Mag-log in
O cheiro de sangue e suor encharcado misturava-se ao ar denso do porão subterrâneo da mansão Kasley. As luzes fluorescentes piscavam de forma irregular, projetando sombras longas nas paredes de concreto úmido. Jadson Kasley estava sentado numa cadeira de couro preto, pernas cruzadas, terno impecável preto, claro, o cotovelo apoiado no joelho e o queixo descansando nos dedos. Parecia um homem que acabara de sair de uma reunião de conselho, não alguém que estava prestes a decidir se outro ser humano continuaria respirando.
À sua frente ajoelhado e amarrado a uma cadeira de ferro, estava Ricardo “Rico” Mendes, 34 anos, ex-contador de confiança do Anjo Negro. O rosto estava inchado, o lábio inferior partido e uma linha fina de sangue escorria do canto da boca até o queixo. As mãos tremiam tanto que as cordas rangiam — Você… você não precisa fazer isso senhor gaguejou Rico a voz embargada. — Eu… eu posso devolver o dinheiro. Tudo com juros,eu juro por Deus. Jadson ergueu apenas um dedo. O silêncio caiu como uma lâmina. — Deus não trabalha para mim, Rico, falou a voz baixa quase educada. — Eu trabalho sozinho. E você… você decidiu trabalhar contra mim. Rico engoliu em seco. Uma lágrima escapou e escorreu pelo rosto sujo. — Foi… foi só uma vez. O italiano ofereceu um valor absurdo e eu pensei… pensei que o senhor nem notaria. Três milhões só. Ninguém ia sentir falta. Jadson inclinou a cabeça como se estivesse realmente curioso. — Três milhões. Interessante. Sabe o que dá para comprar com três milhões no meu mundo, Rico? Ele fez uma pausa teatral. — Um ministro ou a lealdade de um juiz. Ou, no seu caso… o silêncio de um homem que já não vale nem o preço de uma bala. Rico começou a chorar de verdade agora,soluços feios descontrolados. — Por favor… eu tenho filhos. Minha esposa… ela não sabe de nada. Eu… eu só queria dar uma vida melhor pra eles,eu errei eu admito. Me perdoa senhor,eu faço qualquer coisa. Qualquer coisa. A porta de aço no fundo do porão se abriu com um chiado metálico. Passos leves, quase elegantes, ecoaram pelo concreto. Bruno Voss entrou como se estivesse chegando a uma festa de coquetel. Camisa branca de seda aberta no peito, cabelo loiro perfeitamente bagunçado, aquele sorriso de anjo que fazia mulheres e homens perderem a linha em segundos. Nos braços carregava uma pasta preta e uma garrafa de whisky já aberta. Rico ergueu a cabeça,os olhos se iluminaram de uma esperança desesperada. — Bruno! Soltou quase gritando. — Bruno, por favor… você me conhece. Você sabe que eu sempre fui leal. Fala com ele,fala pro senhor me perdoar. Eu… Bruno parou ao lado de Jadson, olhou para Rico como se estivesse avaliando um prato de comida estragada e depois sorriu. Aquele sorriso doce, quase infantil. — Oi Rico, cumprimentou a voz suave, carinhosa até. — Tá chorando hein? Que fofo. Chora mais um pouquinho,fica bonitinho quando chora. Rico piscou, confuso. — Bruno… você… você vai me ajudar né? A gente sempre se deu bem. Lembra daquela vez em Miami? Você riu das minhas piadas a noite toda. Bruno se agachou na frente dele, ainda sorrindo. Abriu a pasta com calma e tirou de dentro um canivete suíço de cabo de madrepérola. O metal brilhou sob a luz. — Miami foi legal mesmo concordou abrindo a lâmina maior. — Você pagou a conta do bar, eu flertei com as duas loiras da mesa ao lado… clássico. Só tem um probleminha Rico. Ele aproximou o canivete do rosto do homem, a ponta quase tocando a pele inchada. — Naquela noite eu ainda não sabia que você ia tentar roubar o meu irmão. Rico engasgou. —Eu… eu não. Bruno deu uma risadinha leve, quase musical. — Shhh. Não estraga o momento. Olha só pra você… todo mole, todo molhado de lágrimas,parece um filhote de cachorro que mijou no tapete. Ele inclinou a cabeça, o sorriso ainda no rosto. — Sabe o que a gente faz com filhote que mijou no tapete Rico? Jadson ainda sentado, apenas observava. Os olhos escuros não piscaram. Bruno continuou, a voz doce: — A gente ensina com carinho,com paciência e com muito… ele girou o canivete no ar …muito entusiasmo. Rico soluçou de novo, o corpo inteiro tremendo. — Por favor… Bruno… você não é assim. Você tem cara de anjo,todo mundo fala. Você… Bruno soltou uma gargalhada baixa e genuína. — Cara de anjo? Ele se virou para Jadson piscando. — Ouve isso Jads. O homem ainda me acha fofo,que fofura. Depois voltou o olhar para Rico e o sorriso não saiu do rosto, mas os olhos ficaram vazios. — Deixa eu te contar um segredinho Rico. Eu nasci com essa carinha. Deus ou o diabo ou quem quer que seja, me deu esse rostinho de anjo pra facilitar as coisas. Porque quando eu sorrio… as pessoas baixam a guarda e quando a guarda baixa… ele aproximou o canivete da orelha de Rico … fica muito mais fácil cortar. Rico gritou, a voz falhando: — Não! Por favor! Eu devolvo o dinheiro! Eu devolvo tudo! Meus filhos. Bruno suspirou quase teatral. — Seus filhos,sempre os filhos. Todo