INICIAR SESIÓNQuando saí do banheiro já com o traje de cozinheira, Umut fez um sinal discreto em direção à cozinha e murmurou em inglês:
— Don’t let him humiliate you. (Não o deixe te humilhar.) Sorri com doçura, daquele jeitinho que engana até santo: — Don't worry, Mr. Umut, I know how to deal with people like your friend. (Pode deixar, senhor Umut, eu sei lidar com pessoas como seu amigo.) O coitado ficou me olhando como se alguém tivesse trocado a estagiária no banheiro. Por um segundo, só um segundo, ele viu faíscas nos meus olhos. Faíscas mesmo. Aquelas que anunciam tempestade. Riu sozinho e me seguiu até a porta da cozinha, claramente ansioso para ver se Demir ia notar o furacão escondido por baixo da minha calmaria teatral. Me controlei porque mostrei mais do que deveria. Demir me esperava impaciente, batendo a ponta dos dedos no balcão como se estivesse convocando os anjos para lhe trazer paciência. Quando entrei, a cozinha inteira parou. Literalmente. Parecia até que haviam congelado no tempo. Ele falou em turco, exibido como sempre: — Arkadaşlar, bu Brezilyalı stajyer. Benim için yemek yaparak acı çekmeye geldi. (Pessoal, essa é a estagiária brasileira. Veio sofrer cozinhando para mim.) Ah, que vontade de rir. Fingi que não entendi uma sílaba e me apresentei com meu inglês, quase gritando “Oi, gente, sou uma turista”: — I’m Bel Silva, and I hope we can all be friends. (Sou Bel Silva, e espero ser amiga de todos vocês.) Todos vieram me cumprimentar, e então ouvi aquele som maravilhoso que só um brasileiro reconhece no meio da selva: português com sotaque de casa. Um rapaz que lavava as panelas se aproximou animado: — Sou Joaquim! Se você precisar de tradutor, eu sei o suficiente da língua deles para reconhecer quando estão me xingando… aí eu só sorrio de volta feito um idiota. — Muito obrigada, Joaquim. É bom ter alguém brasileiro aqui. Demir perdeu a paciência instantaneamente. Era quase fofo, se não fosse um ogro. Falou em português arrastado: — Joaquim, volte para suas panelas. E você… como é mesmo seu nome? — Bell Silva. — Ah, sim, Bell… faça um manti. Você tem vinte minutos. — Certo. Andei pela cozinha com a calma de quem está na própria casa. Fiz meu reconhecimento, respirei fundo e, em quinze minutos, coloquei o manti na bancada, com um toque brasileiro que só eu sabia entregar. Porque se vai ser para me humilhar, querido, primeiro precisa competir comigo. Demir se aproximou do prato como quem examina um inimigo. Primeiro, cheirou. Depois provou. Aí provou de novo. E, mais uma vez, só para ter certeza de que não estava sendo enganado pelo próprio paladar. Falou em português, com aquela voz grave que parecia escorrer arrogância: — O macarrão está no ponto e o molho está com a quantidade certa de sal, mas tem um gosto estranho que eu nunca senti. Enlacei os braços, inocente como um anjo recém-chegado da catequese. — É um segredo dos meus pratos. Ele levantou os olhos devagar, como se eu tivesse acabado de falar um palavrão em plena mesquita. — Na minha cozinha não existe essa de segredo. Da próxima vez que eu solicitar um prato, faça exatamente como manda a receita. Ah, pronto. O Sultão do Fogão decretando lei. Não aguentei ficar calada, deveria, mas não fiquei. Olhei para ele com a expressão mais angelical do meu repertório. — Mas o senhor gostou… ou não gostou do meu manti? Demir já tinha limpado o prato. O homem lustrou praticamente a porcelana com o garfo. Mas, como todo macho alfa birrento, escolheu a pose em vez da verdade. — Odiei. Não gosto de improvisos na minha cozinha. Juro que, se não fosse pecado, eu teria gargalhado. Porque o brilho nos olhos dele dizia outra coisa: “Estou obcecado com esse gosto que nunca senti.” Mas claro… o Príncipe do Paladar jamais admitiria isso antes de me irritar mais um pouco. Mantive meu sorriso doce… aquele que parece educado, mas já vem com o veneno preparado. — Too bad you hated it, chef. (Que pena que o senhor odiou, chef.) — If you had liked it, I might have been tempted to repeat the special touch. (Se tivesse gostado, talvez eu repetisse o toque especial.) — But since it bothered you so much… I’m relieved. (Mas já que incomodou tanto… estou aliviada.) Ele estreitou os olhos. — Relieved? Why? (Aliviada? Por quê?) Inclinei a cabeça, sorrindo como uma inocente turista na Capadócia. — Because now I know exactly what you prefer: dishes with no creativity, no soul and no personality. (Porque agora sei