LOGINClara tentou trabalhar normalmente, mas o marcador de livros permanecia ao lado do computador, lembrando-a do gesto inesperadamente delicado de Henrique.
Naquela manhã, ele não fez nenhum comentário sobre o presente. Apenas lhe entregou a agenda e perguntou: — Dormiu bem? — Sim. E o senhor? — Melhor do que esperava. Clara fingiu não perceber o duplo sentido. O dia, porém, trouxe uma nova preocupação. Um importante cliente ameaçou cancelar um contrato, alegando que informações confidenciais haviam sido divulgadas à imprensa. Henrique convocou uma reunião imediata. — Precisamos descobrir quem teve acesso aos documentos — disse ele. Clara abriu o relatório. — Apenas quatro pessoas receberam esses arquivos: o senhor, eu, Marcelo e o departamento jurídico. — Marcelo já está sendo investigado. — Então não podemos descartar ninguém. Henrique a observou por alguns segundos. — Nem você? — Principalmente eu. — Clara… — Se quer encontrar a verdade, não pode proteger ninguém. A investigação começou. Eles revisaram registros, horários e mensagens. Depois de algumas horas, Clara encontrou uma inconsistência: os documentos haviam sido acessados de um computador do departamento jurídico, mas usando uma senha pertencente a um funcionário que estava de férias. — Isso não foi um vazamento acidental — concluiu. Henrique aproximou-se da tela. — Alguém usou a senha dele. — E sabia exatamente onde procurar. Antes que pudessem continuar, o advogado responsável entrou na sala. Seu rosto estava pálido. — Henrique, precisamos conversar. — Pode falar aqui. O homem olhou para Clara. — Em particular. — Ela fica — respondeu Henrique. O advogado respirou fundo. — Marcelo não agiu sozinho. Há outras pessoas envolvidas, e algumas delas estão tentando destruir as provas. Clara sentiu um arrepio. — Quem? — Ainda não tenho certeza. Mas alguém dentro da empresa está acompanhando cada passo de vocês. Henrique ficou imediatamente alerta. — Então vamos descobrir quem é antes que essa pessoa faça mais alguma coisa. Naquela noite, ele insistiu em acompanhar Clara até sua casa. — Não precisa — disse ela. — Eu sei. Ainda assim, vou. — Isso é preocupação profissional? — Não. Clara olhou para ele. — Pelo menos é honesto. No carro, o silêncio entre os dois não era desconfortável. Henrique dirigia com atenção, enquanto Clara observava as ruas iluminadas. — Você sempre tenta resolver tudo sozinho? — perguntou ela. — Quase sempre. — E funciona? — Nem sempre. — Talvez devesse aceitar ajuda. — Estou tentando. — Está? Henrique estacionou diante do prédio dela. — Você está aqui, não está? Clara sorriu levemente. — Esse foi um argumento convincente. Eles saíram do carro. Henrique acompanhou Clara até a entrada, mas parou antes da porta. — Obrigada por me trazer. — Eu queria ter certeza de que você entraria bem. — Eu consigo cuidar de mim. — Eu sei. A proximidade entre eles aumentou. Clara sentiu o coração acelerar quando Henrique levantou a mão e afastou uma mecha de cabelo de seu rosto. Dessa vez, ela não recuou. — Clara… — Não diga nada. Ele parou. Clara aproximou-se devagar e beijou-o. Foi um beijo breve, suave e cheio de hesitação. Ainda assim, bastou para fazer o mundo parecer silencioso. Quando se afastou, Henrique permaneceu imóvel, como se temesse quebrar o momento. — Isso foi um erro? — perguntou. Clara respirou fundo. — Ainda não sei. — Posso perguntar o que significa? — Significa que estou tentando não fugir. Henrique sorriu, mas não a tocou novamente. — Então eu espero. — Você fala isso como se fosse fácil. — Não é. Mas vale a pena. Clara abriu a porta do prédio, porém antes de entrar, voltou-se para ele. — Amanhã, no escritório, continuaremos profissionais. — Claro. — E ninguém precisa saber. — Tudo