traidor tem filhos, né? É tipo o cartão de desconto do inferno. Ele olhou de novo para Jadson. — E aí, chefe? A gente manda o Rico embora com uma orelha a menos e uma lição de moral ou a gente transforma ele num exemplo pra próxima reunião de contabilidade? Jadson finalmente falou. A voz saiu baixa, quase um sussurro: — Ele roubou três milhões. Tentou vender informações pro italiano e ainda teve a ousadia de chorar na minha frente. Bruno assobiou impressionado. — Nossa. Ousadia nível expert. Ele se levantou, limpou o canivete na camisa branca sem se importar com a mancha e deu um tapinha leve na cabeça de Rico como se acariciasse um cachorro. — Relaxa Rico. A gente ainda não decidiu se você vai embora andando ou em pedaços. Mas uma coisa eu posso garantir. Ele se inclinou de novo, o sorriso angelical de volta a voz quase um carinho: — Vai doer e eu vou rir. Rico desabou em choro histérico. Bruno se endireitou, abriu a garrafa de whisky e tomou um gole longo, os olhos brilhando de diversão pura. — Então… quem começa? Eu ou você, Anjo Negro? Jadson ergueu o olhar, o canto da boca se curvando num sorriso frio quase imperceptível. — Você. Eu quero ver o rostinho de anjo trabalhar. Bruno deu mais um gole no whisky, o sorriso ainda colado no rosto e se agachou de novo na frente de Rico. O canivete brilhava entre os dedos, girando com uma preguiça quase sensual. — Olha só pra você, murmurou a voz doce. — Todo molinho,todo molhado. Se eu não soubesse que você é um ladrãozinho de merda até acharia fofo. Rico soluçava sem controle, o peito subindo e descendo como se fosse explodir. — Por favor… Bruno… senhor Jadson… eu tenho filhos… eles precisam de mim… eu... Jadson ergueu a mão, interrompendo o choro com um gesto quase elegante. — Para. A palavra saiu baixa, mas cortou o ar como uma faca. Rico engasgou no meio do soluço. Jadson se inclinou um pouco para frente, os olhos escuros fixos no homem ajoelhado. A voz veio fria sem nenhuma pressa: — Você tá me pedindo por favor agora. Tá chorando,tá se arrastando,mas quando você abriu a conta nas Ilhas Cayman,quando transferiu os três milhões,quando mandou as planilhas pro italiano,você não implorou. Não chorou,não pensou duas vezes. Rico abriu a boca, mas Jadson continuou sem deixar espaço: — Você só pensou em si. Em ficar rico,em foder o homem que te deu emprego, casa, proteção. Agora que a conta chegou,agora você vira um cachorro. Patético. Bruno soltou uma risadinha baixa, quase infantil. — Ele é mesmo ném Jads? Olha o jeito que ele treme. Parece gelatina,eu quase sinto pena.Quase. Rico sacudiu a cabeça com força, as lágrimas escorrendo sem parar. — Eu errei… eu errei… mas meus filhos… meus filhos não têm culpa. Bruno ergueu o dedo, o sorriso se alargando. — Ah… sobre os seus filhos… Ele se aproximou ainda mais, o rosto quase colado no de Rico a voz baixinha como quem conta um segredo de travesseiro: — Eles não são seus Rico O silêncio que se seguiu foi tão pesado que até o gotejar de sangue no chão pareceu alto demais. Rico piscou, confuso, a boca aberta. — O-o que? Bruno bateu de leve no ombro dele como se estivesse brincando. — Seus filhos. Os dois meninos,o de oito e o de cinco. Não são seus. Nunca foram. Jadson se recostou na cadeira, cruzando os braços o canto da boca se curvando. — Enquanto você roubava o meu dinheiro completou a voz quase entediada . — A sua mulher estava rebolando no pau do seu irmão. Aquele mesmo. O que você achava que era só “o tio preferido”. Bruno soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça para trás. — O irmão! O cara que jantava na sua casa todo domingo! O mesmo que ajudava a colocar os meninos pra dormir! Ele limpou uma lágrima falsa do canto do olho. — E você aí corno, roubando o Anjo Negro enquanto a esposa te dava chifre em casa.Clássico. Rico ficou branco. A boca se abriu e fechou sem som. Depois o choro voltou mais feio, mais desesperado. — Não… não é verdade… você tá mentindo… você Bruno inclinou a cabeça, o sorriso angelical de volta. — Mentindo? Rico… a gente tem fotos. Vídeos,mensagens. A sua esposa manda áudio pro seu irmão chamando ele de “papai” enquanto ele mete nela e os meninos… os meninos têm o mesmo sangue do tiozinho. Teste de DNA e tudo. A gente é completo ném Jads? Jadson deu de ombros o olhar frio. — Corno. A palavra saiu limpa, sem pressa. — Corno e ladrão. Combinação perfeita. Bruno bateu palmas uma vez animado. — Corno! Repetiu rindo. — Olha só. A gente descobriu o verdadeiro título do Rico. Não é “contador de confiança”. É “corno profissional”. Os dois riram. Bruno ria alto de verdade, o som ecoando no porão. Jadson apenas soltou um sopro pelo nariz, o máximo de diversão que costumava permitir. Rico desabou. O corpo inteiro tremeu. O choro virou grito. — Não… não… meus filhos… minha mulher… Bruno se levantou de uma vez, o sorriso ainda no rosto. Segurou o cabelo de Rico com a mão esquerda e puxou a cabeça para