LOGINNa manhã seguinte, Clara acordou no quarto de hóspedes com a sensação de que tudo havia mudado. O beijo, a declaração de Henrique e a invasão da noite anterior pareciam pertencer a uma realidade distante.
Ao sair do quarto, encontrou Henrique na cozinha, preparando café. — Bom dia — disse ele. — Bom dia. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. — Sobre ontem… — começaram ao mesmo tempo. Clara sorriu. — Você primeiro. Henrique apoiou a xícara sobre a bancada. — Não quero que pense que disse aquilo por causa do susto. — Eu não pensei. — Eu amo você, Clara. E sei que não posso exigir que sinta o mesmo agora. Ela se aproximou. — Eu também amo você. Henrique ficou imóvel. — Tem certeza? — Tenho. Só estava com medo de admitir. O sorriso dele foi discreto, mas verdadeiro. Henrique segurou as mãos dela. — Então vamos fazer isso com calma. — Sem segredos? — Sem segredos. Na empresa, porém, a tranquilidade durou pouco. A polícia informou que o advogado havia recebido instruções de alguém identificado apenas como “V”. Clara analisou os documentos apreendidos. — Essa pessoa conhece muito bem a estrutura da empresa. Henrique franziu a testa. — Alguém da família. — Você tem algum parente envolvido nos negócios? — Minha irmã, Helena. Ela administra parte das ações, mas está afastada há anos. — Por quê? Henrique ficou em silêncio. — Depois da morte do meu pai, Helena queria vender a empresa. Eu me recusei. Desde então, não nos falamos. Clara observou uma assinatura nos documentos. — Henrique, veja isto. A assinatura digital usada para autorizar as transferências correspondia ao acesso de Helena. — Isso não pode ser — disse ele. — Precisamos confirmar antes de acusá-la. Henrique ligou para a irmã. Ela aceitou encontrá-los naquela tarde. Helena chegou ao escritório usando um elegante terno branco. Tinha os mesmos olhos intensos de Henrique, mas uma expressão muito mais fria. — Então esta é Clara — disse ela. — Minha parceira — respondeu Henrique. Clara percebeu a escolha da palavra. Helena sorriu sem humor. — Você sempre foi rápido para substituir as pessoas. — Não vim discutir o passado. — Não. Veio me acusar de tentar destruir a empresa. Henrique colocou os documentos sobre a mesa. — Seu acesso foi usado para autorizar transferências ilegais. Helena olhou para os papéis e suspirou. — Eu não fiz isso. — Então explique. Ela encarou o irmão. — Nosso pai deixou uma cláusula no testamento. Se a empresa enfrentasse uma crise grave, as ações seriam divididas entre nós dois. Alguém está tentando provocar essa crise para assumir o controle. Clara sentiu um arrepio. — Quem teria interesse nisso? Helena olhou para ela. — Alguém que conhece a família e sabe que Henrique não confia em ninguém. Henrique ficou tenso. — Você sabe quem é? — Sei apenas que essa pessoa esteve próxima do nosso pai até o fim. Antes que pudesse explicar, o alarme da empresa disparou. Um funcionário entrou correndo na sala. — O servidor principal foi invadido. Estão apagando os arquivos financeiros. Henrique levantou-se. — Clara, venha comigo. Os três correram até a sala de tecnologia. Técnicos tentavam impedir a invasão, mas os arquivos desapareciam rapidamente. Clara observou a tela. — O ataque vem de dentro. — Como sabe? — perguntou Henrique. — O invasor está usando uma autorização interna, mas não a de Helena. É uma credencial antiga. Henrique empalideceu. — A credencial do meu pai. Helena fechou os olhos. — Então ele está vivo? O silêncio caiu sobre a sala. Henrique encarou a irmã. — Isso é impossível. Eu vi o corpo. — Não estou dizendo que ele está vivo — respondeu Helena. — Estou dizendo que alguém tem acesso ao arquivo pessoal dele. Clara apontou