LOGINO estampido ainda ecoava pela casa quando Henrique puxou Clara para trás da escrivaninha.
— Você está ferida? — perguntou, mantendo a voz baixa. — Não. E você? — Também não. Helena permanecia imóvel perto da janela, pálida. Henrique fez um sinal para que ela se abaixasse. — O tiro veio do jardim — sussurrou Clara. — Ou de uma das janelas laterais — respondeu Henrique. Ele pegou o celular e chamou a polícia, informando o endereço. Depois, verificou as portas e desligou todas as luzes. — Não saiam daqui — ordenou. Clara segurou seu braço. — Você não vai sozinho. — Clara, isso não é uma discussão. — Somos parceiros. Você mesmo disse. Henrique encarou-a por alguns segundos. O medo em seus olhos não era por si mesmo, mas por ela. Ainda assim, ele sabia que Clara tinha razão. — Fique atrás de mim. Os três avançaram pelo corredor escuro. A casa parecia maior à noite, cheia de sombras e ruídos. Um galho batia contra a janela, fazendo Clara estremecer. Ao chegarem à sala principal, encontraram o vidro quebrado. No chão havia um pequeno objeto metálico. Henrique aproximou-se sem tocá-lo. — Uma cápsula — disse Helena. — O disparo foi feito de fora — concluiu Clara. Henrique olhou para o jardim. A chuva começava a cair, apagando possíveis pegadas. — Ele queria nos assustar — disse Clara. — Ou queria garantir que encontrássemos isto. Perto da janela havia um envelope preso sob um vaso. Henrique o recolheu com cuidado. Dentro, havia uma fotografia antiga e uma frase escrita: **“A testemunha ainda está viva.”** Helena levou a mão à boca. — Não pode ser. — Quem é a testemunha? — perguntou Clara. Helena olhou para o retrato. — O motorista do meu pai. Henrique franziu a testa. — Alberto morreu há dez anos. — Não. Ele desapareceu na mesma época que Augusto. O som de sirenes interrompeu a conversa. A polícia chegou poucos minutos depois e isolou a propriedade. Os agentes encontraram marcas de pneus na estrada, mas nenhum suspeito. O delegado examinou a cápsula e a fotografia. — Isso parece uma ameaça planejada. O responsável queria que vocês soubessem que pode chegar perto. — Ele também conhece detalhes da minha família — disse Henrique. — Então alguém está fornecendo informações. Clara pensou na mensagem recebida. — Talvez a pessoa que enviou a mensagem esteja tentando nos conduzir até Alberto. O delegado anotou a informação. — Vocês devem deixar a casa e permanecer em um local seguro. Henrique concordou, mas Helena permaneceu sentada, perdida em pensamentos. — O que aconteceu na noite da morte do meu pai? — perguntou Henrique. Ela fechou os olhos. — Eu tinha vinte anos. Estava na casa porque queria discutir com ele. Augusto apareceu pouco depois. — Sobre o que eles discutiam? — Dinheiro. Augusto dizia que seu pai havia roubado sua parte da empresa. Seu pai negava. A discussão ficou violenta. — E depois? — Eu ouvi um barulho no escritório. Quando entrei, seu pai estava caído. Augusto estava ao lado dele. Henrique ficou tenso. — Você viu Augusto atacá-lo? — Não. Vi apenas os dois. Augusto segurava uma pasta e tinha sangue na camisa. — Por que nunca contou? — Porque ele me ameaçou. Disse que, se eu falasse, faria você desaparecer também. Henrique desviou o rosto, tentando controlar a raiva. — Você acreditou nele? — Eu era jovem e estava apavorada. Depois, ele desapareceu. Seu pai morreu, e todos disseram que havia sido um acidente. Clara aproximou-se de Henrique. — Você não tinha como saber. — Ela poderia ter contado. — Eu tentei — disse Helena. — Mas seu pai deixou uma carta pedindo que eu protegesse você. Ele dizia que a empresa estava cercada de inimigos. Henrique olhou para a irmã, dividido entre mágoa e compreensão. — Por que só agora? — Porque Augusto voltou. E porque acredito que ele não está sozinho. O delegado interrompeu: — Encontramos algo no carro de vocês. Um agente entregou uma pequena caixa. Dentro havia um gravador antigo. Henrique apertou o botão. A voz de seu pai surgiu, abafada: — Se algo acontecer comigo, procurem Alberto. Ele sabe quem realmente estava por trás dos desvios. A gravação terminou com um ruído. Clara sentiu um arrepio. — Alberto pode estar vivo. — E pode ser a única pessoa capaz de provar a verdade — disse Henrique. Naquela mesma noite, Henrique levou Clara para um hotel protegido pela segurança da empresa. Helena ficou em outro andar, acompanhada por agentes. No quarto, Clara observou Henrique junto à janela. Ele parecia exausto. — Você não precisa resolver tudo agora — disse ela. — Se eu parar, penso no que poderia ter acontecido com você. — Estou aqui. Henrique virou-se. — É isso que me assusta. — O quê? — Antes de você, eu não tinha nada que pudesse perder. Clara aproximou-se e segurou seu rosto. — Você não vai me perder por causa do medo. — Não posso prometer que conseguirei proteger você de tudo. — Não quero que me proteja de tudo. Quero que confie em mim. Henrique fechou os olhos e encostou a testa na dela. — Eu amo você. — Eu também amo você. O beijo que trocaram foi lento e cheio de emoção. Não havia pressa, apenas a necessidade de encontrar conforto um no outro depois daquela noite. Quando se afastaram, Clara percebeu algo sobre a mesa. — Henrique, o gravador. Ele se virou. A luz vermelha ainda estava acesa. — A gravação não terminou — disse ela. Henrique apertou o botão novamente. Após alguns segundos de silêncio, uma segunda voz surgiu. Era a voz de Helena. — Augusto, você não pode fazer isso. Depois, ouviu-se a voz do pai de Henrique: — Ela não sabe de nada. Deixe minha filha fora disso. Um ruído forte interrompeu a gravação. Em seguida, Augusto falou: — Então será o seu filho. Henrique ficou imóvel. A gravação terminou. Clara segurou sua mão. — Agora sabemos que Augusto ameaçou seu pai usando você. — E Helena estava lá. — Ela pode ter sido obrigada a esconder a verdade. Henrique olhou para a porta do quarto. — Precisamos descobrir onde Alberto está. Nesse instante, o telefone de Helena tocou no andar de baixo. Ela atendeu e ficou em silêncio. Poucos segundos depois, subiu correndo. — Recebi uma mensagem — disse ela. — Alberto está vivo. Henrique pegou o celular. Na tela havia apenas um endereço e uma frase: **“Venham antes que Augusto chegue.”** O endereço ficava em uma antiga estação ferroviária, abandonada havia anos. Henrique encarou Clara. — Você fica aqui. — Nem pense nisso. — É perigoso. — Então vamos juntos. Ele segurou a mão dela. — Juntos. Do lado de fora, a chuva aumentava. E, enquanto deixavam o hotel, nenhum dos três percebeu o carro escuro estacionado na esquina. Dentro dele, um homem observava a saída. Augusto Ferraz sorriu ao telefone. — Eles encontraram Alberto. Agora só precisamos deixá-los chegar até ele.A revelação deixou Henrique imóvel. Durante toda a vida, acreditara que seu tio Ricardo havia morrido em um acidente de carro, anos antes de ele assumir a presidência da empresa. Agora, sua mãe afirmava que Ricardo estava vivo — e que poderia ser o verdadeiro responsável por tudo. — Você tem certeza? — perguntou Henrique. A mulher sentada na cama segurou sua mão com dificuldade. — Eu vi Ricardo naquela noite. Ele discutia com seu pai e Augusto. Depois, ouvi um disparo. — Por que nunca contou? — Porque fui mantida presa. Augusto dizia que, se eu falasse, mataria você e Helena. Henrique desviou o olhar, tentando conter a raiva. — Você deixou que eu acreditasse que estava morta. — Eu não tive escolha. Clara aproximou-se com cuidado. — Precisamos sair daqui. O atirador pode voltar. O delegado concordou e ordenou a retirada imediata. A mãe de Henrique foi transferida para um local protegido, enquanto Helena permaneceu ao lado dela. Henrique e Clara seguiram para uma sala reserv
As luzes se apagaram completamente. Clara ouviu o som de uma porta sendo trancada e sentiu Henrique procurar sua mão no escuro. — Estou aqui — sussurrou ele. — Eu sei. No palco, Beatriz permaneceu imóvel, como se conhecesse cada canto do teatro. — Vocês sempre acreditaram que Augusto era o único vilão — disse ela. — Isso tornou tudo muito fácil. Henrique avançou alguns passos. — Pare de fazer jogos. Quem está ajudando Augusto? Beatriz acendeu uma lanterna. O feixe iluminou Helena. — Pergunte a ela. Helena empalideceu. — Eu já contei tudo. — Não contou a parte mais importante. Clara observou o rosto de Helena. Havia medo ali, mas também culpa. — O que você está escondendo? — perguntou. Helena fechou os olhos. — Na noite em que nosso pai morreu, eu entreguei a Augusto a chave do escritório. Henrique ficou imóvel. — Por quê? — Ele disse que precisava pegar documentos para provar que nosso pai estava roubando a empresa. Eu acreditava nele. — E depois? — Ouvi a discuss