trás, expondo o pescoço. — Shhh… sussurrou quase carinhoso. — Acabou o show corno. O canivete deslizou rápido limpo e preciso. A lâmina cortou a garganta de Rico de um lado a outro. O sangue jorrou quente, espirrando no chão e na camisa branca de Bruno. Rico engasgou, os olhos arregalados, as mãos amarradas se contorcendo inúteis. O som que saiu da garganta foi um gorgolejo úmido desesperado. Bruno soltou o cabelo e deu um passo para trás, observando o corpo se debater por alguns segundos antes de parar. Depois limpou a lâmina na própria calça, ainda sorrindo. — Pronto. Disse, como quem acabou de tirar o lixo. — Um a menos. Jadson se levantou devagar, ajustando o punho da camisa. — Manda limpar isso e avisa o italiano que a próxima tentativa de comprar alguém meu vai custar bem mais caro do que três milhões. Bruno deu um tchauzinho com os dedos para o corpo já imóvel. — Adeus, corno. Depois se virou para Jadson, o sorriso voltando ao normal. — E aí chefe? Whisky? Ou a gente vai caçar o próximo idiota que achou que dava pra te foder? ................................................................................................................................ Bruno ainda limpava o canivete na calça quando dois homens entraram no porão sem fazer barulho. Um carregava um saco plástico preto grosso, o outro um balde e um rodo. Nenhum deles olhou para o corpo. — Levem embora, ordenou Jadson já subindo os degraus de concreto. — E mandem trocar o piso. Esse cheiro de porco morto tá me irritando. Bruno segurou a porta para ele, o sorriso preguiçoso ainda no rosto. — Você tá de mau humor hoje hein? Ou é só o efeito colateral de ver um corno chorando? Jadson não respondeu. Subiram juntos pelo corredor silencioso até o elevador particular. As portas de aço se fecharam com um clique suave. O espelho reflectiu os dois: Jadson impecável sem uma gota de sangue e Bruno com a camisa branca manchada de vermelho escuro. — Você não vai mudar de roupa antes de subir? Perguntou Jadson sem olhar para ele. Bruno olhou para a própria camisa e deu de ombros. — Por quê? A Ana vai reclamar de qualquer jeito. Ela já me odeia quando eu entro com perfume de mulher. Imagina com perfume de traidor. O elevador parou no andar principal. As portas se abriram para o hall de entrada da mansão, mármore branco, lustres de cristal, silêncio absoluto. Do fundo do corredor veio a voz firme: — Jadson Kasley! A Ana apareceu na porta da cozinha, avental azul-claro, cabelo grisalho preso num coque apertado. Os olhos dela passaram primeiro por Jadson, depois pousaram em Bruno. A sobrancelha subiu. — O que você fez com essa camisa menino? Bruno abriu os braços, todo dramático. — Foi o Rico avó. Ele espirrou em mim sem educação nenhuma. A Ana apontou o dedo para ele. — Não me chama de avó quando você chega cheirando a sangue. Vai tomar banho agora e você ela virou-se para Jadson, vem comer. Eu fiz aqueles bolinhos de queijo que você gosta,não quero ouvir desculpa de “não estou com fome”. Jadson soltou um suspiro pelo nariz. — Sim, Aninha. Bruno passou por ela beijando a bochecha da mulher no caminho e sumiu escada acima cantarolando baixo. Jadson sentou-se à mesa da cozinha. A Ana colocou o prato na sua frente e se afastou fingindo não prestar atenção. Ele mastigava em silêncio quando o celular vibrou. A tela mostrou o nome do secretário particular o único autorizado a ligar naquele horário. Jadson atendeu sem pressa. — Fale. A voz do outro lado era respeitosa quase baixa demais — Senhor Kasley, Marcelo Robson acabou de entrar em contato com o escritório. Pediu uma reunião com o senhor pessoalmente no escritório Kasley para amanhã de manhã se possível. Jadson parou de mastigar. Os olhos estreitaram. — Marcelo Robson? — Sim, senhor. Ele foi bem direto,disse que precisa falar com o senhor e que não aceita intermediários Jadson ficou em silêncio por alguns segundos. Marcelo Robson nunca o havia procurado,nunca. Os dois existiam em mundos que se tocavam apenas nas sombras dos negócios, mas o homem sempre manteve distância,nunca pediu favores,nunca marcou reuniões,nunca cruzou aquela linha. — Confirme a reunião, ordenou Jadson a voz baixa. — Amanhã, oito da manhã,no meu escritório,sem assessores,sem segurança dele dentro da sala. — Entendido, senhor. Ele desligou. A Ana do outro lado da cozinha ergueu uma sobrancelha, mas não perguntou nada. Passos leves desceram a escada. Bruno apareceu de camisa preta limpa, cabelo ainda úmido, o sorriso de sempre no rosto. — Pronto. Cheiro de sangue trocado por cheiro de sabonete caro,a Ana vai ficar feliz. Jadson olhou para ele. — Senta. Bruno puxou a cadeira, notando o tom. O sorriso diminuiu um pouco. — O que foi? — Marcelo Robson pediu reunião comigo,amanhã de manhã no escritório. Bruno piscou. — O Marcelo Robson? Aquele que nunca se aproxima de ninguém do nosso lado? — Exatamente. Bruno inclinou-se para frente, os olhos brilhando de