para a tela. — O ataque está sendo redirecionado para um endereço externo. Se conseguirmos rastrear agora, descobriremos quem é. Henrique segurou sua mão. — Faça isso. Clara trabalhou rapidamente, enquanto os técnicos tentavam bloquear o sistema. Após alguns minutos, conseguiu localizar o sinal. O endereço ficava em uma antiga propriedade da família Valença. Henrique ficou pálido. — A casa onde meu pai morava. — Vamos para lá — disse Helena. — Não — respondeu Henrique. — É perigoso. Clara cruzou os braços. — Você prometeu me tratar como parceira. Ele a encarou, dividido entre o medo e a confiança. — Então não se afaste de mim. — Não vou. Ao chegarem à propriedade, encontraram a casa aparentemente abandonada. A porta estava destrancada. No escritório antigo, um computador permanecia ligado. Na tela havia uma mensagem: **“Henrique, você tomou tudo de mim. Agora vou tirar tudo de você.”** Ele reconheceu a frase. — Quem escreveu isso? — perguntou Clara. Henrique olhou para uma fotografia antiga sobre a mesa. Ao lado de seu pai aparecia um homem que Clara nunca tinha visto. — Augusto Ferraz — disse ele. — Era o sócio do meu pai. Helena ficou pálida. — Ele morreu anos atrás. Henrique aproximou-se da fotografia. — Não morreu. Desapareceu. De repente, as luzes se apagaram. Clara sentiu Henrique segurá-la pela mão. No escuro, uma voz ecoou pelo corredor: — Finalmente, Henrique. Estava esperando por você. E, naquele instante, o passado da família Valença voltou para cobrar sua dívida. Henrique puxou Clara para trás dele, enquanto Helena procurava o interruptor com as mãos trêmulas. — Quem está aí? — perguntou Henrique. A voz respondeu com uma risada baixa. — Ainda fazendo perguntas, Henrique? Você sempre foi igual ao seu pai. Um ruído metálico veio do corredor. Henrique avançou alguns passos, mas Clara segurou seu braço. — Não vá sozinho. — Fique atrás de mim. — Eu disse que somos parceiros. Helena encontrou uma lanterna sobre a mesa e a acendeu. O feixe de luz atravessou o corredor, revelando apenas quadros antigos e móveis cobertos por lençóis. Então uma porta bateu no andar superior. Henrique olhou para a escada. — Ele está aqui. Os três subiram lentamente. Cada degrau rangia sob seus pés. No corredor, uma porta estava entreaberta. Henrique empurrou-a com cuidado. O quarto estava vazio, exceto por uma caixa de madeira sobre a cama. Clara aproximou-se e encontrou várias fotografias antigas. Em algumas, Augusto Ferraz aparecia ao lado do pai de Henrique. Em outras, estava com uma mulher que Clara reconheceu imediatamente. — Helena — disse ela. A irmã de Henrique empalideceu. — Eu era criança. — Você conhecia Augusto? — perguntou Henrique. — Ele era amigo do nosso pai. Depois, tornou-se responsável por cuidar de mim quando você foi estudar fora. Henrique pegou uma das fotografias. — Por que nunca me contou? — Porque ele desapareceu depois de ser acusado de roubo. Nosso pai me proibiu de falar sobre isso. Clara examinou o verso da fotografia. Havia uma data e uma frase escrita à mão: **“A verdade está no lugar onde tudo começou.”** — O escritório do seu pai — concluiu ela. Antes que pudessem sair, o som de uma porta se fechando veio do andar inferior. Henrique apagou a lanterna. — Ele sabe que encontramos as fotos. Os três desceram em silêncio. Ao chegarem ao escritório, o computador havia sido desligado. Sobre a mesa, havia um envelope. Henrique abriu-o e encontrou uma cópia do antigo testamento de seu pai. Uma cláusula havia sido acrescentada após a assinatura original, transferindo parte das ações para uma empresa desconhecida. — Isso é falso — disse Helena. — Talvez — respondeu Clara. — Mas alguém está tentando fazer parecer