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Capítulo 8 — A Noite do Disparo

Author: Dona Alencar
last update publish date: 2026-10-16 20:42:40

O estampido ainda ecoava pela casa quando Henrique puxou Clara para trás da escrivaninha.

— Você está ferida? — perguntou, mantendo a voz baixa.

— Não. E você?

— Também não.

Helena permanecia imóvel perto da janela, pálida. Henrique fez um sinal para que ela se abaixasse.

— O tiro veio do jardim — sussurrou Clara.

— Ou de uma das janelas laterais — respondeu Henrique.

Ele pegou o celular e chamou a polícia, informando o endereço. Depois, verificou as portas e desligou todas as luzes.

— Não saiam daqui — ordenou.

Clara segurou seu braço.

— Você não vai sozinho.

— Clara, isso não é uma discussão.

— Somos parceiros. Você mesmo disse.

Henrique encarou-a por alguns segundos. O medo em seus olhos não era por si mesmo, mas por ela. Ainda assim, ele sabia que Clara tinha razão.

— Fique atrás de mim.

Os três avançaram pelo corredor escuro. A casa parecia maior à noite, cheia de sombras e ruídos. Um galho batia contra a janela, fazendo Clara estremecer.

Ao chegarem à sala principal, encontraram o vidro quebrado. No chão havia um pequeno objeto metálico.

Henrique aproximou-se sem tocá-lo.

— Uma cápsula — disse Helena.

— O disparo foi feito de fora — concluiu Clara.

Henrique olhou para o jardim. A chuva começava a cair, apagando possíveis pegadas.

— Ele queria nos assustar — disse Clara.

— Ou queria garantir que encontrássemos isto.

Perto da janela havia um envelope preso sob um vaso. Henrique o recolheu com cuidado. Dentro, havia uma fotografia antiga e uma frase escrita:

**“A testemunha ainda está viva.”**

Helena levou a mão à boca.

— Não pode ser.

— Quem é a testemunha? — perguntou Clara.

Helena olhou para o retrato.

— O motorista do meu pai.

Henrique franziu a testa.

— Alberto morreu há dez anos.

— Não. Ele desapareceu na mesma época que Augusto.

O som de sirenes interrompeu a conversa. A polícia chegou poucos minutos depois e isolou a propriedade. Os agentes encontraram marcas de pneus na estrada, mas nenhum suspeito.

O delegado examinou a cápsula e a fotografia.

— Isso parece uma ameaça planejada. O responsável queria que vocês soubessem que pode chegar perto.

— Ele também conhece detalhes da minha família — disse Henrique.

— Então alguém está fornecendo informações.

Clara pensou na mensagem recebida.

— Talvez a pessoa que enviou a mensagem esteja tentando nos conduzir até Alberto.

O delegado anotou a informação.

— Vocês devem deixar a casa e permanecer em um local seguro.

Henrique concordou, mas Helena permaneceu sentada, perdida em pensamentos.

— O que aconteceu na noite da morte do meu pai? — perguntou Henrique.

Ela fechou os olhos.

— Eu tinha vinte anos. Estava na casa porque queria discutir com ele. Augusto apareceu pouco depois.

— Sobre o que eles discutiam?

— Dinheiro. Augusto dizia que seu pai havia roubado sua parte da empresa. Seu pai negava. A discussão ficou violenta.

— E depois?

— Eu ouvi um barulho no escritório. Quando entrei, seu pai estava caído. Augusto estava ao lado dele.

Henrique ficou tenso.

— Você viu Augusto atacá-lo?

— Não. Vi apenas os dois. Augusto segurava uma pasta e tinha sangue na camisa.

— Por que nunca contou?

— Porque ele me ameaçou. Disse que, se eu falasse, faria você desaparecer também.

Henrique desviou o rosto, tentando controlar a raiva.

— Você acreditou nele?