interesse. — E você aceitou? — Aceitei. Jadson empurrou o prato para o lado. — Quero que você investigue tudo. Tudo. Empresas, contas, família, funcionários, amantes, inimigos, qualquer merda que ele tenha escondido debaixo do tapete. Quero saber por que um homem que nunca me procurou de repente resolve bater à minha porta. Bruno assentiu, já sério. — Até quando? — Antes de amanhã de manhã,não quero entrar naquela sala sem saber exatamente o que ele está escondendo. Bruno se levantou o sorriso voltando, mas agora mais afiado. — Pode deixar chefe. Antes do sol nascer eu te entrego até o que ele comeu no café da manhã de ontem. Ele já estava saindo da cozinha quando Jadson falou de novo, a voz baixa: — Bruno. — Sim? — Não deixe passar nada. Se tem algo podre eu quero cheirar antes dele abrir a boca. Bruno deu um twisco com os dedos e sumiu pelo corredor. Jadson ficou sozinho à mesa olhando para o celular ainda sobre a madeira. Marcelo Robson,um homem que nunca o procurou e agora queria uma reunião. O Anjo Negro sentiu aquela pontada rara de curiosidade e curiosidade no mundo dele quase sempre significava perigo. ................................................................................................................................ Bruno não dormiu,assim que saiu da cozinha ligou para três números diferentes. O primeiro era um contador que trabalhava nas sombras dos bancos suíços, o segundo uma mulher que tinha acesso a registros hospitalares e cartórios de registro civil. O terceiro, um ex-hacker que agora vivia de vender informações a quem pagasse o suficiente e Jadson sempre pagava. Bruno estava no seu escritório que mantinha no segundo andar da mansão. Três laptops abertos, duas telas extras projetando gráficos e documentos. O whisky que ficou de lado,agora só havia café preto. A primeira coisa que surgiu foi o império Robson. Marcelo controlava uma rede de empresas de logística, energia e construção que se estendia por seis países. Oficialmente, tudo limpo. Não oficialmente, havia contratos com governos que ninguém ousava questionar e uma estrutura societária tão complexa que levaria meses para um auditor comum entender. Bruno levou duas horas. À 1h43 da manhã, o relatório familiar chegou. Zayd Robson, 25 anos,filho único,herdeiro,dono de três empresas próprias que ele construíu com o próprio nome, longe da sombra do pai. Inteligente, determinado, orgulhoso. Namorado de Letícia Braga desde a universidade. Os dois apareciam juntos em eventos sociais, fotos em jantares, viagens. À primeira vista, o casal perfeito. Mas Bruno não olhava à primeira vista,pediu o histórico completo de Letícia. Em menos de uma hora, as rachaduras começaram a aparecer. Contas bancárias que recebiam transferências regulares de uma empresa de fachada ligada a um primo distante dos Robson. Viagens pagas com cartões corporativos que não pertenciam a Zayd. Mensagens interceptadas nada explícito ainda, mas o tom era errado. Demasiado interessada no fluxo de caixa da família. Demasiado próxima de certos tios e primos que segundo os relatórios, já discutiam abertamente a partilha da herança. A família Robson estava podre por dentro. Tios, primos, sobrinhos, todos esperando. Alguns já tinham advogados preparados,outros tinham dívidas que só a morte de Marcelo poderia pagar. Havia gravações de reuniões privadas em que discutiam “cenários de sucessão”. Bruno sorriu ao ler,lobos farejando sangue. Às 4h12, ele encontrou o nome de Viktor, algo naquela foto o chamou atenção. Viktor não era sangue,foi encontrado por Marcelo ainda criança em circunstâncias que os registros oficiais preferiam apagar. Criado como filho. Leal até,braço direito de Zayd nos negócios. Mulherengo, provocador, calculista e extremamente protetor. Bruno anotou o nome com um círculo vermelho. Homens assim eram perigosos ou úteis. Às 5h50, o sol ainda não tinha nascido quando Bruno fechou o último arquivo,ele tinha o suficiente. Empresas,dinheiro,família,namorada suspeita,herdeiros famintos. Um filho orgulhoso que achava que controlava a própria vida e um pai poderoso que, de repente, queria falar com o homem mais perigoso do submundo. Faltava só uma peça. Algo que os documentos ainda não tinham entregue,mas Bruno sabia que ia aparecer. Sempre aparecia. Ele se levantou estalou o pescoço e desceu as escadas. Jadson já estava na sala de jantar, terno preto impecável, tomando café preto sem açúcar. A Ana circulava em silêncio fingindo que não ouvia nada. Bruno jogou a pasta preta sobre a mesa. — Pronto. Jadson ergueu o olhar. — Fala. Bruno puxou a cadeira, sentou-se e abriu a pasta — Marcelo Robson controla um império limpo na superfície e sujo o bastante por baixo para interessar a gente. O filho, Zayd, é o herdeiro. Inteligente, teimoso, namora uma tal de Letícia Braga desde a faculdade. Ela cheira mal Jads. Tem dinheiro entrando de lugares estranhos e uma proximidade demais com os