio, você estava sempre desenhando. Você dizia que queria ir para Paris e se tornar pintora. Ainda pinta?Fiquei imóvel por um instante.— De vez em quando.— Que bom! Você é tão talentosa. Não deixe isso morrer.Desliguei e olhei para o calendário
Olhei para o relógio de bolso sobre a mesa. A prata brilhava sob a luz da lua.Isso me levou de volta a uma noite de inverno, cinco anos atrás.Minha mãe morreu de câncer. Passei a noite inteira sentado no cemitério. Segurei sua urna do anoitecer ao amanhecer.Nevou durante toda a noite. A neve se acumulou sobre meus ombros como um sudário.Pouco antes do amanhecer, Vincenzo apareceu vestindo um sobretudo preto. Ele cheirava a pólvora.— Por que você está aqui? — minha voz estava rouca.— Lorenzo disse que você não voltou para casa. — Ele se sentou ao meu lado. — Abandonei um tiroteio na Sicília.Ele tirou o sobretudo e o colocou sobre meus ombros. Depois, tirou este relógio de bolso do bolso interno.— Era do meu pai. Ele morreu segurando isso.O velho Don morreu em um atentado a carro-bomba. Vincenzo passou a noite inteira ajoelhado no local. Ele arrancou aquele relógio das mãos mortas do pai.— Por que está me dando isso?— Porque não tenho mais ninguém importante para pe
Eu reconheci aquele SUV. Um medo gelado percorreu meu corpo.A porta do veículo se abriu.Vincenzo saiu.Seu olhar varreu o café lentamente até parar em mim. Os olhos escuros me analisaram de cima a baixo como se eu fosse uma completa desconhecida. Como se eu nunca tivesse significado nada.— Vincenzo!Bianca soltou Genevieve imediatamente e correu na direção dele, equilibrando-se nos saltos altos.— Você chegou na hora certa!Ele sequer olhou para ela.Passou direto.Caminhou até Genevieve, inclinou-se e depositou um beijo educado em sua bochecha.O retrato perfeito de um cavalheiro.— Querida, o que aconteceu? — perguntou com suavidade. — Quem a deixou chateada?Permaneci sentada, observando a cena.Sarah aproximou-se um pouco mais de mim.— Chloe... você conhece essas pessoas?Peguei minha xícara de café.— Conheço.Bianca rapidamente voltou para o lado de Vincenzo e começou a despejar suas reclamações. Cada palavra era uma acusação cuidadosamente apontada para mim.
Uma semana depois, eu estava diante do Atelier Blanc, na Quinta Avenida.A boutique trabalhava apenas com alta-costura em edição limitada. Cada peça era única.As maiores atrizes de Hollywood disputavam uma vaga para serem atendidas ali. A lista de espera costumava ultrapassar três meses.Empurre
A sala estava tomada pela fumaça.O cheiro pesado de charutos, uísque e pólvora pairava no ar.Sete ou oito homens de terno ocupavam os sofás espalhados pelo ambiente. No instante em que me viram entrar, todos se levantaram ao mesmo tempo.— Graças a Deus você chegou.— O Chefe está impossível.
Desliguei o telefone e o joguei entre as almofadas do sofá.Entrei no banheiro e deixei a água quente correr. O vapor tomou conta do ambiente e embaçou o espelho.Passei a mão sobre a superfície.Meu reflexo apareceu distorcido.Minha mente voltou para sete anos atrás.Eu tinha vinte e um anos.
Vincenzo saiu da cama sem dizer uma palavra.Fiquei observando suas costas.As marcas dos arranhões que eu tinha deixado na noite anterior se estendiam das omoplatas até as covinhas na base de suas costas. A marca arroxeada em seu pescoço desapareceu sob o colarinho assim que ele vestiu a camisa.