— Eu era jovem e estava apavorada. Depois, ele desapareceu. Seu pai morreu, e todos disseram que havia sido um acidente.

Clara aproximou-se de Henrique.

— Você não tinha como saber.

— Ela poderia ter contado.

— Eu tentei — disse Helena. — Mas seu pai deixou uma carta pedindo que eu protegesse você. Ele dizia que a empresa estava cercada de inimigos.

Henrique olhou para a irmã, dividido entre mágoa e compreensão.

— Por que só agora?

— Porque Augusto voltou. E porque acredito que ele não está sozinho.

O delegado interrompeu:

— Encontramos algo no carro de vocês.

Um agente entregou uma pequena caixa. Dentro havia um gravador antigo.

Henrique apertou o botão. A voz de seu pai surgiu, abafada:

— Se algo acontecer comigo, procurem Alberto. Ele sabe quem realmente estava por trás dos desvios.

A gravação terminou com um ruído.

Clara sentiu um arrepio.

— Alberto pode estar vivo.

— E pode ser a única pessoa capaz de provar a verdade — disse Henrique.

Naquela mesma noite, Henrique levou Clara para um hotel protegido pela segurança da empresa. Helena ficou em outro andar, acompanhada por agentes.

No quarto, Clara observou Henrique junto à janela. Ele parecia exausto.

— Você não precisa resolver tudo agora — disse ela.

— Se eu parar, penso no que poderia ter acontecido com você.

— Estou aqui.

Henrique virou-se.

— É isso que me assusta.

— O quê?

— Antes de você, eu não tinha nada que pudesse perder.

Clara aproximou-se e segurou seu rosto.

— Você não vai me perder por causa do medo.

— Não posso prometer que conseguirei proteger você de tudo.

— Não quero que me proteja de tudo. Quero que confie em mim.

Henrique fechou os olhos e encostou a testa na dela.

— Eu amo você.

— Eu também amo você.

O beijo que trocaram foi lento e cheio de emoção. Não havia pressa, apenas a necessidade de encontrar conforto um no outro depois daquela noite.

Quando se afastaram, Clara percebeu algo sobre a mesa.

— Henrique, o gravador.

Ele se virou.

A luz vermelha ainda estava acesa.

— A gravação não terminou — disse ela.

Henrique apertou o botão novamente. Após alguns segundos de silêncio, uma segunda voz surgiu.

Era a voz de Helena.

— Augusto, você não pode fazer isso.

Depois, ouviu-se a voz do pai de Henrique:

— Ela não sabe de nada. Deixe minha filha fora disso.

Um ruído forte interrompeu a gravação. Em seguida, Augusto falou:

— Então será o seu filho.

Henrique ficou imóvel.

A gravação terminou.

Clara segurou sua mão.

— Agora sabemos que Augusto ameaçou seu pai usando você.

— E Helena estava lá.

— Ela pode ter sido obrigada a esconder a verdade.

Henrique olhou para a porta do quarto.

— Precisamos descobrir onde Alberto está.

Nesse instante, o telefone de Helena tocou no andar de baixo. Ela atendeu e ficou em silêncio.

Poucos segundos depois, subiu correndo.

— Recebi uma mensagem — disse ela. — Alberto está vivo.

Henrique pegou o celular.

Na tela havia apenas um endereço e uma frase:

**“Venham antes que Augusto chegue.”**

O endereço ficava em uma antiga estação ferroviária, abandonada havia anos.

Henrique encarou Clara.

— Você fica aqui.

— Nem pense nisso.

— É perigoso.

— Então vamos juntos.

Ele segurou a mão dela.

— Juntos.

Do lado de fora, a chuva aumentava. E, enquanto deixavam o hotel, nenhum dos três percebeu o carro escuro estacionado na esquina.

Dentro dele, um homem observava a saída.

Augusto Ferraz sorriu ao telefone.

— Eles encontraram Alberto. Agora só precisamos deixá-los chegar até ele.

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