que é verdadeiro. No fundo do envelope havia um pen drive. Henrique conectou-o ao computador. Um vídeo começou a ser reproduzido. O pai dele apareceu na tela, mais jovem e sério. — Se você está vendo isto, significa que Augusto voltou. Ele acredita que roubei sua parte da empresa, mas a verdade é mais complicada. Eu descobri que ele estava desviando dinheiro e tentei impedi-lo. Porém, antes que pudesse denunciá-lo, ele desapareceu. Henrique ficou imóvel. — Por que nunca me contou? — murmurou. O vídeo continuou: — Meu filho, não confie em ninguém que diga conhecer toda a história. A pessoa que ajudou Augusto está mais perto do que você imagina. A gravação terminou. Clara sentiu um arrepio. — Mais perto… dentro da empresa? Helena olhou para Henrique. — Ou dentro da família. Nesse instante, o celular de Clara vibrou. Uma nova mensagem havia chegado: **“Você está procurando no lugar errado. Pergunte a Helena o que aconteceu na noite da morte de seu pai.”** Clara levantou os olhos. Henrique encarou a irmã. — Helena? Ela recuou, com lágrimas nos olhos. — Eu não matei nosso pai. — Então o que aconteceu naquela noite? Helena respirou fundo. — Eu estava lá. E vi quem entrou no escritório. Antes que pudesse continuar, um disparo ecoou do lado de fora. Henrique puxou Clara para o chão, enquanto Helena apagava a tela do computador. A casa mergulhou novamente no silêncio. Mas agora eles sabiam que o inimigo não estava apenas observando. Ele estava disposto a atacar.A revelação deixou Henrique imóvel. Durante toda a vida, acreditara que seu tio Ricardo havia morrido em um acidente de carro, anos antes de ele assumir a presidência da empresa. Agora, sua mãe afirmava que Ricardo estava vivo — e que poderia ser o verdadeiro responsável por tudo. — Você tem certeza? — perguntou Henrique. A mulher sentada na cama segurou sua mão com dificuldade. — Eu vi Ricardo naquela noite. Ele discutia com seu pai e Augusto. Depois, ouvi um disparo. — Por que nunca contou? — Porque fui mantida presa. Augusto dizia que, se eu falasse, mataria você e Helena. Henrique desviou o olhar, tentando conter a raiva. — Você deixou que eu acreditasse que estava morta. — Eu não tive escolha. Clara aproximou-se com cuidado. — Precisamos sair daqui. O atirador pode voltar. O delegado concordou e ordenou a retirada imediata. A mãe de Henrique foi transferida para um local protegido, enquanto Helena permaneceu ao lado dela. Henrique e Clara seguiram para uma sala reserv
As luzes se apagaram completamente. Clara ouviu o som de uma porta sendo trancada e sentiu Henrique procurar sua mão no escuro. — Estou aqui — sussurrou ele. — Eu sei. No palco, Beatriz permaneceu imóvel, como se conhecesse cada canto do teatro. — Vocês sempre acreditaram que Augusto era o único vilão — disse ela. — Isso tornou tudo muito fácil. Henrique avançou alguns passos. — Pare de fazer jogos. Quem está ajudando Augusto? Beatriz acendeu uma lanterna. O feixe iluminou Helena. — Pergunte a ela. Helena empalideceu. — Eu já contei tudo. — Não contou a parte mais importante. Clara observou o rosto de Helena. Havia medo ali, mas também culpa. — O que você está escondendo? — perguntou. Helena fechou os olhos. — Na noite em que nosso pai morreu, eu entreguei a Augusto a chave do escritório. Henrique ficou imóvel. — Por quê? — Ele disse que precisava pegar documentos para provar que nosso pai estava roubando a empresa. Eu acreditava nele. — E depois? — Ouvi a discuss