Na manhã seguinte, Henrique chegou ao escritório antes de todos. A mensagem recebida durante a noite continuava aberta em seu celular: **“Procure no cofre do seu pai. E não confie em Helena.”** Clara entrou poucos minutos depois, carregando dois cafés. — Você não dormiu — observou. — Dormi o suficiente. — Isso significa que não dormiu. Ele aceitou a bebida. — Precisamos conversar com Helena. — Sem acusá-la antes de termos provas. — Eu sei. — E sem esconder nada de mim. Henrique segurou o olhar dela. — Não vou esconder. Helena chegou meia hora depois. Ao entrar na sala, percebeu imediatamente que havia algo errado. — O que aconteceu? Henrique mostrou a mensagem. Ela leu em silêncio e empalideceu. — Eu sabia que isso aconteceria. — O quê? — Augusto sempre teve uma obsessão pelo cofre do nosso pai. — Você sabia que ele existia? — Sabia que havia um cofre, mas nunca soube a combinação. Clara observou a reação dela. — Onde fica? Helena hesitou. — Na antiga bibliote
A antiga estação ferroviária estava cercada por mato e ferrugem. Henrique estacionou longe da entrada, enquanto Clara observava as janelas quebradas. — Isso parece uma armadilha — disse ela. — Provavelmente é — respondeu Helena. — Então por que estamos entrando? Henrique segurou a mão de Clara. — Porque Alberto pode ser a única pessoa capaz de revelar a verdade. Os três avançaram pelo saguão escuro. O vento atravessava as paredes quebradas, fazendo as placas antigas rangerem. No chão, havia marcas recentes de pneus e pegadas na lama. Clara apontou para elas. — Alguém esteve aqui há pouco tempo. Henrique fez sinal para que permanecessem em silêncio. Um ruído veio dos trilhos abandonados. — Alberto? — chamou Helena. Nenhuma resposta. De repente, uma figura surgiu atrás de uma coluna. Era um homem idoso, magro e cansado, segurando uma lanterna. — Helena? — perguntou ele. Ela correu até ele. — Alberto! O homem a abraçou brevemente, depois olhou para Henrique. — Você se p
O estampido ainda ecoava pela casa quando Henrique puxou Clara para trás da escrivaninha. — Você está ferida? — perguntou, mantendo a voz baixa. — Não. E você? — Também não. Helena permanecia imóvel perto da janela, pálida. Henrique fez um sinal para que ela se abaixasse. — O tiro veio do jardim — sussurrou Clara. — Ou de uma das janelas laterais — respondeu Henrique. Ele pegou o celular e chamou a polícia, informando o endereço. Depois, verificou as portas e desligou todas as luzes. — Não saiam daqui — ordenou. Clara segurou seu braço. — Você não vai sozinho. — Clara, isso não é uma discussão. — Somos parceiros. Você mesmo disse. Henrique encarou-a por alguns segundos. O medo em seus olhos não era por si mesmo, mas por ela. Ainda assim, ele sabia que Clara tinha razão. — Fique atrás de mim. Os três avançaram pelo corredor escuro. A casa parecia maior à noite, cheia de sombras e ruídos. Um galho batia contra a janela, fazendo Clara estremecer. Ao chegarem à sala princi
Na manhã seguinte, Clara acordou no quarto de hóspedes com a sensação de que tudo havia mudado. O beijo, a declaração de Henrique e a invasão da noite anterior pareciam pertencer a uma realidade distante. Ao sair do quarto, encontrou Henrique na cozinha, preparando café. — Bom dia — disse ele. — Bom dia. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. — Sobre ontem… — começaram ao mesmo tempo. Clara sorriu. — Você primeiro. Henrique apoiou a xícara sobre a bancada. — Não quero que pense que disse aquilo por causa do susto. — Eu não pensei. — Eu amo você, Clara. E sei que não posso exigir que sinta o mesmo agora. Ela se aproximou. — Eu também amo você. Henrique ficou imóvel. — Tem certeza? — Tenho. Só estava com medo de admitir. O sorriso dele foi discreto, mas verdadeiro. Henrique segurou as mãos dela. — Então vamos fazer isso com calma. — Sem segredos? — Sem segredos. Na empresa, porém, a tranquilidade durou pouco. A polícia informou que o advogado havia recebi