parentes que já estão medindo o caixão do velho. Jadson escutava sem interromper. — A família está se matando por baixo dos panos continuou Bruno. — Tios, primos, todo mundo esperando a herança. Tem até gravação de reunião discutindo “cenários de sucessão”. E tem o Viktor. Não é sangue, mas é o cão de guarda do menino. Leal pra caralho,vai ser problema se a gente encostar em Zayd. Jadson fechou a pasta com calma. — E o motivo da reunião? Bruno deu de ombros, o sorriso voltando. — Ainda não sei. Mas um homem que nunca te procurou do nada pede uma conversa a sós, não é pra falar de clima. Tem algo grande e ele está desesperado o suficiente para bater na porta do Anjo Negro. Jadson bebeu o último gole de café e se levantou. — Então vamos descobrir o que é. Ele ajustou o punho da camisa. — Prepare o carro. Chegamos cedo. O carro preto blindado deslizava pelas ruas ainda escuras da cidade. Jadson olhava pela janela silencioso. Bruno no banco do passageiro mexia no celular pela última vez antes da reunião. Foi então que a última peça caiu. A tela do celular de Bruno iluminou o interior do veículo. Uma mensagem criptografada,depois outra,documentos médicos,laudos,resultados de exames que só alguém muito bem pago conseguiria extrair de hospitais particulares de alto padrão. Bruno leu em silêncio. O sorriso desapareceu aos poucos. — Jads. Jadson virou o rosto. Bruno estendeu o celular. — A última peça. Marcelo Robson está morrendo. O silêncio dentro do carro ficou pesado. Jadson pegou o aparelho e leu, Câncer em estágio avançado. Metástases. Prognóstico de semanas, no máximo poucos meses,tratamentos agressivos que já não faziam efeito. O homem estava se apagando por dentro enquanto ainda tentava manter o império de pé,agora tudo fazia sentido. A reunião repentina,a urgência,o fato de um homem que nunca se aproximou dele de repente pedir uma conversa a sós. Não era negócio,não era aliança. Era desespero. Jadson devolveu o celular sem expressão. — Agora resta ouvir o que ele realmente quer. Bruno assentiu, ainda sério. — Você vai entrar sozinho? — Sim. Bruno ergueu uma sobrancelha. — Sem mim na sala? Sem segurança? Jadson olhou pela janela outra vez. A voz saiu baixa quase pensativa: — Ele está morrendo, Bruno. Não precisa de mais tensão do que já carrega. Quero que fale sem se sentir acuado,se eu levar gente armada para dentro da sala, ele vai travar. Prefiro ouvir a verdade completa mesmo que seja absurda. Bruno ficou em silêncio por alguns segundos. Depois soltou um sopro pelo nariz. — Você tá ficando mole Anjo Negro. — Não. Jadson ajeitou o punho da camisa. — Só estou sendo prático. Homens desesperados mentem menos quando pensam que ainda têm algum controle. O carro parou em frente ao imponente prédio do escritório Kasley. O sol ainda não tinha nascido por completo,as luzes do lobby brilhavam frias através das portas de vidro. Jadson abriu a porta antes que o motorista o fizesse. — Espere no carro ordenou a Bruno. — Se eu não sair em uma hora, entre,se ouvir qualquer barulho estranho entre antes. Bruno sorriu de lado, o brilho perigoso voltando aos olhos. — Pode deixar. Vou ficar aqui torcendo para o velho não tentar nada idiota. Jadson desceu,o vento frio da manhã bateu no rosto,ele ajustou o terno uma última vez e atravessou as portas de vidro com o mesmo passo calmo de sempre. Lá em cima em uma sala privada no último andar, Marcelo Robson já o esperava e o Anjo Negro estava prestes a descobrir exatamente o preço que um pai morrendo estava disposto a pagar. elevador particular subiu em silêncio absoluto. Jadson permaneceu imóvel, mãos nos bolsos do casaco, o olhar fixo nos números que subiam no painel. Quando as portas se abriram no último andar, o corredor estava vazio,apenas um de seus homens de confiança esperava discreto e abriu a porta do seu escritório sem dizer uma palavra. Jadson entrou. A sala era ampla, paredes de vidro do chão ao teto mostrando a cidade ainda adormecida sob a luz pálida da manhã. No centro uma mesa de madeira escura,duas poltronas,nenhuma segurança à vista. Exatamente como ele tinha ordenado. Marcelo Robson estava de pé junto à janela. O homem que Jadson lembrava das fotos e relatórios, alto, imponente, cabelo grisalho bem penteado, olhar afiado agora parecia menor. O terno caro caía um pouco folgado nos ombros. O rosto estava mais magro a pele pálida, as mãos finas. Mas os olhos os olhos ainda tinham a mesma dureza de quem construío um império do zero. Marcelo se virou quando a porta se fechou atrás de Jadson. — Kasley cumprimentou a voz rouca, mas firme. — Obrigado por aceitar a reunião. Jadson não se aproximou imediatamente. Ficou a alguns passos de distância avaliando o homem como se avaliasse uma ameaça. — Robson. A voz dele saiu baixa, controlada. — Você nunca me procurou antes. Então imagino que o motivo seja interessante. Marcelo soltou um sopro curto quase um riso sem humor. l — Direto ao