FAZER LOGINAssim que o carro entrou na garagem da empresa, mandei mensagem pro Antônio, o coração acelerando de novo, mas por um motivo bem diferente do de mais cedo.Ele já estava me esperando perto do elevador quando desci, e assim que me viu, parou completamente no meio do próprio movimento, os olhos percorrendo cada detalhe, devagar, sem nenhuma pressa de disfarçar.— Fecha a boca — provoquei, sentindo o efeito que estava causando e adorando cada segundo disso.— Que convencida — ele retrucou, se recompondo rápido demais pra ser convincente, os olhos ainda presos em mim. — Só estou tentando entender como a mulher de pijama e cabelo bagunçado de hoje de manhã virou isso aqui em poucas horas. Começo a pensar que talvez valesse a pena te apresentar como noiva logo hoje, só pra garantir que ninguém mais tenha a louca ideia de se aproximar de você depois dessa entrada.— Exagerado.— Realista — ele corrigiu, se aproximando mais do que o necessário, a voz baixando um tom. — Você está perigosa hoje
Acordei antes mesmo do despertador tocar, o coração já disparado como se meu corpo tivesse decidido, sozinho, que aquele não era um dia como os outros.Fiquei deitada por um bom tempo, olhando pro teto, repassando cada detalhe do que ia acontecer horas depois. O happy hour era só às seis da tarde, mas meu corpo parecia não ter recebido esse recado, porque já estava ali, alerta, tenso, como se o relógio tivesse pulado direto pra hora do confronto sem me avisar.Desci pra cozinha ainda de pijama, o cabelo preso de qualquer jeito, sem nenhuma vontade de fingir que estava tudo bem. Antônio já estava sentado à mesa, terno impecável de sempre, lendo alguma coisa no celular, e assim que ergueu os olhos pra mim, percebeu na hora que aquele não era um dia de brincadeiras fáceis.— Bom dia — falei, baixo, sentando de frente pra ele e puxando a xícara de café que Dona Rosa já tinha deixado pronta.— Bom dia — respondeu, observando meu rosto com atenção, aquele jeito dele de decifrar as coisas se
Assim que chegamos ao prédio da cliente, as recepcionistas se atropelaram educadamente na hora de cumprimentar Antônio, sorrisos largos demais, elogios sobre o terno, uma delas até se oferecendo pra buscar café "especialmente pra ele". Fiquei parada ali, sentindo um ciúme quente e irracional subir pela espinha, encarando cada uma delas com um olhar que definitivamente não era nem um pouco discreto.Antônio, claro, percebeu tudo, e não fez absolutamente nada pra disfarçar o quanto estava adorando aquela situação, um meio sorriso convencido brincando nos lábios o tempo inteiro que durou aquele desfile de gentilezas.— Tadinhas — sussurrei pra ele, assim que as recepcionistas se afastaram. — Mal sabem a personalidade ruim que você tem.— Que foi, amorzinho? — sussurrou, a boca perigosamente perto do meu ouvido, a voz rouca o suficiente pra me arrepiar inteira. — Tá com ciúmes?Ele riu de novo, satisfeito com o próprio efeito, e eu, revoltada com a própria reação corporal, não consegui ar
Terça-feira, dia da entrega oficial do Alphaville. Tínhamos cadastrado os arquivos no Autodoc ainda na noite anterior, mas hoje era o dia da apresentação de verdade, cara a cara com a cliente. Só que, em vez de estar pensando no projeto, ali estava eu, sentada no estacionamento da empresa, o mesmo prédio onde eu trabalhava até pouco tempo atrás, com um medo besta de que alguém conhecido passasse ali por perto e me reconhecesse antes da hora, esperando Antônio descer com Bruna, sentindo um frio esquisito na barriga só de estar tão perto daquele prédio de novo, mesmo protegida pelos vidros escuros do carro.Fiquei pensando no que o Lucas e a Júlia iriam fazer depois de me verem, na quinta-feira, viva, de volta, de mãos dadas com o poder no cargo que o Lucas sempre sonhou em ter. Medo, com certeza iam sentir. Mas o que eles fariam a partir desse medo, isso eu não fazia a menor ideia, e aquilo me apertava o peito de um jeito que eu preferia não examinar demais.Outro pensamento, esse eu t
Os poucos dias sem Antônio se arrastaram de um jeito estranho, a ansiedade pela entrega do Alphaville se misturando com uma insônia chata que me acompanhava desde a sexta-feira que ele viajou. Aproveitei essas noites maldormidas pra trabalhar mais um pouco, revisando detalhe atrás de detalhe, como se aquilo pudesse, de algum jeito, acalmar a cabeça.Foi nessa tarde de domingo, ajudando Dona Rosa a dobrar toalhas só pra ter companhia, que ela comentou, do nada, um sorriso carinhoso no rosto.— Sabe, minha filha, você é uma pessoa muito amorosa — disse, sem cerimônia nenhuma. — Dona Nilza também acha isso. A gente comentou outro dia, como você trata todo mundo aqui com tanto respeito, sempre perguntando como a gente tá, se precisa de alguma coisa. Não é qualquer um que faz isso. E olha, minha filha, desde que você chegou, essa casa ficou diferente, mais viva, sabe? O senhor Antônio também. A gente nunca tinha visto ele desse jeito.Aquilo me pegou de surpresa, um calor bom se espalhando
Antônio viajou naquela mesma noite, e o sábado chegou arrastado, pesado de tédio, a casa inteira parecendo grande demais sem a presença dele circulando pelos corredores.Acordei tarde, e a primeira coisa que fiz foi mandar mensagem pra Antônio."Bom dia, dormiu bem?"Ainda de pijama, parei na frente do espelho do banheiro, passando os dedos devagar pela própria boca, lembrando do beijo da noite anterior de um jeito completamente boba, o corpo inteiro ainda formigando com a lembrança. Pensei no corpo dele, naquela rigidez discreta escondida embaixo da camisa social sempre impecável, nos músculos que eu tinha sentido por baixo do tecido quando ele me segurou pela cintura, e, movida por um impulso repentino, decidi que aquele era um bom dia pra finalmente experimentar a academia particular dele que existia numa edícula no jardim dos fundos, que eu só tinha visto de fora até então, nunca tinha entrado de verdade.A sala era equipada como uma academia profissional de verdade, aparelhos bri







