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Capítulo 39

Auteur: A. OLIVEIRA
last update Date de publication: 2026-08-30 07:52:08

Os poucos dias sem Antônio se arrastaram de um jeito estranho, a ansiedade pela entrega do Alphaville se misturando com uma insônia chata que me acompanhava desde a sexta-feira que ele viajou. Aproveitei essas noites maldormidas pra trabalhar mais um pouco, revisando detalhe atrás de detalhe, como se aquilo pudesse, de algum jeito, acalmar a cabeça.

Foi nessa tarde de domingo, ajudando Dona Rosa a dobrar toalhas só pra ter companhia, que ela comentou, do nada, um sorriso carinhoso no rosto.

— S
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    — Terra chamando Angélica!Renata estalou os dedos na frente do meu rosto, e eu pisquei, voltando pra copa, pro cheiro de café requentado e pro sorriso enorme que ela segurava com muito custo.— Desculpa. Eu estava pensando.— Deu pra perceber. Você fez uma cara de assassina de filme. — Ela olhou pros lados, conferiu que a copa estava vazia e se aproximou de mim, falando baixinho, quase colada no meu ombro. — Mas, por falar em bofe, tem uma coisa que eu e as meninas estamos querendo saber desde cedo.— Que coisa?Ela apontou o queixo pra minha mão esquerda. Eu nem tinha reparado que segurava a xícara de um jeito que deixava o anel exposto, brilhando sob a luz branca da copa.— Esse anel que você começou a usar. Não me diga... — Renata levou as duas mãos à boca, e a voz, que tentava continuar baixa, saiu num sussurro agudo, empolgadíssima. — NÃO ME DIGA!Eu ri. Ri tanto que precisei apoiar a xícara na bancada.— Renata, eu não vou falar nada agora.— COMO NÃO? — sussurrou ela, com os o

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    Cheguei cedo na empresa, com os olhos pesados e um bocejo que insistia em escapar toda vez que eu relaxava o maxilar.Eu tinha dormido três horas. A culpa tinha nome, sobrenome e um sorriso safado que, naquela manhã, eu preferi não encarar sobre a mesa do café. Aquela pergunta, "o que vai ser de nós?", ficou no ar no meio da madrugada, sem resposta, repetida em silêncio por dois adultos que tinham medo demais da própria resposta. Saí de casa antes dele acordar, deixando só um bilhete no travesseiro e um beijo na testa que ele provavelmente nem sentiu.Bocejei de novo, no elevador, e pensei, rindo sozinha: "Sabia que o Antônio não ia me deixar dormir."Às dez em ponto, sentei na cabeceira da sala de reuniões, com a pasta aberta, o café na mão e a postura de quem não tinha nenhuma dúvida sobre quem mandava naquele andar. Lucas chegou primeiro, o terno meio amassado, o olhar de quem não dormiu também, mas por motivos bem diferentes. Atrás dele, Patrícia Moura, a líder de interiores, uma

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    A encomenda chegou no fim da tarde, num envelope pardo sem identificação: um gravador do tamanho de um pendrive, desses que parecem carregador de celular. Testei três vezes no banheiro da empresa, gravei a minha própria voz sussurrando "Lucas é um péssimo profissional", ri sozinha e escondi o aparelho no fundo da gaveta da minha sala, pronto pra funcionar. Eu não ia gastar bala à toa. Mas, quando chegasse a hora, a arma estava carregada.Jantei com o Antônio na cozinha, os dois de pé, comendo o que a Dona Rosa deixou no forno e conversando sobre trivialidades com a leveza de quem finge que o resto do mundo não existe. Ele me contou de uma reunião de acionistas, eu contei do olhar do Lucas no elevador, e rimos juntos, e foi tão bom que, por uns minutos, eu me esqueci de ter medo.À noite, eu estava me preparando pra dormir, a cara cheia de creme, o cabelo preso num coque torto, o pijama mais velho da minha mala, aquele de ursinho que a minha mãe me deu aos quinze anos, quando bateram n

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    Perto das 11:50h, fechei o notebook, retoquei o batom e subi pro andar da diretoria sem avisar. Queria ver a cara dele quando eu aparecesse.O andar de cima era outro mundo. Carpete grosso, silêncio de igreja, uma recepção de madeira escura onde, atrás do balcão, a assistente pessoal do Antônio digitava num computador com a elegância e uma postura que só se consegue com anos de balé. A mesma moça que eu já tinha visto diversas vezes dando em cima dele. Será que ele já tinha percebido?— Bom dia — falei, parando diante do balcão. — Eu vim falar com o Antônio.— O senhor Antônio está em ligação e pediu pra não ser interrompido — respondeu ela, sem levantar os olhos da tela. — São ordens.Ordens. Eu quase ri.— Tudo bem — respondi, doce. — Eu espero.Encostei no balcão dela, peguei uma caneta do porta-lápis e comecei a girar entre os dedos, devagar, só pra ela ver. Não tinha como não ver. O anel já brilhava sozinho, jogando pequenos arco-íris no tampo de madeira, na tela do computador, n

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    O elevador subiu em silêncio, com aquele zumbido baixo que deixa qualquer tensão mais audível. Antônio ao meu lado, o celular na mão, trabalhando, alheio a tudo, os olhos correndo pelas mensagens como se o elevador fosse uma sala de reunião qualquer. Lucas encostado no fundo, ainda hipnotizado, os olhos presos na minha mão como se o diamante fosse um insulto pessoal. Júlia ao lado dele, de braços cruzados, o queixo erguido, o perfume enjoativo ocupando cada centímetro de ar.O painel marcou o andar dela, e as portas se abriram.Eu achei que ela fosse sair e pronto.Achei errado.Júlia deu um passo à frente e, em vez de contornar o Antônio pelo lado livre, passou rente a ele, esfregando o corpo inteiro no braço dele num movimento tão calculado, tão lento, que ninguém naquele elevador teve dúvida do que aquilo era. Uma provocação. Nem Antônio nem eu olhamos.Ele manteve os olhos fixos na tela do celular, o rosto de pedra, o maxilar tão travado que dava pra ouvir os dentes, o polegar ro

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    Não houve palavra nenhuma depois disso.O primeiro beijo foi quase violento, feito de dias de silêncio, de porta trancada, de mãos que não se tocaram. Ele me colocou de pé no tapete do quarto, e eu já estava com os dedos no cabelo dele, puxando-o pra mais perto, como quem tem medo de que ele evapore. Ele riu contra a minha boca, um riso rouco, desesperado, e me beijou de novo.Nunca tinha sido assim. Antes, havia cuidado, agora era fome. Era a saudade de uma pessoa que estava a dois metros de distância, e que nenhum dos dois sabia como atravessar. Cada beijo parecia ter pressa. Cada toque, urgência. As mãos dele percorriam minhas costas como se precisassem decorar cada pedaço, e as minhas desabotoavam a camisa dele com uma pressa desajeitada, os botões escapando entre os dedos.— Calma — murmurou ele, rindo, a voz quebrada.— Não quero calma — respondi, e o beijei de novo.A roupa foi ficando pelo caminho, um vestido azul, uma camisa preta. O luar entrava pela janela e desenhava o cor

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