ponto como sempre. Ele caminhou até a mesa e apontou para a poltrona oposta. — Sente-se por favor. Jadson sentou também e cruzou as pernas, apoiou um braço no descanso da poltrona e esperou. O silêncio se esticou por alguns segundos. Marcelo em silêncio olhando a cidade. — Eu estou morrendo disse finalmente sem rodeios. Jadson não reagiu,já sabia,mas deixou o homem falar. Marcelo continuou a voz mais baixa. — Semanas. Talvez dois meses, se eu tiver sorte. O corpo está desistindo mais rápido do que os médicos esperavam e enquanto eu apodreço por dentro os abutres já estão circulando. Ele se virou os olhos cansados, mas ainda afiados. — Minha família,meus irmãos,meus sobrinhos. Todos esperando eu fechar os olhos para dilacerar o que construí e tem a namorada do meu filho. Letícia,ela sorri bem,fala doce,mas eu vejo o que Zayd ainda não vê. Ela não ama meu filho,ama o que ele representa. Jadson permaneceu em silêncio, apenas observando. — Zayd é teimoso,orgulhoso. Acha que controla a própria vida,ama aquela mulher e quer pedi-la em casamento e quando eu morrer ele vai ficar sozinho,desprotegido com lobos de todos os lados. Ele ergueu o olhar e fixou Jadson diretamente. — Eu preciso de alguém que ninguém ouse tocar. Alguém que faça até ministros tremerem,alguém que possa proteger meu filho melhor do que eu jamais consegui nestes últimos meses. Jadson inclinou a cabeça levemente, a curiosidade agora aberta no olhar frio. — E o que exatamente você está me pedindo Robson? Marcelo respirou fundo,o peito subiu e desceu com esforço depois soltou as palavras como se estivesse entregando a própria vida: — Quero que você se case com o meu filho. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Jadson piscou uma vez. Devagar. — Repita. Marcelo não desviou o olhar. — Quero que se case com Zayd,um casamento arranjado,contrato,proteção em troca você terá acesso a tudo o que eu construí. Empresas,contatos,influência e a certeza de que quando eu morrer meu filho não será destruído pelos próprios parentes nem pela mulher que ele ainda acha que ama. Jadson ficou imóvel por longos segundos depois o canto da boca se curvou num sorriso frio, quase imperceptível. — Você está me oferecendo o seu filho como se fosse uma peça de xadrez. — Estou oferecendo a única coisa que ainda importa para mim corrigiu Marcelo a voz firme apesar da fraqueza. — A vida dele. Jadson recostou-se na poltrona, os dedos tamborilando levemente no braço de couro. — E se eu disser não? Marcelo sustentou o olhar. — Então eu morro sabendo que fiz tudo o que pude e Zayd… Zayd vai ter que sobreviver sozinho aos lobos. O Anjo Negro observou o homem à sua frente por mais alguns segundos,um pai morrendo,um filho desprotegido e uma proposta absurda. E pela primeira vez em muito tempo Jadson Kasley não tinha uma resposta imediata. Jadson ficou em silêncio por longos segundos os olhos escuros fixos em Marcelo. O sorriso frio ainda pairava no canto da boca, mas agora havia algo mais atrás dele uma avaliação calculada quase cruel. — Você sabe quem eu sou Robson,falou a voz baixa, controlada. — Sabe que eu nunca me apaixonei,nunca confiei,nunca pretendi me casar. Amor para mim é uma fraqueza que eu enterrei há muito tempo. Ele inclinou a cabeça levemente. — Seu filho vai sofrer e muito. Eu sou controlador,possessivo não perdoo desobediência,não aceito traição e definitivamente não sou o tipo de homem que segura a mão de ninguém à noite. Mesmo assim você quer me entregar o seu filho? Marcelo não desviou o olhar. As mãos ainda apoiadas na mesa tremeram levemente, mas a voz saiu firme. — Prefiro tê-lo protegido mesmo que ele me odeie por isso. Mesmo que sofra porque se eu morrer e deixá-lo sozinho os lobos vão devorá-lo. A namorada,os parentes,os inimigos que eu mesmo criei. Eu prefiro que ele viva odiando o Anjo Negro do que morrer nas mãos de alguém que sorri na cara dele. Jadson observou o homem por mais um tempo,o silêncio se esticou. Do lado de fora a cidade começava a acordar, faróis se acendendo nas ruas lá embaixo e dentro da sala só o som da respiração um pouco ofegante de Marcelo. Por fim, Jadson se recostou na poltrona os dedos ainda tamborilando no couro. — Eu aceito. Marcelo soltou o ar que parecia segurar há minutos,mas Jadson ergueu um dedo interrompendo qualquer alívio precoce. — Porém será do meu jeito. Eu não brinco em serviço Robson. Não faço meio-termo,não aceito condições sentimentais,seu filho vai morar onde eu determinar,vai seguir as regras que eu impor,vai cortar laços com quem eu considerar uma ameaça e sim ele provavelmente vai me odiar,vai me xingar,vai tentar fugir,vai me desafiar. Os olhos de Jadson se estreitaram. — Eu não vou ser gentil. Vou ser eficiente. Se ele aceitar o contrato, estará sob a minha proteção,se tentar quebrar as consequências serão dele. Marcelo assentiu sem hesitar. — Aceito todas as suas condições.Todas,só a voz falhou por um segundo, depois