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Capítulo 7 — A Verdade Oculta

Author: Dona Alencar
last update publish date: 2026-10-16 11:52:09

Na manhã seguinte, Clara acordou no quarto de hóspedes com a sensação de que tudo havia mudado. O beijo, a declaração de Henrique e a invasão da noite anterior pareciam pertencer a uma realidade distante.

Ao sair do quarto, encontrou Henrique na cozinha, preparando café.

— Bom dia — disse ele.

— Bom dia.

Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio.

— Sobre ontem… — começaram ao mesmo tempo.

Clara sorriu.

— Você primeiro.

Henrique apoiou a xícara sobre a bancada.

— Não quero que pense que disse aquilo por causa do susto.

— Eu não pensei.

— Eu amo você, Clara. E sei que não posso exigir que sinta o mesmo agora.

Ela se aproximou.

— Eu também amo você.

Henrique ficou imóvel.

— Tem certeza?

— Tenho. Só estava com medo de admitir.

O sorriso dele foi discreto, mas verdadeiro. Henrique segurou as mãos dela.

— Então vamos fazer isso com calma.

— Sem segredos?

— Sem segredos.

Na empresa, porém, a tranquilidade durou pouco. A polícia informou que o advogado havia recebido instruções de alguém identificado apenas como “V”.

Clara analisou os documentos apreendidos.

— Essa pessoa conhece muito bem a estrutura da empresa.

Henrique franziu a testa.

— Alguém da família.

— Você tem algum parente envolvido nos negócios?

— Minha irmã, Helena. Ela administra parte das ações, mas está afastada há anos.

— Por quê?

Henrique ficou em silêncio.

— Depois da morte do meu pai, Helena queria vender a empresa. Eu me recusei. Desde então, não nos falamos.

Clara observou uma assinatura nos documentos.

— Henrique, veja isto.

A assinatura digital usada para autorizar as transferências correspondia ao acesso de Helena.

— Isso não pode ser — disse ele.

— Precisamos confirmar antes de acusá-la.

Henrique ligou para a irmã. Ela aceitou encontrá-los naquela tarde.

Helena chegou ao escritório usando um elegante terno branco. Tinha os mesmos olhos intensos de Henrique, mas uma expressão muito mais fria.

— Então esta é Clara — disse ela.

— Minha parceira — respondeu Henrique.

Clara percebeu a escolha da palavra.

Helena sorriu sem humor.

— Você sempre foi rápido para substituir as pessoas.

— Não vim discutir o passado.

— Não. Veio me acusar de tentar destruir a empresa.

Henrique colocou os documentos sobre a mesa.

— Seu acesso foi usado para autorizar transferências ilegais.

Helena olhou para os papéis e suspirou.

— Eu não fiz isso.

— Então explique.

Ela encarou o irmão.

— Nosso pai deixou uma cláusula no testamento. Se a empresa enfrentasse uma crise grave, as ações seriam divididas entre nós dois. Alguém está tentando provocar essa crise para assumir o controle.

Clara sentiu um arrepio.

— Quem teria interesse nisso?

Helena olhou para ela.

— Alguém que conhece a família e sabe que Henrique não confia em ninguém.

Henrique ficou tenso.

— Você sabe quem é?

— Sei apenas que essa pessoa esteve próxima do nosso pai até o fim.

Antes que pudesse explicar, o alarme da empresa disparou. Um funcionário entrou correndo na sala.

— O servidor principal foi invadido. Estão apagando os arquivos financeiros.

Henrique levantou-se.

— Clara, venha comigo.

Os três correram até a sala de tecnologia. Técnicos tentavam impedir a invasão, mas os arquivos desapareciam rapidamente.

Clara observou a tela.

— O ataque vem de dentro.

— Como sabe? — perguntou Henrique.

— O invasor está usando uma autorização interna, mas não a de Helena. É uma credencial antiga.

Henrique empalideceu.

— A credencial do meu pai.

Helena fechou os olhos.

— Então ele está vivo?

O silêncio caiu sobre a sala.

Henrique encarou a irmã.

— Isso é impossível. Eu vi o corpo.

— Não estou dizendo que ele está vivo — respondeu Helena. — Estou dizendo que alguém tem acesso ao arquivo pessoal dele.

Clara apontou para a tela.

— O ataque está sendo redirecionado para um endereço externo. Se conseguirmos rastrear agora, descobriremos quem é.

Henrique segurou sua mão.

— Faça isso.

Clara trabalhou rapidamente, enquanto os técnicos tentavam bloquear o sistema. Após alguns minutos, conseguiu localizar o sinal.

O endereço ficava em uma antiga propriedade da família Valença.

Henrique ficou pálido.

— A casa onde meu pai morava.

— Vamos para lá — disse Helena.

— Não — respondeu Henrique. — É perigoso.

Clara cruzou os braços.

— Você prometeu me tratar como parceira.

Ele a encarou, dividido entre o medo e a confiança.

— Então não se afaste de mim.

— Não vou.

Ao chegarem à propriedade, encontraram a casa aparentemente abandonada. A porta estava destrancada. No escritório antigo, um computador permanecia ligado.