Na manhã seguinte, Henrique chegou ao escritório antes de todos. A mensagem recebida durante a noite continuava aberta em seu celular: **“Procure no cofre do seu pai. E não confie em Helena.”** Clara entrou poucos minutos depois, carregando dois cafés. — Você não dormiu — observou. — Dormi o suficiente. — Isso significa que não dormiu. Ele aceitou a bebida. — Precisamos conversar com Helena. — Sem acusá-la antes de termos provas. — Eu sei. — E sem esconder nada de mim. Henrique segurou o olhar dela. — Não vou esconder. Helena chegou meia hora depois. Ao entrar na sala, percebeu imediatamente que havia algo errado. — O que aconteceu? Henrique mostrou a mensagem. Ela leu em silêncio e empalideceu. — Eu sabia que isso aconteceria. — O quê? — Augusto sempre teve uma obsessão pelo cofre do nosso pai. — Você sabia que ele existia? — Sabia que havia um cofre, mas nunca soube a combinação. Clara observou a reação dela. — Onde fica? Helena hesitou. — Na antiga bibliote
A antiga estação ferroviária estava cercada por mato e ferrugem. Henrique estacionou longe da entrada, enquanto Clara observava as janelas quebradas. — Isso parece uma armadilha — disse ela. — Provavelmente é — respondeu Helena. — Então por que estamos entrando? Henrique segurou a mão de Clara. — Porque Alberto pode ser a única pessoa capaz de revelar a verdade. Os três avançaram pelo saguão escuro. O vento atravessava as paredes quebradas, fazendo as placas antigas rangerem. No chão, havia marcas recentes de pneus e pegadas na lama. Clara apontou para elas. — Alguém esteve aqui há pouco tempo. Henrique fez sinal para que permanecessem em silêncio. Um ruído veio dos trilhos abandonados. — Alberto? — chamou Helena. Nenhuma resposta. De repente, uma figura surgiu atrás de uma coluna. Era um homem idoso, magro e cansado, segurando uma lanterna. — Helena? — perguntou ele. Ela correu até ele. — Alberto! O homem a abraçou brevemente, depois olhou para Henrique. — Você se p
O estampido ainda ecoava pela casa quando Henrique puxou Clara para trás da escrivaninha. — Você está ferida? — perguntou, mantendo a voz baixa. — Não. E você? — Também não. Helena permanecia imóvel perto da janela, pálida. Henrique fez um sinal para que ela se abaixasse. — O tiro veio do jardim — sussurrou Clara. — Ou de uma das janelas laterais — respondeu Henrique. Ele pegou o celular e chamou a polícia, informando o endereço. Depois, verificou as portas e desligou todas as luzes. — Não saiam daqui — ordenou. Clara segurou seu braço. — Você não vai sozinho. — Clara, isso não é uma discussão. — Somos parceiros. Você mesmo disse. Henrique encarou-a por alguns segundos. O medo em seus olhos não era por si mesmo, mas por ela. Ainda assim, ele sabia que Clara tinha razão. — Fique atrás de mim. Os três avançaram pelo corredor escuro. A casa parecia maior à noite, cheia de sombras e ruídos. Um galho batia contra a janela, fazendo Clara estremecer. Ao chegarem à sala princi
Na manhã seguinte, Clara acordou no quarto de hóspedes com a sensação de que tudo havia mudado. O beijo, a declaração de Henrique e a invasão da noite anterior pareciam pertencer a uma realidade distante. Ao sair do quarto, encontrou Henrique na cozinha, preparando café. — Bom dia — disse ele. — Bom dia. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. — Sobre ontem… — começaram ao mesmo tempo. Clara sorriu. — Você primeiro. Henrique apoiou a xícara sobre a bancada. — Não quero que pense que disse aquilo por causa do susto. — Eu não pensei. — Eu amo você, Clara. E sei que não posso exigir que sinta o mesmo agora. Ela se aproximou. — Eu também amo você. Henrique ficou imóvel. — Tem certeza? — Tenho. Só estava com medo de admitir. O sorriso dele foi discreto, mas verdadeiro. Henrique segurou as mãos dela. — Então vamos fazer isso com calma. — Sem segredos? — Sem segredos. Na empresa, porém, a tranquilidade durou pouco. A polícia informou que o advogado havia recebi