exatamente o que o senhor prefere: pratos sem criatividade, sem alma e sem personalidade.) — It will be very easy to please you. (Vai ser muito fácil agradar o senhor.) A cozinha inteira congelou. Joaquim prendeu a respiração. Um dos auxiliares deixou cair uma colher no chão. E Umut, do lado de fora, quase engasgou com o próprio riso. Demir… ah, Demir. Nele, deu para ver quando o ego tomou um soco no estômago. — Repeat it. (Repita.) Ele rosnou, a voz baixa e carregada de ameaça. Abri um sorriso ainda maior. — Of course. (Claro.) — I said it will be very easy to please you. (Eu disse que vai ser muito fácil agradar o senhor.) E passei por ele com a serenidade de quem acabou de botar fogo no reino inteiro e fingiu que foi acender uma vela. Demir respirou fundo, tentando recuperar o controle do ego que eu havia acabado de chacoalhar. Ele deu um passo para mais perto, com aquele olhar superior de quem acha que domina o mundo… e a cozinha inteira prendeu o ar. — You know what your problem is? (Sabe qual é o seu problema?) Ele começou, em inglês, só para garantir que todos ouvissem. — You think cooking is a game. (Você acha que cozinhar é um jogo.) — But you’re just a girl who got lucky today. (Mas você é só uma garota que deu sorte hoje.) A cozinha inteira fez aquela cara de “ihhh…” Joaquim arregalou os olhos. Um dos auxiliares murmurou um “Allah…” baixinho. Eu sorri. Calma, educada, venenosa como um escorpião em férias. Meu cérebro me mandando calar a boca, mas meu gênio não deixando. — Luck? (Sorte?) Arqueei uma sobrancelha. — Chef, if this is luck, I’d love to see what your skills look like. (Se isso é sorte, eu adoraria ver como são as suas habilidades.) Umut engasgou com o próprio ar. Demir piscou, surpreso, ninguém ali respondia ao chef daquele jeito. Ele respirou fundo… e aí veio a vingança. — Ótimo. Já que você está tão confiante. Ele disse em português arrastado, carregado de ironia. O restaurante entra em funcionamento dentro de duas horas. Aproximou-se da bancada, bateu de leve no prato vazio que antes estava cheio do meu manti. — Make fifty manti exactly like this one. (Faça cinquenta mantis exatamente iguais a este aqui.) — Perfect shape, perfect size, perfect flavor. (Forma perfeita, tamanho perfeito, sabor perfeito.) Aproximou o rosto do meu, num desafio descarado. — If you succeed, you stay. (Se você conseguir, você fica.) — If you fail… don’t bother saying goodbye. (Se não conseguir… nem perca tempo se despedindo.) A cozinha inteira ficou muda. Parecia final de campeonato. Ajeitei o véu como uma princesa turca educada… mas o fogo nos meus olhos entregava tudo. — Fifty? Exactly the same? (Cinquenta? Exatamente iguais?) — Easy. (Fácil.) É, minha amiga leitora, dizem que ter o gênio forte é problema e eu acabei de arrumar cinquenta deles. Bell, porque que você não ficou com sua boca fechada? Agora terá que fazer os Manti para esse cretino presunçoso. Será que vou dar conta? O que você me diz?Ahmet apareceu logo depois, correndo, ofegante, segurando minha bolsa como se fosse um artefato sagrado. Yaman tomou a bolsa da mão dele com um simples gesto de autoridade absoluta.Nem sei como ele sabia que minha bolsa havia ficado no restaurante.Olhei para o lado e entendi tudo.Aisha. Com o celular erguido. Transmitindo.— AISHA! — gritei. — DESLIGA ISSO!— É histórico, senhora! — ela chorava e filmava ao mesmo tempo. — O herdeiro da culinária turco-brasileira está chegando!Demir encarou o celular como se estivesse avaliando jogar aquilo pela janela. Segurei o braço dele. — Deixa… depois eu resolvo isso.Fui levada para a sala de parto com uma comitiva digna de chefe de Estado.E então veio o aviso: — Apenas um acompanhante pode entrar.O mundo parou.Samira cruzou os braços. — Eu sou a mãe.Yaman deu um passo à frente. — Eu sou o avô.Aisha fungou alto. — Eu moro com ela.O médico piscou, claramente arrependido de ter feito a pergunta. — Senhor…?— Eu SOU O MARIDO! — Demir resp
E então… veio a surpresa.Naquela semana comecei a sentir uns enjoos estranhos.O cheiro da comida que eu tanto amo virou meu inimigo declarado. Bastava entrar na cozinha que meu estômago se revoltava como se estivesse em greve.Aisha, que agora praticamente morava no restaurante, me observava com atenção excessiva.Ergueu a sobrancelha.— A senhora está pálida. Não está comendo como de costume… e ontem eu vi a senhora comendo goiabada com feijão.— Não, Aisha… acho que não — respondi, mas já pensando que, na hora, a goiabada com feijão tinha parecido absolutamente normal. Agora… nem tanto.Ela cruzou os braços, sentenciando: — Eu vi esse enjoo no rosto da minha irmã, da minha prima e da minha tia.E esse paladar estranho também.Isso é gravidez, minha amiga.Fiquei parada.Imóvel.Uma estátua otomana em choque.A primeira coisa que fiz foi mandar mensagem para Samira:“Mãe… acho que estou grávida.Não conta para o papai.”Demir chegou exatamente nesse momento.Porque, claro, minha vi