Na tela havia uma mensagem:

**“Henrique, você tomou tudo de mim. Agora vou tirar tudo de você.”**

Ele reconheceu a frase.

— Quem escreveu isso? — perguntou Clara.

Henrique olhou para uma fotografia antiga sobre a mesa. Ao lado de seu pai aparecia um homem que Clara nunca tinha visto.

— Augusto Ferraz — disse ele. — Era o sócio do meu pai.

Helena ficou pálida.

— Ele morreu anos atrás.

Henrique aproximou-se da fotografia.

— Não morreu. Desapareceu.

De repente, as luzes se apagaram.

Clara sentiu Henrique segurá-la pela mão.

No escuro, uma voz ecoou pelo corredor:

— Finalmente, Henrique. Estava esperando por você.

E, naquele instante, o passado da família Valença voltou para cobrar sua dívida.

Henrique puxou Clara para trás dele, enquanto Helena procurava o interruptor com as mãos trêmulas.

— Quem está aí? — perguntou Henrique.

A voz respondeu com uma risada baixa.

— Ainda fazendo perguntas, Henrique? Você sempre foi igual ao seu pai.

Um ruído metálico veio do corredor. Henrique avançou alguns passos, mas Clara segurou seu braço.

— Não vá sozinho.

— Fique atrás de mim.

— Eu disse que somos parceiros.

Helena encontrou uma lanterna sobre a mesa e a acendeu. O feixe de luz atravessou o corredor, revelando apenas quadros antigos e móveis cobertos por lençóis.

Então uma porta bateu no andar superior.

Henrique olhou para a escada.

— Ele está aqui.

Os três subiram lentamente. Cada degrau rangia sob seus pés. No corredor, uma porta estava entreaberta. Henrique empurrou-a com cuidado.

O quarto estava vazio, exceto por uma caixa de madeira sobre a cama.

Clara aproximou-se e encontrou várias fotografias antigas. Em algumas, Augusto Ferraz aparecia ao lado do pai de Henrique. Em outras, estava com uma mulher que Clara reconheceu imediatamente.

— Helena — disse ela.

A irmã de Henrique empalideceu.

— Eu era criança.

— Você conhecia Augusto? — perguntou Henrique.

— Ele era amigo do nosso pai. Depois, tornou-se responsável por cuidar de mim quando você foi estudar fora.

Henrique pegou uma das fotografias.

— Por que nunca me contou?

— Porque ele desapareceu depois de ser acusado de roubo. Nosso pai me proibiu de falar sobre isso.

Clara examinou o verso da fotografia. Havia uma data e uma frase escrita à mão:

**“A verdade está no lugar onde tudo começou.”**

— O escritório do seu pai — concluiu ela.

Antes que pudessem sair, o som de uma porta se fechando veio do andar inferior.

Henrique apagou a lanterna.

— Ele sabe que encontramos as fotos.

Os três desceram em silêncio. Ao chegarem ao escritório, o computador havia sido desligado. Sobre a mesa, havia um envelope.

Henrique abriu-o e encontrou uma cópia do antigo testamento de seu pai. Uma cláusula havia sido acrescentada após a assinatura original, transferindo parte das ações para uma empresa desconhecida.

— Isso é falso — disse Helena.

— Talvez — respondeu Clara. — Mas alguém está tentando fazer parecer que é verdadeiro.

No fundo do envelope havia um pen drive.

Henrique conectou-o ao computador. Um vídeo começou a ser reproduzido.

O pai dele apareceu na tela, mais jovem e sério.

— Se você está vendo isto, significa que Augusto voltou. Ele acredita que roubei sua parte da empresa, mas a verdade é mais complicada. Eu descobri que ele estava desviando dinheiro e tentei impedi-lo. Porém, antes que pudesse denunciá-lo, ele desapareceu.

Henrique ficou imóvel.

— Por que nunca me contou? — murmurou.

O vídeo continuou:

— Meu filho, não confie em ninguém que diga conhecer toda a história. A pessoa que ajudou Augusto está mais perto do que você imagina.

A gravação terminou.

Clara sentiu um arrepio.

— Mais perto… dentro da empresa?

Helena olhou para Henrique.

— Ou dentro da família.

Nesse instante, o celular de Clara vibrou. Uma nova mensagem havia chegado:

**“Você está procurando no lugar errado. Pergunte a Helena o que aconteceu na noite da morte de seu pai.”**

Clara levantou os olhos.

Henrique encarou a irmã.

— Helena?

Ela recuou, com lágrimas nos olhos.

— Eu não matei nosso pai.

— Então o que aconteceu naquela noite?

Helena respirou fundo.

— Eu estava lá. E vi quem entrou no escritório.

Antes que pudesse continuar, um disparo ecoou do lado de fora.

Henrique puxou Clara para o chão, enquanto Helena apagava a tela do computador.

A casa mergulhou novamente no silêncio.

Mas agora eles sabiam que o inimigo não estava apenas observando.

Ele estava disposto a atacar.

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