bem. — Henrique? — Sim? — Não se envolva com mais ninguém enquanto estiver tentando descobrir o que existe entre nós. Ele a encarou com seriedade. — Não estou interessado em mais ninguém. A resposta fez Clara sorrir. — Boa noite. — Boa noite, doce secretária. Ela estreitou os olhos. — Não me chame assim. — Ainda não? Clara tentou parecer séria, mas acabou sorrindo. — Boa noite, CEO safado. Henrique riu enquanto ela entrava. No dia seguinte, os dois mantiveram a postura profissional diante dos funcionários. Porém, cada troca de olhares carregava o segredo do beijo. No fim da tarde, Clara recebeu uma mensagem anônima em seu celular: **“Fique longe de Henrique Valença se quiser continuar segura.”** Ela sentiu o sangue gelar. Poucos minutos depois, Henrique entrou em sua sala e percebeu que havia algo errado. — O que aconteceu? Clara entregou o telefone. Ele leu a mensagem e seu rosto mudou completamente. — Você recebeu isso quando? — Agora. Henrique pegou o celular, mas Clara segurou seu braço. — Não faça nada impulsivo. — Alguém está ameaçando você. — E é exatamente isso que essa pessoa quer: que você perca o controle. Henrique respirou fundo, lutando contra a raiva. — A partir de agora, você não ficará sozinha. — Henrique… — Não é uma ordem. É um pedido. Clara observou o medo escondido nos olhos dele. — Tudo bem. Mas vamos resolver isso juntos. Ele assentiu. Naquele momento, ambos compreenderam que o romance entre eles não seria simples. Havia segredos, perigos e pessoas dispostas a destruí-los. Mas, pela primeira vez, Clara não queria fugir. E Henrique não queria deixá-la partir.A revelação deixou Henrique imóvel. Durante toda a vida, acreditara que seu tio Ricardo havia morrido em um acidente de carro, anos antes de ele assumir a presidência da empresa. Agora, sua mãe afirmava que Ricardo estava vivo — e que poderia ser o verdadeiro responsável por tudo. — Você tem certeza? — perguntou Henrique. A mulher sentada na cama segurou sua mão com dificuldade. — Eu vi Ricardo naquela noite. Ele discutia com seu pai e Augusto. Depois, ouvi um disparo. — Por que nunca contou? — Porque fui mantida presa. Augusto dizia que, se eu falasse, mataria você e Helena. Henrique desviou o olhar, tentando conter a raiva. — Você deixou que eu acreditasse que estava morta. — Eu não tive escolha. Clara aproximou-se com cuidado. — Precisamos sair daqui. O atirador pode voltar. O delegado concordou e ordenou a retirada imediata. A mãe de Henrique foi transferida para um local protegido, enquanto Helena permaneceu ao lado dela. Henrique e Clara seguiram para uma sala reserv
As luzes se apagaram completamente. Clara ouviu o som de uma porta sendo trancada e sentiu Henrique procurar sua mão no escuro. — Estou aqui — sussurrou ele. — Eu sei. No palco, Beatriz permaneceu imóvel, como se conhecesse cada canto do teatro. — Vocês sempre acreditaram que Augusto era o único vilão — disse ela. — Isso tornou tudo muito fácil. Henrique avançou alguns passos. — Pare de fazer jogos. Quem está ajudando Augusto? Beatriz acendeu uma lanterna. O feixe iluminou Helena. — Pergunte a ela. Helena empalideceu. — Eu já contei tudo. — Não contou a parte mais importante. Clara observou o rosto de Helena. Havia medo ali, mas também culpa. — O que você está escondendo? — perguntou. Helena fechou os olhos. — Na noite em que nosso pai morreu, eu entreguei a Augusto a chave do escritório. Henrique ficou imóvel. — Por quê? — Ele disse que precisava pegar documentos para provar que nosso pai estava roubando a empresa. Eu acreditava nele. — E depois? — Ouvi a discuss