Três meses depois, o restaurante já não era apenas um restaurante. Era um evento.Tinha fila na porta, fila na calçada, fila para tirar foto com a fachada… e, claro, fila para ver o casal do momento.Aisha chegava sempre dez minutos antes da nossa chegada.Para fofocar, e nos ver chegar, ela adorava saber que trabalhava para estrelas da internet.No começo me irritei e tentei fazê-la ir direto para o apartamento, mas depois deixei, ela é da família e deixa que se divirta um pouco.— Senhora, a fila está dando volta no quarteirão. Parece Black Friday! Ela anunciava, segurando o celular e transmitindo nossa vida em um canal que ela criou.” Minha participação na novela turca, mais popular de Istambul.”Demir inchava o peito igual pavão no cio turco e eu só tentava manter tudo sob controle.— Eles vieram por causa da nossa culinária exótica. Dizia ele.Joaquim, passando com um saco de farinha gigante, retrucava:— Vieram por causa da fofoca, irmão. Você é famoso porque sentou na mesa com
Quando o restaurante finalmente esvaziou, fui para o escritório em busca de silêncio.Fechei a porta atrás de mim como quem fecha o mundo inteiro.Sentei no sofá, tirei os sapatos e encostei a cabeça no encosto. Respirei.Pouco depois, a porta abriu. Demir entrou.— Está tudo bem? — perguntou, já mais baixo, respeitando o cansaço que devia estar estampado em mim.— Está… — respondi. — Eu só quero um pouco de silêncio.Ele sorriu de lado. Aquele sorriso de quem sabe exatamente com quem está lidando.— Você achou que a minha vida de pavão era fácil? — disse, caminhando pelo escritório. — Agora está vendo que não é.Abri os olhos devagar. Virei o rosto na direção dele, com aquele olhar que mistura ironia e verdade demais.— A sua vida era fácil, sim.Você sorria… e metade do restaurante suspirava.Passava a mão nesse cabelo lindo que você tem… e a outra metade desmaiava.Falava duas frases… e algumas simplesmente caíam no seu colo, como abelhas no mel.Demir soltou uma risada curta, quas
Chegamos de manhã e, à frente do restaurante, aquilo mais parecia um ponto turístico oficial de Istambul.Gente na porta.Fila na calçada.Turistas tirando foto até da lixeira.E o painel luminoso — que com certeza Umut mandou colocar — piscando sem pudor algum:Cozinha Osman & Karaman — culinária turco-brasileiraFicamos parados, dentro do carro, olhando o painel em absoluto descrédito.— Isso é coisa do Umut — Demir disse, ainda encarando as luzes.— Como ele consegue? — murmurei.— Não sei… mas temos que admitir: ele sabe transformar tudo em algo grande.Olhei para a porta do restaurante. A fila era absurda. Repórteres filmavam. Turistas sorriam. Alguém apontava.E então caiu a ficha: íamos ter que descer do carro.Quando perceberam que éramos nós, o tumulto foi imediato.— Chef, tira uma foto comigo!— Chef, faz um coração com a mão!— Chef, olha pra cá!Meu estômago revirou. Aquilo tudo era demais.Sem pensar muito, me afastei. Tentei sair do foco. Nunca gostei de estar em evidên
A noite seguia perigosamente… tranquila.Tranquila demais para um salão cheio de poder, ego e expectativas.Foi quando um dos garçons se aproximou, discreto demais para não ser sinal de problema.— Senhora… os críticos pediram a presença dos senhores à mesa.Meu estômago deu um pequeno salto.Anthony Bourdain fazia suas avaliações ao vivo — eu sabia disso. Já o tinha visto provar meu prato. Vi o brilho breve no olhar, o silêncio respeitoso, o jeito de quem pensa antes de julgar. Ele não disse nada diretamente a Richman. Ainda.Respirei fundo.Demir caminhou comigo até a mesa. Como manda a tradição turca, foi ele quem o cumprimentou primeiro.— Senhor Bourdain. Senhor Richman. — disse, firme. — Espero que o atendimento tenha lhes agradado.— Sim, agradou… — Bourdain começou.Mas não terminou.A porta do restaurante se abriu.E o silêncio caiu como um tapa coletivo.Sula Uglu entrou.Meu corpo enrijeceu antes mesmo do pensamento se formar.— O que ela está fazendo aqui? — sussurrei.— N