recuperou a firmeza. —Peço que protejam também o Viktor. Ele não é sangue, mas é meu filho tanto quanto Zayd. Cresceu conosco,jurou proteger meu menino com a própria vida,se Zayd estiver sob o seu teto Viktor precisa estar seguro também. Não quero que os parentes usem ele como alvo para chegar no meu filho. Jadson ficou em silêncio por mais alguns segundos, avaliando. — Viktor será incluído na proteção concordou finalmente,mas ele também seguirá as regras sem exceção. Marcelo fechou os olhos por um instante como se um peso enorme tivesse sido tirado dos ombros. Quando os abriu novamente havia alívio e dor misturados. — Obrigado. Jadson se levantou,ajustou o terno com calma. — Não me agradeça ainda Robson. Seu filho ainda não sabe o que o espera. — Ele caminhou até a porta parou e olhou por cima do ombro. — Eu mando o contrato até o final do dia. Você assina e a partir desse momento Zayd Robson deixa de ser só seu filho. Marcelo sustentou o olhar uma última vez. — A partir desse momento ele estará vivo. Jadson saiu da sala sem responder. Do lado de fora, o corredor ainda estava vazio,ele desceu pelo elevador particular, o rosto impassível. Quando as portas se abriram no térreo, Bruno já o esperava ao lado do carro mãos nos bolsos, sobrancelha erguida. — E então? Perguntou notando a expressão do amigo. — O velho queria o quê? Jadson parou na frente dele, o vento frio da manhã mexeu levemente no cabelo preto. — Ele me ofereceu o filho em casamento. Bruno piscou,uma vez,duas depois soltou uma risada baixa incrédula. — Você tá brincando. — Não. Bruno passou a mão pelo rosto ainda rindo, mas agora com um brilho perigoso nos olhos. — E você? Jadson abriu a porta do carro. — Eu aceitei. Bruno ficou parado por um segundo processando,depois entrou no veículo atrás dele o sorriso se alargando de forma lenta e selvagem. — Isso vai ser interessante. Jadson olhou pela janela enquanto o carro arrancava. — Vai ser uma guerra, corrigiu a voz baixa. — E o campo de batalha vai se chamar Zayd Robson. O carro ainda nem tinha saído completamente da frente do prédio quando Bruno se virou no banco, os olhos arregalados. — Você ACEITOU MESMO? A voz dele saiu alta demais para o interior blindado. O motorista no banco da frente fingiu ser surdo. Bruno passou a mão pelo cabelo incrédulo e depois apontou o dedo para Jadson. — Isso é uma maluquice Jads! Uma puta maluquice! Você acabou de aceitar se casar com o filho de um homem que está morrendo? Um menino de vinte e cinco anos que nem sabe que o pai está te vendendo como se fosse um cavalo de raça?! Você tá fora de si! Jadson permaneceu olhando pela janela, o perfil calmo quase entediado. Bruno não parou. — Eu te conheço. Eu te conheço desde que a gente era moleque roubando doce da Aninha eu sei quando você tá aprontando,aquele sorrisinho de agora há pouco eu conheço esse sorriso. É o mesmo que você faz quando está prestes a destruir alguém só por diversão,você não aceitou por pena,você aceitou porque viu uma oportunidade ou pior porque ficou curioso. Jadson finalmente virou o rosto. O canto da boca se curvou num sorriso frio, exatamente o sorriso que Bruno tinha acabado de acusar. — Você fala demais. — E você tá ficando louco rebateu Bruno ainda exaltado. — Casamento? Você? O homem que jurou nunca se prender a ninguém? O Anjo Negro vai ter um marido? Isso é piada de mal gosto Jads! Jadson soltou um sopro pelo nariz, quase um riso. — Não é piada, é contrato,proteção. Acesso a um império que o velho está desesperado para não deixar cair nas mãos dos parentes e um herdeiro teimoso que vai odiar cada segundo ao meu lado. Ele inclinou a cabeça. — Interessante não? Bruno passou as duas mãos pelo rosto soltando um gemido frustrado. — Interessante? Interessante é uma mulher nova na minha cama,isso aqui isso aqui é você brincando com fogo de um jeito que eu nunca vi. Jadson ajeitou o punho da camisa já decidido. — Enquanto isso, quero que você investigue a Letícia Braga a fundo,contas,mensagens,amantes. Qualquer merda que ela esteja escondendo. Os olhos escuros brilharam com frieza calculada. — Quero ver com quem o meu futuro maridinho está se relacionando,se ela realmente ama o menino ou se só ama o sobrenome Robson. Bruno piscou ainda processando e depois soltou uma risada baixa descrente. — “Meu futuro maridinho”. Ele balançou a cabeça. — Você já está falando como se tivesse comprado o menino no leilão. — Eu comprei,respondeu Jadson simples. — E pretendo receber exatamente o que paguei. Bruno recostou-se no banco ainda agitido, mas o sorriso perigoso já voltava aos poucos. — Tá. Eu investigo a garota,mas quando esse Zayd descobrir que o pai o vendeu pro demônio eu quero estar na primeira fila pra ver a cara dele. Jadson olhou novamente pela janela,a cidade passava rápida do lado de fora. — Você vai estar. A voz saiu baixa, quase um sussurro. — Porque a partir de agora a diversão só está começando.Jadson