Na manhã seguinte, Henrique chegou ao escritório antes de todos. A mensagem recebida durante a noite continuava aberta em seu celular: **“Procure no cofre do seu pai. E não confie em Helena.”** Clara entrou poucos minutos depois, carregando dois cafés. — Você não dormiu — observou. — Dormi o suficiente. — Isso significa que não dormiu. Ele aceitou a bebida. — Precisamos conversar com Helena. — Sem acusá-la antes de termos provas. — Eu sei. — E sem esconder nada de mim. Henrique segurou o olhar dela. — Não vou esconder. Helena chegou meia hora depois. Ao entrar na sala, percebeu imediatamente que havia algo errado. — O que aconteceu? Henrique mostrou a mensagem. Ela leu em silêncio e empalideceu. — Eu sabia que isso aconteceria. — O quê? — Augusto sempre teve uma obsessão pelo cofre do nosso pai. — Você sabia que ele existia? — Sabia que havia um cofre, mas nunca soube a combinação. Clara observou a reação dela. — Onde fica? Helena hesitou. — Na antiga bibliote
A antiga estação ferroviária estava cercada por mato e ferrugem. Henrique estacionou longe da entrada, enquanto Clara observava as janelas quebradas. — Isso parece uma armadilha — disse ela. — Provavelmente é — respondeu Helena. — Então por que estamos entrando? Henrique segurou a mão de Clara. — Porque Alberto pode ser a única pessoa capaz de revelar a verdade. Os três avançaram pelo saguão escuro. O vento atravessava as paredes quebradas, fazendo as placas antigas rangerem. No chão, havia marcas recentes de pneus e pegadas na lama. Clara apontou para elas. — Alguém esteve aqui há pouco tempo. Henrique fez sinal para que permanecessem em silêncio. Um ruído veio dos trilhos abandonados. — Alberto? — chamou Helena. Nenhuma resposta. De repente, uma figura surgiu atrás de uma coluna. Era um homem idoso, magro e cansado, segurando uma lanterna. — Helena? — perguntou ele. Ela correu até ele. — Alberto! O homem a abraçou brevemente, depois olhou para Henrique. — Você se p
O estampido ainda ecoava pela casa quando Henrique puxou Clara para trás da escrivaninha. — Você está ferida? — perguntou, mantendo a voz baixa. — Não. E você? — Também não. Helena permanecia imóvel perto da janela, pálida. Henrique fez um sinal para que ela se abaixasse. — O tiro veio do jardim — sussurrou Clara. — Ou de uma das janelas laterais — respondeu Henrique. Ele pegou o celular e chamou a polícia, informando o endereço. Depois, verificou as portas e desligou todas as luzes. — Não saiam daqui — ordenou. Clara segurou seu braço. — Você não vai sozinho. — Clara, isso não é uma discussão. — Somos parceiros. Você mesmo disse. Henrique encarou-a por alguns segundos. O medo em seus olhos não era por si mesmo, mas por ela. Ainda assim, ele sabia que Clara tinha razão. — Fique atrás de mim. Os três avançaram pelo corredor escuro. A casa parecia maior à noite, cheia de sombras e ruídos. Um galho batia contra a janela, fazendo Clara estremecer. Ao chegarem à sala princi
Na manhã seguinte, Clara acordou no quarto de hóspedes com a sensação de que tudo havia mudado. O beijo, a declaração de Henrique e a invasão da noite anterior pareciam pertencer a uma realidade distante. Ao sair do quarto, encontrou Henrique na cozinha, preparando café. — Bom dia — disse ele. — Bom dia. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. — Sobre ontem… — começaram ao mesmo tempo. Clara sorriu. — Você primeiro. Henrique apoiou a xícara sobre a bancada. — Não quero que pense que disse aquilo por causa do susto. — Eu não pensei. — Eu amo você, Clara. E sei que não posso exigir que sinta o mesmo agora. Ela se aproximou. — Eu também amo você. Henrique ficou imóvel. — Tem certeza? — Tenho. Só estava com medo de admitir. O sorriso dele foi discreto, mas verdadeiro. Henrique segurou as mãos dela. — Então vamos fazer isso com calma. — Sem segredos? — Sem segredos. Na empresa, porém, a tranquilidade durou pouco. A polícia informou que o advogado havia recebi