desceu as escadas da mansão Kasley impecável. Terno preto, camisa aberta no primeiro botão, cabelo solto sobre os ombros. As mãos nos bolsos e cantarolando baixo quase sem melodia, mas o suficiente para qualquer um que o conhecesse sentir o perigo no ar. Bruno já estava na sala de jantar, sentado tomando café preto quando viu o sorriso no rosto do amigo, ergueu uma sobrancelha e largou a xícara. — Esse sorriso…murmurou. Esse sorriso é de quem fez merda. Jadson puxou a cadeira em frente e se sentou com a elegância de sempre. Pegou a xícara que a Ana já tinha deixado pronta. — O Marcelo ligou,disse que o filho está puto da vida e que vai nos investigar. Bruno ficou dois segundos em silêncio,depois explodiu numa gargalhada alta genuína jogando a cabeça para trás. — Eu sabia! Eu sabia que o menino não ia engolir calado. Três meses de trabalho apagados em algumas horas, o orgulho dele deve estar sangrando. Jadson bebeu um gole de café, o sorriso ainda no rosto.
Viktor entrou no escritório de Zayd como se tivesse acabado de engolir veneno. A porta bateu com força. O terno amassado, a gravata torta, o cabelo bagunçado. O rosto estava vermelho de pura raiva contida. Zayd ergueu os olhos do monitor e imediatamente sentiu o estômago gelar. Conhecia demais aquela expressão. — Viktor o que está acontecendo? Viktor jogou a pasta preta sobre a mesa,os papéis se espalharam como uma sentença. — Acabou. A rede de hospitais,alguém comprou. Zayd se levantou devagar, a voz já baixa e perigosa. — Quem? — Jadson Kasley. O nome ecoou no escritório como um tiro. Zayd ficou em silêncio por dois segundos depois a raiva veio quente e violenta, subindo pelo peito até a garganta. — Aquele filho da puta… Viktor passou a mão pelo rosto, ainda mais irritado. — Eu investiguei Zayd. Fui atrás de tudo,aquele homem não precisava daquela rede. Ele já tem hospitais, clínicas, laboratórios. É conhecido por ter de tudo, ele comprou só porque quis,só
Bruno entrou no escritório de Jadson como uma tempestade controlada. A porta do último andar do Império Kasley bateu com força contra a parede de madeira escura, o som ecoando pelo espaço amplo e silencioso. O carpete grosso abafou os passos seguintes, mas a energia que ele trazia era impossível de ignorar. Camisa preta arregaçada nos antebraços, gravata frouxa, cabelo um pouco bagunçado de tanto passar a mão sinal claro de que a investigação tinha sido pessoal. Jadson estava sentado atrás da mesa imensa, as luzes da cidade entrando pelas janelas do chão ao teto atrás dele. O monitor à frente mostrava relatórios financeiros, mas ele ergueu o olhar no mesmo instante em que Bruno cruzou a porta,não precisou de cumprimentos. — Você tem cara de quem encontrou algo podre disse Jadson a voz baixa quase preguiçosa. Bruno não respondeu de imediato,caminhou até a mesa e jogou a pasta preta fina sobre a madeira com um estrondo seco. O impacto fez o copo de whisky de Jadson tremer l
Zayd Robson acordou com o sol filtrando pelas cortinas pesadas do apartamento,o quarto ainda cheirava a perfume dela e a sexo da noite anterior. Letícia estava enroscada nele a cabeça apoiada no peito, uma perna jogada sobre a coxa dele, o cabelo bagunçado espalhado pela pele. Zayd ficou alguns segundos só observando,o jeito que ela respirava devagar,o lábio inferior um pouco inchado de tanto beijar,a mão dela ainda descansava sobre o peito dele como se, mesmo dormindo não quisesse soltar. Ele sorriu de canto e puxou-a um pouco mais para perto. O apartamento no último andar do edifício mais alto da avenida era o refúgio dos dois, dele e de Viktor. Tinham escolhido morar ali porque ficava a poucos minutos do escritório, dos restaurantes, da vida. A única condição que Marcelo impôs era clara,pelo menos uma vez por semana os dois voltavam para a mansão Robson. Almoço de domingo,jantar no meio da semana,nada negociável. Letícia se mexeu murmurando contra o peito dele. — Hmm… b
O cheiro de sangue e suor encharcado misturava-se ao ar denso do porão subterrâneo da mansão Kasley. As luzes fluorescentes piscavam de forma irregular, projetando sombras longas nas paredes de concreto úmido. Jadson Kasley estava sentado numa cadeira de couro preto, pernas cruzadas, terno impecável preto, claro, o cotovelo apoiado no joelho e o queixo descansando nos dedos. Parecia um homem que acabara de sair de uma reunião de conselho, não alguém que estava prestes a decidir se outro ser humano continuaria respirando. À sua frente ajoelhado e amarrado a uma cadeira de ferro, estava Ricardo “Rico” Mendes, 34 anos, ex-contador de confiança do Anjo Negro. O rosto estava inchado, o lábio inferior partido e uma linha fina de sangue escorria do canto da boca até o queixo. As mãos tremiam tanto que as cordas rangiam — Você… você não precisa fazer isso senhor gaguejou Rico a voz embargada. — Eu… eu posso devolver o dinheiro. Tudo com juros,eu juro por Deus. Jadson ergueu apenas um